{"id":657,"date":"2005-04-08T14:54:01","date_gmt":"2005-04-08T17:54:01","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=657"},"modified":"2005-04-08T14:54:01","modified_gmt":"2005-04-08T17:54:01","slug":"exclusivo-a-verdade-sobre-o-plano-diretor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/exclusivo-a-verdade-sobre-o-plano-diretor\/","title":{"rendered":"Exclusivo: a verdade sobre o Plano Diretor"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Guilherme Kolling<\/span><br \/>\n<em>O Plano Diretor de Porto Alegre completou cinco anos em 27 de mar\u00e7o. Quem poderia comemorar preferiu ficar quieto, porque o clima n\u00e3o est\u00e1 para festa.<\/em><br \/>\n\u201cO princ\u00edpio que orientou o Plano foi deturpado\u201d, diz o arquiteto argentino Rub\u00e9n Pesci, que foi consultor especial da equipe que formulou o Plano Diretor, que passou a ser a constitui\u00e7\u00e3o da cidade a partir do ano 2000.<br \/>\nO Plano que era avan\u00e7ado e previa um desenvolvimento harm\u00f4nico da cidade n\u00e3o saiu do papel. Apenas a parte que se referia \u00e0 constru\u00e7\u00e3o foi posta em pr\u00e1tica.<br \/>\nA principal consequ\u00eancia dessa distor\u00e7\u00e3o os porto-alegrenses j\u00e1 \u201csentem na pele\u201d: a prolifera\u00e7\u00e3o de novos edif\u00edcios em bairros consolidados como Moinhos de Vento, Petr\u00f3polis, Bela Vista, Rio Branco e Menino Deus.<br \/>\nH\u00e1 dois anos os moradores se deram conta da acelerada substitui\u00e7\u00e3o de casas por espig\u00f5es e reagiram. A mobiliza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou no Moinhos de Vento, onde os antigos casar\u00f5es que d\u00e3o identidade ao bairro come\u00e7aram a ser derrubados. Hoje, sob a sigla \u201cPorto Alegre Vive\u201d, o movimento envolve quase vinte associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias que querem corrigir o que consideram \u201cdistor\u00e7\u00f5es do Plano\u201d.<br \/>\nO alvo principal da campanha dos moradores \u00e9 a quest\u00e3o das alturas. Eles querem retroagir, diminuir o tamanho, baixar os \u00edndices construtivos (o que \u00e9 previsto no Plano) e colocar em pr\u00e1tica a prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e do ambiente natural.<br \/>\nOs empres\u00e1rios, por outro lado, trabalham para manter a conquista que obtiveram depois de oito anos (1993-2000) de trabalho. O que a discuss\u00e3o de hoje evidencia \u00e9 a forma como foi feito o Plano Diretor de Porto Alegre. N\u00e3o houve equil\u00edbrio de for\u00e7as. A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi informada e, portanto, n\u00e3o estava l\u00e1.<br \/>\nPor outro lado, o setor da constru\u00e7\u00e3o civil esteve presente. \u201cO Sinduscon participou de todas as reuni\u00f5es ao longo desses anos. At\u00e9 nos locais mais long\u00ednquos eles estavam. E para fazer o seu papel: construir mais e mais alto\u201d, revela Newton Burmeister, secret\u00e1rio do Planejamento que conduziu a avalia\u00e7\u00e3o da Plano de 1979 e a cria\u00e7\u00e3o da nova lei.<br \/>\nAl\u00e9m de Burmeister, o J\u00c1 ouviu outro protagonista da elabora\u00e7\u00e3o do Plano Diretor: Rub\u00e9n Pesci, o arquiteto argentino que deu consultoria \u00e0 Prefeitura da Capital. Eles se pronunciaram depois de cinco anos de sil\u00eancio. A seguir, duas entrevistas exclusivas, que revelam como foi feito o Plano Diretor e por que n\u00e3o est\u00e1 saindo como planejado.<br \/>\n<strong>As sete estrat\u00e9gias para a cidade<\/strong><br \/>\nO Plano Diretor de Desenvolviemento Urbano Ambiental \u00e9 composto por sete estrat\u00e9gias, que t\u00eam os seguintes objetivos:<br \/>\n<strong><br \/>\nEstrutura\u00e7\u00e3o Urbana<br \/>\n<\/strong> Promover a estrutura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o na cidade e a integra\u00e7\u00e3o metropolitana;<br \/>\n<strong><br \/>\nMobilidade Urbana<br \/>\n<\/strong> Qualificar a circula\u00e7\u00e3o e o transporte urbano, proporcionando os deslocamentos na cidade e atendendo \u00e0s distintas necessidades da popula\u00e7\u00e3o;<br \/>\n<strong>Uso do Solo Privado<\/strong><br \/>\nDisciplinar e ordenar a ocupa\u00e7\u00e3o do solo privado, atrav\u00e9s dos instrumentos de regula\u00e7\u00e3o que definem a distribui\u00e7\u00e3o espacial das atividades, a densifica\u00e7\u00e3o e a configura\u00e7\u00e3o da paisagem urbana no que se refere \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o e ao parcelamento do solo;<br \/>\n<strong><br \/>\nQualifica\u00e7\u00e3o Ambiental<br \/>\n<\/strong> Qualificar o territ\u00f3rio municipal, atrav\u00e9s da valoriza\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Ambiental, promovendo suas potencialidades e garantindo sua perpetua\u00e7\u00e3o e a supera\u00e7\u00e3o dos conflitos referentes \u00e0 polui\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente, saneamento e desperd\u00edcio energ\u00e9tico;<br \/>\n<strong>Promo\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica<\/strong><br \/>\nEstabelecer pol\u00edticas que busquem a dinamiza\u00e7\u00e3o da economia da cidade, a melhoria da qualidade de vida e a qualifica\u00e7\u00e3o da cidadania, atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es diretas com a comunidade e com os setores produtivos, assim como a articula\u00e7\u00e3o com outras esferas de poder;<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o da Cidade<\/strong><br \/>\nCapacitar o Munic\u00edpio para a promo\u00e7\u00e3o do seu desenvolvimento atrav\u00e9s de um conjunto de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e instrumentos de gerenciamento do solo urbano que envolvem a diversidade dos agentes produtores da cidade e incorporam as oportunidades empresariais aos interesses do desenvolvimento urbano como um todo.<br \/>\n<strong>Sistema de Planejamento<\/strong><br \/>\nGarantir um planejamento din\u00e2mico e cont\u00ednuo, que articule as pol\u00edticas da administra\u00e7\u00e3o municipal com os diversos interesses da sociedade, promovendo instrumentos para o monitoramento do desenvolvimento urbano.<br \/>\n<strong>O que mudou nas alturas dos pr\u00e9dios<\/strong><br \/>\nAs mudan\u00e7as nas alturas m\u00e1ximas das edifica\u00e7\u00f5es ocorreram em dois momentos distintos. Em 1987, o prefeito Alceu Collares promoveu altera\u00e7\u00f5es nas \u00e1reas pr\u00f3ximas a grandes avenidas. O atual Plano, por sua vez, aumentou o limite da estatura das edifica\u00e7\u00f5es no interior dos bairros, em 1999, quando a igualou a das \u00e1reas de entorno das grandes avenidas.<br \/>\n<strong><br \/>\n\u201cO Plano mudou na C\u00e2mara\u201d<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDesde que se afastou da Secretaria do Planejamento, ao final da gest\u00e3o de Raul Pont, o arquiteto e urbanista Newton Burmeister, 67, n\u00e3o se pronunciou mais sobre Plano Diretor.<br \/>\nEle n\u00e3o participou, por exemplo, de nenhuma das reuni\u00f5es de avalia\u00e7\u00e3o da lei, que ocorreram a partir de 2003 e que seguem at\u00e9 hoje. Relutou para falar no assunto.<br \/>\n\u201cMas eu nem estou mais envolvido com isso, porque voc\u00eas querem me ouvir?\u201d, questionou, ao ser sondado pelo J\u00c1. Depois de certa insist\u00eancia, aceitou romper o sil\u00eancio, que j\u00e1 durava cinco anos.<br \/>\n\u201cN\u00e3o estou participando porque quero um distanciamento para poder dar uma contribui\u00e7\u00e3o melhor. Se entrasse no debate agora, iria defender o meu trabalho\u201d, justificou.<br \/>\nEle admitiu que continua acompanhando o assunto \u2013 reuniu em uma pe\u00e7a de sua casa centenas de anota\u00e7\u00f5es e documentos \u2013, pretende escrever sobre o tema.<br \/>\nAutoridade para isso ele tem. Burmeister foi secret\u00e1rio de Obras na gest\u00e3o de Ol\u00edvio Dutra (1989-1992) e do Planejamento, com Tarso Genro (1993-1996) e Pont (1997-2000), o que significa dizer que acompanhou todo o processo de elabora\u00e7\u00e3o do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA).<br \/>\nEle recebeu o J\u00c1, em 28 de mar\u00e7o, na sua resid\u00eancia, na Tr\u00eas Figueiras, para uma conversa de pouco mais de uma hora. Ao final, confessou: \u201cFazia tempo que eu n\u00e3o falava desses assuntos\u201d.<br \/>\n<strong>Como come\u00e7ou a discuss\u00e3o do novo Plano Diretor?<\/strong><br \/>\nEra a reavalia\u00e7\u00e3o do Plano Diretor de 1979, que depois passou a ser a proposta de um novo Plano. Eu administrei essa discuss\u00e3o, que come\u00e7ou na gest\u00e3o do Tarso (Genro). O grande impasse foi estabelecer uma metodologia. Tivemos contatos com diversos grupos locais, faculdades de arquitetura. Depois com a FLACAN (F\u00f3rum Latino-Americano de Ci\u00eancias Ambientais), atrav\u00e9s do (arquiteto argentino Rub\u00e9n) Pesci e seu grupo. Isso ocorreu pela quantidade de profissionais da pr\u00f3pria Secretaria do Planejamento que tinham feito cursos de metodologia, de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o l\u00e1 na Argentina. O grupo do Rub\u00e9n Pesci tinha experi\u00eancia em m\u00e9todo para avalia\u00e7\u00e3o, discuss\u00e3o e proposi\u00e7\u00e3o de Planos Diretores. Eles t\u00eam nome internacional, por trabalhos na Argentina, Am\u00e9rica Latina, Espanha e It\u00e1lia.<br \/>\n<strong>O resultado foi um Plano elogiado no papel. Mas se diz que s\u00f3 a parte construtiva foi posta em pr\u00e1tica.<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma caracter\u00edstica geral da aplica\u00e7\u00e3o de Planos Diretores. Eles devem trazer uma vis\u00e3o propositiva para uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento da cidade. Todavia, a nossa estrutura do poder p\u00fablico sempre deu muito mais \u00eanfase para a quest\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o do lote urbano. O novo Plano Diretor tentou assegurar que al\u00e9m de as secretarias desenvolverem seus aspectos cotidianos, de manuten\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o, elas tivessem representa\u00e7\u00e3o dentro do Conselho do Plano Diretor, para acompanhar, corrigir, reavaliar as quest\u00f5es que envolvem o desenvolvimento estrat\u00e9gico da cidade. Mas essas estruturas tecno-burocr\u00e1ticas t\u00eam uma cultura muito forte de s\u00f3 cuidar de como se edifica na cidade: taxa de ocupa\u00e7\u00e3o do terreno, afastamento, altura, etc. Elas desdobram pouca coisa al\u00e9m disso. Nas secretarias de Obras e de Planejamento existe uma grande quantidade de t\u00e9cnicos muito bons, capacitados, aptos, mas que ficaram dentro das camisas-de-for\u00e7a do \u201cconstruir\u201d. \u00c9 a cultura de cuidar s\u00f3 de como se constr\u00f3i na cidade, que n\u00e3o \u00e9 a coisa mais importante. Perde-se muita massa cr\u00edtica fazendo coisas menores, quando poderia se usar ela na quest\u00e3o do pensamento estrat\u00e9gico da cidade.<br \/>\n<strong>E a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o no Plano?<\/strong><br \/>\nHouve muita falta de informa\u00e7\u00e3o. Hoje, lendo o notici\u00e1rio, vejo manifesta\u00e7\u00f5es at\u00e9 de pessoas que est\u00e3o no atual governo e que nunca apareceram nas centenas de debates sobre o Plano Diretor. Nunca! E, de repente, aparece o cara e acha que o neg\u00f3cio est\u00e1 mal. Algumas estruturas est\u00e3o sendo acionadas hoje, na continuidade da discuss\u00e3o do desenvolvimento urbano: as 16 regi\u00f5es do Or\u00e7amento Participativo e as 8 dos F\u00f3runs de Planejamento. Isso criou uma base que est\u00e1 sendo utilizada, n\u00e3o existia antes. Ent\u00e3o, h\u00e1 os que criticam essas situa\u00e7\u00f5es mas que utilizam as estruturas que o novo Plano prop\u00f4s. Agora, um Plano Diretor n\u00e3o \u00e9 impositivo, mas sim um plano de diretrizes, de a\u00e7\u00e3o permanente, de avalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica. E se as pessoas acham que as coisas que foram propostas n\u00e3o s\u00e3o boas, \u00e9 preciso ver isso sob a \u00f3tica do que a sociedade est\u00e1 dizendo, os moradores, as estruturas organizadas, etc. Tem que dizer n\u00e3o est\u00e1 bom.<br \/>\n<strong><br \/>\nMas o Plano n\u00e3o passa a ser impositivo, na medida em que dezenas de associa\u00e7\u00f5es, organizadas, representativas, dizem, desde 2003, que n\u00e3o est\u00e3o de acordo, por exemplo, com a verticaliza\u00e7\u00e3o e densifica\u00e7\u00e3o da \u00e1rea central, e n\u00e3o conseguem mudar isso?<br \/>\n<\/strong> O Plano define alguns par\u00e2metros, a partir de informa\u00e7\u00f5es, caracter\u00edsticas da cidade, pela qual ela foi constru\u00edda, dividida, e joga isso para dentro do espacial. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es baseadas na experi\u00eancia dessa pr\u00f3pria cultura interna do Munic\u00edpio, na experi\u00eancia de pessoas bastante vivenciadas. Claro que nessas coisas tem disputas. O Sinduscon esteve permanentemente dentro de todos os grupos de trabalho, de todas as comiss\u00f5es, nunca se omitiu das reuni\u00f5es, nem das que eram l\u00e1 nos confins da cidade. Estiveram l\u00e1 e tinham sua estrat\u00e9gia, seus objetivos, leg\u00edtimos. Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do Sinduscon? Eu quero construir mais, mais alto, etc. O que alguns setores faziam? N\u00e3o, n\u00e3o pode ser tanto assim, tem que manter situa\u00e7\u00f5es, etc. Mas acontece \u00e9 que o Plano Diretor \u00e9 montado, depois \u00e9 feito um projeto de lei que \u00e9 mandado para a C\u00e2mara. E a C\u00e2mara tem outra sensibilidade.<br \/>\n<strong>O Plano mudou na C\u00e2mara?<\/strong><br \/>\nMudou na C\u00e2mara.<br \/>\n<strong>O qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nMudou a altura, afastamentos. E veja: continua na discuss\u00e3o do \u201cconstruir\u201d. As vis\u00f5es estrat\u00e9gicas da cidade sequer transitaram l\u00e1, n\u00e3o teve discuss\u00e3o. Agora, quando chegou na quest\u00e3o da altura, da taxa de ocupa\u00e7\u00e3o, do \u00edndice de aproveitamento&#8230; A C\u00e2mara tem outras sensibilidades, outros canais de comunica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o os que a estrutura que concebeu o Plano tinha. Ali as partes interessadas falam direto com os vereadores. E havia ainda, felizmente, a equipe t\u00e9cnica da C\u00e2mara, mas que n\u00e3o estava l\u00e1 com a vis\u00e3o dos grupos que estavam discutindo fora. As informa\u00e7\u00f5es foram gestionadas no \u00e2mbito da C\u00e2mara. E o processo legal, democr\u00e1tico, \u00e9 esse. \u00c9 feito um projeto de lei, que se acredita, \u00e9 o melhor que o Executivo pode propor para a cidade, ouvindo os grupos envolvidos. Agora, quando entra para a C\u00e2mara, entra para a C\u00e2mara. E essas situa\u00e7\u00f5es foram muito fortemente contestadas, especialmente a quest\u00e3o de alturas. Na proposta original, eram praticamente mantidos os mesmos padr\u00f5es de alturas existentes no Plano Diretor. Houve uma pequena mudan\u00e7a de taxa de ocupa\u00e7\u00e3o e de afastamento \u2013 passou de 1\/20 para uma outra fra\u00e7\u00e3ozinha que aumentava mais 50cm, algo assim&#8230; As partes interessadas nesse processo disputavam o centavo.<br \/>\n<strong><br \/>\nE antes da C\u00e2mara, a popula\u00e7\u00e3o estava alheia ou houve embate?<br \/>\n<\/strong> Essa situa\u00e7\u00e3o apareceu na Tr\u00eas Figueiras, por causa do Projeto Hermes, que foi aprovado na legisla\u00e7\u00e3o anterior. Houve algumas mobiliza\u00e7\u00f5es, at\u00e9 com contrariedades pessoais ao projeto, alegando que aquelas edifica\u00e7\u00f5es no terreno no Projeto Hermes iriam comprometer o bairro Tr\u00eas Figueiras como um todo.<br \/>\n<strong><br \/>\nFoi um caso isolado? Houve outras queixas sobre alturas?<br \/>\n<\/strong> Isso n\u00e3o apareceu nos debates feitos nas diversas regi\u00f5es. Essa situa\u00e7\u00e3o que tem a ver com a altura das edifica\u00e7\u00f5es, e nada mais, n\u00e3o apareceu. Apareceu em algumas disputas. O Sinduscon reivindicou mais altura, trazendo t\u00e9cnicos e provando argumentos sobre esse aspecto. E os dois p\u00f3los se conformaram com o acordo que foi feito.<br \/>\n<strong>Mas as lideran\u00e7as comunit\u00e1rias s\u00f3 se deram conta quando sentiram na pele o efeito. O Moinhos Vive, por exemplo, s\u00f3 surgiu no final de 2002.<\/strong><br \/>\nMas a\u00ed \u00e9 outra coisa, trata-se de manter a identidade do bairro. O que \u00e9 o Moinhos de Vento? \u00c9 um bairro que foi estruturado nos anos 1940, 50, 60, com casas unifamiliares de muito bom n\u00edvel, como havia tamb\u00e9m na Carlos Gomes. Resid\u00eancias que desfrutavam das melhores condi\u00e7\u00f5es de localiza\u00e7\u00e3o na cidade. \u00c9 o caso do Petr\u00f3polis, Rio Branco, Bela Vista, todos com essas caracter\u00edsticas. O que aconteceu? As fam\u00edlias que se estabeleceram nos anos 50, 60, faziam casas com 4 quartos. A\u00ed a fam\u00edlia cresce, um se casa, outro se casa&#8230; e a resid\u00eancia fica de heran\u00e7a. Ela deixa de ser a casa unifamiliar e passa ser uma heran\u00e7a, cujo regime urban\u00edstico anterior previa a possibilidade de se construir um edif\u00edcio. Chega um cara e prop\u00f5e: \u201cEu compro essa casa, construo um edif\u00edcio e te dou apartamentos\u201d. Essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o apareceu agora, ela vem da cultura do desenvolvimento da cidade.<br \/>\n<strong>Mas esse exemplo foi a regra?<\/strong><br \/>\nA cidade disponibiliza infra-estrutura, que \u00e9 cara. Ent\u00e3o, tem-se que jogar com o potencial de densidade que ela assimila. Numa quadra que permitia fazer 50, 60 unidades, passou a existir um potencial de aproveitamento da infra-estrutura existente, do sistema vi\u00e1rio, da ilumina\u00e7\u00e3o, energia, \u00e1gua, esgoto, que possibilitava uma densifica\u00e7\u00e3o maior.<br \/>\n<strong>Isso j\u00e1 era poss\u00edvel, n\u00e3o foi mudado pelo Plano Diretor?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 era, sim. O que aconteceu nesses per\u00edodos, na sucess\u00e3o dos diversos planos existentes, e nas suas readequa\u00e7\u00f5es, foi o aproveitamento das infra-estruturas que possibilitavam aumentar as densidades, o que significa construir em altura. Isso foi apresentado por um professor da UFRGS nos debates do Plano, fazendo com que as pessoas entendessem o porqu\u00ea da densifica\u00e7\u00e3o. Agora, n\u00e3o d\u00e1 para congelar um bairro pura e simplesmente para manter a sua paisagem, porque \u00e9 uma deseconomia para a cidade. E Porto Alegre teve aumentos consider\u00e1veis de popula\u00e7\u00e3o a partir dos anos 60. N\u00f3s dobramos a popula\u00e7\u00e3o de 1960 para 2005. Isso significa que temos que organizar o espa\u00e7o urbano para que ele assimile esse crescimento da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO conflito entre essa id\u00e9ia de aproveitar a infra-estrutura e o desejo de manter as caracter\u00edsticas do bairro n\u00e3o seria atenuado se as outras estrat\u00e9gias fossem implementadas, como a qualifica\u00e7\u00e3o ambiental, a prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico&#8230; Mas todas essas quest\u00f5es foram abordadas no conjunto.<br \/>\n<strong>Mas n\u00e3o sa\u00edram do papel.<\/strong><br \/>\nS\u00e3o diretrizes para o desenvolvimento urbano.<br \/>\n<strong>N\u00e3o implantadas. A Zona Sul, por exemplo, est\u00e1 sendo preservada?<\/strong><br \/>\nA Zona Sul tem uma caracter\u00edstica extremamente peculiar. Tanto que surgiu nesse novo Plano o chamado espa\u00e7o Rururbano, que \u00e9 uma caracter\u00edstica de desenvolvimento sustentado que se busca para esse regi\u00e3o, identificando nele a quest\u00e3o de paisagem. Isso est\u00e1 muito bem explicitado no Atlas Ambiental de Porto Alegre, foi muito bem caracterizado.<br \/>\n<strong>Bem caracterizado no mapa. Mas est\u00e1 protegido por lei?<\/strong><br \/>\nO mapa \u00e9 uma espacializa\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es. Agora para isso acontecer, provid\u00eancias devem ser tomadas pelo Poder Executivo, pelas associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias. Porque a gest\u00e3o desse Plano n\u00e3o \u00e9 exclusiva do Executivo, \u00e9 uma gest\u00e3o dos F\u00f3runs das Regi\u00f5es de Planejamento, que tem essa capilaridade, permite que o morador informe que h\u00e1 ocupa\u00e7\u00e3o em \u00e1reas de valor ambiental, situa\u00e7\u00f5es como esses novos tipos de condom\u00ednios que vem sendo constru\u00eddos&#8230;<br \/>\n<strong><br \/>\nH\u00e1 queixa que esses condom\u00ednios est\u00e3o mudando a chamada Cidade Jardim.<br \/>\n<\/strong> S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es sobre as quais se tem determinado controle, mas n\u00e3o controle absoluto. Define-se a densidade, o tamanho de \u00e1rea&#8230; Eu me criei na Vila Assun\u00e7\u00e3o. Quando me mudei eu dizia: \u201cmeu Deus!, mas isso \u00e9 l\u00e1 no fim do mundo\u201d. O bairro onde eu moro hoje, o Tr\u00eas Figueiras, em 1960 era um lugar em que se vinha fazer piquenique, era a Ch\u00e1cara do seu M\u00fcller. Ent\u00e3o a cidade tem essa caracter\u00edstica din\u00e2mica. Temos que entender isso. N\u00e3o se pode avaliar a cidade de 2002 para 2003, ela tem que ser medida em d\u00e9cadas.<br \/>\n<strong>E nessa meia d\u00e9cada de Plano. J\u00e1 d\u00e1 para sentir algum efeito?<\/strong><br \/>\nEle aparece preliminarmente nas edifica\u00e7\u00f5es. Primeiro porque o plano estrat\u00e9gico da descentraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais demorado. O Plano anterior tinha duas d\u00e9cadas de implementa\u00e7\u00e3o e subsidiou essa nova proposta com aquilo que ele previa, tanto o que ocorreu como o que ele previa e n\u00e3o ocorreu. A\u00ed d\u00e1 para fazer uma avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, s\u00f3lida. Agora, quando se aprova um Plano em 2000, e em 2003 se diz que ele n\u00e3o est\u00e1 bom, analisando s\u00f3 a quest\u00e3o da edifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 um equivoco. \u00c9 um desenfoque do car\u00e1ter estrat\u00e9gico que tem um Plano Diretor.<br \/>\n<strong>Mas se analisa s\u00f3 a constru\u00e7\u00e3o porque o resto n\u00e3o saiu do papel.<\/strong><br \/>\nBom, mas isso s\u00e3o a\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas que devem ser implementadas, o que requer a\u00e7\u00f5es de implanta\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o paulatinas. Tem que haver insist\u00eancia em manter aquela diretriz, porque caso o contr\u00e1rio, o Plano corre o risco de se esvair. As pessoas esquecem, fica a letra morta da lei. Os corredores de centralidade tem que ser insistentemente buscados.<br \/>\n<strong><br \/>\nE o plano vi\u00e1rio do cidade?<br \/>\n<\/strong> As diretrizes s\u00e3o boas, mas tem que existir uma a\u00e7\u00e3o articulada das secretarias. N\u00e3o pode s\u00f3 a Secretaria do Planejamento ser a respons\u00e1vel por isso. Ela tem que se articular com Smam, EPTC, Smic. E tamb\u00e9m os servi\u00e7os de infra-estrutura, Smov, DEP, Dmae, eles devem estar presentes porque t\u00eam as medidas do que existe e das necessidades. A quest\u00e3o do sistema vi\u00e1rio \u00e9 importante, tamb\u00e9m porque \u00e9 um fator indutor de novas centralidades. Por exemplo, o corredor Anita-Nilo alcan\u00e7a as bordas da cidade, para o lado do Parque Chico Mendes.<br \/>\n<strong>Mas isso \u00e9 para muitos anos&#8230;<\/strong><br \/>\nTem que come\u00e7ar assim. Porque se essa perspectiva for analisada a curto prazo, n\u00e3o se realiza. Tem que ser a\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, porque sen\u00e3o passam a ser a\u00e7\u00f5es momentosas, de uma ansiedade precipitada. O planejador tem que relativizar o tempo. Existem coisas que acontecem em longo prazo. A Terceira Perimetral, por exemplo, foi concebida em 1959 e consolidada em 1963. E se realizou 40 anos depois. Esse percurso de 12km, seria imposs\u00edvel se n\u00e3o fossem tomadas provid\u00eancias de afastamento, deixar dispon\u00edveis terrenos para fazer a via. Seria imposs\u00edvel pelos valores de desapropria\u00e7\u00e3o, que a cidade n\u00e3o seria capaz de pagar. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que podem vir a ocorrer daqui 30, 40 anos. S\u00e3o gera\u00e7\u00f5es que precisam ser articuladas, mobilizadas, convencidas, e que devem estar informadas. Essa a\u00e7\u00e3o que voc\u00eas (Jornal J\u00c1) est\u00e3o fazendo agora, de informar, publicar, antecipar o debate, fazer as pessoas pensarem no assunto, \u00e9 de grande valia, \u00e9 extremamente \u00fatil para a cidade, porque s\u00f3 atrav\u00e9s desses meios as pessoas podem se mobilizar, se interessar e participar dessas estruturas de planejamento.<br \/>\n<strong>Rub\u00e9n Pesci: \u201cO princ\u00edpio do projeto foi deturpado\u201d<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\nA experi\u00eancia internacional do arquiteto argentino Rub\u00e9n Pesci, 62, chamou a aten\u00e7\u00e3o da Prefeitura de Porto Alegre, que o convidou para dar consultoria aos t\u00e9cnicos que fariam o novo Plano Diretor da cidade. Foram seis meses de trabalho, de mar\u00e7o a outubro de 1996. V\u00e1rios profissionais da Secretaria de Planejamento tinham feito cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na FLACAM (F\u00f3rum Latino-americano de Ci\u00eancias Ambientais), dirigido por Pesci.<\/em><br \/>\n<em>Autor de Planos Diretores e de Gest\u00e3o Ambiental de v\u00e1rias cidades do mundo, o trabalho do argentino tem uma preocupa\u00e7\u00e3o com a \u00e1rea ambiental \u2013 ele criou em 1974 a Funda\u00e7\u00e3o CEPA (Centro de Estudos e Projetos Ambientais).<\/em><br \/>\n<em>Pesci est\u00e1 apavorado com a destrui\u00e7\u00e3o do ambiente em Porto Alegre, especialmente na Zona Sul. Ele diagnostica: \u201cO Plano s\u00f3 foi implantado na parte que trata das edifica\u00e7\u00f5es. E teve altera\u00e7\u00f5es na C\u00e2mara, que o tornaram mais conservador, com \u00edndices de aproveitamento m\u00e1ximos\u201d.<\/em><br \/>\n<em>Mas para o arquiteto, o principal problema foi a falta de informa\u00e7\u00e3o, tanto dentro do governo quanto na popula\u00e7\u00e3o. A id\u00e9ia de adequar o Plano ao interesse da comunidade foi esquecida.<\/em><br \/>\n<em>Rub\u00e9n Pesci esteve em Porto Alegre em janeiro, para participar do F\u00f3rum Social Mundial. Foi quando deu essa entrevista exclusiva para o Jornal J\u00c1.<br \/>\n<\/em> <strong><br \/>\nQue tipo de assessoria voc\u00eas prestaram ao Plano Diretor de Porto Alegre?<br \/>\n<\/strong> Foi um trabalho feito pela Funda\u00e7\u00e3o CEPA da Argentina, solicitado pela Prefeitura de Porto Alegre, porque j\u00e1 conhec\u00edamos muitos dos funcion\u00e1rios e o Secret\u00e1rio de Planejamento da \u00e9poca. J\u00e1 havia todo um relacionamento. Ent\u00e3o fomos chamados para fazer a Coordena\u00e7\u00e3o Metodol\u00f3gica e o Enfoque Conceitual.<br \/>\n<strong>E quanto tempo durou este trabalho?<\/strong><br \/>\nSeis meses, de mar\u00e7o \u00e0 outubro de 1996. Depois nos chamaram novamente para capacitar o pessoal t\u00e9cnico e desenvolver alguns projetos integrados.<br \/>\n<strong>E o que aconteceu entre a concep\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica?<\/strong><br \/>\nA C\u00e2mara de Vereadores fez algumas modifica\u00e7\u00f5es que no princ\u00edpio n\u00e3o nos pareceram muito preocupantes, o problema foi que s\u00f3 discutiam um aspecto do Plano, a quest\u00e3o das edifica\u00e7\u00f5es, deixando de lado os outros seis: os corredores de centralidade, os espa\u00e7os abertos (para lazer e conv\u00edvio social), a quest\u00e3o ambiental, o saneamento, a modifica\u00e7\u00e3o do sistema de transporte e tr\u00e2nsito, o desenvolvimento econ\u00f4mico e social (moradias). Quando o Plano finalmente foi aprovado em 2000, imaginei que tudo fosse poss\u00edvel e que as modifica\u00e7\u00f5es na estrat\u00e9gia de aproveitamento do solo n\u00e3o fossem t\u00e3o graves. O problema come\u00e7ou depois.<br \/>\n<strong>O que aconteceu?<\/strong><br \/>\nA\u00ed come\u00e7amos a ter solicita\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o, chegamos a fazer um ciclo de confer\u00eancias de dois dias na Sociedade de Engenharia com a participa\u00e7\u00e3o de arquitetos, do Sinduscon, vereadores e moradores. Ent\u00e3o come\u00e7amos a ver que as estrat\u00e9gias de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel n\u00e3o estavam sendo aplicadas, pequenas coisas como alargamento de vias e altura de pr\u00e9dios, n\u00e3o vinham sendo respeitadas, o que causava enormes brigas.<br \/>\n<strong>E que tipo de interesse travou isso?<\/strong><br \/>\nQuanto a isso tenho que ser muito prudente, porque na verdade, n\u00e3o sei. O que acho \u00e0 princ\u00edpio, \u00e9 que n\u00e3o foi bem divulgada a ess\u00eancia do Plano, coisa que advertimos desde o in\u00edcio. O principal problema foi a falta de informa\u00e7\u00e3o sobre o Plano tanto dentro do governo quanto para a comunidade.<br \/>\n<strong><br \/>\nFoi na C\u00e2mara de Vereadores que ele sofreu modifica\u00e7\u00f5es?<br \/>\n<\/strong> Eu n\u00e3o segui o processo na C\u00e2mara. Sei que uma quantidade enorme de assessores foram consultados, n\u00e3o sei se houve algum interesse pol\u00edtico-partid\u00e1rio. Sei que aquilo que era um Plano moderno e desenvolvido para qualquer lugar do mundo, acabou sendo um Plano conservador. Os \u00edndices de aproveitamento eram m\u00e1ximos, mas a comunidade podia reunir-se e baixar estes \u00edndices, por\u00e9m o Governo n\u00e3o divulgou isso. O Plano era male\u00e1vel e poderia adequar-se ao interesse da comunidade, mas isso foi esquecido.<br \/>\n<strong>E o Plano que saiu da C\u00e2mara estava muito diferente?<\/strong><br \/>\nSim. Me parece que s\u00f3 na Estrat\u00e9gia 5, porque as outras n\u00e3o haviam sido discutidas e, ingenuamente, achei que n\u00e3o fosse por falta de interesse e sim porque estava tudo certo.<br \/>\n<strong><br \/>\nO Executivo tamb\u00e9m teve responsabilidade pela n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o do Plano Diretor?<br \/>\n<\/strong> Sim. Na compreens\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a de interesses. Aquele Executivo do in\u00edcio, o secret\u00e1rio (Newton) Burmeister e o prefeito Tarso Genro compreendiam perfeitamente. Depois quando o governo foi mudando, mudou tamb\u00e9m o entendimento sobre o assunto. Cada setor da sociedade tem interesses espec\u00edficos na sua \u00e1rea e s\u00f3 quer debater sobre esse assunto. O setor de moradia s\u00f3 se interessava em falar sobre a pol\u00edtica de habita\u00e7\u00e3o social, o setor de constru\u00e7\u00e3o s\u00f3 sobre o aproveitamento do solo, etc.<br \/>\n<strong><br \/>\nNo Plano est\u00e1 prevista uma revis\u00e3o, ainda se pode recuperar a concep\u00e7\u00e3o inicial?<br \/>\n<\/strong> N\u00e3o posso falar como um expert em Porto Alegre, mas me parece que poderia perfeitamente ser feita uma retomada daquele Plano.<br \/>\n<strong><br \/>\nNo Moinhos de Vento se criou um movimento de moradores para preservar a identidade do bairro&#8230;<br \/>\n<\/strong> O plano continha essa id\u00e9ia de fazer uma consulta aos moradores para que limitassem a altura das futuras constru\u00e7\u00f5es, mas os moradores n\u00e3o foram informados. O problema central foi uma total falta de comunica\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o ficou sabendo.<br \/>\n<strong>Outro caso preocupante parecer ser a Zona Sul da cidade&#8230;<\/strong><br \/>\nAli o crescimento tinha que ser muito bem regulado por isso que os corredores centrais flu\u00edram para a Zona Oeste e n\u00e3o para a Zona Sul. Na Zona Sul dever\u00edamos preservar grandes \u00e1reas ambientais que seriam uma reserva de natureza, mas isso n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo&#8230;<br \/>\n<strong>O que est\u00e1 ocorrendo?<\/strong><br \/>\nEu andei por l\u00e1 agora, me assustei. \u00c9 muito grave. Se nada for feito, em cinco anos a Zona Sul estar\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o muito ruim, estar\u00e1 ambientalmente destru\u00edda, com enormes problemas de circula\u00e7\u00e3o, etc.<br \/>\n<strong>O que est\u00e1 sendo feito nesta regi\u00e3o?<\/strong><br \/>\nBom, havia um projeto de desenvolvimento para esta regi\u00e3o, com constru\u00e7\u00f5es de condom\u00ednios e transporte, mas dentro de certos limites de grande respeito ambiental e produtivo, tinha que manter as qualidades tur\u00edsticas e de produ\u00e7\u00e3o ruralS, como a de p\u00eassegos e pesca. Todos os morros e a orla tinham que ser imediatamente protegidos, evitando invasores e loteamentos clandestinos que crescem muito a cada dia. A prolifera\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios de luxo tamb\u00e9m \u00e9 problema s\u00e9rio&#8230; O problema essencial \u00e9 a desinforma\u00e7\u00e3o que tira o direito que o Plano d\u00e1 e leva a brigas imensas em que s\u00f3 ganham os que t\u00eam os interesses mais perigosos.<br \/>\nVoc\u00ea disse que passou de um Plano propositivo para um Plano impositivo?<br \/>\nPerfeitamente. O Plano dava grandes incentivos a investidores que fariam crescer a cidade. Existem muitos corredores. O ideal seria fazer projetos integrados com os moradores vizinhos, investidores e Prefeitura, mas&#8230;<br \/>\n<strong><br \/>\n\u201cEm 5 anos a Zona Sul ser\u00e1 destru\u00edda\u201d<br \/>\n<\/strong><br \/>\nMar\u00edlia e Luiz Ant\u00f4nio Azevedo n\u00e3o s\u00e3o especialistas em planejamento urbano, mas t\u00eam o mesmo progn\u00f3stico que o experiente arquiteto argentino Rub\u00e9n Pesci para o efeito da primeira d\u00e9cada do novo Plano Diretor: \u201cSe continuar assim, em cinco anos v\u00e3o destruir a Zona Sul\u201d.<br \/>\nCasados h\u00e1 46 anos, eles decidiram se mudar de um apartamento do Bom Fim para a regi\u00e3o mais arborizada e menos povoada da cidade, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70.<br \/>\n\u201cQuer\u00edamos sossego e espa\u00e7o para nossos filhos brincarem. O contato com o verde \u00e9 importante\u201d, justificam. E assim cresceram as quatro crian\u00e7as. A fam\u00edlia se instalou no Jardim Isabel, bairro entre Ipanema e o Morro do Osso. \u00c9 um loteamento com apenas 24 ruas, 700 casas e 3 mil moradores.<br \/>\nA comunidade \u00e9 unida, organizada, com direito a entidade representativa: a Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria do Jardim Isabel (Ascomjip). O engenheiro agr\u00f4nomo Luiz Ant\u00f4nio, 69, e a advogada Mar\u00edlia \u2013 casal rec\u00e9m mencionado \u2013 se tornaram lideran\u00e7as depois que se aposentaram.<br \/>\n\u201cDesde ent\u00e3o, me dedico 24 horas por dia \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o\u201d, garante Luiz Ant\u00f4nio, que j\u00e1 foi presidente da Ascomjip duas vezes. Ele se orgulha de ter inaugurado a sede da Associa\u00e7\u00e3o, em 1996. \u00c9 sempre solicitado quando h\u00e1 um problema na vizinhan\u00e7a, seja o entupimento de uma boca-de-lobo, seja para acionar a pol\u00edcia em caso de roubo.<br \/>\nApesar de todo esse engajamento no bairro, o casal n\u00e3o esteve presente em nenhum debate da discuss\u00e3o do Plano Diretor, na d\u00e9cada de 90. Deram-se conta do que foi aprovado s\u00f3 quando sentiram o efeito: 39 novos condom\u00ednios em cinco anos. Cerca de 2 mil novos moradores, ou seja, a popula\u00e7\u00e3o quase duplicou.<br \/>\nO problema \u00e9 que os novos im\u00f3veis t\u00eam uma caracter\u00edstica diferente dos originais: ao inv\u00e9s de p\u00e1tios arborizados, aproveitam todo o terreno com \u00e1rea constru\u00edda \u2013 pudera, onde antes havia uma casa, colocam quatro ou cinco sobradinhos, todos geminados.<br \/>\nA perda de \u00e1rea verde j\u00e1 causou pelo menos um efeito: alagamentos nas ruas mais baixas, fato in\u00e9dito, at\u00e9 ent\u00e3o. Luiz Ant\u00f4nio e Mar\u00edlia se mobilizaram. Passaram a representar a comunidade na avalia\u00e7\u00e3o do Plano Diretor. Desde 2003, marcam presen\u00e7a nos debates da Prefeitura e da C\u00e2mara.<br \/>\nMar\u00edlia \u00e9 mais discreta. Mas seu marido faz quest\u00e3o de exibir cartazes imensos, que sempre carrega com ele. S\u00e3o fotos dos novos condom\u00ednios e dos alagamentos que eles trouxeram. \u201cEssas imagens mostram a barbaridade que est\u00e1 acontecendo na Zona Sul\u201d, costuma dizer, sempre em manifesta\u00e7\u00f5es fortes.<br \/>\nA esposa concorda. \u201cNo papel, o Plano Diretor diz que a Cidade Jardim (Ipanema, Tristeza, Assun\u00e7\u00e3o e arredores) deve ter baixa densidade, com predomin\u00e2ncia de casas circundadas por \u00e1reas verdes. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 acontecendo\u201d, protesta, enquanto l\u00ea o artigo da lei, grifado por ela com caneta hidrocor.<br \/>\n<strong>Pol\u00eamica \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nA discuss\u00e3o que pipoca na cidade \u00e9 a mesma: densifica\u00e7\u00e3o. Mas se na regi\u00e3o central a grita \u00e9 pelo tamanho dos pr\u00e9dios, na Zona Sul a quest\u00e3o \u00e9 o tamanho dos terrenos. Moradores defendem uma \u00e1rea de 250m2 a 300 m2 por casa. Mas a pr\u00e1tica tem sido quatro ou cinco resid\u00eancias nesse tamanho de gleba.<br \/>\nA mudan\u00e7a veio com o novo Plano Diretor, que admite uma economia (casa) a cada 75m2. Por outro lado, a mesma lei chama a regi\u00e3o de Cidade Jardim, uma \u00e1rea especial de interesse do ambiente natural. E com isso, a ocupa\u00e7\u00e3o voltaria a ser 300m2 por resid\u00eancia, garantindo amplas \u00e1reas de arboriza\u00e7\u00e3o, dentro dos im\u00f3veis.<br \/>\nNo meio deste vazio jur\u00eddico \u2013 ou melhor \u2013, como as \u00e1reas especiais do ambiente natural n\u00e3o foram regulamentadas, est\u00e1 se adotando a constru\u00e7\u00e3o de quatro casas por lote. \u201cO que eles querem \u00e9 \u00e1rea. Mas isso vai contra a voca\u00e7\u00e3o desses bairros e destr\u00f3i a arboriza\u00e7\u00e3o interna\u201d, avalia Nestor Nadruz, arquiteto e coordenador do Movimento Porto Alegre Vive.<br \/>\nO ambientalista Guilherme Dornelles, da Agapan (Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Prote\u00e7\u00e3o ao Ambiente Natural) diz que a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria est\u00e1 igualando a Zona Sul \u00e0 Zona Norte. \u201cIpanema est\u00e1 sofrendo a maior agress\u00e3o. Em dois meses, derrubam a casa, as \u00e1rvores, colocam um tapume e impermeabilizam todo o terreno\u201d, descreve o ecologista.<br \/>\nOutro problema da Zona Sul destacado por Dornelles s\u00e3o os loteamentos clandestinos. \u201cS\u00e3o pessoas de baixa renda que se instalam em \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o e degradam o ambiente. Depois, o dono pede reintegra\u00e7\u00e3o de posse e pode construir no terreno\u201d.<br \/>\nO ambientalista trabalha ainda pela preserva\u00e7\u00e3o da orla, especialmente no trecho entre o Lami e a Ponta Grossa, que ainda n\u00e3o est\u00e1 constru\u00eddo. \u201cJ\u00e1 tem projetos para esta faixa, mas ela \u00e9 de preserva\u00e7\u00e3o do ambiente natural e \u00e9 \u00e1rea especial de interesse cultural\u201d, ressalta Dornelles.<br \/>\n<strong>O caso Loteamento Ipanema<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m de condom\u00ednios horizontais, existe preocupa\u00e7\u00e3o com os projetos especiais na Zona Sul. Um deles \u00e9 o Loteamento Ipanema, da Maiojama, que prev\u00ea v\u00e1rios blocos de 10 pavimentos.<br \/>\nO projeto \u00e9 antigo e foi travado na Justi\u00e7a. A quest\u00e3o \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica, existente no local, e a canaliza\u00e7\u00e3o do Arroio Esp\u00edrito Santo. O Poder Judici\u00e1rio deu parecer favor\u00e1vel ao empreendimento, em decis\u00e3o apresentada em novembro de 2004, mas a promotora de Justi\u00e7a de Defesa do Meio Ambiente, Ana Maria Marchesan, vai recorrer, levando o caso at\u00e9 Bras\u00edlia.<br \/>\nMoradores se queixam, ainda, da descaracteriza\u00e7\u00e3o que o empreendimento causaria na regi\u00e3o. \u201c\u00c9 um local residencial, antigo, com tradi\u00e7\u00e3o de casas de veraneio e querem colocar um monte de espig\u00f5es\u201d, explica o ambientalista Guilherme Dornelles, morador da Zona Sul.<br \/>\n\u201cProjetos especiais como esse alteram bairros centen\u00e1rios, degradando a zona costeira\u201d, diz Mar\u00e7al Davi, da Tristeza. Ele cita outro empreendimento, na rua M\u00e1rio Totta, que tamb\u00e9m \u00e9 formado por pr\u00e9dios altos, ao inv\u00e9s de casas.<br \/>\nProcurada diversas vezes pelo J\u00c1, a Maiojama n\u00e3o concedeu entrevista, conforme havia prometido o departamento de marketing da empresa construtora.<br \/>\n<strong>\u201cQuem se muda para c\u00e1 quer contato com verde&#8221; <\/strong><br \/>\nO advogado Ast\u00e9lio Santos \u00e9 outro que est\u00e1 insatisfeito com as mudan\u00e7as na Zona Sul. Ex-representante da comunidade no F\u00f3rum da Regi\u00e3o de Planejamento, \u00e9 uma das lideran\u00e7as da Associa\u00e7\u00e3o dos Moradores do Balne\u00e1rio Ipanema, a Ambi.<br \/>\nFoi para a Zona Sul em 1983, em busca de sossego. \u201cIsso aqui era uma maravilha\u201d. Antes, morou na avenida Ven\u00e2ncio Aires, na d\u00e9cada de 70. Achou que o local estava ficando movimentado demais. Foi para o Menino Deus, onde viveu alguns anos, at\u00e9 perder o sol, quando constru\u00edram um pr\u00e9dio ao lado.<br \/>\n\u201cQuem vem para c\u00e1 (Ipanema) quer o verde. Isso \u00e9 qualidade de vida. E est\u00e3o acabando com a arboriza\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 nas casas\u201d, protesta. \u201cEsse Plano Diretor foi feito para fomentar a constru\u00e7\u00e3o civil! N\u00e3o foi feito para o morador!\u201d, diz, em tom exaltado.<br \/>\nEle acredita que os moradores que participaram da discuss\u00e3o n\u00e3o tinham cultura urban\u00edstica para entender a press\u00e3o dos construtores. \u201cN\u00e3o houve contraponto. E a Prefeitura aceitou, para ganhar dinheiro com impostos sobre os im\u00f3veis\u201d, acredita.<br \/>\nEntre as queixas, o pouco recuo dos novos condom\u00ednios. Exemplo, em sua regi\u00e3o, \u00e9 o que n\u00e3o falta. Quem chega na Zona Sul logo percebe que a regi\u00e3o parece um canteiro de obras. Nas ruas internas, entre as principais avenidas, s\u00e3o dezenas, centenas de pequenos condom\u00ednios horizontais.<br \/>\nAs preocupa\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do esgoto in natura, que vai para o Gua\u00edba, e dos crescentes alagamentos, \u00e9 com o adensamento e a falta de infra-estrutura: mesmo as vias principais s\u00e3o estreitas para a quantidade cada vez maior de autom\u00f3veis.<br \/>\n\u201cN\u00e3o temos uma malha vi\u00e1ria para suportar mais ve\u00edculos. E falta infra-estrutura: escolas, postos de sa\u00fade, saneamento. Isso aqui vai virar outra Goethe\u201d, prev\u00ea o advogado Mar\u00e7al Davi, uma das lideran\u00e7as do bairro Tristeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Kolling O Plano Diretor de Porto Alegre completou cinco anos em 27 de mar\u00e7o. 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