{"id":65280,"date":"2018-09-10T08:44:34","date_gmt":"2018-09-10T11:44:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=65280"},"modified":"2018-09-10T08:44:34","modified_gmt":"2018-09-10T11:44:34","slug":"ary-cezimbra-o-guru-das-abelhas-sem-ferrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/ary-cezimbra-o-guru-das-abelhas-sem-ferrao\/","title":{"rendered":"Ary Cezimbra, o guru das abelhas sem ferr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>GERALDO HASSE<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00c0s v\u00e9spera da primavera de 2018, rec\u00e9m-entrado no 82\u00ba ano da sua exist\u00eancia, o apicultor Ary Cezimbra fez um balan\u00e7o do seu estoque e viu que poderia alegrar a vizinhan\u00e7a com uma promo\u00e7\u00e3o: mel a R$ 10 o quilo pra abrir espa\u00e7o no por\u00e3o de sua casa no bairro S\u00e3o Caetano, em Arroio do Meio, no vale do Taquari, j\u00e1 que logo-logo ter\u00e1 nas m\u00e3os uma nova safra.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Em poucos dias vendeu 400 quilos. Sobrou um pouco mas ele diz que n\u00e3o se preocupa com o poss\u00edvel envelhecimento do estoque pois, \u201cse for colhido com higiene, o mel n\u00e3o tem prazo de validade\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Considerado um dos principais precursores da meliponicultura no vale do Taquari, Cezimbra nasceu em 1937 em Iju\u00ed, mas com dez anos de idade mudou-se com a fam\u00edlia para Tr\u00eas Passos, no extremo noroeste ga\u00facho, onde aprendeu a lidar com as abelhas nativas e as imigrantes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Sua favorita \u00e9 a jata\u00ed, que produz at\u00e9 dois quilos de mel por ano, volume que n\u00e3o chega nem a 10% da produ\u00e7\u00e3o de uma colm\u00e9ia de abelhas mel\u00edferas trazidas da Europa no s\u00e9culo XIX. Ele tamb\u00e9m abriga em sua casa a jandira, a tubuna, a vor\u00e1, a manda\u00e7aia, a marmelada, a mambuca&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Das 24 esp\u00e9cies nativas identificadas no Rio Grande do Sul, s\u00f3 n\u00e3o gosta da iratim, que invade os ninhos alheios para roubar mel. Se captura um enxame dessa esp\u00e9cie, que produz um mel amargo, n\u00e3o lhe d\u00e1 chance de se meter na vida das outras abelhas. Procedimento que ele explica assim: \u201cDeus, quando criou o mundo, deu uma miss\u00e3o para cada ser vivo. Foi o que aprendi na floresta. Em cada pau tinha uma fam\u00edlia trabalhando. Antes eu destru\u00eda os ninhos, mas depois entendi que o principal trabalho das abelhas \u00e9 garantir a continuidade da floresta\u201d. Foi assim tamb\u00e9m que aprendeu a ser humilde diante da complexidade da Natureza. Por isso Cezimbra \u00e9 constantemente citado pelos t\u00e9cnicos da Emater de Arroio do Meio como um dos precursores da meliponicultura no vale do Taquari.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u201cAntes aqui ningu\u00e9m ligava para as abelhas sem ferr\u00e3o\u201d, diz Cezimbra, cuja experi\u00eancia estimulou diversas pessoas a criar as nativas, quase invis\u00edveis em seu trabalho de poliniza\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio das abelhas mel\u00edferas, que t\u00eam fama e reconhecimento por produzir mel, pr\u00f3polis e gel\u00e9ia real.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Como explica Elias de Marco, t\u00e9cnico da Emater em Arroio do Meio, o crescimento das abelhas sem ferr\u00e3o no vale do Taquari tem a ver com a perda de espa\u00e7o das abelhas europ\u00e9ias diante da urbaniza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas rurais. Em busca do sossego necess\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o profissional de mel, apicultores do vale foram parar no Pampa, onde muitos fazendeiros abrem matos e campos nativos \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de api\u00e1rios. Sa\u00edram de Estrela e Lajeado, as \u201ccapitais\u201d do vale do Taquari, alguns dos maiores apicultores da Metade Sul do Rio Grande. Casos de Pedro Ferronatto em Livramento e de Gerson Fensterseifer em Bag\u00e9.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Bem diferente \u00e9 a hist\u00f3ria de Ary Cezimbra, que fez, de certa forma, um percurso inverso, migrando da regi\u00e3o missioneira tomada pela sojicultura para Arroio do Meio, uma cidade pequena (20 mil habitantes) onde se destacam agroind\u00fastrias, cooperativas e s\u00edtios de pequenas dimens\u00f5es. Ap\u00f3s 52 anos em Tr\u00eas Passos, Ary e sua mulher Cecilia mudaram-se para a periferia de Arroio do Meio a fim de ficar perto dos filhos estabelecidos em cidades do vale do Taquari. Apenas Oracil, o filho do meio, mora em Minas Gerais, onde \u00e9 metal\u00fargico.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Pai de sete filhos, Cezimbra ensinou a prole a lidar com todas as abelhas. Segundo ele, at\u00e9 as meninas poderiam tomar conta dos neg\u00f3cios ap\u00edcolas da fam\u00edlia mas, atualmente, quem cuida dp assunto \u00e9\u00a0\u00a0Jos\u00e9 Cezimbra, o mais velho, nascido em 1960. Tempos atr\u00e1s, Jos\u00e9 ganhou do pai a m\u00e1quina de fabricar l\u00e2minas de cera que dispensam as abelhas de fazer favos. Ficou, assim, de posse de uma fonte de renda, mas em compensa\u00e7\u00e3o teve de assumir a administra\u00e7\u00e3o dos api\u00e1rios familiares espalhados por alguns munic\u00edpios onde ocupam terras alheias, sob arrendamento ou permuta amiga.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O api\u00e1rio mais distante fica em Tr\u00eas Passos, onde Cezimbra ainda \u00e9 dono do s\u00edtio em que toda a fam\u00edlia se criou. Quando Ary chegou em 1947, com dez anos, numa fam\u00edlia de 15 irm\u00e3os, a floresta ainda dominava a \u00e1rea. Foi ali que ele entrou nos segredos das guardi\u00e3s da sustentabilidade da floresta. Conta que, ao se casar, no final dos anos 1950, aproveitou o tronco oco de uma enorme canaf\u00edstula para fazer a despensa da casa, constru\u00edda ao lado do que restara da \u00e1rvore abatida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Dez anos depois, quando a fam\u00edlia chegou a nove cabe\u00e7as, Cezimbra tinha na cabe\u00e7a a lista mensal de mantimentos guardados na canastra-canaf\u00edstula: come\u00e7ava com uma lata de banho (18 kg) e terminava com um saco de feij\u00e3o (60 kg). No in\u00edcio era apenas sete hectares de ro\u00e7a, depois duplicada mediante empr\u00e9stimo de um amigo, mas nunca faltou b\u00f3ia. Mesmo com dificuldades, a fam\u00edlia se manteve unida. As abelhas com e sem ferr\u00e3o garantiam alguma renda e o entretenimento, coisas que se mant\u00eam at\u00e9 hoje. \u201cAs abelhas s\u00e3o minha terapia\u201d, diz Ary, que caminha com alguma dificuldade, usando bengala, para compensar o \u201catraso\u201d da perna esquerda, danificada por uma motossera que lhe acertou um tend\u00e3o. A cabe\u00e7a est\u00e1 boa. Sua fisionomia evoca a figura de Zorba, o grego celebrizado no cinema por Anthony Quinn.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Em Arroio do Meio, onde mora h\u00e1 20 anos, Ary cuida de diversos ninhos de melipon\u00eddeos em pequenas caixas de madeira. No mato vizinho mant\u00e9m algumas caixas de abelhas europ\u00e9ias. Gosta de ensinar a crian\u00e7as e adultos os segredos desses insetos. Como o preparo de iscas ou armadilhas \u2013 feitas com garrafas pl\u00e1sticas &#8212; para capturar enxames. Ele prepara o material e\u00a0\u00a0presenteia a quem se interessa pelo of\u00edcio. Sem esconder ou fazer mist\u00e9rio, em tem satisfa\u00e7\u00e3o em passar dicas, como a de que \u201cn\u00e3o se deve mexer com esses bichinhos na lua nova\u201d. Por que n\u00e3o? Porque sim. S\u00e3o frutos da observa\u00e7\u00e3o ao longo de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Quem andou bebendo nessa fonte foi Aroni Sattler, professor de apicultura da UFRGS, que esteve na casa de Cezimbra. Uma das maiores autoridades brasileiras em Apis mellifera, nascido em Travesseiro, a poucos quil\u00f4metros de Arroio do Meio, Sattler foi trocar ideias sobre as mel\u00edponas. Recentemente aposentado, o s\u00e1bio da Agronomia de Porto Alegre compartilha com o caipira de Tr\u00eas Passos a preocupa\u00e7\u00e3o pela manuten\u00e7\u00e3o das florestas e pastagens nativas, amea\u00e7adas por atividades agr\u00edcolas, comerciais e industriais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O colapso das abelhas mel\u00edferas por agrot\u00f3xicos e\/ou doen\u00e7as aumentou o interesse pelas abelhinhas ind\u00edgenas, cujo mel virou iguaria da culin\u00e1ria ou da ind\u00fastria de cosm\u00e9ticos ou de produtos farmac\u00eauticos. Um quilo de mel de jata\u00ed vale cinco vezes mais do que o da abelha mel\u00edfera profissional.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GERALDO HASSE \u00c0s v\u00e9spera da primavera de 2018, rec\u00e9m-entrado no 82\u00ba ano da sua exist\u00eancia, o apicultor Ary Cezimbra fez um balan\u00e7o do seu estoque e viu que poderia alegrar a vizinhan\u00e7a com uma promo\u00e7\u00e3o: mel a R$ 10 o quilo pra abrir espa\u00e7o no por\u00e3o de sua casa no bairro S\u00e3o Caetano, em Arroio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":65346,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-65280","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-gYU","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65280","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65280"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65280\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}