{"id":62870,"date":"2018-06-04T10:43:08","date_gmt":"2018-06-04T13:43:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=62870"},"modified":"2018-06-04T10:43:08","modified_gmt":"2018-06-04T13:43:08","slug":"documento-diz-que-corrupcao-foi-uma-das-causas-da-queda-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/documento-diz-que-corrupcao-foi-uma-das-causas-da-queda-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Documento diz que corrup\u00e7\u00e3o foi uma das causas da queda da ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Um telegrama com carimbo &#8220;confidencial&#8221; chegou ao Departamento de Estado em Washington no dia 1\u00ba de mar\u00e7o de 1984.<br \/>\nO envio de relat\u00f3rios reservados era uma rotina da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil mas aquele tinha um assunto incomum: a corrup\u00e7\u00e3o no regime militar, sob o qual o pa\u00eds vivia desde 1964.<br \/>\nO telegrama, obtido pelo jornal O Globo, faz parte de um lote de 694 documentos enviados pelo governo norteamericano, em tr\u00eas remessas, entre 2014 e 2015, para a Comiss\u00e3o da Verdade.<br \/>\nPara situar os burocratas de Washington, o telegrama explica o que \u00e9 o \u201cjeitinho\u201d, um fen\u00f4meno social brasileiro, raiz da corrup\u00e7\u00e3o que seria parte indissoci\u00e1vel da pol\u00edtica e da economia no pa\u00eds.<br \/>\nA partir da\u00ed, o texto tra\u00e7a um quadro da decad\u00eancia do governo Figueiredo, ao mencionar uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o. \u201cNo n\u00edvel nacional existem muitos esc\u00e2ndalos que lan\u00e7am nuvens sobre o governo Figueiredo\u201d, diz o informe.<br \/>\nCertamente o homem mais poderoso na economia durante o regime militar, o ent\u00e3o ministro do Planejamento, o economista Delfim Netto, \u00e9 citado como um exemplo de alvo de acusa\u00e7\u00f5es do alto escal\u00e3o de Bras\u00edlia.<br \/>\nS\u00e3o dois os casos. Num deles, o das polonetas, havia suspeitas em torno de empr\u00e9stimo de US$ 2 bilh\u00f5es \u00e0 Pol\u00f4nia a taxas de juros consideradas baixas.<br \/>\nEm outro, um documento conhecido como \u201crelat\u00f3rio Saraiva\u201d \u2014 que nunca veio a p\u00fablico na \u00edntegra \u2014 acusava Delfim de, quando embaixador em Paris, receber propina para intermediar neg\u00f3cios entre bancos estrangeiros e estatais brasileiras.<br \/>\nDelfim nega qualquer rela\u00e7\u00e3o ou irregularidade nos dois casos \u2014 como negou na ocasi\u00e3o:<br \/>\n\u2014 As polonetas o governo da Pol\u00f4nia pagou, em um momento de grande dificuldade para o Brasil, US$ 3 bilh\u00f5es. O relat\u00f3rio Saraiva foi arquivado pelo SNI porque n\u00e3o havia nada de concreto \u2014 diz Delfim, que minimiza o papel dos informantes americanos. \u2014 Esses funcion\u00e1rios vinham para o Brasil e fingiam trabalhar enviando a Washington informa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 estavam em todos os jornais.<br \/>\nComo diz Delfim, o informe de 1984 n\u00e3o cita casos desconhecidos do p\u00fablico. Tampouco h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es secretas. Est\u00e3o l\u00e1 men\u00e7\u00f5es ao esc\u00e2ndalo da mandioca (desvio de verbas para produtores) e as suspeitas contra os dois pr\u00e9-candidatos do PDS \u2014 hoje PP, na ocasi\u00e3o o partido do governo \u2014 \u00e0 Presid\u00eancia, o ex-governador Paulo Maluf e o ent\u00e3o ministro M\u00e1rio Andreazza. .<br \/>\nO valor do documento est\u00e1 no fato de mostrar a avalia\u00e7\u00e3o que os americanos faziam do \u00faltimo ano do regime militar. O diagn\u00f3stico da embaixada \u00e9 que a roubalheira corro\u00eda a legitimidade do governo.<br \/>\nO texto contraria o discurso de que a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o existia durante o regime militar. Ao contr\u00e1rio: era um problema t\u00e3o grande e presente no Brasil governado pelos militares quanto \u00e9 hoje.<br \/>\nEm 1984, n\u00e3o estava mais na pauta a repress\u00e3o aos inimigos do regime, como no documento revelado h\u00e1 duas semanas pelo professor Matias Spektor, que era de 1974 e relata uma reuni\u00e3o do ent\u00e3o presidente Ernesto Geisel e tr\u00eas generais em que era autorizada a elimina\u00e7\u00e3o de subversivos.<br \/>\nO texto de 1984 se preocupava com outro aspecto. Afirma que a corrup\u00e7\u00e3o corroera tanto a imagem dos militares entre a popula\u00e7\u00e3o, que era um fator decisivo para sua sa\u00edda do poder. \u201cEntre muitos oficiais, dos mais baixos aos mais altos, h\u00e1 uma forte cren\u00e7a que os \u00faltimos 20 anos no poder corromperam os militares, especialmente o alto comando e que agora \u00e9 hora de deixar a pol\u00edtica e suas intemp\u00e9ries e voltar a ser soldado\u201d, diz.<br \/>\nContudo, o alerta dos informantes \u00e9 que os militares iriam embora, mas os efeitos negativos da roubalheira ficariam e poderiam desestabilizar a pol\u00edtica nos anos seguintes. \u201cO que est\u00e1 claro \u00e9 que a corrup\u00e7\u00e3o, real ou imagin\u00e1ria, est\u00e1 erodindo a confian\u00e7a dos brasileiros em seu governo\u201d, diz o texto.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um telegrama com carimbo &#8220;confidencial&#8221; chegou ao Departamento de Estado em Washington no dia 1\u00ba de mar\u00e7o de 1984. 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