{"id":61337,"date":"2018-04-10T21:36:01","date_gmt":"2018-04-11T00:36:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=61337"},"modified":"2018-04-10T21:36:01","modified_gmt":"2018-04-11T00:36:01","slug":"temos-que-descobrir-a-alegria-de-fazer-do-nosso-jeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/temos-que-descobrir-a-alegria-de-fazer-do-nosso-jeito\/","title":{"rendered":"&quot;Temos que descobrir a alegria de fazer do nosso jeito\u201d"},"content":{"rendered":"<p>A voz baixa, quase sem \u00eanfases, n\u00e3o impediu que o m\u00e9dico Jos\u00e9 Camargo encantasse a plat\u00e9ia que compareceu ao Menu, o almo\u00e7o quinzenal da\u00a0 Associa\u00e7\u00e3o Comercial de Porto Alegre.<br \/>\nDesbravador da era dos transplantes (fez o primeiro transplante de pulm\u00e3o do Brasil em 1989), Camargo tornou-se um &#8220;especialista em gente&#8221; e hoje diz que o afeto \u00e9 t\u00e3o ou mais importante que a t\u00e9cnica na rela\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico com seu paciente.<br \/>\nMas a atitude generosa de afeto com o outro s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando apessoa n\u00e3o &#8220;est\u00e1 azeda&#8221;.<br \/>\n&#8220;A pessoa azeda \u00e9 aquela frustrada por ser obrigada a fazer algo que n\u00e3o gosta. A falta de prazer gera ressentimento. Ela cumpre sua tarefa burocr\u00e1ticamente. O infeliz \u00e9 o maior cumpridor da burocracia&#8221;.<br \/>\nSegundo ele, quase sempre por tr\u00e1s de uma pessoa azeda h\u00e1 uma m\u00e1 escolha profissional. E esse \u00e9 um problema s\u00e9rio, uma vez que &#8220;fazemos essas escolhas quando n\u00e3o sabemos nada&#8221;.<br \/>\nNo seu caso, ele diz que foi loteria. De uma familia de estancieiros de Vacaria, n\u00e3o havia um m\u00e9dico entre os parentes, mas ele por volta dos dez anos decidiu que seria o &#8220;dr. C\u00e1ssio&#8221;, o m\u00e9dico da familia.<br \/>\nDurante hora e meia o dr. Camargo desfilou hist\u00f3rias de personagens que passaram pelo seu cotidiano e, principalmente, seu consult\u00f3rio e que lhe ensinaram tanto quanto os professores que o formaram cirurgi\u00e3o.<br \/>\nEle n\u00e3o tem d\u00favida: o profissional de ci\u00eancias humanas tem que gostar de gente. \u201cSe n\u00e3o gosta, saia da \u00e1rea de humanas, pois n\u00e3o tem como aprender a gostar de gente.\u201d<br \/>\n\u00c9 muito comum, conforme ele, o m\u00e9dico chegar ao lado da cama e n\u00e3o saber o nome do paciente e este n\u00e3o lembra o nome do profissional.\u00a0 Lembrou a li\u00e7\u00e3o que um menino deu num m\u00e9dico. O menino ia fazer uma ecografia abdominal. O m\u00e9dico entrou na sala e come\u00e7ou a manusear o equipamento na sua barriga sem falar nada, quando o menino disse: Oi, meu nome \u00e9 Artur&#8221;.<br \/>\n\u201cA gratid\u00e3o se dilui no tempo, mas a desconsidera\u00e7\u00e3o \u00e9 lembrada por toda a vida. Ignorar o sofrimento \u00e9 uma grande humilha\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nNo final da palestra, Camargo contou um epis\u00f3dio que ele assistiu em v\u00eddeo:<br \/>\nUm rep\u00f3rter jovem perguntou ao m\u00fasico canadense j\u00e1 falecido Leonard Cohen como ele tinha composto seu maior sucesso Hallelujah.<br \/>\nEle respondeu:&#8221;S\u00f3 lembro que eu estava muito feliz&#8221;. Camargo entende que s\u00f3 neste est\u00e1gio podemos fazer coisas boas. \u201cTemos obriga\u00e7\u00e3o de descobrir a alegria de fazer do nosso jeito. S\u00f3 assim iremos construir nossas catedrais.\u201d<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A voz baixa, quase sem \u00eanfases, n\u00e3o impediu que o m\u00e9dico Jos\u00e9 Camargo encantasse a plat\u00e9ia que compareceu ao Menu, o almo\u00e7o quinzenal da\u00a0 Associa\u00e7\u00e3o Comercial de Porto Alegre. 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