{"id":6365,"date":"2009-12-12T20:07:08","date_gmt":"2009-12-12T23:07:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=6365"},"modified":"2009-12-12T20:07:08","modified_gmt":"2009-12-12T23:07:08","slug":"um-sequestro-disputa-o-acorianos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/um-sequestro-disputa-o-acorianos\/","title":{"rendered":"Um seq\u00fcestro disputa o A\u00e7orianos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse, especial para o J\u00c1<\/span><br \/>\nEst\u00e1 completando um ano de boa carreira comercial e grande sucesso de cr\u00edtica o livro de Luiz Cl\u00e1udio Cunha sobre o fracassado sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz praticado em novembro de 1978 em Porto Alegre por militares uruguaios e policiais brasileiros mancomunados num lance clandestino, da Opera\u00e7\u00e3o Condor, conchavo terrorista das ditaduras do Cone Sul.<br \/>\nLan\u00e7ado na Feira do Livro de Porto Alegre em novembro de 2008, O Sequestro dos Uruguaios vendeu 2524 exemplares at\u00e9 1 de dezembro de 2009, segundo Ivan Pinheiro Machado, s\u00f3cio-diretor da L&amp;PM, a maior editora do Sul, que nos \u00faltimos anos se especializou na edi\u00e7\u00e3o e venda de livros de bolso (pocket books).<br \/>\n\u201cPessoalmente achei que venderia mais, at\u00e9 pela grande qualidade do livro\u201d, afirma Pinheiro Machado, \u201cmas estes assuntos do tempo da ditadura est\u00e3o cada vez mais distantes dos jovens de hoje, mesmo porque s\u00e3o fatos ocorridos h\u00e1 30 anos\u201d. Segundo Pinheiro Machado, o mercado brasileiro n\u00e3o segue o padr\u00e3o dos EUA e da Europa, onde os pr\u00eamios alavancam as vendas de livros.<br \/>\nDenso e brilhante, o livro ganhou dois pr\u00eamios (Herzog e Jabuti) e \u00e9 finalista de mais um \u2013 o A\u00e7orianos, com premia\u00e7\u00e3o prevista para esta segunda, 14 de dezembro. Apesar do ineg\u00e1vel sucesso de critica, O Sequestro n\u00e3o se manteve nas vitrines das livrarias, disputadas por mais de dois mil t\u00edtulos novos a cada m\u00eas. De qualquer forma, a marcha das vendas indica que o livro poder\u00e1 ter em 2010 uma terceira edi\u00e7\u00e3o de dois mil exemplares. \u00c9 bastante para um livr\u00e3o de 460 p\u00e1ginas sobre um assunto pesado, mas pouco para a qualidade da obra.<br \/>\nSegundo livro de Cunha em 40 anos de jornalismo \u2013 ele come\u00e7ou em 1969 como rep\u00f3rter da Folha de Londrina e publicou em 1985 Assim Morreu Tancredo, baseado no testemunho do jornalista Antonio Britto \u2013, O Sequestro poderia ser um relato enfadonho nas m\u00e3os de outro redator. Nas unhas de Cunha, virou quase um romance. Como um carcar\u00e1 do jornalismo, ele pega-e-mostra algumas das cobras mais venenosas das ditaduras militares sulamericanas. Com informa\u00e7\u00f5es precisas e met\u00e1foras preciosas, mergulha nos por\u00f5es e \u201coficinas\u201d dos pa\u00edses onde trabalharam os art\u00edfices do terror paramilitar.<br \/>\nSe tivesse ficado apenas no caso que testemunhou em Porto Alegre como rep\u00f3rter da revista Veja, em 1978, j\u00e1 seria um bom servi\u00e7o, mas ele vai muito al\u00e9m do caso Lilian Celiberti.<br \/>\nRico em detalhes sobre os m\u00e9todos de interrogat\u00f3rio policial-militar, aponta quem estava por tr\u00e1s, como mentor e instrutor da tortura de prisioneiros. O pau-de-arara pode ser um invento brasileiro, mas a maquininha de choque el\u00e9trico tinha o patroc\u00ednio dos americanos da CIA.<br \/>\nAl\u00e9m de dissecar a l\u00f3gica militar que determinou a montagem do monstruoso esquema de exterm\u00ednio de advers\u00e1rios e dissidentes pol\u00edticos, o livro desvenda os mecanismos pol\u00edticos por tr\u00e1s das opera\u00e7\u00f5es policiais-militares contra inimigos dos regimes ditatoriais sulamericanos.<br \/>\nTamb\u00e9m apresenta e descreve os principais agentes desse processo. Uma das personagens centrais \u00e9 Carlos Alberto Brilhante Ustra, unanimemente apontado como um mestre da tortura na Rua Tut\u00f3ia em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nEm Porto Alegre destacou-se o delegado Pedro Seelig, pe\u00e7a-chave no sequestro de Lilian e Universindo. Constam dos textos os nomes de diversos operadores dos servi\u00e7os condenados pela Conven\u00e7\u00e3o Internacional dos Direitos Humanos.<br \/>\nAl\u00e9m dos atores centrais, o livro exp\u00f5e o comportamento de coadjuvantes civis como os governadores ga\u00fachos Synval Guazelli e Amaral de Souza, a quem o patr\u00e3o da imprensa Breno Caldas (Correio do Povo) atribu\u00eda uma defici\u00eancia de um palmo e meio na estatura f\u00edsica e moral.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 como negar: Cunha aproveita a oportunidade para retocar o perfil de algumas autoridades que no passado posaram como democratas e, no fundo, eram capachos dos ditadores de plant\u00e3o.<br \/>\nQuem diria que o simp\u00e1tico Guazelli foi o autor secreto da Lei Falc\u00e3o, o sistema de propaganda eleitoral criado pelo general-presidente Geisel?<br \/>\n<span class=\"intertit\">Tempos sombrios<\/span><br \/>\nNesse ajuste de contas, o jornalista vinga tamb\u00e9m a imprensa humilhada por anos de arrog\u00e2ncia e mentira. Predominam os perfis de alguns dos maiores canalhas da moderna hist\u00f3ria pol\u00edtica do continente, mas aparecem tamb\u00e9m alguns mocinhos como o advogado Omar Ferri e o ativista civil Jair Krischke.<br \/>\nCom mais de 1 milh\u00e3o de caracteres (o que daria uns seis pocket books), O Sequestro tira de letra o risco de ser prolixo. N\u00e3o h\u00e1 trechos obscuros. Tampouco excessos ou lacunas. \u00c9 claro e denso como deveriam ser todos os textos jornal\u00edsticos. N\u00e3o lhe faltam frieza, distanciamento ou imparcialidade mas, sem d\u00favida, \u00e9 um livro tocado de ponta a ponta pela paix\u00e3o de narrar com precis\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m de objetividade, sua maior qualidade \u00e9 a contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Gra\u00e7as \u00e0 qualidade da mat\u00e9ria-prima e aos bons temperos usados, muitos trechos configuram ricas cr\u00f4nicas dos (maus) costumes daqueles tempos sombrios.<br \/>\nA maior parte focaliza acontecimentos ocorridos no Brasil, mas o autor reuniu tanto material que comp\u00f4s um painel das safadezas antidemocr\u00e1ticas praticadas tamb\u00e9m no Uruguai, na Argentina e no Chile.<br \/>\nO relato do sequestro em si termina na p\u00e1gina 338, mas Cunha acrescenta dois anexos terr\u00edveis. No primeiro, que daria um substancioso pocket book, ele enche 40 p\u00e1ginas sobre o Uruguai antes e depois da ditadura. No outro, o leitor tem um extra de 70 p\u00e1ginas sobre as ra\u00edzes, motiva\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas da Opera\u00e7\u00e3o Condor, que alguns jornalistas e historiadores ainda acreditam que n\u00e3o existiu. Cunha demonstra que o bicho n\u00e3o s\u00f3 voou como pegou muita gente.<br \/>\nFoi liderada pelo coronel chileno Manuel Contreras, chefe da DINA (o servi\u00e7o secreto da ditadura de Pinochet), que se articulava informalmente com os servi\u00e7os secretos dos pa\u00edses vizinhos \u2013 o Brasil ajudava, mas tomando cuidado para n\u00e3o sujar as m\u00e3os com o sangue das milhares de v\u00edtimas de tantas opera\u00e7\u00f5es. Extraoficialmente, por\u00e9m, havia muitos brasileiros envolvidos na sujeira at\u00e9 o pesco\u00e7o.<br \/>\nAssim, a pretexto de recontar uma hist\u00f3ria da qual foi protagonista involunt\u00e1rio trinta anos antes, o jornalista nascido em 1951 em Caxias do Sul faz um balan\u00e7o das maldades praticadas por militares e civis \u00e0 sombras das ditaduras de direita que assombraram a Am\u00e9rica Latina por v\u00e1rios anos na segunda metade do s\u00e9culo XX.<br \/>\nSeu livro \u00e9 uma refer\u00eancia, um documento b\u00e1sico que merece ocupar um lugar de honra nas estantes de professores, estudantes, donas de casa e pais de fam\u00edlia, engajados politicamente ou n\u00e3o. Um livro que n\u00e3o pode faltar nas bibliotecas universit\u00e1rias e de escolas secund\u00e1rias, nos sindicatos e nas sacristias, nas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e militares.<br \/>\nEm especial, n\u00e3o pode faltar nas estantes das escolas de jornalismo e nas reda\u00e7\u00f5es em geral. Perfeita li\u00e7\u00e3o de jornalismo, hist\u00f3ria e literatura, O Sequestro tem conte\u00fado e d\u00e1 gosto ler.<br \/>\nParadoxalmente, \u00e9 um livro corajoso que come\u00e7a com uma confiss\u00e3o de medo. Cunha e o fot\u00f3grafo JB Scalco tremiam dentro do carro depois de serem cal\u00e7ados a pistola no apartamento de Lilian Celiberti, na rua Botafogo, em Porto Alegre, onde tudo come\u00e7ou, numa tarde chuvisquenta de novembro de 1978.<br \/>\nParece distante no tempo \u2013 foi de fato no fim da ditadura militar \u2013, mas em termos hist\u00f3ricos esses 30 anos decorridos de l\u00e1 para c\u00e1 s\u00e3o um pequeno fragmento na marcha da civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma edi\u00e7\u00e3o espanhola est\u00e1 sendo negociada com uma editora de Buenos Aires. Em seguida vir\u00e1 a edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas. Vertido em outras l\u00ednguas, \u00e9 prov\u00e1vel que o livro ganhe mais alguns pr\u00eamios, abrindo caminho para uma vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica dessa hist\u00f3ria de espionagem e terror, que exp\u00f5e pela primeira vez detalhes ignorados por diversos livros sobre as ditaduras conectadas antes do Mercosul.<br \/>\nSe vier o filme, ele bem que poderia come\u00e7ar com uma cena ocorrida numa tarde de novembro de 2008 na Feira do Livro do Porto Alegre. A fila de aut\u00f3grafos do livro O Sequestro dos Uruguaios fazia a volta na lateral do pr\u00e9dio do Memorial do Rio Grande do Sul.<br \/>\nDe repente, destoando do clima de desconcentra\u00e7\u00e3o do ambiente (ali se festejava mais uma vez o fim da ditadura militar), uma senhora colocou gravemente diante do autor Luiz Cl\u00e1udio Cunha um exemplar em que se destacava, numa folheta de cartolina, o nome da pessoa a quem devia ser feita a dedicat\u00f3ria: In Memorian de Didi Pedalada.<br \/>\nCunha se levantou para ficar \u00e0 altura da futura leitora.<br \/>\n&#8211; Por que o senhor escreveu isso? \u2013 perguntou a mulher.<br \/>\n&#8211; Quem \u00e9 a senhora? \u2013 quis saber o jornalista.<br \/>\n&#8211; Eu sou a vi\u00fava do Didi Pedalada&#8230;<br \/>\n&#8211; Escrevi para mostrar que esse e outros epis\u00f3dios do tempo do Didi Pedalada foram praticados com a cobertura de muitos governantes.<br \/>\n&#8211; Mas tinha que colocar no livro o nosso endere\u00e7o?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o me diga que a senhora mora no mesmo lugar?!<br \/>\n&#8211; Sim, aquela casa era a \u00fanica coisa que t\u00ednhamos.<br \/>\nTenso mas aliviado ao ver que se tratava mais de um desabafo do que de uma cobran\u00e7a, Cunha sentou-se e escreveu a dedicat\u00f3ria poss\u00edvel aos descendentes do ex-jogador de futebol Didi Pedalada, um dos participantes do sequestro de Lilian Celiberti em novembro de 1978, em Porto Alegre. Na frase, lembrou que muitos agentes da hist\u00f3ria n\u00e3o sabiam o que estavam fazendo, apenas cumpriam ordens.<br \/>\nEnxugando as l\u00e1grimas, a vi\u00fava pegou o livro e retirou-se. A fila voltou a andar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse, especial para o J\u00c1 Est\u00e1 completando um ano de boa carreira comercial e grande sucesso de cr\u00edtica o livro de Luiz Cl\u00e1udio Cunha sobre o fracassado sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz praticado em novembro de 1978 em Porto Alegre por militares uruguaios e policiais brasileiros mancomunados num lance clandestino, da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[181,739,183,474],"class_list":["post-6365","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-jornalismo","tag-livro-reportagem","tag-reportagem","tag-sequestro-dos-uruguaios"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":6365,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-1EF","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6365"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6365\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}