{"id":685,"date":"2005-09-13T15:58:22","date_gmt":"2005-09-13T18:58:22","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=685"},"modified":"2005-09-13T15:58:22","modified_gmt":"2005-09-13T18:58:22","slug":"velejador-se-afoga-na-lagoa-dos-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/velejador-se-afoga-na-lagoa-dos-barros\/","title":{"rendered":"Velejador se afoga na Lagoa dos Barros"},"content":{"rendered":"<p>O afogamento do windsurfista Tiago Farias, na semana passada, na Lagoa dos Barros, a maior l\u00e2mina d\u00e1gua do litoral norte, com mais de 10 mil hectares, chocou a popula\u00e7\u00e3o de Os\u00f3rio e mobilizou velejadores de todo o Estado.<br \/>\nEstudante de administra\u00e7\u00e3o de empresas e radialista, Tiago mantinha aos s\u00e1bados na R\u00e1dio Os\u00f3rio AM um programa &#8220;Rota 750&#8243; sobre esportes radicais ligados \u00e0 natureza. Al\u00e9m de praticar v\u00f4o livre e windsurfe, cobria outros esportes praticados na regi\u00e3o, como mountain bike e bicicross, e incentivava os cuidados com o meio ambiente. A Pol\u00edcia Civil e a Marinha investigam o acidente.<br \/>\nNo in\u00edcio da tarde da \u00faltima quinta-feira (8\/9) quem cruzava a Free Way no sentido Porto Alegre-Os\u00f3rio podia avistar duas velas de windsurfe e duas pipas de kite-surfe, em pontos diferentes da Lagoa dos Barros. Aproveitando o vento nordeste, as duas pipas estavam em frente \u00e0 Rajada, escola de Rafael Freitas, na margem leste da lagoa; as duas velas na margem norte, em frente \u00e0 Windfly, escola de Marco Antonio Rodrigues da Silva, mais conhecido como Bola, que fazia ali o que denominou &#8221; o meu melhor velejo&#8221;. Na outra prancha estava Tiago treinando para sua estr\u00e9ia no campeonato ga\u00facho de windsurfe &#8211; seria no pr\u00f3ximo fim de semana, na Lagoa dos Patos, em Pelotas.<br \/>\nQuando Tiago se afastou da Windfly, sendo levado pelo vento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Rajada, na outra margem, Bola foi atr\u00e1s dele, mas o perdeu de vista, pois as ondas come\u00e7avam a elevar-se. Bola ent\u00e3o voltou para a base, pegou o carro e foi fazer o resgate do amigo por terra na outra margem, seguro de que j\u00e1 o encontraria confraternizando com o pessoal do kite-surfe.<br \/>\nMas na Rajada ningu\u00e9m o havia visto e da margem n\u00e3o se podia avistar a vela. Dois velejadores entraram no bote salva-vidas e foram para o meio da lagoa, Bola ligou para os bombeiros e, acreditando que Tiago tivesse buscado abrigo numa beirada da lagoa, continuou as buscas por terra, com a ajuda de amigos que apareceram para ajudar. O vento se tornava mais intenso \u00e0 medida que a noite se aproximava e todos se lembravam do dia anterior, de calmaria quase absoluta.<br \/>\nNo meio da tarde do 7 de setembro, Tiago Farias aportou na Lagoa dos Barros em sua asa, fazendo um pouso que ele declarou como sendo de boeing, em cima dos juncos. O vento estava fraco para vela no feriado; os velejadores que esperavam o momento prop\u00edcio para cair n\u2019\u00e1gua circundaram o amigo voador e o ajudaram a guardar a asa. Ele tamb\u00e9m estava disposto a velejar, mas faltou o principal: o feriado terminou com um p\u00f4r-do-sol sobre \u00e1guas tranq\u00fcilas e temperatura amena.<br \/>\nO programa, depois da chegada inusitada de Tiago com sua asa, se resumiu a tomar chimarr\u00e3o em frente \u00e0 lagoa, sentindo a quentura do sol, olhando as crian\u00e7as que jogavam bola e andavam de bicicleta em frente \u00e0 praia.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Desconec\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nAnoitecia quando, sem a vela e sem a bolina (quilha m\u00f3vel), a prancha de 330 cent\u00edmetros em que Tiago deu seu \u00faltimo velejo foi recolhida na margem leste da lagoa, a cerca de oito quil\u00f4metros do ponto onde ele costumava treinar. At\u00e9 domingo a vela n\u00e3o havia sido encontrada. A bolina apareceu por volta das dez da noite, duas horas antes da descoberta do corpo, recebido por colegas de vela, de v\u00f4o, familiares e amigos.<br \/>\nPara os companheiros de velejo que tentaram o resgate, a separa\u00e7\u00e3o das tr\u00eas partes do equipamento indica que o windsurfista realizou a opera\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil sob as rajadas fortes (53 km\/h) e o frio intenso (10 graus): desatarrachou a vela da prancha, mas perdeu-se do que seria sua t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o &#8211; no windsurfe, a prancha \u00e9 o principal item de seguran\u00e7a.<br \/>\nN\u00e3o se sabe por que ele desconectou a prancha da vela, pois a recomenda\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 que o windsurfista, por acidente, cansa\u00e7o ou pane no equipamento, permane\u00e7a em cima da prancha at\u00e9 para facilitar a localiza\u00e7\u00e3o pela equipe de resgate. \u00c9 poss\u00edvel que, na impossibilidade de levantar a vela devido a for\u00e7a do vento, ele a tenha descartado para remar sobre a prancha e chegar mais rapidamente \u00e0 margem. Na \u00e2nsia de voltar ao trabalho, mesmo com roupa de neoprene e colete de flutua\u00e7\u00e3o, deve ter-se esgotado nadando.<br \/>\nOs bombeiros de Santo Ant\u00f4nio da Patrulha e de Os\u00f3rio, sem barco, pouco podiam fazer e alertaram que o barco salva-vidas precisava sair da \u00e1gua de acordo com as previs\u00f5es de tempo da Defesa Civil para aquela noite. \u00c0quela altura os companheiros de Tiago j\u00e1 estavam voltando do meio da lagoa com o bote salva-vidas das escolas em meio a ondas desestabilizadoras, que dificultavam a visualiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEnquanto a noite ca\u00eda, outros davam voltas de carro e de moto por toda a margem, confiantes de que a qualquer momento Tiago chegaria em terra firme. A busca s\u00f3 terminou no in\u00edcio da madrugada, quando o corpo apareceu perto do local onde a prancha havia sido encontrada.<br \/>\nA Pol\u00edcia Civil e a Marinha abriram inqu\u00e9ritos para investigar as causas do acidente, que poder\u00e1 ajudar a melhorar as condi\u00e7\u00f5es para a pr\u00e1tica desses esportes. Embora a vela seja t\u00e3o antiga quanto a civiliza\u00e7\u00e3o humana, o windsurfe \u00e9 praticado s\u00f3 h\u00e1 trinta anos e o kite-surfe tem apenas cinco anos.<br \/>\nS\u00e3o raros os acidentes na pr\u00e1tica do windsurfe, um dos poucos esportes radicais que admitem crian\u00e7as e adolescentes. A prancha \u00e9 o principal equipamento salva-vidas, mas para aumentar a seguran\u00e7a recomenda-se surfar com o colete de flutua\u00e7\u00e3o, como o que Tiago Farias usava.<br \/>\nOs coletes do tipo salva-vidas n\u00e3o s\u00e3o usados porque impedem o velejador de mergulhar quando a vela cai, j\u00e1 que a sa\u00edda precisa ser feita por baixo dela. No ver\u00e3o, em praias e lagoas, \u00e9 dif\u00edcil avistar windsurfistas com coletes ou roupas de neoprene. Os capacetes para a pr\u00e1tica do kite-surfe s\u00f3 h\u00e1 pouco come\u00e7aram a ser utilizados, depois de alguns acidentes.<br \/>\nO uso de b\u00f3ias na \u00e1gua para delimitar espa\u00e7os e r\u00e1dio para monitoramento, por exemplo, podem ser regulamenta\u00e7\u00f5es \u00fateis e necess\u00e1rias, mas at\u00e9 agora n\u00e3o previstas.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O Vento como Insumo<\/span><br \/>\nCoberta pelo vento minuano, a Lagoa dos Barros n\u00e3o registrou movimento de velas e asas no fim-de-semana, mas nas suas redondezas ningu\u00e9m acredita que o acidente v\u00e1 inibir os adeptos dos esportes radicais e emocionantes nos morros e lagoas do litoral norte. Com 40 mil habitantes, Os\u00f3rio \u00e9 tradicionalmente procurada pelos chamados &#8220;loucos pelo vento&#8221;, que se deslocam de lugares distantes para a pr\u00e1tica de diversas modalidades de esportes ao ar livre.<br \/>\nA divulga\u00e7\u00e3o do projeto da usina e\u00f3lica da Enerfin, junto \u00e0 Lagoa dos \u00cdndios, na estrada Os\u00f3rio-Tramanda\u00ed, est\u00e1 fazendo vir \u00e0 tona, com for\u00e7a, a voca\u00e7\u00e3o regional para a explora\u00e7\u00e3o do vento como insumo do lazer e do turismo no litoral norte do Rio Grande do Sul. Segundo os esportistas de Os\u00f3rio, as duas escolas de vela rec\u00e9m-abertas na Lagoa dos Barros s\u00e3o apenas a confirma\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria de quase setenta anos. Desde 1937 funciona no munic\u00edpio a Albatroz, uma escola de planadores montada originalmente pela Varig; em 1985 foi criada na cidade uma associa\u00e7\u00e3o de v\u00f4o livre que mant\u00e9m tr\u00eas plataformas de saltos nos morros vizinhos.<br \/>\nA pr\u00e1tica da vela na Lagoa dos Barros foi iniciada depois que um grupo de velejadores liderado por Marco Antonio Rodrigues da Silva, o Bola, comprou um terreno h\u00e1 tr\u00eas anos \u00e0 altura do km 5 da Free Way; visando instalar uma escola de vela e guarderia de material n\u00e1utico.<br \/>\nPiloto agr\u00edcola h\u00e1 vinte anos, Bola tornou-se navegador em Tapes, na Lagoa dos Patos; em Os\u00f3rio, introduziu as aulas de vela nos anos 90. Praticava na pequena Lagoa do Peixoto, fonte de abastecimento de \u00e1gua da popula\u00e7\u00e3o de Os\u00f3rio. Somente no primeiro semestre de 2005 conseguiu a licen\u00e7a para realizar o sonho da escola e guarderia na maior das 38 lagoas do litoral norte ga\u00facho. Um galp\u00e3o octogonal foi constru\u00eddo em dois meses e inaugurado no final de julho.<br \/>\nCom a licen\u00e7a ambiental 1\/2005, de comum acordo com as autoridades ambientais, o prefeito Romildo Bolzan Jr. estabeleceu que a Windfly pode ter apenas um barco a motor &#8212; para resgate de velejadores em risco. Ao proibir os motores, a prefeitura credenciou a Lagoa dos Barros apenas para os esportes n\u00e1uticos tocados pelo vento. &#8220;Isso \u00e9 bom, pois reduz o risco de polui\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Bola, que se retirou da avia\u00e7\u00e3o agr\u00edcola inconformado com a pr\u00e1tica sistem\u00e1tica de crimes ambientais, especialmente o lan\u00e7amento de venenos proibidos sobre lavouras de arroz e soja.<br \/>\nAl\u00e9m de formar novos praticantes e guardar material de vela de esportistas tradicionais, a Windfly tem planos de organizar pelo menos um torneio internacional de vela por ano em Os\u00f3rio. Como incentivador do mais novo ponto de encontro dos velejadores do litoral sulino \u2013 a vela tem adeptos entusiasmados em Rio Grande, Pelotas, Tapes, Porto Alegre, Os\u00f3rio, Ibiraquera e Florian\u00f3polis \u2013, Bola disp\u00f5e-se a provar que o turismo n\u00e1utico n\u00e3o \u00e9 apenas fonte de emprego e renda, mas um instrumento de educa\u00e7\u00e3o ambiental num espa\u00e7o tradicionalmente dominado por atividades agr\u00edcolas poluentes. &#8220;Acho bom que as autoridades endure\u00e7am para dar uma licen\u00e7a, mas os \u00f3rg\u00e3os ambientais precisam fiscalizar tamb\u00e9m outras atividades tradicionalmente poluentes&#8221;, dizia ele, poucos dias antes do acidente com Tiago, chamando a aten\u00e7\u00e3o para o impacto ambiental do plantio de arroz irrigado e da pecu\u00e1ria.<br \/>\nPrincipal fonte de abastecimento d\u2019\u00e1gua para as lavouras de arroz situadas entre Os\u00f3rio, Santo Ant\u00f4nio da Patrulha, Palmares e Porto Alegre, a Lagoa dos Barros \u00e9 livre de polui\u00e7\u00e3o e tem um regime de ventos caprichoso por causa de um acidente geogr\u00e1fico particular \u2013 \u00e9 ao seu lado que come\u00e7a a Serra do Mar. Alguns praticantes de esportes n\u00e1uticos bastante viajados a equiparam a grandes pontos internacionais da navega\u00e7\u00e3o a vela. Acredita-se que seus redemoinhos trai\u00e7oeiros, provocados pelo choque de correntes de vento contradit\u00f3rias, possam servir como chamariz de competi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O afogamento do windsurfista Tiago Farias, na semana passada, na Lagoa dos Barros, a maior l\u00e2mina d\u00e1gua do litoral norte, com mais de 10 mil hectares, chocou a popula\u00e7\u00e3o de Os\u00f3rio e mobilizou velejadores de todo o Estado. 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