{"id":688,"date":"2005-09-21T16:00:09","date_gmt":"2005-09-21T19:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=688"},"modified":"2005-09-21T16:00:09","modified_gmt":"2005-09-21T19:00:09","slug":"guanabara-abuso-do-ambiente-e-de-dinheiro-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/guanabara-abuso-do-ambiente-e-de-dinheiro-publico\/","title":{"rendered":"Guanabara: abuso do ambiente e de dinheiro p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p>Francis Fran\u00e7a, do Rio de Janeiro<br \/>\nOs alunos do Col\u00e9gio Pedro II fizeram seu primeiro passeio pela Ba\u00eda de Guanabara na quinta-feira, dia 15\/09, para a tradicional aula de hist\u00f3ria que \u00e9 dada todo ano para as 3as s\u00e9ries. As 60 crian\u00e7as embarcaram na maior algazarra no Rebocador Laurindo Pitta, constru\u00eddo em 1910, \u00fanico remanescente da for\u00e7a naval brasileira que participou da Primeira Guerra Mundial.<br \/>\nO turismo hist\u00f3rico continua fazendo sucesso, mas a Ba\u00eda de Guanabara apresentada \u00e0 turminha n\u00e3o \u00e9 mais aquela que recebeu seus av\u00f3s. Antes da sa\u00edda, o primeiro sintoma: no Submarino Riachuelo, aposentado no cais da Marinha, a marca do limo grosso, a densidade verde da \u00e1gua n\u00e3o deixa ver nem um palmo abaixo da superf\u00edcie.<br \/>\nPara aproveitar o passeio, \u00e9 preciso olhar a Ba\u00eda de Guanabara como quem admira uma pintura impressionista. De perto, o protagonista \u00e9 o lixo. Pl\u00e1sticos, garrafas, madeiras, listras de espuma espessa cortando o mar at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7a. E tudo isso na parte limpinha da ba\u00eda, onde passa a excurs\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso n\u00e3o dar import\u00e2ncia \u00e0 \u00e1gua borrifada no rosto pelo balan\u00e7o do rebocador nas ondas.<br \/>\nO passeio hist\u00f3rico no Laurindo Pitta \u00e9 novidade at\u00e9 para a professora Yara Barreira de Morais, 61 anos, 43 de magist\u00e9rio. Ela n\u00e3o conhecia o veterano da Primeira Guerra, mas a ba\u00eda ela conhece desde pequena, quando usava as barcas como meio de transporte para ir a Niter\u00f3i.<br \/>\n&#8220;Era uma beleza, n\u00e3o tinha essa imund\u00edcie que \u00e9 hoje&#8221;, lembra, acrescentando que agora a Ba\u00eda de Guanabara est\u00e1 melhor, perto do que era h\u00e1 cinco anos.<br \/>\nMas a ba\u00eda j\u00e1 n\u00e3o vai bem h\u00e1 muito tempo. De acordo com o ge\u00f3logo Elmo da Silva Amador, autor do livro Ba\u00eda de Guanabara e Ecossistemas Perif\u00e9ricos: Homem e Natureza (1997), a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o natural da ba\u00eda esgotou quando o Rio de Janeiro atingiu 500 mil habitantes. Antes disso, no s\u00e9culo 19, as praias eram recomendadas para banhos terap\u00eauticos, para a cura de enfermidades phy\u00edsicas e nervosas, segundo os jornais da \u00e9poca.<br \/>\nS\u00f3 que a popula\u00e7\u00e3o cresceu. Atualmente, os sete munic\u00edpios ao redor da ba\u00eda t\u00eam cerca de 10,7 milh\u00f5es de habitantes, que geram 12 mil toneladas de lixo por dia. A ba\u00eda recebe, a cada 24 horas, mais de 1,7 milh\u00e3o de toneladas de esgoto e 1.500 toneladas de lixo.<br \/>\nE a tend\u00eancia \u00e9 que a quantidade de lixo cres\u00e7a permanentemente. De acordo com o Estudo para Controle e Recupera\u00e7\u00e3o das Condi\u00e7\u00f5es Ambientais, realizado pela equipe da Ag\u00eancia Japonesa de Coopera\u00e7\u00e3o Internacional entre maio e julho de 2002, o n\u00famero de habitantes nessas cidades saltar\u00e1 para 12,2 milh\u00f5es em 2020, data em que o pr\u00f3prio governo do estado admite como poss\u00edvel para que o carioca possa desfrutar das despolu\u00eddas praias de Ramos, Icara\u00ed, Ilha do Governador, Paquet\u00e1, entre outras.<br \/>\nO lixo e o esgoto colaboram para que 15,7% de toda a \u00e1gua sejam transformados em lama. O valor da \u00e1rea assoreada, segundo Amador, equivale a 50 vezes o Aterro do Flamengo. J\u00e1 em 1997 o ge\u00f3logo apontava a perda de um ter\u00e7o da ba\u00eda nos pr\u00f3ximos cem anos.<br \/>\n&#8220;A ba\u00eda perde at\u00e9 cinco cent\u00edmetros de profundidade por ano em alguns pontos, enquanto o natural seriam 18 cent\u00edmetros por s\u00e9culo&#8221;.<br \/>\nGuanabara j\u00e1 perdeu muito mais do que profundidade. Comparando com o passado, o ecossistema est\u00e1 irreconhec\u00edvel. Originalmente, tinha 132 km2 de restingas. Sobraram 28 km2. Era filtrado por 235 km2 de brejos e p\u00e2ntanos. Restaram 75 km2. Abrigava 101 ilhas. Ficaram 65. Aninhava 118 praias. Perdeu 46 para os aterros. Ao todo, ela perdeu 29,1% de sua superf\u00edcie.<br \/>\nProjeto de despolui\u00e7\u00e3o vira piada de mau gosto<br \/>\nQuando passa pela linha vermelha, entre a favela da mar\u00e9 e a ba\u00eda, Ivone Tolomini fecha as janelas do carro. O cheiro de podre que vem da \u00e1gua \u00e9 insuport\u00e1vel. Ivone lembra que a sobrinha trabalhava para uma empresa japonesa respons\u00e1vel pela despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara. Um dia, eles simplesmente recolheram os equipamentos, os m\u00f3veis e fecharam as portas.<br \/>\n&#8220;Minha sobrinha foi pra rua sem receber um tost\u00e3o de direitos trabalhistas, nada&#8221;, conta Ivone.<br \/>\nA sobrinha de Ivone perdeu o emprego em uma das cinco vezes que o Programa de Despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara (PDGB) foi interrompido desde que come\u00e7ou a ser executado, em 1994. As obras foram suspensas por falta de pagamento. Os japoneses constru\u00edram as Esta\u00e7\u00f5es de Tratamento de Esgoto e queriam a contrapartida do governo, com constru\u00e7\u00e3o dos troncos coletores de esgoto. Para a despolui\u00e7\u00e3o, o Estado entra com 65% do investimento e o banco com os 35% restantes.<br \/>\nNo or\u00e7amento original de 1994, os recursos dispon\u00edveis eram de US$ 793 milh\u00f5es, dos quais US$ 350 milh\u00f5es financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), US$ 237 milh\u00f5es pela ag\u00eancia japonesa Japan Bank for International Cooperation (JBIC) e US$ 206 milh\u00f5es provenientes do governo estadual. O projeto est\u00e1 or\u00e7ado hoje em US$ 1,04 bilh\u00e3o (R$ 2,83 bilh\u00f5es), dinheiro suficiente para construir seis Linhas Amarelas.<br \/>\nAt\u00e9 agora, o programa j\u00e1 tragou cerca de US$ 855 milh\u00f5es (R$ 2,3 bilh\u00f5es), mas, dez anos depois de iniciadas as obras, o estado trata apenas 25% de todo o esgoto jogado na ba\u00eda. Ao longo dos \u00faltimos quatro governos, foram constru\u00eddas ou ampliadas oito esta\u00e7\u00f5es que, juntas, t\u00eam capacidade para tratar 11.869 litros de esgoto\/segundo, mas tratam apenas 4.762 litros, o que representa cerca de 25% do total. Ou seja, 75% s\u00e3o lan\u00e7ados in natura.<br \/>\nFazendo as contas, o estado consumiu 82% dos recursos, levou mais do que o dobro do tempo previsto para a primeira fase e n\u00e3o alcan\u00e7ou sequer a metade da meta. A conclus\u00e3o da primeira fase do programa est\u00e1 prevista para 25 de dezembro de 2006, \u00e0s v\u00e9speras do anivers\u00e1rio de 12 anos. Por enquanto, a segunda fase ainda \u00e9 um sonho.<br \/>\nA Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) criou uma Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) em 2003 para investigar den\u00fancias de desvios de recursos nas obras do programa de despolui\u00e7\u00e3o e constatou que mais de 70% dos contratos sofreram acr\u00e9scimos, o que teria causado um preju\u00edzo de quase US$ 300 milh\u00f5es (cerca de R$ 810 milh\u00f5es) aos cofres p\u00fablicos.<br \/>\nA comiss\u00e3o foi apurar porque, em oito anos, 76% dos recursos do Programa de Despolui\u00e7\u00e3o da Ba\u00eda de Guanabara foram gastos sem que quase nada sa\u00edsse do papel. O deputado Alessandro Calazans, que abriu o inqu\u00e9rito, denuncia que muitas obras do projeto foram integralmente quitadas com as empreiteiras sem terem sido executadas, que quil\u00f4metros de tubula\u00e7\u00f5es foram postos no mapa, mas n\u00e3o debaixo da terra, e que compras de R$ 98 milh\u00f5es, para equipar a esta\u00e7\u00e3o de tratamento da Alegria, na gest\u00e3o Anthony Garotinho, foram fechadas sem licita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA justificativa do PDBG para os atrasos foi o obst\u00e1culo estrutural da sociedade, em outras palavras, a faveliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 cerca de 900 favelas na margem oeste, onde fica o munic\u00edpio do Rio de Janeiro e seus sub\u00farbios da Baixada Fluminense. Entretanto, a faveliza\u00e7\u00e3o estava prevista no estudo b\u00e1sico do programa, um calhama\u00e7o de 500 folhas em que o governo japon\u00eas gastou dois anos e US$ 3 milh\u00f5es para apadrinhar o projeto. Nele, os t\u00e9cnicos avisavam, em 1994, que a principal causa da polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua s\u00e3o as atividades humanas di\u00e1rias e a produ\u00e7\u00e3o industrial.<br \/>\nSegundo o relat\u00f3rio da CPI, houve abuso da ordem econ\u00f4mica por parte dos respons\u00e1veis pelo PDBG, ao atrasar os servi\u00e7os. O projeto deveria estar pronto em 1998.<br \/>\nCom tantas expectativas frustradas, o que resta \u00e0 ba\u00eda s\u00e3o mesmo o turismo e a Hist\u00f3ria. Os alunos do Col\u00e9gio Pedro II, que a conheceram a bordo do Rebocador Laurindo Pitta na semana passada, aprenderam que, em tupi, guana significa mar, e bara, seio. Para os \u00edndios, a Ba\u00eda de Guanabara era um seio de mar. Aprenderam sobre a hist\u00f3ria dos fortes ao redor da ba\u00eda e sobre o belo castelinho da Ilha Fiscal, conhecida hoje pelo evento que a marcou O \u00daltimo Baile do Imp\u00e9rio, realizado alguns dias antes da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. As professoras disseram que, vendo na pr\u00e1tica, as crian\u00e7as aprendem muito mais f\u00e1cil.<br \/>\nMas entre as explica\u00e7\u00f5es durante a viagem ningu\u00e9m falou que, em 1502, ao chegar \u00e0 ba\u00eda, o navegador Pero Lopez de Souza decretou que toda \u00e1gua encontrada ali era excelente. As professoras preferiram se calar sobre o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel demonstrar na pr\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francis Fran\u00e7a, do Rio de Janeiro Os alunos do Col\u00e9gio Pedro II fizeram seu primeiro passeio pela Ba\u00eda de Guanabara na quinta-feira, dia 15\/09, para a tradicional aula de hist\u00f3ria que \u00e9 dada todo ano para as 3as s\u00e9ries. 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