{"id":656,"date":"2005-03-08T14:50:27","date_gmt":"2005-03-08T17:50:27","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=656"},"modified":"2020-04-28T18:59:53","modified_gmt":"2020-04-28T21:59:53","slug":"na-balada-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/na-balada-da-morte\/","title":{"rendered":"Na balada da morte"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\"><strong>Renan Antunes de Oliveira | Enviado especial do Jornal J\u00c1 a Jacarta |<\/strong><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p>(<strong>NOTA DA REDA\u00c7\u00c3O: OS DOIS BRASILEIROS FORAM EXECUTADOS POR FUZILAMENTO EM 2015.<\/strong> )<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o caiu a ficha do paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 32 anos, nem a do carioca Marco Archer Cardoso Moreira, 43, os dois brasileiros condenados \u00e0 morte na Indon\u00e9sia por tr\u00e1fico de coca\u00edna. Na quinta-feira 17, Marco perdeu o \u00faltimo apelo \u00e0 Suprema Corte, dependendo agora de um improv\u00e1vel perd\u00e3o presidencial para ser beneficiado com pris\u00e3o perp\u00e9tua. Na segunda 21 o presidente Lula pediu ao seu colega indon\u00e9sio clem\u00eancia em favor do condenado.<\/p>\n<p>Durante quatro dias de entrevistas na cadeia de Tangerang, entre a quarta-feira 9 e o s\u00e1bado 12, eles deram muitas gargalhadas relembrando suas aventuras. Os dois n\u00e3o estavam nem a\u00ed para a possibilidade de enfrentar o Criador, via pelot\u00e3o de fuzilamento, ou passar o resto de suas vidas presos nos cafund\u00f3s da \u00c1sia. Se sentem como se tudo fosse apenas uma bad trip.<\/p>\n<p>Eles confessaram ser traficantes tarimbados. E demonstraram, sim, algum arrependimento, mas s\u00f3 por ter embalado mal a droga que levavam em seus equipamentos esportivos, permitindo a descoberta pela pol\u00edcia. Ela pegou Rodrigo com seis quilos escondidos em suas pranchas de surf, em 2004. E Marco com 15 na sua asa delta, em 2003.<\/p>\n<p>Os dois homens que hoje dividem a mesma cadeia chegaram l\u00e1 por trajet\u00f3rias diferentes no mundo das drogas. Rodrigo foi mais usu\u00e1rio do que traficante, come\u00e7ou cheirando solvente aos 13 anos. Marco entrou no tr\u00e1fico aos 17, j\u00e1 no topo da pir\u00e2mide, diretamente com os cart\u00e9is colombianos. Ambos fizeram v\u00e1rias viagens bem-sucedidas para muitos pa\u00edses, antes de se danarem no aeroporto da capital Jacarta, port\u00e3o de entrada para se chegar na ilha de Bali, o para\u00edso dos pirados.<\/p>\n<p>Os dois faziam parte de gangues diferentes. Na cadeia, formaram um la\u00e7o instant\u00e2neo. Ficaram amigos ao ponto de dividir prato e colher. Suas afinidades: n\u00e3o terminaram os estudos, jamais trabalharam, sempre foram sustentados por outros, exploraram as fam\u00edlias, viveram s\u00f3 pras baladas.<\/p>\n<p><strong><span class=\"intertit\">Prote\u00e7\u00e3o materna<\/span><\/strong><\/p>\n<p>As m\u00e3es deles \u2013 mulheres sofridas, esperan\u00e7osas e guerreiras \u2013 est\u00e3o em campanha pela liberdade dos \u201cgarotos\u201d, como elas e parte da imprensa tratam os dois barbados. Depois de gastarem os tubos com eles, est\u00e3o raspando os cofres para resgat\u00e1-los. Na falta de uma boa causa al\u00e9m do incondicional amor de m\u00e3e, usam a bandeira do rep\u00fadio \u00e0 pena de morte, de forte apelo na fatia esclarecida da humanidade.<\/p>\n<p>Dona Clarisse, de Rodrigo, mobiliza o Itamaraty para proteger o seu. Dona Carolina, de Marco, obteve da C\u00e2mara de Deputados o envio de um apelo de clem\u00eancia ao parlamento indon\u00e9sio. A proposta, do deputado Fernando Gabeira, foi aprovada em plen\u00e1rio com apenas um voto contra, do deputado Jair Bolsonaro, um ex-militar linha-dura que h\u00e1 d\u00e9cadas luta pela ado\u00e7\u00e3o da pena de morte no Brasil.<\/p>\n<p>Os diplomatas brasileiros em Jacarta trabalham nos bastidores para reverter as senten\u00e7as. Est\u00e3o confiantes que vai dar certo. Notam a moleza do sistema porque s\u00f3 um traficante foi executado at\u00e9 hoje, dos 30 condenados sob as duras leis antidrogas indon\u00e9sias de 2000. Era um indiano pobret\u00e3o.<\/p>\n<p>Pela expectativa otimista deles ser\u00e1 poss\u00edvel reduzir a pena de Rodrigo para pris\u00e3o perp\u00e9tua, em segunda inst\u00e2ncia, negociando em dinheiro uma redu\u00e7\u00e3o maior ainda na terceira, para 20 anos, com soltura em sete, talvez 10 \u2013 \u00e9 sabido que o Judici\u00e1rio indon\u00e9sio adota uma regra n\u00e3o-escrita de trocar tempo de encarceramento por uma pena pecun\u00e1ria.<\/p>\n<p>Eles admitem que no caso de Marco, j\u00e1 sentenciado em \u00faltima inst\u00e2ncia, vai ser mais dif\u00edcil. Ser\u00e1 preciso om perd\u00e3o presidencial apenas para reduzir de pena de morte para pris\u00e3o perp\u00e9tua, e depois negociar a sa\u00edda. \u00c9 que ele se tornou uma causa c\u00e9lebre porque fugiu do aeroporto quando foi descoberto com a droga, protagonizando uma ca\u00e7ada policial acompanhada em rede nacional de tev\u00ea.<\/p>\n<p>Os custos para dar jeitinho nas senten\u00e7as e as despesas para manter os dois em celas cinco estrelas podem chegar a quase 200 mil d\u00f3lares por cabe\u00e7a. Dona Clarisse tem at\u00e9 mais para salvar Rodrigo; dona Carolina anda passando o chap\u00e9u. O desenrosco deve ser demorado: na melhor das hip\u00f3teses seus garotos voltariam pra casa entrados em anos, um quarent\u00e3o, outro cinq\u00fcent\u00e3o.<br \/>\nAgora o quadro sinistro: o fuzilamento do indiano pobret\u00e3o, ocorrido em fevereiro, sinaliza uma mudan\u00e7a perigosa para os sonhos de liberdade dos brasileiros \u2013 a de que s\u00f3 dinheiro j\u00e1 n\u00e3o adianta mais.<\/p>\n<p>\u00c9 que a execu\u00e7\u00e3o saiu por insist\u00eancia do general dur\u00e3o Togar Sianipar, chefe da ag\u00eancia antidrogas deles. O homem est\u00e1 \u2018\u2018hukuman berta bagi pembana narkotik\u2019\u2019. \u00c9 isso mesmo: punindo severamente o narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Togar prometeu livrar a Indon\u00e9sia das drogas at\u00e9 2015, combatendo tamb\u00e9m a corrup\u00e7\u00e3o do sistema judicial \u2013 fechando o balc\u00e3o de neg\u00f3cios a diplomatas e criminosos. Togar foi quem mandou pintar aquele aviso do hukuman em letras garrafais no aeroporto de Jacarta. Seu plano \u00e9 simples e brutal: fuzilar os traficantes que pisarem no pa\u00eds.<\/p>\n<figure id=\"attachment_72043\" aria-describedby=\"caption-attachment-72043\" style=\"width: 255px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-72043\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2005\/03\/2005_03_na_b-1-255x300.jpg\" alt=\"\" width=\"255\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2005\/03\/2005_03_na_b-1-255x300.jpg 255w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2005\/03\/2005_03_na_b-1.jpg 510w\" sizes=\"(max-width: 255px) 100vw, 255px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-72043\" class=\"wp-caption-text\">Marco e Rodrigo, em 2005, quando ainda posavam para uma foto com o carceceiro: n\u00e3o havia ca\u00eddo a ficha<\/figcaption><\/figure>\n<p><span class=\"intertit\">&#8220;Morte aos crist\u00e3os&#8221;<\/span><br \/>\nO pov\u00e3o mu\u00e7ulmano o ap\u00f3ia. No tribunal, durante o primeiro julgamento de Rodrigo, em fevereiro, a plat\u00e9ia pedia \u2018\u2018morte aos traficantes ocidentais crist\u00e3os\u2019\u2019, descri\u00e7\u00e3o na qual se encaixam os dois brasucas. O pedido da massa deixa o governo firme para rejeitar as campanhas internacionais por direitos humanos, livre de d\u00favidas existenciais sobre a pena de morte.<\/p>\n<p>O modelo prende e mata j\u00e1 deu certo na pol\u00edtica, em 1965, quando o pa\u00eds se dividia entre esquerda e direita. Em quatro meses, o presidente-general Suharto implantou o capitalismo fuzilando quase um milh\u00e3o de comunistas.<\/p>\n<p>Esta tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece assustar os brasileiros sentenciados ao fuzilamento. Nos momentos de maior del\u00edrio eles j\u00e1 se enxergam, Marco em Ipanema e Rodrigo nas praias de Floripa, contando aos amigos como se livraram da fria.<\/p>\n<p>Rodrigo sonha que pol\u00edticos influentes amigos da m\u00e3e v\u00e3o pressionar Lula para que ele interceda oficialmente a seu favor, pedindo clem\u00eancia ao presidente indon\u00e9sio. Marco anda t\u00e3o avoado que at\u00e9 j\u00e1 encomendou de Casemiro, um amigo no Rio, o \u00faltimo modelo de asa-delta.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, a pris\u00e3o \u00e9 o momento de gl\u00f3ria de suas vidas: \u201cSomos os \u00fanicos entre 180 milh\u00f5es de brasileiros\u201d, diz Rodrigo, deslumbrado com a notoriedade obtida com o narcotr\u00e1fico \u2013 cujo pico de audi\u00eancia \u00e9 entre jovens ricos praticantes de esportes radicais.<\/p>\n<p>Eles acreditam nas chances de transformar o lim\u00e3o numa limonada. Est\u00e3o com tudo pronto para botar um di\u00e1rio na internet. Planejam contratar videomakers para acompanhar seus dias. Negociam exclusividade na cobertura jornal\u00edstica, come\u00e7aram a escrever livros com a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma ben\u00e7\u00e3o para os planos de liberta\u00e7\u00e3o foi o tsunami que arrasou uma zona pobre da Indon\u00e9sia: familiares e diplomatas contabilizam cada avi\u00e3o brasileiro de ajuda humanit\u00e1ria como um ponto para a futura negocia\u00e7\u00e3o. O Itamaraty espera que os indon\u00e9sios considerem isso na hora de analisar o pedido de clem\u00eancia feito por Lula.<\/p>\n<p><strong><span class=\"intertit\">Mordomia na pris\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Enquanto esperam, os dois compram privil\u00e9gios para viver como maraj\u00e1s na cadeia \u2013 ambos est\u00e3o com o cord\u00e3o umbilical ligado nas contas banc\u00e1rias das m\u00e3es: \u201cAqui \u00e9 como numa pousada, muito legal, s\u00f3 que jogaram a chave fora\u201d, diz Rodrigo, satisfeito, mesmo sendo acostumado ao conforto de sua su\u00edte com sauna, na casa da fam\u00edlia, em Curitiba. Marco tamb\u00e9m n\u00e3o resmunga, mas sente saudades dos ap\u00eas na Holanda, EUA e Bali.<\/p>\n<p>Enquanto os 1300 presos mu\u00e7ulmanos est\u00e3o amontoados em 10 por jaula, cada um dos brasileiros tem sua cela. E elas est\u00e3o equipadas com TV, ventilador, geladeira, forno el\u00e9trico, som pauleira. No jardim privativo criam p\u00e1ssaros, podam bonsais, alimentam os peixes do laguinho, cuidam da gata Tigrinha.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o \u00e9 excelente: presos pobres fazem a faxina, lavam as roupas deles, s\u00e3o gar\u00e7ons nas festas, cabeleireiros, pedicures. Os dois podem receber gente sem formalidades, todos os dias. Rodrigo j\u00e1 foi visitado pela fam\u00edlia, pela namorada, a empres\u00e1ria carioca Adriana Andrade, e pelo parceir\u00e3o Dimitri \u201cDimi\u201d Papageorgiou.<\/p>\n<p>Dimi \u00e9 outro garot\u00e3o com mais de 30, carioca de pais gregos, acusado de ser l\u00edder da quadrilha contratante do malfadado transporte das pranchas recheadas de coca. Apareceu na cadeia para ver seu mula Rodrigo, deu 2 milh\u00f5es de r\u00fapias para ele se virar, dinheirama que vale s\u00f3 500 pilas. Mas agora Dimi n\u00e3o vai mais poder ajudar: ele foi preso, em fevereiro, pela Pol\u00edcia Federal, no Brasil \u2013 aquelas r\u00fapias dadas a Rodrigo poder\u00e3o lhe fazer falta.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3564 alignright\" title=\"indonesia11\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/04\/indonesia11.jpg\" alt=\"\" \/>Marco recebeu a visita de amigos de Bali e de uma senhorita conhecida apenas como \u2018Drag\u00e3o de Komodo\u2019, sua namorada indon\u00e9sia. A mo\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 sentenciada, est\u00e1 na \u00e1rea feminina da pris\u00e3o. Dona Carolina j\u00e1 esteve com ele duas vezes, a \u00faltima no niver, em outubro, quando deu uma festinha com brigadeiros e refris \u2013 depois, tirou uma soneca na cela do filho.<\/p>\n<p>Dona \u2018Carola\u2019 \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica aposentada, superdescolada. Conquistou a simpatia dos carcereiros de Marco com seu \u2018show do milh\u00e3o\u2019. Foi assim: cansada do ass\u00e9dio deles por dinheiro para cigarros, ela trocou 1 milh\u00e3o de r\u00fapias em notas de 10 mil (quase R$2,50) e saiu pelo p\u00e1tio jogando as c\u00e9dulas para o alto. Guardas e presos lutaram para recolher a mixaria.<\/p>\n<p>Mais showtime na cadeia: os dois recebem suas visitas \u00edntimas no sof\u00e1 da sala do comandante. De vez em quando pinta um ecstasy. E nas noites quentes rola at\u00e9 um chopinho gelado, cortesia de um chef\u00e3o local, preso no mesmo pavilh\u00e3o. L\u00e1, a balada n\u00e3o p\u00e1ra nunca.<\/p>\n<p>A comida \u00e9 tudo de bom. Marco tem curso de chef na Su\u00ed\u00e7a, d\u00e1 show na cozinha. Na semana passada seu card\u00e1pio inclu\u00eda salm\u00e3o, arroz \u00e0 piemontesa, leite achocolatado com castanhas para sobremesa. O fornecedor dos alimentos \u00e9 D\u00eanis, um ex-preso tornado amig\u00e3o. Ele pega a lista por celular e traz tudo fresco do Hypermart.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3567\" title=\"indonesia2\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2005\/03\/2005_03_indonesia11.jpg\" alt=\"\" \/>Quando o amig\u00e3o est\u00e1 ocupado e a geladeira vazia, Marco chama a cobrar a m\u00e3e no Rio, que liga pra m\u00e3e de Rodrigo em Curitiba, que aciona a Embaixada, que despacha um chofer pra garantir o fome zero da dupla.<\/p>\n<p>Como Tangerang \u00e9 uma pris\u00e3o provis\u00f3ria, nos arredores de Jacarta, Rodrigo e Marco est\u00e3o como naquela piada da hora do recreio no inferno. O secret\u00e1rio do diabo pode anunciar o fim dos privil\u00e9gios a qualquer momento. Pior do que o fogo ser\u00e1 a transfer\u00eancia deles para o Carandiruz\u00e3o de uma remota ilha no Sul, onde ser\u00e3o misturados com 10 mil presos mu\u00e7ulmanos: a\u00ed ser\u00e1 bom come\u00e7arem a rezar para Al\u00e1.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-3569 alignleft\" title=\"indonesia31\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/04\/indonesia31.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nSempre otimistas, j\u00e1 t\u00eam planos para tentar se refazer l\u00e1 embaixo. Rodrigo bola um jeito de demonstrar sua habilidade em pesca submarina, para presentear peixes ao comandante da nova cadeia e conquistar sua amizade.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil saber como \u00e9 que lhe ocorreu uma ideia destas. Mas \u00e9 fazendo planos absurdos como esse que eles passam os dias. As baladas da cadeia, o papo encorajador das fam\u00edlias, o apoio dos diplomatas e a expectativa de que suas a\u00e7\u00f5es possam ficar impunes d\u00e3o um tom surrealista pra todas conversas deles.<\/p>\n<p>Num papo, Rodrigo revela sua crescente admira\u00e7\u00e3o pelo companheiro, j\u00e1 o acha at\u00e9 injusti\u00e7ado. \u201cMarco teve uma vida que merece ser filmada\u201d, exalta, contando ter oferecido um roteiro sobre o amigo \u00e0 cineasta curitibana Laurinha Dalcanale. \u201cEle fez coisas extraordin\u00e1rias, incr\u00edveis.\u201d<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter pede um exemplo de tal obra. \u201cU\u00e9, viajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo s\u00f3 no glamour, nunca usou uma arma, o cara \u00e9 demais.\u201d<\/p>\n<p>Menos, Rodrigo. Menos.<\/p>\n<p>Ele p\u00e1ra alguns segundos, reflete um pouco. Sai devagar do deslumbramento com as vantagens do narcotr\u00e1fico sobre um emprego comum. Muda o tom e pede ajuda: \u201cPor favor, brother, quando voc\u00ea for escrever, d\u00ea uma for\u00e7a, passe uma imagem positiva nossa, pra ajudar na campanha\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o diga l\u00e1 o que voc\u00ea vai fazer quando for solto: \u201cBota a\u00ed que eu quero trabalhar 10 anos pro governo dando palestras pra crian\u00e7as sobre a roubada que \u00e9 o tr\u00e1fico\u201d.<br \/>\nEle diz e saboreia o efeito das palavras. Traga seu Marlboro, acaricia Tigrinha. Parece s\u00e9rio, joga a fuma\u00e7a pra cima. Quando solta tudo, o corpo j\u00e1 est\u00e1 se chacoalhando. \u00c9 que ele n\u00e3o conseguiu conter o riso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_3572\" aria-describedby=\"caption-attachment-3572\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3572 size-medium\" title=\"indonesia4\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2005\/03\/2005_03_indonesia4-1.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"472\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3572\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Vou sair dessa&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p><span class=\"intertit\">Seu \u00faltimo desejo: voar mais uma vez em S\u00e3o Conrado<\/span><br \/>\nMarco Archer j\u00e1 esperava ter a pena de morte confirmada no Supremo Tribunal indon\u00e9sio, como ocorreu na quinta 17. Sua \u00fanica esperan\u00e7a agora \u00e9 um apelo do Itamaraty ao presidente indon\u00e9sio por clem\u00eancia. Isto lhe pouparia a vida, mas o deixaria para sempre na cadeia. A execu\u00e7\u00e3o ainda pode demorar cinco anos.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 Marco? Um carioca, com o apelido chinfrim de Curumim. Ele cresceu classe m\u00e9dia na Ipanema dos ricos. Queria ser um deles. Em 80, aos 17 anos, foi \u00e0 Col\u00f4mbia disputar um campeonato de asa delta. Voltou campe\u00e3o, mas mordido pela mosca azul do narcotr\u00e1fico: sacou como ganhar dinheiro f\u00e1cil.<\/p>\n<p>\u201cAlgu\u00e9m no hotel me deu uma caixa de f\u00f3sforos com coca\u00edna. Depois da primeira viagem, nunca fiz outra coisa na vida, tenho mais de mil gols\u201d, exagera.<br \/>\nEle conta que serviu de mula no Hawai, Nova York, Europa toda. \u201cFazia viagens rent\u00e1veis, ficava meses sem trabalhar.\u201d<\/p>\n<p>Na cadeia, Marco passa horas olhando fotos amassadas que guarda numa imunda pasta preta. S\u00e3o recuerdos de suas viagens, de belas mulheres, de carr\u00f5es e barcos: \u201cN\u00e3o posso me queixar da vida que levei\u201d.<\/p>\n<p>Orgulha-se: \u201cNunca declarei imposto de renda, nem tive tal\u00e3o de cheque, n\u00e3o servi ao Ex\u00e9rcito. S\u00f3 votei uma vez na vida. Foi no Collor, amigo da fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Com o dinheiro do tr\u00e1fico, Curumim manteve apartamentos em tr\u00eas continentes, abertos pra patota da asa delta, do surf, da vida boa: \u201cNunca perguntaram de onde vinha meu dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>Marco conta que saiu do Brasil para morar em Bali h\u00e1 15 anos, \u201ccansado de ver meu irm\u00e3o (S\u00e9rgio) bater na minha m\u00e3e para obter dela dinheiro pras drogas\u201d. O irm\u00e3o morreu de overdose em 2000, mas a estas todas ele tinha tido seu infort\u00fanio: em 1997 caiu da asa, sofreu v\u00e1rias fraturas.<\/p>\n<p>Dali pra frente sua atividade de mula de drogas diminuiu, as contas de hospitais cresceram. Ficou quase dois anos sem andar, at\u00e9 conseguir se recuperar. Hoje anda com dificuldades, com as pernas cheias de pinos de metal.<\/p>\n<p>Pra decolar outra vez na vida boa ele preparou aquele que seria seu \u00faltimo golpe, faturar 3 milh\u00f5es e 500 mil d\u00f3lares inundando Bali com coca\u00edna.<\/p>\n<p>Foi ao Peru, pegou 15 quilos com um fornecedor, por uma bagatela, cerca de 8 mil d\u00f3lares o quilos (dinheiro que ele obteve com um chef\u00e3o americano, com quem dividiria os lucros da opera\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Marco meteu a droga nos tubos de sua asa delta. Saiu de Iquitos, no Peru, para Manaus, pelos rios da Amaz\u00f4nia. \u201cEu me misturei com turistas americanos e nunca fui revistado\u201d, gaba-se. De l\u00e1 embarcou para Jacarta: \u201cTava tudo pronto pra ser a viagem da minha vida\u201d.<\/p>\n<p>No desembarque, mete o equipamento no raio x. A asa de Marco tinha cinco tubos, tr\u00eas de alum\u00ednio e dois de carbono. Este \u00e9 mais rijo e imperme\u00e1vel aos raios: \u201cMeu mundo caiu por causa de um guardinha desgra\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<p>Como foi: \u201cO cara perguntou porque a foto do tubo sa\u00eda preta. Eu respondi que era da natureza do carbono. A\u00ed ele puxou um canivete, bateu no alum\u00ednio, fez tim tim, bateu no carbono, fez tom tom\u201d.<\/p>\n<p>O som revelou que o tubo estava carregado. Foi o fim de uma bem-sucedida carreira de 25 anos no narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Marco ainda conseguiu dar um desdobre nos guardas. Enquanto buscavam as ferramentas, ele se esgueirou para fora do aeroporto, pegou um prosaico t\u00e1xi e sumiu \u2013 ajudado pelo fato de falar fluentemente a l\u00edngua bahasa.<\/p>\n<p>Estava com tudo pronto para escapar no iate de um amigo milion\u00e1rio, mas a\u00ed azar pouco \u00e9 bobagem. Um passaporte frio que ele tinha foi queimado por um c\u00famplice que tamb\u00e9m fugia da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Depois de 15 dias pulando de ilha em ilha no arquip\u00e9lago indon\u00e9sio \u2013 estava tentando chegar ao Timor do Leste \u2013, passou sua \u00faltima noite em liberdade num barraco de pescador, em Lombok.<br \/>\nAcordou cercado por um esquadr\u00e3o policial, armas apontadas. Suplicou em bahasa, tiveram miseric\u00f3rdia dele.<\/p>\n<p>Na cadeia esperando a execu\u00e7\u00e3o, procura levar seus dias na malandragem carioca, na maior paz com os carcereiros, sempre fazendo piadas, cozinhando-lhes pratos especiais.<\/p>\n<p>Acabou pro Curumim? \u201cVou fazer tudo para continuar vivo e sair dessa\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3573\" title=\"indonesia5\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2005\/03\/2005_03_indonesia5.jpg\" alt=\"\" \/><strong><span class=\"intertit\">Nas drogas desde os treze<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Rodrigo nasceu em Foz do Igua\u00e7u. \u00c9 neto de latifundi\u00e1rio produtor de soja, filho de m\u00e3e milion\u00e1ria, dona Clarisse. O pai \u00e9 um m\u00e9dico ga\u00facho de Santana do Livramento, Rubens Borges Gularte.<\/p>\n<p>Aos 13, j\u00e1 em Curitiba, Rodrigo come\u00e7a nas drogas, cheirando solventes. \u201cEra um garoto maravilhoso, a alegria da fam\u00edlia, nunca levantou a voz\u201d, isso \u00e9 tudo o que a m\u00e3e lembra dele naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Com 18 \u00e9 preso fumando baseado no parque Barig\u00fci. O pai queria deixar que ele fosse processado. A m\u00e3e n\u00e3o concorda, suborna um delegado com mil d\u00f3lares pra soltar o garoto: \u201cSe fossem prender todos que fumam\u201d, justificou dona Clarisse.<\/p>\n<p>O garoto ganha seu primeiro carro. Bota amigos dentro e sai pela Am\u00e9rica Latina como um Che Guevara mauricinho, bebendo e se drogando. \u201cFiz cada loucura\u201d, lembra.<br \/>\nAos 20 Rodrigo era um rapaz de 1,84m, magr\u00e3o, modos educados, cheio de namoradas. Teve um breve romance com a professora catarinense Maria do Rocio, 13 anos mais velha, fazendo Jimmy, hoje com 12, autista. Raramente via o filho: \u201cEu n\u00e3o estava preparado para a paternidade\u201d, admite.<\/p>\n<p>Rodrigo passa a viajar muito e pira total: \u201cEm Marrocos, fumei o melhor haxixe\u201d. No Peru: \u201cCoca da pura\u201d. Na Holanda: \u201cEcstasy de primeira\u201d.<\/p>\n<p>Aos 24, sai b\u00eabado e drogado de uma festa. Bate o carro num t\u00e1xi, tenta fugir, bate noutro, abandona tudo e corre pra casa da m\u00e3e. Ela d\u00e1 uma volta na pol\u00edcia, chama um m\u00e9dico, interna o garoto.<\/p>\n<p>Na ficha de interna\u00e7\u00e3o, o m\u00e9dico Jo\u00e3o Carlos anota: \u201cMostrou onipot\u00eancia, estava depressivo\u201d.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes a m\u00e3e fez de tudo para ele dar certo. Abre para Rodrigo uma creperia, em Curitiba. N\u00e3o deu. Uma casa de massas, em Floripa. N\u00e3o deu. Mandou pra fazenda. N\u00e3o deu. Rodrigo vai estudar no Paraguai. N\u00e3o deu. Ele se matricula na UFSC. N\u00e3o deu.<\/p>\n<p>Rodrigo come\u00e7a no tr\u00e1fico: \u201cFiz v\u00e1rias viagens \u00e0 Europa s\u00f3 para trazer skunk\u201d, confessa.<\/p>\n<p>\u201cSe ele fazia isso, n\u00e3o sei onde metia o dinheiro, porque nunca tinha um tost\u00e3o\u201d, rebate a m\u00e3e.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o: \u201cOs carinhas me deram as pranchas com coca\u00edna dentro. Embarquei em Curitiba, onde o raio x \u00e9 ruim, pra desembarcar em Jacarta\u201d.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">O narco tamb\u00e9m n\u00e3o deu certo<\/span><br \/>\nAgora ele se lamenta: \u201cS\u00f3 depois soube que os japoneses doaram um raio x potente pros indon\u00e9sios, eles pegaram a droga\u201d.<\/p>\n<p>Rodrigo filosofa: \u201cMeu erro foi a coca. O skunk \u00e9 energia positiva, o ecstasy d\u00e1 um barato legal, mas a coca\u00edna \u00e9 do mal\u201d.<\/p>\n<p>Um desabafo: \u201cSe a parada tivesse dado certo eu estaria surfando em Bali, cercado de mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Seu futuro: esperar as negocia\u00e7\u00f5es do Itamaraty e tentar reduzir a pena em segunda inst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Uma novidade: ele est\u00e1 namorando firme. Com uma menina indon\u00e9sia, caixa de um supermercado, prima de um condenado. Ela entrou para visitar o parente, os dois se pegaram no olhar. Ele foi no primo, soltou um pl\u00e1, consegui atrair a menina.<\/p>\n<p>Ela vem uma vez por semana, Rodrigo d\u00e1 uns amassos nela, na sala do comandante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renan Antunes de Oliveira | Enviado especial do Jornal J\u00c1 a Jacarta | (NOTA DA REDA\u00c7\u00c3O: OS DOIS BRASILEIROS FORAM EXECUTADOS POR FUZILAMENTO EM 2015. ) Ainda n\u00e3o caiu a ficha do paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 32 anos, nem a do carioca Marco Archer Cardoso Moreira, 43, os dois brasileiros condenados \u00e0 morte na Indon\u00e9sia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":72044,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[4],"class_list":["post-656","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reportagens","tag-renan-antunes-de-oliveira"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2005\/03\/2005_03_na_balada_da_morte_ab-1.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-aA","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=656"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72126,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656\/revisions\/72126"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/72044"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}