{"id":62015,"date":"2018-05-06T14:33:52","date_gmt":"2018-05-06T17:33:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=62015"},"modified":"2018-05-06T14:33:52","modified_gmt":"2018-05-06T17:33:52","slug":"acampamento-so-acaba-quando-lula-for-solto-garante-a-militancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/acampamento-so-acaba-quando-lula-for-solto-garante-a-militancia\/","title":{"rendered":"Acampamento s\u00f3 acaba quando Lula for solto, garante a milit\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"intertit assina\">Matheus Chaparini<\/span><br \/>\nQuando a reportagem do J\u00c1 desembarcou em Curitiba, j\u00e1 n\u00e3o havia espa\u00e7o para uma barraca de dois lugares no terreno alugado para receber o acampamento dos apoiadores do ex-presidente Lula. Rapazes do MST e da CUT trabalhavam com p\u00e1s e enxadas, limpando o terreno. Somente quatro horas depois nossa \u201creda\u00e7\u00e3o\u201d estava montada. Mais meia hora e o entorno estava tomado de iglus, de forma que at\u00e9 uma ida ao banheiro exigia um caminho em zigue-zague com o m\u00e1ximo cuidado para n\u00e3o pisar em ningu\u00e9m.<br \/>\nMais de vinte e quatro horas haviam passado desde que um homem &#8211; filmado por c\u00e2meras de seguran\u00e7a, mas ainda n\u00e3o identificado &#8211; descarregou uma pistola 9mm contra o acampamento, trocou de pente, disparou mais algumas vezes e foi embora. N\u00e3o havia um clima de tens\u00e3o, mas o atentado pautava boa parte das conversas.<br \/>\nDe chegada, fomos recebidos por um dos coordenadores do acampamento, Thulio Siviero, militante do PT de Juiz de Fora. Me identifico como rep\u00f3rter e manifesto interesse em uma entrevista, para falar sobre a rotina do acampamento. \u201cJ\u00e1 te adianto que n\u00e3o mudou quase nada depois dos tiros. Na verdade, s\u00f3 veio mais gente\u201d, afirmou, matando a segunda pergunta do rep\u00f3rter.<br \/>\nNa pr\u00e1tica, algumas provid\u00eancias foram tomadas. Al\u00e9m da presen\u00e7a constante de viaturas, duas barricadas, com sacos de areia e cerca de um metro de altura, foram erguidas junto \u00e0 entrada, onde ficam concentrados a maior parte dos seguran\u00e7as. A terra retirada para limpar o terreno formou um barranco que auxilia na prote\u00e7\u00e3o da frente do terreno. A seguran\u00e7a, feita por uma empresa terceirizada com orienta\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios, ganhou refor\u00e7o de homens treinados, altos e fortes, alguns deles participaram da seguran\u00e7a da caravana do ex-presidente Lula.<br \/>\n<figure id=\"attachment_62014\" aria-describedby=\"caption-attachment-62014\" style=\"width: 1150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-62014 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/IMG_20180430_151948436-1150x647.jpg\" alt=\"\" width=\"1150\" height=\"647\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62014\" class=\"wp-caption-text\">Ap\u00f3s atentado a tiros, pilhas de areia foram colocadas por segurna\u00e7a<\/figcaption><\/figure><br \/>\nO terreno \u00e9 amplo, cheio de \u00e1rvores e divido em dois n\u00edveis, com dois metros de diferen\u00e7a, ligados por uma escada de madeira. Na parte alta, a entrada principal, a cozinha e uma tenda onde acontecem rodas de viol\u00e3o, conversas e discursos. Na parte baixa est\u00e3o os banheiros e chuveiros. Por todos os cantos poss\u00edveis, barracas e mais barracas. Para otimizar o espa\u00e7o, foram montados barrac\u00f5es de lona, grandes dormit\u00f3rios coletivos com capacidade para cerca de 40 pessoas. Haviam pelo menos quatro destes.<br \/>\nDurante a semana, o n\u00famero de acampados varia entre 150 e 200, nos finais de semana, sobe para 300, segundo a coordena\u00e7\u00e3o. Na v\u00e9spera do ato do dia do trabalhador, o movimento cresceu a ponto de surpreender os organizadores. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paran\u00e1, S\u00e3o Paulo, Cear\u00e1, Rio Grande do Norte, os apoiadores vinham de todas as partes do pa\u00eds. Um grupo de paulistas desce do \u00f4nibus e avisa: outros oito est\u00e3o a caminho. &#8220;Eu n\u00e3o esperava tanta gente, mas acho que estamos dando conta da log\u00edstica&#8221;, afirmou Thulio.<br \/>\nQuando a coisa bombou era poss\u00edvel encontrar todo tipo de militante. Os mais ferrenhos no discurso, os mais dedicados a tarefas pr\u00e1ticas at\u00e9 os ass\u00edduos em redes sociais. Uma senhora de pele bem branca, transmitindo um v\u00eddeo ao vivo, interrompe um jovem tarefeiro e lhe solicita a enxada. Quer ser filmada com a ferramenta nas m\u00e3os. E discursa para a pr\u00f3pria c\u00e2mera. &#8220;Eu me criei no meio de um canavial. As terras, quase todas, eram do meu pai. Mas era como se fosse de todos.&#8221;<br \/>\n<figure id=\"attachment_62018\" aria-describedby=\"caption-attachment-62018\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-62018\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/IMG_20180430_212727760-1-400x225.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62018\" class=\"wp-caption-text\">Na v\u00e9spera do 1\u00ba de maio a senadora Gleisi Hoffmann experimentou o macarr\u00e3o com salsicha no acampamento<\/figcaption><\/figure><br \/>\nEntre si, os membros da cozinha estimavam algo entre mil e dois mil jantares servidos na v\u00e9spera do 1\u00ba de maio. O card\u00e1pio, massa com lingui\u00e7a e feij\u00e3o. Para manter a ocupa\u00e7\u00e3o, os grupos se revezam. Os metal\u00fargicos da regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, se dividiram em tr\u00eas caravanas: os que chegaram na segunda, iam embora na quarta, quem vinha na ter\u00e7a ficava at\u00e9 quinta e assim por diante. Entre os acampados, \u201cLula livre\u201d se tornou um mantra. Substituiu o \u201cfora Temer\u201d. mas com bem mais intensidade.<br \/>\nO terreno fica na rua Jo\u00e3o Wislinski. Por ali passam muitos carros. Alguns motoristas buzinam ou gritam alguma mensagem. \u00c9 claro que n\u00e3o h\u00e1 somente apoio.<br \/>\nUm autom\u00f3vel passa, algu\u00e9m grita uma frase pr\u00f3-Lula, em seguida, a gargalhada e um &#8220;v\u00e3o trabalhar!&#8221; &#8220;P\u00f4! E o que que eu to fazendo ent\u00e3o?, resmunga um rapaz suado de enxada na m\u00e3o, abrindo espa\u00e7o para mais barracas das caravanas que n\u00e3o param de chegar.<br \/>\nFrases de apoio ao deputado Jair Bolsonaro tamb\u00e9m t\u00eam certa frequ\u00eancia, mas sempre durante a madrugada.<\/p>\n<p class=\"western\"><span class=\"intertit\" style=\"font-family: Arial, sans-serif\">Hasta la vit\u00f3ria<\/span><\/p>\n<p>Quando se pergunta at\u00e9 quando dura a vig\u00edlia, a resposta vem de pronto: at\u00e9 o Lula sair. &#8220;Onde ele estiver a gente vai, n\u00e3o importa a dist\u00e2ncia. Unindo for\u00e7as para demonstrar apoio ao companheiro e rep\u00fadio a este estado de exce\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Thulio. &#8220;Uma coisa \u00e9 certa: se sair de Curitiba, s\u00f3 aumenta&#8221;, complementa outro militante.<br \/>\nCom tanta gente amontoada, comendo, dormindo, militando, carregando celular, um certo grau de disciplina \u00e9 necess\u00e1rio para manter o acampamento em ordem. Os hor\u00e1rios s\u00e3o rigorosos. Das sete \u00e0s oito \u00e9 servido o caf\u00e9, depois, caminhada at\u00e9 a vig\u00edlia &#8211; nove em ponto \u00e9 o momento do \u201c\u201dBom dia, Lula\u201d. \u00c0s dezenove, o \u201cBoa noite\u201d e regresso para a janta. Dez e meia inicia o hor\u00e1rio de sil\u00eancio, que termina logo cedo da manh\u00e3, quando recome\u00e7a a rotina.<br \/>\nBebidas alco\u00f3licas, baseados e afins n\u00e3o s\u00e3o bem vindos. Enrolar e acender um palheiro \u00e9 um teste da determina\u00e7\u00e3o dos rapazes da seguran\u00e7a em cumprir estas regras. &#8220;Com todo respeito, companheiro, mas isso a\u00ed na sua m\u00e3o \u00e9 maconha?&#8221;<br \/>\nAl\u00e9m de uma quest\u00e3o interna, o acampamento tem a presen\u00e7a constante de duas viaturas da pol\u00edcia na entrada. \u00c9 reclama\u00e7\u00e3o entre os acampados que a presen\u00e7a da pol\u00edcia fazia parte do acordo de desocupa\u00e7\u00e3o do entorno da Superintend\u00eancia da PF, entretanto, eles garantem que o policiamento s\u00f3 passou a ser realizado ap\u00f3s o atentado.<\/p>\n<p class=\"western\"><span class=\"intertit\">Um retirante que virou ideia e estampa de camiseta<\/span><\/p>\n<p>Nasceu menino pobre, na seca do sert\u00e3o pernambucano, o l\u00edder que atrai essa multid\u00e3o. Migrou para S\u00e3o Paulo com a m\u00e3e e irm\u00e3os em um pau de arara. Virou trabalhador, metal\u00fargico, lideran\u00e7a sindical, fundador do PT e incans\u00e1vel candidato do partido ao Planalto, nas elei\u00e7\u00f5es de 1989, 94 e 98, foi eleito presidente e \u201cthe guy\u201d, segundo o ent\u00e3o presidente americano Barack Obama. Depois tornou-se r\u00e9u, condenado por corrup\u00e7\u00e3o e lavagem de dinheiro no famoso \u201ccaso do triplex\u201d e preso, em um processo \u00e1gil como poucos no Judici\u00e1rio brasileiro. E sua imagem n\u00e3o para de crescer.<br \/>\nLula se converteu em uma ideia, segundo ele mesmo. Mas se converteu tamb\u00e9m na \u00fanica esperan\u00e7a daquelas pessoas que se concentram em Curitiba em garantir os direitos que julgam terem sido rapinados pelo atual governo. Lula virou tamb\u00e9m \u00edcone pop, com seu rosto estampando camisetas, qual um Che Guevara.<\/p>\n<p class=\"western\"><span class=\"intertit\" style=\"font-family: Arial, sans-serif\">Mais de mil refei\u00e7\u00f5es em uma cozinha improvisada<\/span><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_62013\" aria-describedby=\"caption-attachment-62013\" style=\"width: 1150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-62013 size-large\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/IMG_20180430_145816426_HDR-1150x647.jpg\" alt=\"\" width=\"1150\" height=\"647\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62013\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Luzardo Cruz Brum, ga\u00facho de santa Maria, \u00e9 um dos respons\u00e1vel pela alimenta\u00e7\u00e3o do acampamento<\/figcaption><\/figure><br \/>\nAp\u00f3s o acordo de retirada dos acampados junto ao local da vig\u00edlia, pr\u00f3ximo \u00e0 PF, o acampamento Marisa Let\u00edcia ficou servindo de base de apoio aos que passam o dia na pra\u00e7a Olga Ben\u00e1rio dando bom dia, boa tarde e boa noite ao ex-presidente e pontuando toda e qualquer frase com \u201cLula livre\u201d.<br \/>\nS\u00e3o centenas &#8211; \u00e0s vezes mais de mil &#8211; pessoas para comer. Para tal, h\u00e1 aqueles que n\u00e3o participam da vig\u00edlia, n\u00e3o presenciam os discursos ali proferidos, nem gritam bom dia ao ex-presidente na esquina da PF. S\u00e3o os da retaguarda, os tarefeiros que fazem o acampamento funcionar.<br \/>\nJos\u00e9 Luzardo Cruz Brum, ga\u00facho de santa Maria \u00e9 um destes. Respons\u00e1vel pela alimenta\u00e7\u00e3o do acampamento, Cruz, como \u00e9 conhecido, coordena uma cozinha com mais quatro volunt\u00e1rios, que se revezam.<br \/>\nAli s\u00e3o preparados e consumidos todos os dias 50 kg de arroz, 30 kg de feij\u00e3o, 15 kg de caf\u00e9, os ingredientes mais frequentes. Com o agravante de nunca se saber ao certo quantas pessoas v\u00e3o parecer na hora da refei\u00e7\u00e3o. Cruz nunca foi cozinheiro profissional. Aprendeu a cozinhar neste sistema de enormes quantidades quando serviu ao Ex\u00e9rcito Brasileiro durante oito anos. Recebeu a tarefa da coordena\u00e7\u00e3o e acatou de pronto.<br \/>\nS\u00e3o dois fog\u00f5es industriais trabalhando sem folga sob a cobertura de uma tenda e lonas. Ao fundo, a despensa, formada com doa\u00e7\u00f5es trazidas pelos movimentos que comp\u00f5em o acampamento e por militantes avulsos.<br \/>\nCruz est\u00e1 acampado desde o primeiro dia, veio a Curitiba &#8220;pela causa, pelo Lula e pela falecida\u201d e se emociona ao citar o nome de Marisa.<br \/>\n\u201cEsse acampamento n\u00e3o para. Se voc\u00ea fizer um encontro em Tocantins para um grupo debater pol\u00edtica e a situa\u00e7\u00e3o do Lula, Marisa Let\u00edcia vai estar l\u00e1. Ele \u00e9 o come\u00e7o de uma imensid\u00e3o, de uma hist\u00f3ria. Onde Lula for, Marisa vai.&#8221;<\/p>\n<p class=\"western\">\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-62012 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/IMG_20180430_120246354.jpg\" alt=\"\" width=\"1150\" height=\"647\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matheus Chaparini Quando a reportagem do J\u00c1 desembarcou em Curitiba, j\u00e1 n\u00e3o havia espa\u00e7o para uma barraca de dois lugares no terreno alugado para receber o acampamento dos apoiadores do ex-presidente Lula. Rapazes do MST e da CUT trabalhavam com p\u00e1s e enxadas, limpando o terreno. Somente quatro horas depois nossa \u201creda\u00e7\u00e3o\u201d estava montada. Mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":62011,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-62015","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-g8f","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62015"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62015\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}