{"id":64558,"date":"2018-08-13T05:54:48","date_gmt":"2018-08-13T08:54:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=64558"},"modified":"2018-08-13T05:54:48","modified_gmt":"2018-08-13T08:54:48","slug":"promessa-ao-amanhecer-o-filme-uma-ode-a-idichee-outras-mammas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/promessa-ao-amanhecer-o-filme-uma-ode-a-idichee-outras-mammas\/","title":{"rendered":"Promessa ao amanhecer, o filme, uma ode a \u00eddiche(e outras) mamma(s)"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Francisco Ribeiro<\/span><br \/>\nDe uma adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica sempre se espera um bom relacionamento entre imagem e verbo, palavra, escrita. Ainda mais se tratando de uma autobiografia romanceada como \u00e9 o caso de &#8220;Promessa ao amanhecer&#8221;, longa franc\u00eas, 2017, e tamb\u00e9m t\u00edtulo hom\u00f4nimo do livro de Roman Gary (1914-1980), um dos maiores autores franceses do s\u00e9culo passado.<br \/>\n&#8220;Promessa ao Amanhecer&#8221; \u00e9 um verdadeiro hino, sem ser piegas, ao amor maternal que, neste caso, transcende, inclusive, a morte.<br \/>\nDe cara, na pel\u00edcula dirigida por Eric Barbier, nota-se a folga no or\u00e7amento, mais de 20 milh\u00f5es de euros, alto para os padr\u00f5es europeus. Tal soma permitiu a produ\u00e7\u00e3o reconstituir \u00e9pocas, anos 20, 30 e 40 do s\u00e9culo passado, cen\u00e1rios, figurinos, figurantes, objetos, e rodar em loca\u00e7\u00f5es variadas.<br \/>\nN\u00e3o faltou nada. S\u00e3o boas as reconstitui\u00e7\u00f5es das cenas de guerra e interessantes, embora j\u00e1 comuns, as inser\u00e7\u00f5es de imagens do ator com outras, reais, de arquivos hist\u00f3ricos, fazendo-o, inclusive, ser condecorado pelo general De Gaulle. E, fundamental, destaque para atua\u00e7\u00e3o da dupla formada por Charlotte Gainsbourg\u00a0 (Nina), perfeita como uma super \u00eddiche mamma, e Pierre Niney (Romain, adulto).<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"wp-image-64561 size-thumbnail alignleft\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Romain-gary_maior-200x207.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"207\" \/>Her\u00f3i enquanto aviador na Segunda Guerra Mundial, diplomata, escritor, cineasta, Romain Gary teve uma vida atribulada e aventureira. Mas o que n\u00e3o se sabia at\u00e9 publicar o livro, em 1960, era que a sua carreira, em grande parte, respondia aos anseios, cumprimento, a realiza\u00e7\u00e3o dos sonhos idealizados por sua m\u00e3e. Isso come\u00e7ou nos tempos em que os dois ainda portavam o sobrenome Kacew, e Nina, j\u00e1 separada do marido, e Romain peregrinavam pela R\u00fassia, Pol\u00f4nia, num per\u00edodo em que a mis\u00e9ria, salvo em raros momentos, estava sempre a espreita, pois os dois n\u00e3o eram apenas pobres, eram judeus.<br \/>\nDecidida a fazer do filho algu\u00e9m com A mai\u00fasculo, Nina n\u00e3o poupou sacrif\u00edcios para dar-lhe uma educa\u00e7\u00e3o refinada \u2013 m\u00fasica, dan\u00e7a, equita\u00e7\u00e3o, tiro \u2013 e o desejo, sobretudo, depois de escolhida a profiss\u00e3o, de tornar-se um escrito c\u00e9lebre. E n\u00e3o s\u00f3 isso. Tamb\u00e9m embaixador, aviador, her\u00f3i de guerra. A miss\u00e3o n\u00e3o era f\u00e1cil, claro, mas Nina, atriz de segunda categoria quando era jovem em Moscou, sempre tinha uma carta na manga ou um coelho na cartola, pois, acima de tudo, sabia mentir, criar lendas, seja para vender chap\u00e9us na Pol\u00f4nia, seja para vender objetos de origem duvidosa em Nice, Fran\u00e7a..<br \/>\nT\u00e3o boa era a l\u00e1bia como vendedora que lhe propuseram assumir a ger\u00eancia. de um hotel, o que deu estabilidade a fam\u00edlia at\u00e9 o in\u00edcio da Segunda Guerra, garantindo os \u00a0estudos do filho em Paris.. Engajado na for\u00e7a a\u00e9rea francesa, Romain, ap\u00f3s a capitula\u00e7\u00e3o, juntou-se a resist\u00eancia em Londres. Participou de v\u00e1rias miss\u00f5es sendo, a mais famosa, e at\u00e9 hoje colocada em d\u00favida, a de que orientou o piloto do seu avi\u00e3o, cego ap\u00f3s ser atingido por estilha\u00e7os, a cumprir a miss\u00e3o (largar sua carga de bombas no alvo pr\u00e9-determinado), voltar \u00e0 base e aterrissar. Fato que lhe valeu uma condecora\u00e7\u00e3o de De Gaule.<br \/>\nPromessa ao amanhecer trata de um amor maternal imenso, incondicional, exacerbado ao ponto do rid\u00edculo, e tamb\u00e9m a sua outra face, seu lado sufocante, possessivo, castrador, devorador, louco. Maldi\u00e7\u00e3o ou ben\u00e7\u00e3o? Est\u00e1 claro que \u00e9 preciso saber romper o cord\u00e3o umbilical. Assim, se Promessa ao amanhecer \u00e9 uma ode ao amor maternal e filial, e, se transborda de exageros, tamb\u00e9m mostra o lado \u00e9pico, guerreiro de encarar a vida. Nina \u00e9 uma verdadeira M\u00e3e coragem, mesmo se o olhar brechtiano de distanciamento passe longe. N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o se envolver. Nina que prevendo sua morte escreve e envia 250 cartas a uma amiga na Su\u00ed\u00e7a para que esta as reenvie, duas por semana, \u00a0a Romain que assim s\u00f3 saber\u00e1 da morte da m\u00e3e tr\u00eas anos depois desta ter falecido, ao voltar, condecorado, para casa.<br \/>\nO folclore baseado no amor da m\u00e3e judia, dimens\u00e3o b\u00edblica, que pode chegar \u00e0s raias do absurdo em rela\u00e7\u00e3o a sua prole, \u00e9 cantado em prosa e verso desde os tempos de Abra\u00e3o. Sobre o tema tamb\u00e9m n\u00e3o faltam piadas, vide Woody Allen, e, localmente, causos, como o relatado pelo nosso saudoso e imortal Moacyr Scliar, No bairro Bom Fim, principal enclave da comunidade judaica na capital ga\u00facha, corre o dito, lenda ou n\u00e3o, da amea\u00e7a da m\u00e3e em rela\u00e7\u00e3o ao filho reticente em se alimentar:\u201cse tu n\u00e3o comeres, eu me mato\u201d. Scliar, certa vez, disse que a sua progenitora era mais sutil, recorrendo ao expediente de lev\u00e1-lo a ver m\u00e1quinas, extraordin\u00e1rias para um menino, em funcionamento, para ent\u00e3o, aproveitando-se do fato dele ficar boquiaberto, enfiar-lhe por\u00e7\u00f5es de comida goela abaixo.<br \/>\nJudeu askenazi como Scliar, Romain Kacew nasceu Vilnius, Litu\u00e2nia, quando esta fazia parte do imp\u00e9rio russo, num per\u00edodo tr\u00e1gico e rico em acontecimentos, tais como a Primeira Guerra Mundial e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. De Vilnius a Vars\u00f3via, at\u00e9, em fim, chegar a t\u00e3o desejada Fran\u00e7a ao final dos loucos anos 1920, Romain e Nina sobreviveram como puderam as amea\u00e7as de mis\u00e9ria suprema e, mesmo, aniquilamento, pois a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus antecede em muito ao holocausto nazista.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"wp-image-64562 size-medium alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Promessa-ao-amanhecer_maior-320x400.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"400\" \/>Promessa ao amanhecer tamb\u00e9m vai muito al\u00e9m de uma simples cinebiografia, fato que, tratando-se de Gary, sempre cabe uma investiga\u00e7\u00e3o no que tem de verdadeiro ou de f\u00e1bula. Mit\u00f4mano, farsante genial que, ca\u00eddo no esquecimento como autor nos anos 1970, ir\u00e1 reinventar-se como \u00c9mile Ajar, pseud\u00f4nimo (usaria outros), e ganhar o Goncourt de literatura pela segunda vez,. em 1975,\u00a0 com Toda a vida pela frente, t\u00edtulo ir\u00f4nico para quem iria se suicidar cinco anos depois, assim como j\u00e1 o tinha feito, alguns meses antes, sua ex-mulher, a atriz Jean Seberg (Acossado, de Godard). Isso com certeza n\u00e3o fazia parte dos planos Nina.<br \/>\nCosmopolita avant la letre (et pour cause), Gary, como todo o judeu errante, \u00e9 um mesti\u00e7o cultural e ling\u00fc\u00edstico, fruto de origens diversas. Na inf\u00e2ncia falou russo e polon\u00eas e, a partir dos 14 anos, principalmente franc\u00eas, que seria a sua l\u00edngua liter\u00e1ria, embora tamb\u00e9m tenha escrito livros em ingl\u00eas. Em 1935 tornou-se cidad\u00e3o franc\u00eas e, mais tarde, trocaria seu sobrenome de Kacew para Gary, que significa queime, em russo, forma imperativa.<br \/>\nSeu primeiro livro, Educa\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia,1945, \u00a0foi bem recebido pela cr\u00edtica de esquerda que depois passou a ignor\u00e1-lo por suas posi\u00e7\u00f5es independentes e contundentes em rela\u00e7\u00e3o as ideologias, pois se odiava o nazismo e o fascismo, tamb\u00e9m desprezava o comunismo. O p\u00fablico, por\u00e9m, nunca ficou indiferente, e seus livros vendem bem at\u00e9 hoje, e com justi\u00e7a. Trata-se de um excelente escritor de obras como As ra\u00edzes do c\u00e9u, que lhe valeu o primeiro pr\u00eamio Goncourt em 1956, ou Chien blanc (C\u00e3o branco), 1970, um excelente panorama sobre o final dos anos 60, especialmente os Black panthers e as lutas raciais nos Estados Unidos.<br \/>\nH\u00e1 uma outra vers\u00e3o de Promessa ao amanhecer feita por Jules Dassin, de 1970, dispon\u00edvel no Youtube. Barbier em sua adapta\u00e7\u00e3o optou, juntamente com a sua co-roteirista, Marie Eynard, por uma narrativa cl\u00e1ssica, bem hollywoodiana. E se foi bastante respeitoso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s inten\u00e7\u00f5es originais do autor, n\u00e3o se trata, contudo, de uma mera ilustra\u00e7\u00e3o audiovisual da obra.liter\u00e1ria. Assista o filme e procure o livro. Veja e leia. Tudo no imperativo. N\u00e3o d\u00e1 pra ficar indiferente a Gary, muito menos a Nina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Ribeiro De uma adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica sempre se espera um bom relacionamento entre imagem e verbo, palavra, escrita. Ainda mais se tratando de uma autobiografia romanceada como \u00e9 o caso de &#8220;Promessa ao amanhecer&#8221;, longa franc\u00eas, 2017, e tamb\u00e9m t\u00edtulo hom\u00f4nimo do livro de Roman Gary (1914-1980), um dos maiores autores franceses do s\u00e9culo passado. 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