{"id":60980,"date":"2018-04-02T18:47:45","date_gmt":"2018-04-02T21:47:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=60980"},"modified":"2018-04-02T18:47:45","modified_gmt":"2018-04-02T21:47:45","slug":"a-agua-e-os-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-agua-e-os-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"A \u00e1gua e os agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Richard Pearshouse e Jo\u00e3o Guilherme Bieber*<\/span><br \/>\nNo m\u00eas passado, visitamos uma pequena comunidade rural no norte do\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/brasil\/a\">Brasil<\/a>\u00a0para ver como os\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/pesticidas\/a\">agrot\u00f3xicos<\/a>\u00a0afetam as pessoas no campo.<br \/>\nO Brasil, uma pot\u00eancia em\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/agricultura\/a\">agricultura<\/a>industrial, \u00e9\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/27\/politica\/1509115739_770097.html\">um dos maiores consumidores de agrot\u00f3xicos no mundo<\/a>. Culturas como a de soja, de milho, de algod\u00e3o e de cana-de-a\u00e7\u00facar s\u00e3o cultivadas com enormes quantidades de agrot\u00f3xicos: cerca de 400 mil toneladas por ano.<br \/>\nDos 10 agrot\u00f3xicos mais utilizados no Brasil, 4 s\u00e3o proibidos na Europa, indicando qu\u00e3o prejudiciais s\u00e3o considerados para alguns padr\u00f5es.<br \/>\nMoradores que conhecemos temem os danos que podem decorrer dos agrot\u00f3xicos e a retalia\u00e7\u00e3o que podem sofrer caso denunciem essa situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPediram-nos inclusive para n\u00e3o publicar o nome da comunidade \u2013 disseram que um fazendeiro, dono da planta\u00e7\u00e3o nas redondezas, havia amea\u00e7ado um membro da comunidade por organizar um abaixo-assinado pela redu\u00e7\u00e3o da pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos.<br \/>\nA planta\u00e7\u00e3o do fazendeiro alcan\u00e7a casas, seus pequenos jardins e um pequeno campo de futebol; e a \u00e1rea termina a apenas cinco metros do po\u00e7o utilizado pela comunidade para obter\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/agua\/a\">\u00e1gua<\/a>\u00a0pot\u00e1vel.<br \/>\nO respons\u00e1vel por manter o po\u00e7o nos contou que estava preocupado com a possibilidade de que os agrot\u00f3xicos pulverizados nas planta\u00e7\u00f5es de soja afetem o abastecimento de \u00e1gua da comunidade.<br \/>\nEle n\u00e3o sabe se sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundada, porque o governo n\u00e3o fez testes com a \u00e1gua desde que o po\u00e7o foi instalado h\u00e1 tr\u00eas anos.<br \/>\n\u201cEstamos preocupados com a pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, mas tamb\u00e9m nos preocupamos com as amea\u00e7as, por isso n\u00e3o queremos falar muito sobre isso\u201d, ele disse com um riso sem jeito. \u201cIsso \u00e9 o que enfrentamos aqui&#8221;.<br \/>\n\u00c1gua pot\u00e1vel segura \u00e9 um direito humano, incluindo o direito das pessoas saberem o que tem na \u00e1gua que est\u00e3o bebendo. Sabemos que os res\u00edduos de agrot\u00f3xicos podem escoar com a \u00e1gua da chuva pela superf\u00edcie e atingir aqu\u00edferos que s\u00e3o muitas vezes fonte de \u00e1gua pot\u00e1vel.<br \/>\nAlguns\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/www.epa.gov\/ground-water-and-drinking-water\">pa\u00edses<\/a>\u00a0testam regularmente o abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel para verificar a presen\u00e7a de agrot\u00f3xicos e disponibilizam os resultados para a popula\u00e7\u00e3o. No Brasil, na pr\u00e1tica, isso n\u00e3o ocorre. Fizemos um pedido com base na lei de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o para obter os resultados dos testes nacionais de res\u00edduos de agrot\u00f3xicos na \u00e1gua pot\u00e1vel realizados entre 2014 a 2017. Descobrimos que, apesar das obriga\u00e7\u00f5es legais, sistemas de abastecimento de \u00e1gua raramente s\u00e3o testados.<br \/>\nPor lei, os fornecedores de \u00e1gua \u2013 sejam eles empresas estatais, privadas ou governos municipais \u2013 s\u00e3o respons\u00e1veis por testar 27 agrot\u00f3xicos espec\u00edficos, a cada seis meses, nos sistemas de \u00e1gua que gerenciam e devem relatar esses resultados ao\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/governo_federal_brasil\/a\">governo feder<\/a><a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/governo_federal_brasil\/a\">a<\/a>l. Mas, a cada ano, uma m\u00e9dia de 67% dos munic\u00edpios em todo o pa\u00eds n\u00e3o envia nenhuma informa\u00e7\u00e3o ao governo federal \u2013 e isso em um pa\u00eds que \u00e9 um dos maiores consumidores de agrot\u00f3xicos do mundo. O governo federal n\u00e3o tem ideia de qu\u00e3o contaminada pode estar a \u00e1gua pot\u00e1vel no Brasil, ou mesmo sobre os males que pode estar causando a sua popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMesmo nos munic\u00edpios que enviam as informa\u00e7\u00f5es, a maioria dos testes est\u00e1 incompleta. Dos resultados apresentados em 2014, apenas 18% refletiam testes completos, realizados duas vezes por ano para detectar todos os 27 agrot\u00f3xicos, conforme exigido por lei.<br \/>\nSimplificando: o sistema brasileiro de monitoramento de \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 vergonhosamente inadequado para detectar a amea\u00e7a de perigosos agrot\u00f3xicos.<br \/>\nMesmo com este sistema mal estruturado, as autoridades brasileiras conseguem identificar alguns munic\u00edpios onde a \u00e1gua pot\u00e1vel cont\u00e9m res\u00edduos de agrot\u00f3xicos acima dos limites legais. Na verdade, 15% do pequeno n\u00famero de munic\u00edpios que apresentaram os resultados dos testes durante este per\u00edodo de quatro anos encontraram pelo menos uma subst\u00e2ncia acima do limite legal.<br \/>\nQue tipo de subst\u00e2ncias s\u00e3o encontradas? Os agrot\u00f3xicos mais comuns n\u00e3o t\u00eam nomes muito conhecidos \u2013 aldrin, dieldrina, clordano e endrina \u2013, mas todos s\u00e3o danosos \u00e0 sa\u00fade humana. Essa vasta gama de inseticidas foi banida no Brasil na d\u00e9cada de 1990, mas s\u00e3o t\u00e3o persistentes que aparecem na \u00e1gua pot\u00e1vel mesmo depois de d\u00e9cadas.<br \/>\nQuem se preocupa com o que est\u00e1 na \u00e1gua conta com poucas op\u00e7\u00f5es. Sem um sistema de teste abrangente, a melhor informa\u00e7\u00e3o vem de estudos acad\u00eamicos. Em 2016, pesquisadores publicaram o primeiro\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0048969716316643\">levantamento nacional brasileiro de contaminantes emergentes<\/a>\u00a0na \u00e1gua pot\u00e1vel. Depois de cafe\u00edna \u2013 subst\u00e2ncia que indica a exist\u00eancia de esgoto n\u00e3o tratado \u2013, o segundo contaminante mais comumente encontrado na \u00e1gua foi o herbicida atrazina, presente em 75% das amostras de todo o pa\u00eds.<br \/>\nA atrazina \u00e9 legalmente permitida no Brasil. Seus n\u00edveis residuais na \u00e1gua estavam bem abaixo do limite legal, mas\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0005186\">estudos recentes em animais<\/a>\u00a0mostram que, mesmo em baixas doses durante longos per\u00edodos, a atrazina pode ser um disruptor end\u00f3crino, interferindo nas fun\u00e7\u00f5es reprodutiva, neural e de imunidade.<br \/>\nPesquisadores detectaram a atrazina acima do limite permitido na \u00e1gua pot\u00e1vel em dois munic\u00edpios rurais no estado de Mato Grosso \u2013 Lucas do Rio Verde e Campo Verde. E o carbofurano, outro componente qu\u00edmico perigoso para a sa\u00fade humana,\u00a0<a style=\"font-style: inherit;font-weight: inherit\" href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0103-50532010000400009&amp;script=sci_arttext\">foi encontrado<\/a>\u00a0acima dos n\u00edveis permitidos em amostras de po\u00e7os de \u00e1gua em Quit\u00e9ria, uma \u00e1rea rural perto de Rio Grande, uma cidade no sul do pa\u00eds.<br \/>\nO que tudo isso significa? O Brasil usa grandes quantidades de agrot\u00f3xicos que comprometem o meio ambiente de seus cidad\u00e3os, e as autoridades t\u00eam fracassado em garantir que o abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel n\u00e3o esteja contaminado com n\u00edveis prejudiciais desses agrot\u00f3xicos. E isso \u00e9 perigoso. O Brasil precisa adotar um sistema de monitoramento eficaz de \u00e1gua pot\u00e1vel para garantir que seu abastecimento seja devidamente testado contra agrot\u00f3xicos e que os resultados sejam disponibilizados ao p\u00fablico.<br \/>\n<em>*<strong>Richard Pearshouse<\/strong>\u00a0(foto) \u00e9 diretor-adjunto para a divis\u00e3o de meio ambiente e direitos humanos da Human Rights Watch. <strong>Jo\u00e3o Guilherme Bieber<\/strong> \u00e9 consultor da Human Rights Watch.<\/em><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Richard Pearshouse e Jo\u00e3o Guilherme Bieber* No m\u00eas passado, visitamos uma pequena comunidade rural no norte do\u00a0Brasil\u00a0para ver como os\u00a0agrot\u00f3xicos\u00a0afetam as pessoas no campo. O Brasil, uma pot\u00eancia em\u00a0agriculturaindustrial, \u00e9\u00a0um dos maiores consumidores de agrot\u00f3xicos no mundo. 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