{"id":65249,"date":"2018-09-04T19:25:23","date_gmt":"2018-09-04T22:25:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=65249"},"modified":"2018-09-04T19:25:23","modified_gmt":"2018-09-04T22:25:23","slug":"mateus-bandeira-a-mudanca-nao-vira-dos-partidos-tradicionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/mateus-bandeira-a-mudanca-nao-vira-dos-partidos-tradicionais\/","title":{"rendered":"Mateus Bandeira: &quot;A mudan\u00e7a n\u00e3o vir\u00e1 dos partidos tradicionais&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Mateus Affonso Bandeira, pelotense, de 49 anos, \u00e9 formado em Inform\u00e1tica pela Cat\u00f3lica de Pelotas, com estudos complementares, entre outros, na Harvard Business School.<br \/>\nFez carreira no servi\u00e7o p\u00fablico, como\u00a0 Auditor fiscal e chegou a diretor do Tesouro, mas desligou-se para se dedicar \u00e0 consultoria de empresas.<br \/>\nFoi secret\u00e1rio do Planejamento no governo Yeda Crusius, e presidente do Banrisul. Agora, pouco antes de virar a curva do meio s\u00e9culo de vida, estreia na pol\u00edtica, como candidato ao governo do Estado pelo Partido Novo.<br \/>\nEstimular o empreendedorismo, vender todas as estatais, refor\u00e7ar parcerias do estado com a iniciativa privada, s\u00e3o propostas que apresenta aos eleitores. S\u00e3o t\u00f3picos que desenvolve nesta entrevista exclusiva ao J\u00c1.<br \/>\n<strong>J\u00c1: O sr. defende um estado m\u00ednimo, quer dizer, um estado para quem precisa?<\/strong><br \/>\nMB: Exatamente o contr\u00e1rio. A gente prega o cidad\u00e3o m\u00e1ximo. Tirar o estado de onde<br \/>\nele atua, sem atender o cidad\u00e3o que precisa dele. O estado atua hoje em<br \/>\nsegmentos que n\u00e3o tem nada a ver com as necessidades b\u00e1sicas do cidad\u00e3o. Minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e energia el\u00e9trica (a CEEE gera a cada ano um preju\u00edzo de meio bilh\u00e3o de reais), correios, perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7os de petr\u00f3leo. Com isso deixa de cumprir a sua fun\u00e7\u00e3o mais essencial. Iss \u00e9 o estado m\u00ednimo, o estado que n\u00e3o garante o b\u00e1sico.<br \/>\n<strong>J\u00c1. Como tem que ser o estado?<\/strong><br \/>\nMB: Um estado que n\u00e3o se meta na vida das pessoas e n\u00e3o atue em \u00e1reas onde o setor privado \u00e9 mais eficiente.\u00a0 Estado eficiente \u00e9 o que prega o Partido Novo, focado em seguran\u00e7a e acesso a sa\u00fade para quem n\u00e3o pode pagar. Queremos encerrar o ciclo da velha pol\u00edtica, dos pol\u00edticos profissionais que governaram para si e distribu\u00edram privil\u00e9gios para poucos.<br \/>\n<strong>J\u00c1: O sr tem muitas propostas semelhantes \u00e0s de Sartori. Qual a sua diferen\u00e7a em\u00a0<\/strong><strong>rela\u00e7\u00e3o a ele?<\/strong><br \/>\nMB: Somos quilometricamente distantes do que prop\u00f5e Sartori, embora haja algumas<br \/>\nconverg\u00eancias. O Sartori come\u00e7ou seu governo em 2015 concedendo aumento de sal\u00e1rio para quem ganha mais. Quando eu estive no governo, a frente do Tesouro Estadual e do Planejamento, entre 2007 e 2009, foram as \u00fanicas vezes em que as contas chegaram no azul. Sabe por qu\u00ea? N\u00f3s enfrentamos as corpora\u00e7\u00f5es, seguramos as despesas p\u00fablicas. N\u00e3o permitimos a concess\u00e3o de reajustes. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a que eu tive no quesito de organizar as contas p\u00fablicas. Sartori, com atraso, tamb\u00e9m percebeu que a despesa n\u00e3o poderia ser maior do que a receita.\u00a0<span style=\"font-weight: 300\">H\u00e1 outras diferen\u00e7as. Sartori prop\u00f5e o Regime de Recupera\u00e7\u00e3o Fiscal, mas se recusa a privatizar o Banrisul. N\u00f3s n\u00e3o. Ele defende a manuten\u00e7\u00e3o do controle estatal do Banrisul, mas vende a\u00e7\u00f5es do banco abaixo do valor patrimonial.<\/span><br \/>\n<strong>J\u00c1: O sr. reconhece alguma coisa boa no governo dele?<\/strong><br \/>\nMB: \u00c9 preciso reconhecer que Sartori, em algumas coisas, agiu corretamente, coisas,<br \/>\npor exemplo, que l\u00e1 no governo Yeda n\u00f3s n\u00e3o tivemos capacidade pol\u00edtica para fazer,<br \/>\ncomo, por exemplo, a aprova\u00e7\u00e3o do regime de previd\u00eancia complementar, um projeto<br \/>\nelaborado por n\u00f3s, apresentado por mim, e que eu liderei, inclusive, mas n\u00e3o tivemos<br \/>\nmaioria na Assembl\u00e9ia.\u00a0Outro exemplo \u00e9 a Lei de Responsabilidade Fiscal, que escrevi enquanto diretor do Tesouro, tamb\u00e9m rejeitado na Assembleia, mas que o governo Sartori resolveu aprovar. Enfim, este Regime de Recupera\u00e7\u00e3o Fiscal est\u00e1 na dire\u00e7\u00e3o correta, mas em marcha lenta. E n\u00e3o conseguiu fazer um plebiscito sobre as estatais. Faltou determina\u00e7\u00e3o, arrojo, ousadia, vontade pol\u00edtica em chamar a sociedade para participar do debate. Essas companhias s\u00e3o geralmente capturadas pelos partidos pol\u00edticos que se apropriam delas. Sartori n\u00e3o entende isso, n\u00e3o tem este convencimento. Ele quer privatizar a CRM porque \u00e9 uma empresa que vende um \u00fanico produto para um \u00fanico cliente. N\u00f3s queremos privatizar todas as companhias porque n\u00e3o \u00e9 papel do estado cuidar de empresas. Outra diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Sartori, \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o fazemos coliga\u00e7\u00e3o em troca de tempo em TV e r\u00e1dio, pouco importando o tempo que teremos, m\u00ednimo, seis segundos. A vantagem de n\u00e3o ter tempo de TV e r\u00e1dio \u00e9 que gravamos toda a nossa participa\u00e7\u00e3o em 30 minutos.<br \/>\n<strong>J\u00c1: Embora no governo da Yeda, o sr. nunca chegou a flertar com o PSDB?<\/strong><br \/>\nMB: Nunca fui do PSDB. O governo da Yeda tamb\u00e9m era formado por pessoas de<br \/>\noutros partidos e por t\u00e9cnicos, entre os quais me incluo, que compunham o governo.<br \/>\nAli\u00e1s, eu estava no governo federal, do Lula, quando ela me convidou. Eu fui um<br \/>\nservidor p\u00fablico de carreira da Fazenda. Comecei em 1993 e passei por v\u00e1rios governos: Collares, Brito. No governo Ol\u00edvio Dutra, do PT, eu me afastei, fui cedido para a CEEE. Depois me licenciei, fui estudar no exterior. Mas nunca fui do PSDB. Fui do Tesouro, e l\u00e1 os tucanos diziam que eu era petista e os petistas diziam que eu era tucano.<br \/>\n<strong>J\u00c1: Neste estado cidad\u00e3o que o sr. prega, o que deveria ser<\/strong><br \/>\n<strong>tratado como pol\u00edtica de estado?<\/strong><br \/>\nMB: H\u00e1 v\u00e1rios temas que perpassam os governos. S\u00e3o quest\u00f5es de princ\u00edpio e que<br \/>\ndevem estar presentes em qualquer governo. Por exemplo, o princ\u00edpio da responsabilidade fiscal, do dinheiro p\u00fablico, das prioridades. No governo, quem gasta<br \/>\nmais do que arrecada deveria ser preso. \u00c9 por isso que tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 pra culpar s\u00f3 o Sartori, pois as despesas foram infladas por medidas tomadas no governo anterior.<br \/>\n<strong>J\u00c1: O sr. poderia especificar mais o seu projeto para a educa\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nMB: Podemos come\u00e7ar pelo diagn\u00f3stico: a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica estatal \u00e9 um desastre no<br \/>\nBrasil inteiro. E os dados do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, via Indeb, confirmam isto. Temos<br \/>\numa pol\u00edtica de educa\u00e7\u00e3o fracassada. Basta olhar para os n\u00fameros e constatar que n\u00f3s estamos formando analfabetos funcionais. Ent\u00e3o, temos um problema s\u00e9rio, pois a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o principal desafio de longo prazo do pa\u00eds. Dito isso, educa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante que n\u00e3o pode ficar na m\u00e3o do estado. Esta \u00e9 a nossa cren\u00e7a.<br \/>\n<strong>J\u00c1: Por que n\u00e3o pode ficar na m\u00e3o do estado?<\/strong><br \/>\nMB: Por que ela acaba sendo capturada pelos pol\u00edticos e pelos sindicatos, que n\u00e3o est\u00e3o preocupados com a quest\u00e3o da aprendizagem, mas com seus interesses. Outra distor\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o decorre do nosso sistema de previd\u00eancia: a aposentadoria precoce dos professores. A maioria \u00e9 mulher e se aposenta com dez anos menos, 25 anos. Elas se aposentam com 50 e vivem at\u00e9 os 80. \u00c9 por isso que em 2017, dos 8,5 bilh\u00f5es gastos pelo estado na rubrica educa\u00e7\u00e3o no RS, cerca de cinco bilh\u00f5es eram destinados \u00e0s aposentadorias e pens\u00f5es. Ou seja, consomem-se recursos dos impostos para pagar aposentadoria, e n\u00e3o educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>J\u00c1: Como o sr. pretende resolver todos estes problemas?<\/strong><br \/>\nMB: N\u00f3s propomos quatro pontos principais no nosso plano de educa\u00e7\u00e3o: 1) introduzir o vaucher (vale) escola, algo bem sucedido em alguns pa\u00edses, e que aqui foi<br \/>\nexperimentado no ensino superior, o Pr\u00f3-uni. Vamos fazer isso no ensino b\u00e1sico. Trata-se de comprar vaga em escola privada de boa qualidade para as demandas. \u00c9 a melhor forma que existe, rapidamente, de diminuir a dist\u00e2ncia que existe entre a qualidade do ensino p\u00fablico e do ensino privado;\u00a0 2) outro modelo \u00e9 charter school. Neste o estado entrega o or\u00e7amento e a gest\u00e3o para uma entidade filantr\u00f3pica ou privada, mas cobra desempenho e transpar\u00eancia;\u00a0 3) municipaliza\u00e7\u00e3o das escolas estaduais. Temos um pouco mais de 900 mil alunos inscritos na rede estadual de ensino. Destes, 510 mil s\u00e3o de ensino fundamental que deveriam estar nas m\u00e3os do munic\u00edpios que, estando mais pr\u00f3ximos da comunidade, t\u00eam mais facilidades de implantar medidas que melhorem a gest\u00e3o das escolas; 4) colocar mecanismos b\u00e1sicos de gest\u00e3o na rede estadual de ensino m\u00e9dio. Introduzir plano de metas e desenvolver a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Tamb\u00e9m montar sistemas de incentivos. Em suma, fazer gest\u00e3o como se faz nas empresas e na rede privada de ensino. Sem dire\u00e7\u00e3o, sem meta, n\u00e3o se sabe se houve ou n\u00e3o melhorias.<br \/>\n<strong>J\u00c1: A sa\u00fade tamb\u00e9m est\u00e1 bastante sucateada&#8230;<\/strong><br \/>\nMB: O or\u00e7amento para a Sa\u00fade no Rio Grande do Sul \u00e9 de aproximadamente R$ 4 bilh\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Mas, mais uma vez, falta gest\u00e3o e falta intelig\u00eancia na<br \/>\naloca\u00e7\u00e3o dos recursos. Basicamente o que o estado faz \u00e9 regula\u00e7\u00e3o e contratualiza\u00e7\u00e3o com entidades filantr\u00f3picas, com hospitais beneficentes ou privados para atender as demandas regionalmente. N\u00e3o existe nenhum trabalho de mapeamento da demanda com a oferta de servi\u00e7os. Boa parte destes servi\u00e7os contratualizados foi feita no passado por indica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sa\u00fade no s\u00e9culo XXI, como fazem nos pa\u00edses desenvolvidos, \u00e9 tecnologia, boa gest\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o. O que falta \u00e9 intelig\u00eancia.<br \/>\n<strong>J\u00c1: No que tange as especializa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 muita car\u00eancia de recursos e equipamentos\u00a0<\/strong><strong>para o atendimento no interior do estado.<\/strong><br \/>\nMB: Claro. \u00c9 por isso que existe fila de espera enorme para procedimentos de alta e<br \/>\nm\u00e9dia complexidade. Tenho acompanhado bastante isto como membro consultor do<br \/>\nHospital Moinhos de Vento. Existe uma car\u00eancia de profissionais especializados para<br \/>\natender no SUS. Estes profissionais n\u00e3o v\u00e3o para o interior e isso gera uma fila<br \/>\ngigantesca pra este tipo de consulta. Estudos mostram que 60 por cento daquilo que \u00e9 encaminhado para a fila de espera pode ser resolvido na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Como \u00e9 que o Reino Unido resolveu isso? Introduzindo mais telemedicina para que os profissionais mais especializados, aqueles que atendem somente nos grandes centros, possam, junto com o profissional da sa\u00fade local,orientar na resolu\u00e7\u00e3o do problema, s\u00f3 recomendando o encaminhamento para consultas especializadas quando for absolutamente necess\u00e1rio. Outra medida seria dotar as Unidades B\u00e1sicas de Tratamento (UBS) com equipamentos para resolver coisas mais simples \u2013 exame de sangue, eletrocardiograma, raio x, evitando que o paciente necessite ir para outro local e aguardar numa fila de espera. Depois, existe o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional (PROADI-SUS), do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que permite atrav\u00e9s isen\u00e7\u00e3o de impostos que hospitais de alto padr\u00e3o (Albert Einstein ou S\u00edrio-Liban\u00eas, por exemplo) fa\u00e7am filantropia e atendam a popula\u00e7\u00e3o mais carente, permitindo a realiza\u00e7\u00e3o de exames que atrav\u00e9s de SUS levaria meses ou anos para serem realizados. Isso pode ser feito aqui. Buscar, no \u00e2mbito do PROADI, parceria com estes grandes hospitais privados e assim poder utilizar equipamentos de ponta, que s\u00e3o car\u00edssimos, destas institui\u00e7\u00f5es. A ideia \u00e9 fazer mais com os mesmos recursos. Intelig\u00eancia e gest\u00e3o O atual governo n\u00e3o avalia o que \u00e9 prestado ao cidad\u00e3o.<br \/>\n<strong>J\u00c1: O tema da seguran\u00e7a tem dominado todos os debates.<\/strong><br \/>\nMB: Seguran\u00e7a \u00e9 a maior preocupa\u00e7\u00e3o dos ga\u00fachos, dos brasileiros. Pela primeira vez<br \/>\nn\u00f3s temos Porto Alegre inclu\u00edda na lista das 50 cidades mais violentas do mundo, \u00e9 a<br \/>\ntrig\u00e9sima nona. Proporcionalmente \u2013 m\u00e9dia de 40 homic\u00eddios por grupo de 100 mil habitantes \u2013se mata mais aqui do que no Rio de Janeiro que vive uma fal\u00eancia geral e sob interven\u00e7\u00e3o. Andar em Porto Alegre d\u00e1 medo. Houve casos em que as quadrilhas levaram bloqueador de celular para a cidade em que agiam, ningu\u00e9m conseguiu chamar a pol\u00edcia. Pra n\u00f3s a seguran\u00e7a \u00e9 t\u00e3o priorit\u00e1ria quanto botar as contas em ordem. N\u00e3o d\u00e1 para esperar. N\u00e3o vamos deixar a popula\u00e7\u00e3o morrer. S\u00e3o v\u00e1rias as raz\u00f5es da escalada do crime. O estado enfraqueceu e perdeu a capacidade<br \/>\npara investir nas pol\u00edcias e no sistema prisional. As leis contra o crime s\u00e3o muito<br \/>\nbrandas. Do outro lado houve o fortalecimento das fac\u00e7\u00f5es criminosas. Elas ampliaram seus neg\u00f3cios e ganharam receitas adicionais como o contrabando de cigarros do Paraguai, onde a tributa\u00e7\u00e3o \u00e9 17 por cento, contra 70 por cento da nossa. Hoje, quase 50 por cento do mercado de cigarros \u00e9 contrabando. Tornou-se a principal fonte de financiamento do crime organizado no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. As fac\u00e7\u00f5es se empoderaram, disputam territ\u00f3rios, s\u00e3o extremamente violentas. Este contrabando tamb\u00e9m acabou com 30 mil empregos formais na ind\u00fastria do tabaco. Isto significa menos 550 milh\u00f5es de impostos no Rio Grande do Sul. Preju\u00edzo para 75 mil fam\u00edlias ga\u00fachas que plantam fumo.<br \/>\n<strong>J\u00c1. Como o sr. pretende enfrentar a criminalidade?<\/strong><br \/>\nMB: O combate ao crime comum se faz com policial na rua. J\u00e1 a luta contra o crime<br \/>\norganizado \u2013 drogas, contrabando, assalto a bancos \u2013 se faz com intelig\u00eancia,<br \/>\nmonitoramento. \u00c9 fundamental investir nas pol\u00edcias judici\u00e1ria e cient\u00edfica, melhorar o<br \/>\ngrau de elucida\u00e7\u00e3o dos crimes que hoje \u00e9 de cinco por cento: o sujeito tem que cometer 20 crimes para ser pego uma vez. Ou 20 criminosos cometem crimes e a gente s\u00f3 pega um deles. Tem que colocar tecnologia, gest\u00e3o, melhorar os processos e montar uma for\u00e7a tarefa permanente que re\u00fana e integre dados de todas as for\u00e7as policiais. Para tanto \u00e9 preciso recompor os efetivos, mas com treinamento adequado, da pol\u00edcia civil e da Brigada Militar. Isto, em parte, \u00e9 feito atrav\u00e9s de incentivos que freiem as aposentadorias precoces ou reconduza ao trabalho aqueles que querem voltar. Atualmente, para cada 100 reais que se gasta com policiais na rua, gasta-se 200 com policiais aposentados. Para se ter uma ideia, hoje, a folha da Brigada Militar \u00e9 de R$129 milh\u00f5es mensais para os ativos, e de R$ 280 milh\u00f5es para os inativos.<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o adianta prender num dia e o juiz soltar no outro porque as pris\u00f5es est\u00e3o<br \/>\nlotadas. Para acabar com esta desculpa vamos construir seis penitenci\u00e1rias, uma delas com regime disciplinar diferenciado para isolar comandantes de fac\u00e7\u00f5es.Tamb\u00e9m queremos retomar o projeto de uma Parceria P\u00fablico Privada (PPP) prisional. Conheci este sistema no Reino Unido e nos Estados Unidos. Fiz um projeto quando era secret\u00e1rio do planejamento para desativar o Central, mas o governo seguinte n\u00e3o deu continuidade. Este modelo tradicional de pris\u00e3o est\u00e1 falido. \u00c9 preciso organizar um local onde o preso seja obrigado a trabalhar e garantir o seu sustento. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso elevar o custo para quem comete crime. As penas est\u00e3o muito brandas. Nos Estados Unidos, em alguns estados, aplicava-se a lei Three Strike out. Ou seja, pris\u00e3o perp\u00e9tua para o indiv\u00edduo que comete o mesmo crime tr\u00eas vezes. N\u00e3o h\u00e1 ressocializa\u00e7\u00e3o para este n\u00edvel de reincidente. O que existe no Brasil \u00e9 impunidade em massa , e n\u00e3o encarceramento. Devemos acabar com o abrandamento de penas, como o indulto (para n\u00f3s um insulto) de Natal, pois soltam os bandidos no final do ano. Terminar com a sa\u00eddas tempor\u00e1rias, coisas esquizofr\u00eanicas, como o caso da Suzane von Richtofen, que matou os pais e saiu no dia das m\u00e3es. Essa \u00e9 a nossa lei penal. Tem que mudar isso. Prender mais, a gente prende muito pouco.<br \/>\n<strong>J\u00c1: Como fica a quest\u00e3o do funcionalismo p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nMB: O principal problema \u00e9 o regime de aposentadoria em rela\u00e7\u00e3o ao setor privado. Porque esta discrep\u00e2ncia entre os que se aposentam pelo INSS, aos 65 anos, com sal\u00e1rios menores, e um juiz com R$ 40 mil? Por que este instrumento de desigualdade? Um por cento entre os mais ricos no Brasil \u00e9 formado majoritariamente por servidores p\u00fablicos. Se n\u00e3o mudar esta regra de aposentadoria o estado, em breve, n\u00e3o vai ter mais capacidade de financiar despesa p\u00fablica. De nada adiantar\u00e1 aumentar a carga tribut\u00e1ria, pois chegar\u00e1 a curva de Laffer, onde quanto mais se cobra, menos se arrecada.Vamos chegar a Revolu\u00e7\u00e3o de Atlas (refer\u00eancia ao livro A revolta de Atlas de Ayn Rand). O Rio Grande do Sul vai virar uma Gr\u00e9cia sem a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia para ajudar. No servi\u00e7o p\u00fablico s\u00f3 devem ficar aqueles das \u00e1reas onde n\u00e3o d\u00e1 para delegar: educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a. A reposi\u00e7\u00e3o de servidores deve ser s\u00f3 nestas \u00e1reas.<br \/>\n<strong>J\u00c1: No atual governo o sal\u00e1rio dos servidores \u00e9 parcelado. Como ser\u00e1 no<\/strong><br \/>\n<strong>seu?<\/strong><br \/>\nMB: Se o Sartori pudesse, ele pagava em dia, n\u00e3o iria enfrentar este desgaste numa<br \/>\nelei\u00e7\u00e3o. Durante algum tempo os sal\u00e1rios dos servidores continuar\u00e3o a atrasando. S\u00f3 um ignorante, que n\u00e3o entende nada de finan\u00e7as, ou um demagogo, pode dizer que ir\u00e1 acertar isso logo.<br \/>\n<strong>J\u00c1: E o que o sr. tem a dizer sobre o Regime de Recupera\u00e7\u00e3o Fiscal proposto por<\/strong><br \/>\n<strong>Sartori?<\/strong><br \/>\nMB: \u00c9 o \u00fanico caminho que a gente tem a curto prazo para colocar as finan\u00e7as em<br \/>\nordem. \u00c9 o al\u00edvio no servi\u00e7o da d\u00edvida, tr\u00eas bilh\u00f5es por ano, e isso pode permitir que as<br \/>\nmudan\u00e7as, que as reformas sejam feitas num ambiente de normalidade. Sem isso n\u00e3o<br \/>\nd\u00e1. E \u00e9 bom porque exige que o estado corra atr\u00e1s das privatiza\u00e7\u00f5es. Caso contr\u00e1rio o<br \/>\nestado se torna ingovern\u00e1vel. Pretendo manter a al\u00edquota de ICMS, mas enviarei uma<br \/>\nproposta a Assembl\u00e9ia para que seja estabelecida uma redu\u00e7\u00e3o gradual, 25 por cento,<br \/>\nano a ano, at\u00e9 voltar ao patamar original, para ter competitividade.<br \/>\n<strong>J\u00c1: O Novo \u00e9 tido como um partido de empres\u00e1rios. Isto \u00e9 bom para atrair<\/strong><br \/>\n<strong>investimento?<\/strong><br \/>\nMB: N\u00e3o, ele \u00e9 composto por elementos de todos os segmentos sociais. Montamos um partido porque a mudan\u00e7a s\u00f3 pode vir atrav\u00e9s de um partido. Ela n\u00e3o vir\u00e1 dos tradicionais, todos eles envolvidos com corrup\u00e7\u00e3o. Tem algumas diferen\u00e7as. O Novo n\u00e3o usa dinheiro p\u00fablico, do fundo partid\u00e1rio, eleitoral. Entende que os partidos s\u00e3o<br \/>\norganiza\u00e7\u00f5es privadas, assim como os clubes de futebol, as igrejas. N\u00e3o tem o menor<br \/>\nsentido tirar dinheiro da popula\u00e7\u00e3o para financiar partido pol\u00edtico. Este dinheiro, cerca<br \/>\nR$1,8 bilh\u00e3o, poderia ter ido para a Educa\u00e7\u00e3o, para a Sa\u00fade, para a Seguran\u00e7a. O Novo se financia s\u00f3 com doa\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias. Somos pessoas que querem resgatar o pa\u00eds de volta destes que nos roubaram. O novo \u00e9 a \u00fanica alternativa de renova\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 composto por pessoas que nunca se candidataram a nada. Quanto a outra quest\u00e3o, o que atrai investimento, empreendedor, \u00e9 baixa carga tribut\u00e1ria, baixa complexidade da legisla\u00e7\u00e3o, e um ambiente de neg\u00f3cios que facilite a vida. Temos uma legisla\u00e7\u00e3o ambiental est\u00fapida, que trata todo mundo que quer produzir como um inimigo do meio ambiente, um aparato fiscal que trata de maneira hostil quem produz, quem trabalha. E trata todos aqueles que produzem riqueza como inimigos da sociedade. O Novo quer reverter isso. Garantir um ambiente mais simples, mais justo, com facilidades para quem quer empreender, com menos burocracia, menos alvar\u00e1, etc.<br \/>\n<strong>J\u00c1: Tamb\u00e9m h\u00e1 muita pol\u00eamica em rela\u00e7\u00e3o a lei Kandir.<\/strong><br \/>\nMB: H\u00e1 muita fal\u00e1cia em torno da Lei Kandir, que a Uni\u00e3o nos deve. A lei desonerou<br \/>\nprodutos semielaborados.e que s\u00e3o importantes na pauta de importa\u00e7\u00f5es do Rio Grande do Sul.. Ao desoner\u00e1-los tornou-os mais competitivos e se exporta mais. Nos primeiros anos \u2013 d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo passado \u2013 houve perdas e a Uni\u00e3o ressarciu uma parte. Depois, como se exportou mais, este dinheiro retornou para a nossa economia, pois cresceu o consumo. A\u00ed o governo federal diminuiu as compensa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 um projeto de lei de ressarcimento e o RS receberia R$ 9 bilh\u00f5es, R$ 900 milh\u00f5es ano \u2013 contra os R$200 milh\u00f5es que recebe atualmente &#8211; o que j\u00e1 est\u00e1 de bom tamanho. A gente perdeu muito mais com a redu\u00e7\u00e3o das transfer\u00eancias do Fundo de Participa\u00e7\u00e3o dos Estados por conta das desonera\u00e7\u00f5es do que com a Lei Kandir. E ningu\u00e9m fala disso, ficam naquele lero-lero, porque n\u00e3o conhecem finan\u00e7as. O problema \u00e9 o tamanho da despesa p\u00fablica. Porque a receita que vier da Uni\u00e3o vir\u00e1 de n\u00f3s. Todos falam de dinheiro como se ele sa\u00edsse do nada, desse em \u00e1rvores. Quando as pessoas pedem o imposs\u00edvel, s\u00f3 os mais mentirosos se elegem, frase de Tomas Sowell, um economista americano. (na verdade \u00e9\u00a0\u201cs\u00f3 os mentirosos podem satisfaz\u00ea-las\u201d).<br \/>\n<strong>J\u00c1: O sr ficou 24 horas no ar, na live, conversando com internautas. Como foi a<\/strong><br \/>\n<strong>experi\u00eancia?<\/strong><br \/>\nMB: 24 horas no ar, mas 36 acordado. Tive o acompanhamento de 400 mil pessoas.<br \/>\nGravamos aqui em casa. Tive a ideia quando estava separando uns dvds para os meu<br \/>\nfilhos e vi a capa do House of Cards e pensei, vou fazer isso agora, j\u00e1 que n\u00e3o tenho<br \/>\ntempo no r\u00e1dio e na TV. Trata-se de um epis\u00f3dio da quinta temporada, 53, onde o<br \/>\ngovernador de Nova Iorque concorre contra o Francis Underwood (personagem fict\u00edcio<br \/>\ne protagonista da s\u00e9rie), e fica 24 horas no ar. O Beto Sousa topou e montou todo o<br \/>\naparato para gravar. E d\u00ea-lhe cafezinho, redbull e chimarr\u00e3o. Foi dif\u00edcil. Mas valeu.<br \/>\n<strong>J\u00c1: O sr. faria alguma coliga\u00e7\u00e3o no segundo turno, ou apoiaria algum partido que<\/strong><br \/>\n<strong>tivesse mais afinidade com as suas convic\u00e7\u00f5es liberais?<\/strong><br \/>\nMB: O eleitorado que disputamos \u00e9 aquele do eleitor que est\u00e1 cansado da pol\u00edtica e dos pol\u00edticos tradicionais, mas quer votar. Tamb\u00e9m corremos o risco que esta descren\u00e7a vire\u00a0voto branco,nulo, ou, simplesmente, o eleitor se ausente. Disputamos o eleitorado que n\u00e3o quer votar mais no PT, no PMDB ou no PSDB. Todos estes partidos se tornaram uma mesma geleia. Todos eles t\u00eam o seu corrupto de estima\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um eleitorado que quer votar em gente \u00e9tica, que est\u00e1 fora deste jogo pol\u00edtico. Ou seja, as pessoas cansaram dos partidos tradicionais. Eu n\u00e3o sou um pol\u00edtico profissional e n\u00e3o quero fazer da pol\u00edtica um meio de vida. Vou me candidatar uma \u00fanica vez. Se eu ganhar, vou governar e ser\u00e1 o maior desafio da minha vida. Se eu n\u00e3o ganhar, estou fora, e na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o ajudo outro. N\u00e3o conversei com nenhum dirigente de partido. Nossa alian\u00e7a \u00e9 com a sociedade. N\u00e3o queremos fazer coliga\u00e7\u00f5es esp\u00farias. Agora, depois de ganhar as elei\u00e7\u00f5es n\u00f3s vamos chamar os deputados que tiverem alinhamento com o que\u00a0precisa ser feito. Uma coisa tenho certeza: vou para o segundo turno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mateus Affonso Bandeira, pelotense, de 49 anos, \u00e9 formado em Inform\u00e1tica pela Cat\u00f3lica de Pelotas, com estudos complementares, entre outros, na Harvard Business School. Fez carreira no servi\u00e7o p\u00fablico, como\u00a0 Auditor fiscal e chegou a diretor do Tesouro, mas desligou-se para se dedicar \u00e0 consultoria de empresas. 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