{"id":651,"date":"2008-06-13T16:09:31","date_gmt":"2008-06-13T19:09:31","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=651"},"modified":"2008-06-13T16:09:31","modified_gmt":"2008-06-13T19:09:31","slug":"uma-historia-embaixo-da-marquise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/uma-historia-embaixo-da-marquise\/","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria embaixo da marquise"},"content":{"rendered":"<p><strong>Helen Lopes<\/strong><br \/>\nO sol nem bem apareceu e Marco, 38 anos, \u00edndio e soropositivo, j\u00e1 recolheu a cama, embaixo da marquise na Ipiranga, quase esquina com a rua S\u00e3o Manoel, em frente ao Planet\u00e1rio.<br \/>\n&#8220;Levanto cedo, antes que venham incomodar&#8221;, esclarece. Medo da hostilidade de companheiros que, como ele dormem na rua, e, especialmente, da pol\u00edcia.<br \/>\nO encontro matinal com os amigos, no bairro Cidade Baixa \u00e9 sagrado. &#8220;Durante a tarde, vou ao grupo de hip-hop ou \u00e0s reuni\u00f5es do jornal&#8221;, pontua.<br \/>\nFazer reportagens para o Boca de Rua ou criar can\u00e7\u00f5es com os m\u00fasicos do Realidade de Rua s\u00e3o tentativas de recuperar a cidadania. Um comportamento comum entre habitantes de marquises e pra\u00e7as da capital.<br \/>\nPelo menos \u00e9 o que aponta a pesquisa Mundo da Popula\u00e7\u00e3o de Rua realizada pela UFRGS, sob encomenda da Funda\u00e7\u00e3o de Assist\u00eancia Social e Cidadania (Fasc).<br \/>\nO estudo, divulgado em 29 de maio, identificou 1.203 adultos perambulando pela cidade, n\u00famero cinco vezes maior do que apontou o \u00faltimo censo, em 1995, quando 222 pessoas foram cadastradas. &#8220;\u00c9 um n\u00famero elevado, mas est\u00e1 dentro da m\u00e9dia nacional&#8221;, minimiza a presidente da Fasc, Brizabel Rocha.<br \/>\nMarco se orgulha de ter sido um dos entrevistados e seu relato \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o da pesquisa. &#8220;Fazemos parte da sociedade, somos cidad\u00e3os e n\u00e3o lixo como disse o cara do governo&#8221;, rebela-se, fazendo refer\u00eancia \u00e0s declara\u00e7\u00f5es pol\u00eamicas do subcomandante da Brigada Militar, coronel Paulo Mendes.<br \/>\n<strong><br \/>\nO perfil do anonimato<\/strong><br \/>\nMais de 80% dos sem-teto de Porto Alegre s\u00e3o homens, sabem ler e escrever e t\u00eam entre 25 e 44 anos. Passam grande parte do dia sozinhos e sobrevivem de bicos e de doa\u00e7\u00f5es. &#8220;Corto grama, cuido de carro. N\u00e3o posso pegar emprego fixo porque estou doente&#8221;, lamenta.<br \/>\nEle n\u00e3o gosta de falar sobre a fam\u00edlia e raramente vai \u00e0 Lomba do Pinheiro encontrar algum parente. &#8220;A maioria diz que est\u00e1 na rua por ruptura familiar: maus tratos, desaven\u00e7as, abandono, separa\u00e7\u00e3o ou morte&#8221;, observa Brizabel. Falta de dinheiro e drogas tamb\u00e9m s\u00e3o caminhos para indig\u00eancia, comprova a pesquisa.<br \/>\nComo Marco, muitos dos entrevistados est\u00e3o na rua h\u00e1 pelo menos um ano. &#8220;Sa\u00ed de casa h\u00e1 mais de tr\u00eas&#8221;, calcula.<br \/>\nDurante todo esse tempo, passou uma \u00fanica noite em um albergue. Foi em fevereiro, traumatizado por um espancamento. &#8220;Eram tr\u00eas skatistas e me bateram at\u00e9 eu desmaiar. Fiquei t\u00e3o mal que tive que ir pro pronto-socorro&#8221;, relata.<br \/>\nO mais comum, no entanto, \u00e9 ser agredido pela pol\u00edcia. Quase 70% dos entrevistados sofreram ataques e os principais agentes s\u00e3o os brigadianos. Outra agress\u00e3o constante \u00e9 o preconceito. &#8220;Olham pra voc\u00ea com desconfian\u00e7a, com medo&#8221;.<br \/>\nApesar da viol\u00eancia, 60% dos entrevistados preferem cal\u00e7adas, pra\u00e7as, pontes e viadutos da cidade aos abrigos do poder p\u00fablico. Entre os motivos da recusa est\u00e3o as regras, a dificuldade de acesso e a hostilidade interna. &#8220;Gosto do povo da rua, dos amigos e da liberdade&#8221;, justifica.<br \/>\n<strong><br \/>\n\u00c1rea central concentra quase 80 % dos sem-teto<\/strong><br \/>\nExecutada entre novembro do ano passado e janeiro deste ano, a pesquisa mostra que metade dos moradores de rua est\u00e1 concentrada em tr\u00eas bairros: Centro (23%), Floresta (15,9%) e Menino Deus (11,7%). Seguidos por Cidade Baixa, Azenha e Bom Fim\/Farroupilha, a \u00e1rea central da cidade re\u00fane quase 80% dessa popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;\u00c9 nesse espa\u00e7o que se encontram os principais servi\u00e7os de atendimento, al\u00e9m da grande circula\u00e7\u00e3o de pessoas, com\u00e9rcio e servi\u00e7os&#8221;, analisa Gehlen.<br \/>\nO soci\u00f3logo chama a aten\u00e7\u00e3o para o crescimento da popula\u00e7\u00e3o no Menino Deus e tamb\u00e9m na Independ\u00eancia, onde 11 pessoas foram abordadas. No bairro Moinhos de Vento, houve apenas um registro. &#8220;Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja sem-teto na regi\u00e3o, a categoria diz respeito ao local onde eles foram entrevistados&#8221;, esclarece.<br \/>\n<strong>Diminui n\u00famero de crian\u00e7as nas ruas<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m dos adultos, a pesquisa da Fasc vai identificar crian\u00e7as sem-teto e a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, afrodescendente e quilombola que vive nas ruas. At\u00e9 o final de junho, a Prefeitura deve divulgar a segunda parte do trabalho, que indica redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de menores nas ruas.<br \/>\nO coordenador adianta que o percentual deve ser 20% menor &#8211; em 2004, eram 600 crian\u00e7as. &#8220;Essa diminui\u00e7\u00e3o \u00e9 reflexo dos programas sociais, como o Bolsa Fam\u00edlia, e tamb\u00e9m da melhoria de vida nas cidades da regi\u00e3o metropolitana&#8221;, avalia Gehlen.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helen Lopes O sol nem bem apareceu e Marco, 38 anos, \u00edndio e soropositivo, j\u00e1 recolheu a cama, embaixo da marquise na Ipiranga, quase esquina com a rua S\u00e3o Manoel, em frente ao Planet\u00e1rio. &#8220;Levanto cedo, antes que venham incomodar&#8221;, esclarece. Medo da hostilidade de companheiros que, como ele dormem na rua, e, especialmente, da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[73,74],"class_list":["post-651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-moradores-de-rua","tag-sem-teto"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-av","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=651"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}