{"id":6639,"date":"2010-02-05T09:35:58","date_gmt":"2010-02-05T12:35:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=6639"},"modified":"2010-02-05T09:35:58","modified_gmt":"2010-02-05T12:35:58","slug":"acusado-do-sequestro-diz-que-nao-e-animal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/acusado-do-sequestro-diz-que-nao-e-animal\/","title":{"rendered":"Acusado do sequestro diz que n\u00e3o \u00e9 &quot;animal&quot;"},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_6648\" aria-describedby=\"caption-attachment-6648\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/Irno-4-2-2010-150x200.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Augusto da Rosa, o Irno\" title=\"Irno-4-2-2010\" width=\"150\" height=\"200\" class=\"size-thumbnail wp-image-6648\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6648\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Augusto da Rosa, o Irno<\/figcaption><\/figure><em>\u201cNem parecia um policial. Tinha a cara e o focinho de um burocrata med\u00edocre e ex\u00f3tico de algum escrit\u00f3rio infecto de contabilidade da periferia\u201d. <\/em><br \/>\nForam estas duas linhas, pin\u00e7adas num texto de 450 p\u00e1ginas, que levaram o ex-agente do Dops ga\u00facho Jo\u00e3o Augusto da Rosa a processar por danos morais o jornalista  Luiz Cl\u00e1udio Cunha.<br \/>\nCunha \u00e9 autor do livro \u201cO Sequestro dos Uruguaios\u201d, que reconstr\u00f3i com riqueza de detalhes um dos epis\u00f3dios emblem\u00e1ticos dos regimes militares que assolaram o continente sulamericano, na segunda metade do s\u00e9culo passado.<br \/>\nO seq\u00fcestro foi uma opera\u00e7\u00e3o conjunta e clandestina de policiais brasileiros e uruguaios, perpetrada em novembro de 1978.<br \/>\nAs v\u00edtimas foram Universindo D\u00edaz e L\u00edlian Celiberti, militantes de uma organiza\u00e7\u00e3o de esquerda que combatia a ditadura no Uruguai e que estavam refugiados no Brasil.<br \/>\nApanhados em Porto Alegre, junto com os dois filhos menores de L\u00edlian,  eles seriam entregues na fronteira aos agentes da repress\u00e3o uruguaia.<br \/>\nUm detalhe impediu que a opera\u00e7\u00e3o fosse um \u00eaxito completo, como foram muitas outras.<br \/>\nUm telefonema an\u00f4nimo para a reda\u00e7\u00e3o da revista Veja, em Porto Alegre, levou  Luiz Cl\u00e1udio Cunha e o fot\u00f3grafo Jo\u00e3o Batista Scalco a um apartamento no bairro Menino Deus, onde os dois uruguaios estavam morando. \u201cEst\u00e1 ocorrendo um seq\u00fcestro\u201d, disse o informante.<br \/>\nQuando os dois jornalistas chegaram ao apartamento, L\u00edlian e Universindo j\u00e1 estavam nas m\u00e3os dos agentes da repress\u00e3o, que aguardavam para apanhar outro militante \u2013 Hugo Cores, o chefe do grupo.<br \/>\nL\u00edlian abriu a porta, mas n\u00e3o conseguiu falar nada. Dois homens que estavam no interior do apartamento apareceram, de armas na m\u00e3o. Um colocou a pistola na cabe\u00e7a de Cunha e o outro fez o mesmo com Scalco.<br \/>\nOs jornalistas se identificaram e depois de breve interrogat\u00f3rio foram liberados, com a recomenda\u00e7\u00e3o da nada falarem, pois se tratava de uma opera\u00e7\u00e3o para apanhar uruguaios ilegais no pa\u00eds.<br \/>\nO seq\u00fcestro seguiu seu curso. Em poucos dias, os dois uruguaios e as crian\u00e7as estariam em Montevid\u00e9o, nas m\u00e3os dos agentes da ditadura uruguaia.<br \/>\nOutro detalhe seria decisivo para desvendar toda a hist\u00f3ria: Scalco,  experiente fot\u00f3grafo de futebol,  reconheceu o homem que apontou a arma para sua cabe\u00e7a. Era o ex-atacante do Inter, conhecido como Didi Pedalada, que se tornara agente do Dops.<br \/>\nA partir desta pista, os jornalistas desvendaram a  opera\u00e7\u00e3o. O segundo homem seria idendificado quase dois anos depois \u2013 era Jo\u00e3o Augusto da Rosa, que usava o codinome de Irno.<br \/>\nA identifica\u00e7\u00e3o de Didi foi cabal e ele chegou a ser condenado. Mas a identifica\u00e7\u00e3o de Irno, atrav\u00e9s de fotografias, foi insuficiente. Embora denunciado pelo promotor e condenado em primeira inst\u00e2ncia, ele foi absolvido, em recurso, por falta de provas.<br \/>\nAs provas que poderiam ser decisivas contra ele \u2013 o testemunho dos seq\u00fcestrados \u2013 n\u00e3o puderam ser usados. Quando ele foi absolvido, L\u00edlian Celiberti e Universindo Dias, estavam incomunic\u00e1veis no c\u00e1rcere da ditadura uruguaia.<br \/>\n\u201cEle me chamou de med\u00edocre e com focinho. Quem tem focinho \u00e9 animal, eu n\u00e3o sou animal\u201d, afirmou Jo\u00e3o Augusto da Rosa, o Irno, quando a ju\u00edza Maria Claudia Hardt perguntou por que raz\u00e3o estava processando o jornalista.<br \/>\nA estrat\u00e9gia de seu advogado n\u00e3o previa remexer no caso, mas apenas fixar-se na suposta ofensa por ter sido chamado de med\u00edocre e, segundo sua interpreta\u00e7\u00e3o, de animal. \u201cTenho filhos e netos\u201d, justificou o ex-policial.<br \/>\nMas a audi\u00eancia, na pequena sala da 18\u00aa. Vara C\u00edvel, no F\u00f3rum  de Porto Alegre, nesta quinta-feira, 4 de fevereiro, tornou-se uma verdadeira viagem no tempo, com a reconstitui\u00e7\u00e3o de toda a hist\u00f3ria, principalmente dos detalhes que levaram \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Augusto da Rosa, como um dos homens que estavam no apartamento da rua Botafogo, h\u00e1 32 anos atr\u00e1s.<br \/>\nAl\u00e9m de Luiz Cl\u00e1udio, foram ouvidos L\u00edlian Celiberti, o fot\u00f3grafo Ricardo Chaves e o jornalista Pedro Maciel. \u201cSim, eu o reconhe\u00e7o\u201d, disse L\u00edlian, categoricamente, quando a ju\u00edza perguntou se ela conhecia o homem de \u00f3culos, calvo, de bigode e cavanhaque que estava sentado a dois metros dela, na sala de audi\u00eancias. Foi a primeira vez que ela fazer o reconhecimento de um dos seus seq\u00fcestradores.<br \/>\nVisivelmente decepcionado ao final da audi\u00eancia, o ex-policial reclamou que em vez de discutir a ofensa de que ele foi alvo no livro, &#8220;trouxeram toda essa hist\u00f3ria outra vez&#8221;. Falando aos rep\u00f3rteres no sagu\u00e3o do f\u00f3rum ele repetiu: &#8220;N\u00e3o fui, n\u00e3o sou e nunca serei animal&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNem parecia um policial. Tinha a cara e o focinho de um burocrata med\u00edocre e ex\u00f3tico de algum escrit\u00f3rio infecto de contabilidade da periferia\u201d. Foram estas duas linhas, pin\u00e7adas num texto de 450 p\u00e1ginas, que levaram o ex-agente do Dops ga\u00facho Jo\u00e3o Augusto da Rosa a processar por danos morais o jornalista Luiz Cl\u00e1udio Cunha. 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