{"id":7077,"date":"2010-06-21T19:23:45","date_gmt":"2010-06-21T22:23:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=7077"},"modified":"2010-06-21T19:23:45","modified_gmt":"2010-06-21T22:23:45","slug":"politica-gaucha-vive-apogeu-da-esquizofrenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/politica-gaucha-vive-apogeu-da-esquizofrenia\/","title":{"rendered":"&quot;Pol\u00edtica ga\u00facha vive apogeu da esquizofrenia&quot;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha<\/span><br \/>\nO candidato do PMDB ao governo ga\u00facho, Jos\u00e9 Foga\u00e7a, j\u00e1 ganhou o primeiro trof\u00e9u de 2010 do \u2018Pr\u00eamio L\u00edngua Solta, Id\u00e9ia Presa\u2019.<br \/>\nEm entrevista ao jornal Zero Hora na semana passada (16), o ex-prefeito de Porto Alegre conseguiu erigir uma tortuosa explica\u00e7\u00e3o para a cr\u00f4nica indecis\u00e3o de seu partido entre as candidaturas presidenciais de Dilma Rousseff e Jos\u00e9 Serra.<br \/>\nDisse Foga\u00e7a: \u201cUma imparcialidade ativa n\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o em cima do muro. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o altamente proativa, efetiva, em favor da nossa elei\u00e7\u00e3o aqui no Rio Grande do Sul. Uma posi\u00e7\u00e3o extremamente corajosa, inclusive\u201d.<br \/>\nFoga\u00e7a, inclusive, \u00e9 advogado e n\u00e3o engenheiro, como sugere sua desastrada constru\u00e7\u00e3o vernacular. Teve sempre muito cuidado com o que diz e escreve, na condi\u00e7\u00e3o de professor de literatura e de direito constitucional e no papel de compositor com sucessos gravados por Kleiton &amp; Kledir e MPB4.<br \/>\nCom o verso mal inspirado sobre esta \u2018corajosa imparcialidade\u2019, Foga\u00e7a refaz o dicion\u00e1rio e desfaz do senso comum.<br \/>\nTodo mundo sabe que a defini\u00e7\u00e3o correta para coragem \u00e9 firmeza, atitude, bravura, destemor, determina\u00e7\u00e3o, perseveran\u00e7a. S\u00f3 a saltada veia po\u00e9tica do beletrista Foga\u00e7a poderia pintar a desbotada neutralidade do PMDB murista com as cores vivas e inspiradoras da coragem.<br \/>\nEm janeiro de 1950, quando Foga\u00e7a ainda era um beb\u00ea de tr\u00eas anos, morria em Londres o jornalista Eric Arthur Blair, que ganharia a eternidade com um pseud\u00f4nimo, George Orwell, e um marco liter\u00e1rio, 1984.<br \/>\nNesta met\u00e1fora orwelliana sobre o autoritarismo, o governo estimulava o uso da novil\u00edngua, um idioma que reduzia radicalmente o vocabul\u00e1rio para diminuir a capacidade de pensamento.<br \/>\nDela brotava o duplipensar, palavra que definia a habilidade de guardar no c\u00e9rebro duas cren\u00e7as contradit\u00f3rias, aceitando simultaneamente uma e outra. A nova l\u00edngua, assim, exprimia o contr\u00e1rio do que dizia. O Minist\u00e9rio da Verdade de 1984 mentia ao retificar as not\u00edcias, o Minist\u00e9rio da Paz cuidava da guerra.<br \/>\nO deslize l\u00e9xico de Foga\u00e7a poderia ser apenas um escorreg\u00e3o. Mas ele retrata bem o momento esquizofr\u00eanico da pol\u00edtica brasileira, que vive seu apogeu justamente no Rio Grande do Sul, um Estado que nunca teve a parede como referencial.<br \/>\nGa\u00facho, por defini\u00e7\u00e3o, sempre est\u00e1 de um lado ou de outro do muro, nunca em cima. Cinco mil ga\u00fachos morreram nos dez anos da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, lutando pela rep\u00fablica.<br \/>\nA Revolu\u00e7\u00e3o Federalista de 1893, a mais violenta guerra civil do continente, matou duas vezes mais (10 mil) num espa\u00e7o de tempo cinco vezes mais curto (dois anos) do que a revolta farrapa, num confronto sangrento que opunha parlamentaristas e presidencialistas.<br \/>\nChimangos e maragatos pelearam em 1923 contra o continu\u00edsmo de Borges de Medeiros, que um s\u00e9culo antes de Hugo Ch\u00e1vez conseguiu emplacar cinco mandatos, antes da revolu\u00e7\u00e3o que abortou a sexta presid\u00eancia. Os ga\u00fachos lutaram pela legalidade em 1961 e combateram o golpe de 1964.<br \/>\nNos anos seguintes, o muro continuou separando a gauchada. O PSD contra o PTB, a Arena se opondo ao MDB, o PT se alternando no poder com o PMDB. At\u00e9 a bola divide o Rio Grande em duas metades de cores bem definidas: o azul do Gr\u00eamio e o vermelho do Internacional. No eterno Gre-Nal dos ga\u00fachos, ningu\u00e9m fica em cima do muro, como bem sabe o apaixonado gremista Jos\u00e9 Foga\u00e7a.<br \/>\nA catatonia da elei\u00e7\u00e3o ga\u00facha pode ser medida pelas alian\u00e7as for\u00e7adas nas c\u00fapulas partid\u00e1rias que tentam enfiar suas decis\u00f5es monocr\u00e1ticas goela abaixo do eleitor. Logo ele, que n\u00e3o costuma ficar em cima do muro.<br \/>\nEm 2006, quando Lula se reelegeu com 60% dos votos do pa\u00eds, sua maior derrota para Alckmin foi justamente no Rio Grande do Sul, onde o picol\u00e9 de chuchu tucano humilhou o deus petista por 55% contra 33%.<br \/>\nAgora, o comando nacional do PMDB tenta fazer no Rio Grande o mesmo que o PT fez no Maranh\u00e3o e em Minas Gerais: contrariar a base e impor a vontade do rei, na for\u00e7a e na marra.<br \/>\nNa vers\u00e3o gaud\u00e9ria do quatrilho, o PMDB de Foga\u00e7a odeia o PT de Tarso Genro, que exige o apoio do partido de Michel Temer, o vice de Dilma que odeia a se\u00e7\u00e3o ga\u00facha do PMDB, que tem uma prefer\u00eancia esmagadora por Serra, que corteja mais o PMDB do que o PSDB da governadora Crusius, que sobreviveu \u00e0 tentativa de \u2018impeachment\u2019 do PT de Tarso, que odeia todos eles e hoje finge simpatia ou paix\u00e3o por uns e outros.<br \/>\nPara enquadrar os rebeldes, Temer agora perde a eleg\u00e2ncia e promete intervir no diret\u00f3rio de Santa Catarina, amea\u00e7ando repetir a dose no Paran\u00e1 e no Rio Grande do Sul. Nem a ditadura dos ga\u00fachos M\u00e9dici e Geisel ousou tamanha trucul\u00eancia, mas aqueles eram tempos em que o MDB velho de guerra tinha no comando l\u00edderes insubmissos e altivos como Ulysses Guimar\u00e3es, Teot\u00f4nio Vilela e Alencar Furtado.<br \/>\nDiante da amea\u00e7a concreta do trator da chapa Dilma-Temer, nenhuma lideran\u00e7a expressiva do PMDB repudiou o estupro iminente contra a ala sulista do partido, historicamente a mais aguerrida e menos dilmista do pa\u00eds. Em vez da repulsa, o ap\u00e1tico e complacente PMDB prefere subir no muro, camuflado pela corajosa \u2018imparcialidade ativa\u2019. O duplipensar, que escarnece da intelig\u00eancia do leitor, \u00e9 o \u00faltimo degrau da humilha\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica.<br \/>\nLuiz Cl\u00e1udio Cunha \u00e9 jornalista, ga\u00facho, gremista e, pior, ainda vota em Bras\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha O candidato do PMDB ao governo ga\u00facho, Jos\u00e9 Foga\u00e7a, j\u00e1 ganhou o primeiro trof\u00e9u de 2010 do \u2018Pr\u00eamio L\u00edngua Solta, Id\u00e9ia Presa\u2019. 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