{"id":62079,"date":"2018-05-09T20:04:57","date_gmt":"2018-05-09T23:04:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=62079"},"modified":"2018-05-09T20:04:57","modified_gmt":"2018-05-09T23:04:57","slug":"fantasma-do-fmi-assombra-duas-geracoes-de-argentinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/fantasma-do-fmi-assombra-duas-geracoes-de-argentinos\/","title":{"rendered":"Fantasma do FMI assombra duas gera\u00e7\u00f5es de argentinos"},"content":{"rendered":"<p>A sigla FMI est\u00e1 associada aos piores momentos da vida econ\u00f4mica da Argentina, nas \u00faltimas seis d\u00e9cadas, com arrochos, desemprego e cat\u00e1strofes financeiras.<br \/>\n\u201c\u00c9 como voltar para tr\u00e1s\u201d, \u201cIsso n\u00f3s j\u00e1 vivemos\u201d, \u201c\u00c9 mais do mesmo\u201d.<br \/>\n\u00c9 o que se ouvia nas ruas de Buenos Aires logo depois que o presidente Maur\u00edcio Macri anunciou na televis\u00e3o que vai pedir ajuda ao fundo Monet\u00e1rio Internacional, o odiado FMI.<br \/>\n\u00c9 a primeira vez em 15 anos que o pa\u00eds tem que recorrer ao fundo para fechar suas contas. Sessenta anos depois do primeiro empr\u00e9stimo, em\u00a01957, para um governo militar.<br \/>\nDesde ent\u00e3o, sua presen\u00e7a acompanhou todas as crises econ\u00f4micas que sacodem a Argentina de forma c\u00edclica.<br \/>\nNos anos 1990, o Fundo apoiou a conversibilidade aplicada por Domingo Cavallo durante o Governo de\u00a0Carlos Menem. E hoje todos associam o Fundo ao fracasso daquele modelo em 2001.<br \/>\nO governo de Fernando de la R\u00faa havia acordado com o Fundo uma blindagem financeira de 38 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para sustentar a paridade de um peso-um d\u00f3lar herdada do menemismo. Mas s\u00f3 houve dois desembolsos.<br \/>\nA suspens\u00e3o do terceiro precipitou o fim da conversibilidade e a eclos\u00e3o da pior crise econ\u00f4mica de que os argentinos se lembram.<br \/>\nEduardo Duhalde, sucessor de emerg\u00eancia de De la R\u00faa, recorreu duas vezes ao Fundo, que colocava condi\u00e7\u00f5es cada vez mais duras, sempre relacionadas \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos e do d\u00e9ficit fiscal.<br \/>\nO Fundo nunca foi o principal credor da Argentina, mas de sua aprova\u00e7\u00e3o dependia a chegada dos investimentos: da\u00ed o peso de suas receitas.<br \/>\nEm 2006, o presidente\u00a0N\u00e9stor Kirchner\u00a0conseguiu eliminar o d\u00e9ficit, gra\u00e7as \u00e0s receitas extraordin\u00e1rias das exporta\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias-primas.<br \/>\nOs pa\u00edses emergentes viviam anos de prosperidade econ\u00f4mica e o kirchnerismo quis dar um golpe de efeito: cancelou a d\u00edvida de 9,8 bilh\u00f5es que a Argentina tinha com o FMI e se declarou livre de qualquer condicionamento. As bandeiras de uma suposta soberania econ\u00f4mica estavam muito altas e os argentinos acompanharam o kirchnerismo com seus votos.<br \/>\nMas o vento de popa n\u00e3o durou. Os pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas ca\u00edram e a Argentina passou a gastar mais do que produzia. O kirchnerismo decidiu ent\u00e3o se financiar em pesos, sobretudo com o dinheiro dos fundos de pens\u00e3o.<br \/>\nFechado o cr\u00e9dito externo, emprestava a si mesmo com a emiss\u00e3o de moeda. Em troca, n\u00e3o precisava prestar contas a ningu\u00e9m. Macri chegou ao poder em 2015 e disse que a situa\u00e7\u00e3o herdada era insustent\u00e1vel.<br \/>\nVoltou ent\u00e3o aos mercados internacionais. Primeiro pagou 9,3 bilh\u00f5es para os chamados fundos abutres para acabar com o lit\u00edgio por causa do calote da d\u00edvida externa declarada em 2001.<br \/>\nEm dois anos tomou mais de 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares no mercado internacional, mas isso n\u00e3o foi suficiente para fazer do\u00a0peso uma moeda \u00e0 prova de tempestades externas.<br \/>\nHoje disse que pedir\u00e1 ajuda ao Fundo novamente, e os argentinos t\u00eam dificuldade em acreditar que desta vez ser\u00e1 diferente.<br \/>\n\u201cVoltar a essa situa\u00e7\u00e3o provoca ang\u00fastia\u201d, diz Ezequiel, um professor que tinha 22 anos quando da crise de 2001. Outros falam em \u201cdecep\u00e7\u00e3o\u201d, ou simplesmente \u201craiva\u201d. \u201cN\u00e3o sei se o povo argentino vai tolerar isso, talvez esteja esperando, mas existe toda uma gera\u00e7\u00e3o de 40 anos para cima que sabe o que aconteceu com o FMI. Sempre que suas receitas foram aplicadas as consequ\u00eancias foram pagas pelos trabalhadores\u201d, acrescenta Ezequiel, que espera que as pessoas saiam \u00e0s ruas para protestar.<br \/>\nCarlos, dono de uma floricultura em Villa Ort\u00fazar, um bairro de classe m\u00e9dia de Buenos Aires, teme a palavra \u201cajuste\u201d.<br \/>\n\u201cVoltar ao FMI significa entregar o pa\u00eds, \u00e9 isso que Macri est\u00e1 fazendo. Em pouco tempo dir\u00e3o que precisam fazer mais ajustes, ajustar os aposentados, vender empresas p\u00fablicas.\u201d<br \/>\nEle n\u00e3o acredita, al\u00e9m disso, que o Fundo tenha \u201cmudado\u201d, como diz sua diretora-geral,\u00a0Christine Lagarde. \u201c\u00c9 mais do mesmo, ou at\u00e9 pior, porque cada vez apertam mais os que t\u00eam menos e cresce o fosso entre as pessoas que t\u00eam dinheiro e os pobres.\u201d<br \/>\nQuem \u00e9 mais velho, como Graciela, aposentada, v\u00ea uma nova crise no horizonte. \u201cEstou com muito medo porque j\u00e1 vivemos isso. A \u00faltima vez que o FMI veio, acabamos tendo uma grande crise. Eu n\u00e3o entendo muito de pol\u00edtica, mas o que eu sei \u00e9 que meu dinheiro n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d, diz.<br \/>\nA inquietude atingiu at\u00e9 mesmo aqueles que votaram em Macri, com a esperan\u00e7a de que os problemas herdados do kircherismo fossem resolvidos. Nacho tem 24 anos, de manh\u00e3 dirige um t\u00e1xi e \u00e0 noite trabalha num quiosque de doces.<br \/>\nDiz que sabe \u201cmuito pouco\u201d sobre o FMI, mas n\u00e3o tem muitas expectativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ajuda que pode chegar. \u201c\u00c9 um desastre\u201d, diz ele, \u201ctudo sobe e o dinheiro n\u00e3o \u00e9 suficiente. Ganho 16.000 pesos (cerca de 2.550 reais) e pago 12.000 (1.912 reais) de aluguel. Sou anti-kirchnerista porque eles roubaram tudo, mas Macri disse que iria fazer uma mudan\u00e7a e isso n\u00e3o aconteceu. Votei em Macri e agora me arrependo, n\u00e3o voto mais nele\u201d. \u00c9 poss\u00edvel que o dinheiro do Fundo d\u00ea um pouco de oxig\u00eanio para a economia argentina, mas em troca o Governo dever\u00e1 pagar um alto pre\u00e7o pol\u00edtico.<br \/>\n(Com informa\u00e7\u00f5es de <em>El Pa\u00eds<\/em> e <em>P\u00e1gina 12<\/em>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sigla FMI est\u00e1 associada aos piores momentos da vida econ\u00f4mica da Argentina, nas \u00faltimas seis d\u00e9cadas, com arrochos, desemprego e cat\u00e1strofes financeiras. \u201c\u00c9 como voltar para tr\u00e1s\u201d, \u201cIsso n\u00f3s j\u00e1 vivemos\u201d, \u201c\u00c9 mais do mesmo\u201d. \u00c9 o que se ouvia nas ruas de Buenos Aires logo depois que o presidente Maur\u00edcio Macri anunciou na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":62083,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-62079","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":62079,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-g9h","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62079","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62079"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62079\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}