{"id":6843,"date":"2010-04-08T01:23:34","date_gmt":"2010-04-08T04:23:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=6843"},"modified":"2010-04-08T01:23:34","modified_gmt":"2010-04-08T04:23:34","slug":"depois-da-ditabranda-general-diz-que-nao-houve-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/depois-da-ditabranda-general-diz-que-nao-houve-tortura\/","title":{"rendered":"General diz que n\u00e3o houve tortura"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista Geneton Moraes Neto, \u00e9 um g\u00eanio da ra\u00e7a. Da ra\u00e7a dos jornalistas. Sua empreitada atual \u00e9 escarafunchar os subterr\u00e2neos da ditadura militar, ouvindo agora a voz sempre silenciosa de alguns de seus principais personagens: os generais.<br \/>\nNo s\u00e1bado (3\/4), o <strong>Globonews Dossi\u00ea <\/strong>de Geneton entrevistou o general Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, ex-comandante do DOI-CODI do I Ex\u00e9rcito, no Rio de Janeiro, no per\u00edodo mais sangrento do governo Ernesto Geisel.<br \/>\nNo s\u00e1bado (10\/4), ser\u00e1 a vez do general Newton Cruz, o not\u00f3rio Comandante Militar do Planalto, que em 1984 chicoteava os carros na Esplanada dos Minist\u00e9rios, em Bras\u00edlia, enquanto suas tropas cercavam o Congresso no momento em que o trator governista esmagava em plen\u00e1rio a emenda das Diretas J\u00e1.<br \/>\n<strong>Fantasias fardadas<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO primeiro impacto foi bomb\u00e1stico: a entrevista de Le\u00f4nidas, mais conhecido como o primeiro ministro do Ex\u00e9rcito p\u00f3s-ditadura, o general nomeado por Tancredo Neves e que se tornou o principal cabo eleitoral e fiador da posse de Jos\u00e9 Sarney.<br \/>\nA primeira surpresa \u00e9 que o entrevistado aparece n\u00e3o como o ministro da democracia, mas como o chefe da repress\u00e3o da ditadura. Le\u00f4nidas \u00e9 identificado, na legenda, como &#8220;chefe do DOI-CODI, 1974-77&#8221;.<br \/>\nO general falou, com uma flu\u00eancia in\u00e9dita e uma sinceridade desconcertante, levantando temas que beiram \u00e0 fantasia, a leviandade e a arrog\u00e2ncia.<br \/>\n Desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no DOI-CODI que ele comandou durante quase tr\u00eas anos, na fase mais turbulenta do governo Geisel. &#8220;N\u00e3o houve tortura na minha \u00e1rea&#8221;, garantiu Le\u00f4nidas.<br \/>\nDeve ser um milagre na Terra, porque no mesmo I Ex\u00e9rcito, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e mar\u00e7o de 1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou O Globo.<br \/>\nNaquele espa\u00e7o de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras da Rua Bar\u00e3o de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do Ex\u00e9rcito, comandado pelo not\u00f3rio major Adyr Fi\u00faza de Castro, um dos radicais mais temidos da ditadura.<br \/>\nBastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca, diz o general Le\u00f4nidas, e a paz dos anjos se instalou.<br \/>\nConfessa que foi dele a id\u00e9ia de subornar um ex-dirigente do PCdoB, Manoel Jover Telles, que revelou local, dia e hora da reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central do partido, em dezembro de 1976, em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nLe\u00f4nidas diz que entregou uma quantia equivalente a R$ 150 mil \u00e0 filha do delator, que depois ganhou um emprego na f\u00e1brica de armas Rossi, em S\u00e3o Leopoldo, onde hoje vive aposentado.<br \/>\nA opera\u00e7\u00e3o de cerco foi montada pelo chefe do setor de opera\u00e7\u00f5es do CIE (Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito), coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o criador e primeiro chefe do DOI-CODI paulista do II Ex\u00e9rcito, na Rua Tut\u00f3ia.<br \/>\nUstra comandou pessoalmente o ataque \u00e0 casa do PCdoB, num tiroteio que prendeu dirigentes e matou tr\u00eas chefes do partido num entrevero sangrento conhecido como o &#8220;Massacre da Lapa&#8221;.<br \/>\n Por coincid\u00eancia, o coronel Ustra chefiou a tropa de ataque do CIE no mesmo per\u00edodo \u2013 1974-77 \u2013 em que o general Le\u00f4nidas comandava o remanso de paz da Bar\u00e3o de Mesquita.<br \/>\nEntre outras fantasias, Le\u00f4nidas continua acreditando que o jornalista Vladimir Herzog \u00e9 apenas um &#8220;suicida assustado&#8221; pelo simples fato de ser convocado ao centro de torturas da Tut\u00f3ia.<br \/>\n<strong>Efeitos desastrosos<\/strong><br \/>\nO que n\u00e3o surpreende, nesta entrevista, \u00e9 a compet\u00eancia do entrevistador, talvez o melhor perguntador da imprensa brasileira.<br \/>\nAos 54 anos, Geneton Moraes Neto \u00e9 um rep\u00f3rter discreto, persistente, talentoso e criativo, que tem o faro da not\u00edcia e uma habilidade invulgar para fazer as perguntas precisas para as pessoas certas nos momentos mais inesperados, jogando luz sobre a hist\u00f3ria e dissecando biografias com a precis\u00e3o de um legista.<br \/>\nEntre uma e outra pauta na TV, Geneton ainda encontra tempo, m\u00e9todo e talento para escrever. J\u00e1 s\u00e3o nove livros, entre 1983 e 2007, que revelam o prazer visceral de um jornalista veterano que exibe o ardor de um rep\u00f3rter iniciante.<br \/>\n Ele mesmo se descreve, exibindo a diversidade de quem descobre temas e personagens de velhas hist\u00f3rias renascidas e recontadas com o vi\u00e7o de coisas novas, diferentes e in\u00e9ditas. Escreve Geneton sobre seu fasc\u00ednio pelo bom jornalismo e suas perip\u00e9cias:<br \/>\n&#8220;\u00c9 a melhor profiss\u00e3o para quem n\u00e3o consegue ser outra coisa na vida. [Tive] a chance de percorrer corredores da morte em pris\u00f5es de seguran\u00e7a m\u00e1xima americanas, ru\u00ednas de campos de concentra\u00e7\u00e3o na Alemanha, al\u00e9m de entrevistar tr\u00eas astronautas que pisaram na Lua, duas sobreviventes do naufr\u00e1gio do Titanic, o co-piloto do avi\u00e3o que jogou a bomba at\u00f4mica sobre Hiroshima, o produtor de todos os discos dos Beatles, o assassino do l\u00edder negro Martin Luther King, o promotor brit\u00e2nico que comandou a condena\u00e7\u00e3o dos criminosos nazistas no Tribunal de Nuremberg, o agente secreto brit\u00e2nico que armou um atentado \u2013 frustrado \u2013 para matar Hitler, o golpista que engendrou o c\u00e9lebre assalto ao trem pagador ingl\u00eas. Entre trancos e barrancos, o jornalismo pode valer a pena.&#8221;<br \/>\nE vale mais a pena quando vem pelo c\u00e1lamo e pelo talento de Geneton, que consegue tornar simples uma dos mais complexos fundamentos do jornalismo: a arte de perguntar.<br \/>\nUma pergunta bem formulada, precisa, cir\u00fargica, n\u00e3o deixa sa\u00edda ao entrevistado, n\u00e3o permite fuga, n\u00e3o abre desvios. O bom rep\u00f3rter, antes da acuidade para ouvir, deve ter a compet\u00eancia para inquirir. E, neste campo, ningu\u00e9m \u00e9 melhor, mais certeiro, mais direto do que Geneton.<br \/>\nSeus livros e seus programas na TV valem por um curso completo de jornalismo.<br \/>\nAlgo mais doura esta habilidade inata de Geneton.<br \/>\nSuas perguntas s\u00e3o objetivas, enxutas, minimalistas.<br \/>\nSem arrog\u00e2ncia, Geneton enfrentou o general Le\u00f4nidas com perguntas precisas que iluminaram a hist\u00f3ria e conseguiram arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repress\u00e3o pol\u00edtica que se orgulha de seu trabalho na ditadura.<br \/>\nPreocupado com a edi\u00e7\u00e3o do programa na TV, Le\u00f4nidas se apressou em ensinar jornalismo a Geneton: &#8220;Que minhas id\u00e9ias n\u00e3o sejam suprimidas na edi\u00e7\u00e3o. Se houver um corte, voc\u00ea me deixa mal&#8221;, avisou o general, esquecido de que o regime que ele defendeu se esmerava em cortes sistem\u00e1ticos pela censura burra que suprimia id\u00e9ia e fatos que sempre deixam mal as ditaduras.<br \/>\n Geneton n\u00e3o cortou, e ainda assim o general Le\u00f4nidas ficou muito mal pelas id\u00e9ias que exprimiu, livremente.<br \/>\nSempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton questionou a ex\u00f3tica vers\u00e3o do general de que l\u00edderes do regime deposto \u2013 como Arraes, Brizola, Jango, Prestes \u2013 sa\u00edram do Brasil, a partir de 1964, &#8220;porque quiseram&#8221;. Le\u00f4nidas mirou no ex-governador Miguel Arraes:<br \/>\n\u2013 Ele podia ficar em casa.<br \/>\n\u2013 Deposto \u2013 emendou Geneton.<br \/>\n\u2013 E qual \u00e9 o problema? \u2013 admirou-se o general.<br \/>\n\u2013 Todo \u2013 encerrou Geneton, com a sint\u00e9tica sabedoria que o general, aos 88 anos, ainda n\u00e3o apreendeu. \u2013 N\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de exercer a pol\u00edtica no Brasil, naquela \u00e9poca, general.<br \/>\nO ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arb\u00edtrio e viol\u00eancia, dizendo que o pa\u00eds n\u00e3o teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas \u2018fugitivos\u2019.<br \/>\n\u2013 Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justi\u00e7a \u2013 pregou Le\u00f4nidas.<br \/>\n\u2013 General, num regime de exce\u00e7\u00e3o, a justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel \u2013 replicou o rep\u00f3rter.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista Geneton Moraes Neto, \u00e9 um g\u00eanio da ra\u00e7a. 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