{"id":61733,"date":"2018-04-25T10:24:24","date_gmt":"2018-04-25T13:24:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=61733"},"modified":"2018-04-25T10:24:24","modified_gmt":"2018-04-25T13:24:24","slug":"ha-54-anos-a-mais-longeva-ditadura-de-nossa-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/ha-54-anos-a-mais-longeva-ditadura-de-nossa-historia\/","title":{"rendered":"H\u00e1 54 anos\u2026 A mais longeva ditadura de nossa hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"m_-4136392732003160440title\"><\/h1>\n<p>O clima de hoje lembra o vivido nas v\u00e9speras do golpe de 1964, que dividiu o pa\u00eds e abriu espa\u00e7o para a viol\u00eancia. Antes da ruptura, a conflagra\u00e7\u00e3o<br \/>\nCompletaram-se, no \u00faltimo 1\u00ba de abril,\u00a054 anos da implanta\u00e7\u00e3o da mais longeva ditadura de nossa hist\u00f3ria, com todo o seu acervo de trag\u00e9dias sociais e individuais, e profundo atraso pol\u00edtico. Suas consequ\u00eancias ainda se fazem sentir, pois est\u00e3o na raiz dos dramas de nossos dias, cujo desfecho\u00a0 n\u00e3o podemos divisar: em alguns momentos a \u2018luz no fim do t\u00fanel\u2019 nos enche de esperan\u00e7as; noutros sugere um trem na contram\u00e3o.<br \/>\nLamentavelmente, os\u00a0regimes autorit\u00e1rios\u00a0e as ditaduras n\u00e3o s\u00e3o fen\u00f4menos estranhos \u00e0 Rep\u00fablica, marcada por insurrei\u00e7\u00f5es militares e golpes de Estado, manifesta\u00e7\u00f5es exacerbadas de um\u00a0 autoritarismo larvar cujas fontes remontam \u00e0 Col\u00f4nia e ao escravismo de s\u00e9culos, construtor da ideologia da casa-grande, profundamente presente em nossa vida pol\u00edtica e em nossa vida social, e mesmo nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<br \/>\nA pr\u00f3pria Rep\u00fablica \u00e9 obra de um golpe de Estado constru\u00eddo na caserna, e sua consolida\u00e7\u00e3o fez-se dependente de outro golpe, sustentado pela espada\u00a0 de Floriano Peixoto. Assim se firmou a\u00a0Rep\u00fablica olig\u00e1rquico-agr\u00e1ria,\u00a0sem povo e sem eleitores, que sobreviveria at\u00e9 a \u2018revolu\u00e7\u00e3o de 1930\u2019. Antes, por\u00e9m, viveria o pa\u00eds a insurrei\u00e7\u00e3o de 1922 (Levante do Forte de Copacabana), e os dois 5 de julho que desembocariam na Coluna Prestes (1924).<br \/>\nE, na sequ\u00eancia de 1930, o levante paulista de 1932, o levante comunista de 1935, a implanta\u00e7\u00e3o da ditadura do \u2018Estado Novo\u2019, o\u00a0<i>putsch\u00a0<\/i>integralista de 1938 e, fechando o ciclo, o golpe que detonou a ditadura e levou Vargas para seu ex\u00edlio na est\u00e2ncia Santos Reis em 1945.<br \/>\n\u00c9 a hist\u00f3ria do \u2018tenentismo\u2019 que se estende at\u00e9 o regime de 1964, quando seus l\u00edderes j\u00e1 eram generais, almirantes e brigadeiros.\u00a0 No seu curr\u00edculo constam ainda a deposi\u00e7\u00e3o e suic\u00eddio de Vargas em 1954, o golpe e contragolpe de 1955, a crise de 1961 e a implanta\u00e7\u00e3o casu\u00edstica do Parlamentarismo, de vida breve. A hist\u00f3ria da Rep\u00fablica tem sido a hist\u00f3ria da preemin\u00eancia dos militares sobre a pol\u00edtica e a vida institucional.<br \/>\nO clima de hoje muito lembra aqueles vividos nas v\u00e9speras do golpe de 1964, dividindo o pa\u00eds e abrindo espa\u00e7o para a viol\u00eancia. \u00c9 sempre assim. Antes da ruptura propriamente dita, a conflagra\u00e7\u00e3o. Os\u00a0 conflitos exacerbados em 1963 foram a prepara\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da ditadura militar.<br \/>\nOs anos dif\u00edceis que se instalam com as jornadas de 2013, de que se apropriou a direita com seu aparato midi\u00e1tico, abrem as rotas que levariam ao golpe de 2016 e \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o do regime de exce\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que n\u00e3o sabemos se ser\u00e1 declarado perempto com as elei\u00e7\u00f5es de 2018. O precedente hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 animador.<br \/>\nEsse vi\u00e9s autorit\u00e1rio, cultivado pela casa-grande desde a Col\u00f4nia, \u00e9 servido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o pelos aparelhos ideol\u00f3gicos do Estado a servi\u00e7o dos interesses de nossas elites perversas. Nesta\u00a0 faina destaca-se o papel dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, a quem se pode tributar, hoje, a maior responsabilidade pelo clima de viol\u00eancia que pervade a pol\u00edtica.<br \/>\nEm 1964 os militares e seus associados \u2013 na pol\u00edtica e no \u2018mercado\u2019\u2013 encerraram o ciclo da Constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de 1946, enquanto a consolida\u00e7\u00e3o do impeachment de 2016 declarou perempto o ciclo iniciado com a \u2018Constitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3\u2019 de Ulisses Guimar\u00e3es, que culminara com a ascens\u00e3o e queda do lulismo.<br \/>\nTalvez sejam os dias correntes a boa oportunidade para tentarmos antecipar o que podem ser os tempos vindouros. As li\u00e7\u00f5es colhidas dos fatos que n\u00e3o se repetem podem orientar estrat\u00e9gias e corrigir t\u00e1ticas, principalmente quando o distanciamento hist\u00f3rico favorece a an\u00e1lise fria.<br \/>\nNaqueles anos hoje distantes, os anos do pr\u00e9-golpe e do golpe de 1\u00ba de abril,\u00a0 poucos viram para al\u00e9m da superf\u00edcie, e assim muitos ignoraram a conspira\u00e7\u00e3o que se desenvolvia nos subterr\u00e2neos da caserna em\u00a0 interlocu\u00e7\u00e3o com a ordem econ\u00f4mica, o Congresso e os meios de comunica\u00e7\u00e3o,\u00a0 para logo estampar-se \u00e0 luz do dia.<br \/>\nDe outra parte, uma vez mais, a continuidade e seguran\u00e7a do governo popular se havia deslocado das ruas para os acordos pol\u00edticos de c\u00fapula. O povo continuava percebido como\u00a0 elemento t\u00e1tico numa estrat\u00e9gia que se resolveria fora das ruas.<br \/>\nN\u00e3o obstante os elementos fornecidos pela realidade palp\u00e1vel, n\u00e3o eram poucos, ent\u00e3o, os que transferiam da mobiliza\u00e7\u00e3o popular\u00a0 para o \u2018dispositivo militar do general Assis Brasil\u2019,\u00a0 chefe da Casa Militar de Jango, a defesa do governo, das \u2018reformas de base\u2019 e da ascens\u00e3o das massas.<br \/>\nNesta linha pontificava o antigo capit\u00e3o\u00a0Luiz Carlos Prestes, secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Brasileiro.<br \/>\nNo dia 17 de mar\u00e7o de 1964, para uma plateia que lotava o audit\u00f3rio da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), o antigo Cavaleiro da Esperan\u00e7a, ap\u00f3s dissertar sobre \u2018a forma\u00e7\u00e3o popular do Ex\u00e9rcito brasileiro\u2019, anunciou, com o respaldo de sua biografia, a impossibilidade de um golpe militar no Brasil. E quando este se efetivou, muitos o viram como \u2018apenas mais uma quartelada\u2019, como as outras\u00a0 que haviam pontuado a Rep\u00fablica de 46. Passaria logo.<br \/>\nA hist\u00f3ria que se segue \u00e9 conhecida.<br \/>\nDo golpe de 1964 muito se pode afirmar, menos a surpresa, defendido que foi abertamente\u00a0 pela grande imprensa, preparando sua recep\u00e7\u00e3o e animando as manifesta\u00e7\u00f5es dos advers\u00e1rios do governo e de suas teses.<br \/>\nO pretenso combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o de 2013-2016 era, em 1963-1964, a den\u00fancia de suposta\u00a0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00a0de infiltra\u00e7\u00e3o comunista no governo\u00a0Jo\u00e3o Goulart, dando conta das conspira\u00e7\u00f5es de toda ordem, militares e civis igualmente conjurados, e, hoje documentalmente comprovada, a arquitetura do Departamento de Estado dos EUA, para quem Goulart, se n\u00e3o era comunista, estava a servi\u00e7o do comunismo, o que dava no mesmo, segundo Washington. Viv\u00edamos o auge da\u00a0Guerra Fria\u00a0e poucos meses nos separavam da crise dos m\u00edsseis estocados em Cuba pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, incidente que por muito pouco n\u00e3o nos levou ao suic\u00eddio nuclear.<br \/>\nA conspira\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, j\u00e1 se iniciara e era vis\u00edvel\u00a0 desde a posse de Goulart,\u00a0 como em suas mem\u00f3rias registra sem peias o Marechal Denis, l\u00edder da trinca militar que em agosto de 1961 tentara impedir a posse do vice-presidente constitucional, chamado ao posto pela ren\u00fancia do presidente J\u00e2nio Quadros.<br \/>\nHoje tamb\u00e9m j\u00e1 se sabe que a articula\u00e7\u00e3o que culminou com a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff j\u00e1 era maquinada nos idos de 2013, a onda preparadora do levante de 2015, com sua in\u00e9dita carga de viol\u00eancia, deixando\u00a0 para tr\u00e1s os piores momentos de 1963.<br \/>\nNas duas oportunidades os golpes foram precedidos de grandes mobiliza\u00e7\u00f5es populares e, ainda em ambos, o\u00a0<i>leitmotiv\u00a0<\/i>unificador da conspira\u00e7\u00e3o era, fundamentalmente,\u00a0 a resist\u00eancia da casa-grande \u00e0 ascens\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica das grandes massas, naquela altura representada pelo varguismo, em nossos dias pelo lulismo.<br \/>\nOs \u00a0golpes de 1964 e de 2016 guardam parentesco que precisa ser posto de manifesto. Ambos foram precedidos de mobiliza\u00e7\u00f5es populares \u00a0carregadas de atos de viol\u00eancia que expunham a genealogia fascista. Em 1964 importava\u00a0 aos seus verdadeiros formuladores algo muito al\u00e9m da mera deposi\u00e7\u00e3o de Jango e esse seu car\u00e1ter profundo s\u00f3 ficou claro aos analistas em 1965, com o Ato Institucional n. 2, baixado pelo presidente que havia jurado a Constitui\u00e7\u00e3o e prometido defender a democracia.<br \/>\nO significado de 2013 n\u00e3o foi compreendido em seu primeiro momento, e os sism\u00f3grafos dos especialistas\u00a0 n\u00e3o perceberam o real significado do impeachment, aquele que se revelaria pelo governo que a ele se segue..<br \/>\nO dif\u00edcil n\u00e3o est\u00e1 na identifica\u00e7\u00e3o dos fatos expostos e vividos, mas na arte ou ci\u00eancia da prospec\u00e7\u00e3o social, aquela que revela a realidade ainda em gesta\u00e7\u00e3o, ou seja, a serpente ainda no ovo.<br \/>\nEm 1964 muitos n\u00e3o lograram antever o significado e os objetivos da ditadura, nem seu largo e profundo mando de 21 anos.\u00a0Carlos Lacerda, sua principal voz civil, e\u00a0Juscelino Kubitschek, que votaria no\u00a0marechal Castello Branco, primeiro ditador, apostaram, olhando para tr\u00e1s,\u00a0 na transitoriedade do novo regime, e logo engrossariam\u00a0 a lista de suas v\u00edtimas.<br \/>\nSe n\u00e3o nos foi poss\u00edvel antever a gesta\u00e7\u00e3o da irrup\u00e7\u00e3o popular de 2013, tamb\u00e9m faltou clareza \u00e0 esquerda quanto a deposi\u00e7\u00e3o da presidente Dilma Rousseff, apenas o passo necess\u00e1rio para\u00a0 defenestrar o lulismo, a grande opera\u00e7\u00e3o de nossos dias.<br \/>\n<i>O ovo da serpente,\u00a0<\/i>este \u00e9 o t\u00edtulo da obra-prima de\u00a0Ingmar Bergman. Quem j\u00e1 assistiu, assista de novo. Quem ainda n\u00e3o o viu, corra para ver. Est\u00e1 no YouTube.<br \/>\n<strong>Roberto Amaral<\/strong><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<div>______________<\/div>\n<p>Roberto Amaral \u00e9 escritor e ex-ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O clima de hoje lembra o vivido nas v\u00e9speras do golpe de 1964, que dividiu o pa\u00eds e abriu espa\u00e7o para a viol\u00eancia. 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