{"id":709,"date":"2006-01-02T12:48:55","date_gmt":"2006-01-02T15:48:55","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=709"},"modified":"2006-01-02T12:48:55","modified_gmt":"2006-01-02T15:48:55","slug":"conflito-da-praca-da-matriz-15-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/conflito-da-praca-da-matriz-15-anos-depois\/","title":{"rendered":"Conflito da Pra\u00e7a da Matriz &#8211; 15 anos depois"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/atualizacao_feriados\/mst_med.jpg?0.32801035673006057\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"400\" border=\"0\" hspace=\"0\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Uma hist\u00f3ria mal contada: quinze anos depois do \u201cconflito da Pra\u00e7a da Matriz\u201d, livro traz nova vers\u00e3o dos fatos. (Foto: Ronaldo Bernardi\/ZH\/J\u00c1 Editores)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>No dia 8 de agosto de 1990, a Pra\u00e7a da Matriz, em frente ao Pal\u00e1cio Piratini, amanheceu com 400 integrantes do movimento dos trabalhadores rurais sem-terra. Eles queriam uma audi\u00eancia com o governador &#8211; estava no cargo o vice, Sinval Guazzelli. O titular, Pedro Simon, havia se licenciado para concorrer ao senado.<br \/>\n\u00c0s 9h da manh\u00e3, centenas de oficiais da Pol\u00edcia Militar j\u00e1 estavam no local, munidos de cassetetes, escudos, bombas, c\u00e3es e armas de fogo. O pr\u00f3prio comandante do policiamento da Capital, coronel Jair Portela, estava no local, dirigindo a opera\u00e7\u00e3o. Enquanto pol\u00edticos e ativistas ligados ao MST negociavam o encontro com o chefe do Estado, dentro do pal\u00e1cio, os colonos gritavam palavras de ordem &#8211; \u201cOcupar, Resistir, Produzir!\u201d -, exibindo foices, enxadas e fac\u00f5es. A PM, por sua vez, mandava o grupo desocupar a pra\u00e7a. As lideran\u00e7as decidiram resistir. A Brigada Militar come\u00e7ou a dar ultimatos para a libera\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. O clima se manteve tenso durante horas.<br \/>\nPor volta das 11h30, quando as negocia\u00e7\u00f5es estavam avan\u00e7adas \u2013 uma comitiva seria recebida pelo secret\u00e1rio da Agricultura \u2013, o pelot\u00e3o de choque agiu. Os acampados responderam com pedras. E a pol\u00edcia avan\u00e7ou, sem ordem do governador. \u201cA retirada era para ser pac\u00edfica\u201d, afirmou depois o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Vieira da Cunha. Apesar da rea\u00e7\u00e3o dos colonos, a batalha na pra\u00e7a s\u00f3 durou 5 minutos. Os militantes do MST se dispersaram com as bombas de g\u00e1s e de efeito moral. No tumulto, muitos foram presos, outros encaminhados ao Hospital de Pronto<br \/>\nSocorro, e cerca de 150 fugiram.<br \/>\nO conflito continuou nas vias adjacentes como Jer\u00f4nimo Coelho, Borges de Medeiros e Rua da Praia. Com a confus\u00e3o, v\u00e1rias lojas fecharam as portas. A esquina democr\u00e1tica foi palco do choque que marcou o epis\u00f3dio na hist\u00f3ria dos ga\u00fachos.<br \/>\nFoi l\u00e1 que o policial Valdeci de Abreu Lopes, 27, recebeu um golpe no pesco\u00e7o e morreu, pouco antes do meio-dia. A vers\u00e3o consagrada pela m\u00eddia \u00e9 que ele foi degolado por um golpe de foice. As narrativas para descrever o evento fat\u00eddico s\u00e3o variadas. S\u00f3 h\u00e1 consenso de que ele havia sacado o<br \/>\nrev\u00f3lver e que foi cercado por um grupo de colonos. Tamb\u00e9m que disparou pelo menos tr\u00eas tiros.<br \/>\nSegundo testemunhas de acusa\u00e7\u00e3o, um colono teria batido com uma ferramenta na viatura e Valdeci, sozinho, saiu do carro para repreend\u00ea-lo. Companheiros do sem-terra vieram em seu aux\u00edlio. O guarda foi imobilizado por um homem e golpeado por outro, pelas costas. Deu dois disparos para o ch\u00e3o e um terceiro, j\u00e1 agonizando, que atingiu a colona Elenir Nunes.<br \/>\nTestemunhas de defesa colocam o assassinato como rea\u00e7\u00e3o, leg\u00edtima defesa \u2013 os sem-terra estariam tentando desarm\u00e1-lo quando ocorreu a trag\u00e9dia. O soldado teria dado cinco tiros, acertando um homem na perna, outro no p\u00e9, e uma mulher na barriga. Quando estava recarregando a arma, foi imobilizado por um colono, enquanto outro lhe deu uma facada (pode ter sido com um punhal ou canivete, segundo testemunhas), que pegou no pesco\u00e7o. Outros tamb\u00e9m falam em um golpe de foice.<br \/>\nO tumulto seguiu, logo depois, para a Prefeitura, onde dezenas de colonos se abrigaram. A Brigada Militar manteve um cerco de 11 horas no local, per\u00edodo em que estudantes, sindicalistas e simpatizantes do MST fizeram um cord\u00e3o humano para impedir novo confronto.<br \/>\nAltas horas da noite, os colonos foram levados para o Centro Treinamento Esportivo (Cete), no Menino Deus, onde ocorreu a indica\u00e7\u00e3o dos culpados por 10 testemunhas. O trabalho durou toda a madrugada. Pela manh\u00e3, 11 suspeitos j\u00e1 tinham sido identificados entre 176 agricultores. Jos\u00e9 Carlos Gowaski foi acusado de segurar o PM e Ot\u00e1vio Amaral de mat\u00e1-lo \u2013 foi recolhido para o Pres\u00eddio Central, onde ficou 1 ano e sete meses.<br \/>\nO caso volta \u00e0 tona com a publica\u00e7\u00e3o de \u201cA degola\u201d do PM pelos sem-terra em Porto Alegre \u2013 De como a m\u00eddia fabrica e imp\u00f5e uma imagem (Editora Revan, Rio de Janeiro, 2005, 242 p.), obra da jornalista ga\u00facha D\u00e9bora Franco Lerrer, 37 anos, lan\u00e7ado na Feira do Livro de Porto Alegre, sem qualquer alarde ou divulga\u00e7\u00e3o na imprensa.<br \/>\nEpis\u00f3dio em que Brigada Militar enfrentou 400 colonos do MST ficou marcado pela morte de um soldado, que teria sido atingido por um golpe de foice. Livro sobre o tema resgata conflito e apresenta nova vers\u00e3o para os acontecimentos<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Pesquisadora analisa papel da imprensa<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/atualizacao_feriados\/mst_pesquisadora.jpg?0.009649043578659755\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"451\" border=\"0\" hspace=\"0\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-size: xx-small\"><strong>Trabalho de D\u00e9bora Lerrer (foto) para a USP foi publicado em livro, lan\u00e7ado na Feira de Porto Alegre, este ano<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Ot\u00e1vio Amaral n\u00e3o assassinou Valdeci, como ficou provado depois \u2013 ele estava no Pronto Socorro na hora do incidente. O soldado morto n\u00e3o chegou a ser degolado, e o golpe letal n\u00e3o foi desferido com uma foice. Quinze anos depois do conflito na Pra\u00e7a da Matiz, a jornalista D\u00e9bora Franco Lerrer traz uma reconstitui\u00e7\u00e3o minuciosa dos acontecimentos, analisando o papel da imprensa na constru\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o conhecida e desmontando \u00edcones que ficaram marcados na mem\u00f3ria sobre o epis\u00f3dio.<br \/>\nTudo est\u00e1 no livro \u201cA degola\u201d do PM pelos sem-terra em Porto Alegre \u2013 De como a m\u00eddia fabrica e imp\u00f5e uma imagem, resultado de oito anos de trabalho da pesquisadora. A publica\u00e7\u00e3o \u00e9 a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado defendida por D\u00e9bora na Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da USP em dezembro de 1998, \u201cdepois e oito anos de pesquisa e questionamentos\u201d.<br \/>\nO trabalho come\u00e7ou, sem ela saber, no dia da batalha, no Centro de Porto Alegre. D\u00e9bora era estudante de Jornalismo da UFRGS e foi para a Prefeitura quando soube dos acontecimentos. Acompanhou o caso nos dias seguintes para escrever uma mat\u00e9ria, trabalho de uma cadeira da faculdade.<br \/>\nParticipou da coletiva com a colona baleada, Elenir Nunes, figura que muito a impressionou. Assinante e f\u00e3 da revista Veja, ficou surpresa com a cobertura da publica\u00e7\u00e3o, que deu capa ao epis\u00f3dio, mas n\u00e3o fez qualquer refer\u00eancia a sem-terra baleada. \u201cFoi um choque muito grande. Acreditava em tudo que sa\u00eda na Veja, era uma refer\u00eancia. Depois que li a reportagem, a revista perdeu toda a credibilidade para mim\u201d, lembra.<br \/>\nJ\u00e1 de formada em jornalismo, em 1992, D\u00e9bora se aproximou do MST. Trabalhou na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o do movimento de 1992 at\u00e9 maio de 1997. Nesse meio tempo ingressou na USP, com a proposta de fazer uma an\u00e1lise cr\u00edtica de Veja. O professor e jornalista Bernardo Kucinski sugeriu uma abordagem do tratamento que a imprensa deu ao caso da Pra\u00e7a da Matriz. Foi o que ela fez.<br \/>\nO texto do livro \u00e9 basicamente o do trabalho de mestrado, com algumas atualiza\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m de consultar os 28 volumes do processo sobre o assassinato do PM, a acad\u00eamica entrevistou jornalistas, advogados, militantes do MST e de direitos humanos, pol\u00edticos e oficiais da Brigada Militar. Al\u00e9m, \u00e9 claro, dos acusados pelo crime.Tentou publicar em editoras do Rio Grande do Sul e de S\u00e3o Paulo, que recusaram a obra. Depois, obteve o parecer da Fapesp (Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo) que, n\u00e3o s\u00f3 recomendou a publica\u00e7\u00e3o do livro, como destinou uma verba para bancar metade do investimento necess\u00e1rio.<br \/>\nA obra acabou saindo pela Revan, que resolveu bancar tudo. \u00c9 uma editora do Rio de Janeiro, onde D\u00e9bora vive \u2013 cursa doutorado na UFRJ. Ela fez algumas adequa\u00e7\u00f5es nos trechos mais fortes, para evitar processos. Ainda assim, apresenta uma dura cr\u00edtica ao governo, \u00e0 Justi\u00e7a, \u00e0 Brigada Militar e, principalmente, \u00e0 imprensa. Leia a \u00edntegra da mat\u00e9ria na edi\u00e7\u00e3o de dezembro do jornal J\u00c1 Porto Alegre, que est\u00e1 nas bancas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria mal contada: quinze anos depois do \u201cconflito da Pra\u00e7a da Matriz\u201d, livro traz nova vers\u00e3o dos fatos. (Foto: Ronaldo Bernardi\/ZH\/J\u00c1 Editores) No dia 8 de agosto de 1990, a Pra\u00e7a da Matriz, em frente ao Pal\u00e1cio Piratini, amanheceu com 400 integrantes do movimento dos trabalhadores rurais sem-terra. 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