{"id":71572,"date":"2018-12-10T19:26:00","date_gmt":"2018-12-10T21:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=71572"},"modified":"2018-12-10T19:26:00","modified_gmt":"2018-12-10T21:26:00","slug":"inteligencia-artificial-desperta-esperancas-e-temores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/inteligencia-artificial-desperta-esperancas-e-temores\/","title":{"rendered":"Intelig\u00eancia artificial desperta esperan\u00e7as e temores"},"content":{"rendered":"<p>Faz tempo que a intelig\u00eancia artificial (IA) deixou os centros acad\u00eamicos de pesquisa e ganhou o mundo. Se j\u00e1 estamos prontos para conviver com rob\u00f4s, muito em breve n\u00e3o acharemos estranho, ou assustador, a presen\u00e7a de carros aut\u00f4nomos sem motoristas.<br \/>\nJ\u00e1 existem m\u00e1quinas capazes de fazer c\u00e1lculos ou estabelecer diagn\u00f3sticos melhores do que qualquer pessoa. A intelig\u00eancia artificial come\u00e7a, agora, de forma acelerada, a ocupar cada vez mais postos de trabalho antes destinados aos humanos.<br \/>\nE n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A garrafa do g\u00eanio foi aberta e n\u00e3o t\u00eam como coloc\u00e1-lo de volta. Pr\u00f3teses cada vez mais perfeitas poder\u00e3o substituir membros e \u00f3rg\u00e3os, melhorando em muito o desempenho.<br \/>\nChips implantados no c\u00e9rebro podem duplicar, para dizer, o m\u00ednimo, o quociente de intelig\u00eancia. Ao misturar intelig\u00eancia artificial com intelig\u00eancia biol\u00f3gica continuar\u00edamos humanos?<br \/>\nH\u00e1 muito mais perguntas. Seria poss\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia artificial?<br \/>\nA IA vai ultrapassar a intelig\u00eancia dos humanos?<br \/>\nRecusar a IA ou control\u00e1-la em escala mundial, como o caso das armas at\u00f4micas?<br \/>\nQual a \u00e9tica, limite, filosofia em rela\u00e7\u00e3o a IA?<br \/>\nS\u00e3o algumas das quest\u00f5es, entre outros temas, que Bruno Castro da Silva, professor adjunto do Instituto de Inform\u00e1tica da UFRGS, com p\u00f3s-doutorado em IA no\u00a0 Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o melhor centro de estudos de computa\u00e7\u00e3o no mundo,\u00a0 esclarece\u00a0 nesta entrevista exclusiva ao J\u00c1.<br \/>\n<strong>0 que \u00e9 intelig\u00eancia artificial?<\/strong><br \/>\n-A defini\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos grandes problemas. Primeiro, porque j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil definir o que \u00e9 intelig\u00eancia. Para alguns \u00e9 a capacidade de planejar coisas, estabelecer uma seq\u00fc\u00eancia de a\u00e7\u00f5es para atingir um objetivo. Para outros tamb\u00e9m passa pela capacidade de comunica\u00e7\u00e3o. Enfim, coisas muito subjetivas para mensurar de uma forma objetiva. No que tange a IA, a melhor defini\u00e7\u00e3o pode ser a de qualquer comportamento que um computador exiba que fosse considerado inteligente se fosse efetuado por uma pessoa.<br \/>\n<strong>\u00c9 poss\u00edvel datar o in\u00edcio dos trabalhos no campo da IA?<\/strong><br \/>\n-A parte mais importante \u2013 aquela que n\u00e3o \u00e9 relacionada com literatura, fic\u00e7\u00e3o \u2013 no campo da pesquisa e estudo come\u00e7ou com Alain Turing na d\u00e9cada de 1950. Turing ficou famoso por ter (junto com seus colegas) decifrado durante a 2\u00aa Guerra Mundial a m\u00e1quina de c\u00f3digos alem\u00e3 Enigma, utilizado nos U-boats (submarinos) para bombardear os navios dos aliados. Turing tamb\u00e9m inventou a computa\u00e7\u00e3o como a gente entende hoje, e escreveu o primeiro artigo (revista inglesa Mind, 1948) cient\u00edfico sobre IA. Uma das coisas que ele prop\u00f4s foi o teste de Turing. Nele, verifica-se de forma pragm\u00e1tica se o aparelho \u00e9 inteligente (ou n\u00e3o) quando n\u00e3o d\u00e1 para distinguir se \u00e9 uma m\u00e1quina ou uma pessoa que est\u00e1 interagindo.<br \/>\n<strong>Seis d\u00e9cadas depois de Turing, ele morreu em 1954, como est\u00e3o \u00e0s pesquisas no campo da IA?<\/strong><br \/>\n-No in\u00edcio as expectativas quanto ao desenvolvimento da IA eram muito altas, mas os avan\u00e7os n\u00e3o correspondiam. Tamb\u00e9m, entre os anos 1950 at\u00e9 o come\u00e7o do s\u00e9culo XXI, as pesquisas, grosso modo, ficaram muito restritas a \u00e1rea acad\u00eamica, dentro das universidades, com pouqu\u00edssimas aplica\u00e7\u00f5es fora deste \u00e2mbito. As coisas s\u00f3 come\u00e7aram a mudar de verdade a partir de 2006, com o avan\u00e7o de uma t\u00e9cnica chamada redes neurais. A partir da\u00ed o emprego da IA ganhou de forma significativa e rent\u00e1vel o mundo empresarial.<br \/>\n<strong>Mais especificamente, em que tipo de aplica\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n-Principalmente na detec\u00e7\u00e3o de fraudes, t\u00e9cnica muito utilizada j\u00e1 h\u00e1 algum tempo pelos bancos. Tamb\u00e9m, ainda em rela\u00e7\u00e3o aos bancos, an\u00e1lise da utiliza\u00e7\u00e3o de cart\u00f5es visando a estabelecer um padr\u00e3o, repert\u00f3rio, prefer\u00eancias, h\u00e1bitos, do cliente. Ou seja, sempre que se utiliza o cart\u00e3o se est\u00e1 interagindo com uma IA. Depois tem aquilo que se denomina como sistema de recomenda\u00e7\u00e3o, algo que tamb\u00e9m \u00e9 muito rent\u00e1vel, e que \u00e9 muito utilizado por livrarias.<br \/>\n<strong>Como assim?<\/strong><br \/>\n-Trata-se de algo muito simples, baseado nos livros que algu\u00e9m encomendou ou procurou num site. A partir desta escolha ou pesquisa feita pelo cliente, recomenda-se outros t\u00edtulos que tenham afinidade. Na Amazon, uma grande parte da arrecada\u00e7\u00e3o vem deste aplicativo de recomenda\u00e7\u00e3o. O Netflix faz a mesma coisa, estabelecendo atrav\u00e9s das solicita\u00e7\u00f5es de filmes de determinada pessoa o seu padr\u00e3o de prefer\u00eancias. Mesmo procedimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica. Funciona. Por \u00faltimo, e o mais rent\u00e1vel, \u00e9 aquilo que chamam de marketing digital, atrav\u00e9s do qual o Google ganha muito dinheiro. Ele tem acesso a tudo e sabe de onde as pessoas est\u00e3o acessando, podendo estabelecer perfis econ\u00f4micos e interesses dos usu\u00e1rios e colocar an\u00fancios publicit\u00e1rios direcionados, espec\u00edficos para aquele tipo de consumidor. Enfim, nada \u00e9 de gra\u00e7a.<br \/>\n<strong>E no Brasil, como est\u00e1 o desenvolvimento da IA?<\/strong><br \/>\n-Dentro da academia ela sempre foi forte. O Brasil, embora tenha poucos recursos para ensino superior, sempre teve grupos importantes de IA, destacando-se o da UFRGS, onde o Instituto de Inform\u00e1tica foi fundado h\u00e1 29 anos. Fora a UFRGS, tamb\u00e9m s\u00e3o importantes os trabalhos em IA efetuados pela UFMG, a USP, e a UFRJ.<br \/>\n<strong>Atualmente, no\u00a0 mundo, e n\u00e3o s\u00f3 em n\u00edvel acad\u00eamico, h\u00e1 muita discuss\u00e3o em torno de aplica\u00e7\u00f5es de\u00a0 IA?<\/strong><br \/>\n-Pra se ter uma id\u00e9ia, h\u00e1 cerca de dez encontros anuais no mundo. Em m\u00e9dia, para cada um deles s\u00e3o enviados cerca de cinco mil trabalhos em diversas \u00e1reas da IA: rob\u00f3tica, medicina, comunica\u00e7\u00e3o, etc. Deste total, dez por cento dos trabalhos enviados \u2013 gente da Google, da Microsoft, por exemplo \u2013 s\u00e3o selecionados pra serem apresentados. E n\u00f3s, aqui da UFRGS, geralmente, sempre conseguimos publicar artigos nestas confer\u00eancias. E olha que eles s\u00e3o muito rigorosos, nem poderia ser diferente, dada a quantidade, mas com crit\u00e9rios justos de escolha, baseado apenas nos conte\u00fados.<br \/>\n<strong>O sr \u00a0j\u00e1 teve artigos aceitos?<\/strong><br \/>\n-Sim. No \u00faltimo encontro que participei, na Su\u00e9cia, tive dois artigos aceitos: um tratava sobre seguran\u00e7a na IA. E o outro sobre o emprego da IA para melhorar o tr\u00e2nsito urbano atrav\u00e9s da implanta\u00e7\u00e3o de sinaleiras inteligentes.<br \/>\n<strong>No mundo, quem est\u00e1 na frente no campo da pesquisa em IA?<\/strong><br \/>\nEstados Unidos, China, Reino Unido.<br \/>\n<strong>-Como foi a sua forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n-Entrei no Instituto de Inform\u00e1tica da UFRGS em 1999. Graduei-me em 2003 e em 2007 apresentei minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, tamb\u00e9m aqui na UFRGS, sobre IA. Ent\u00e3o, enviei meu curr\u00edculo para fazer o doutorado a diversas universidades fora do Brasil. Fui aceito em v\u00e1rias delas e acabei escolhendo a Universidade de\u00a0 Massachussets. Depois fiz p\u00f3s-doutorado no prestigioso Massachussets Institute of Technology (MIT). Trabalhei com o professor Andrew Barto, o maior especialista dentro do campo da ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o numa \u00e1rea chamada, em ingl\u00eas, Reinforcement Learning ( aprendizagem por refor\u00e7o). Minha tese foi nesta \u00e1rea.<br \/>\n<strong>Esta \u00e1rea compreende exatamente o qu\u00ea?<\/strong><br \/>\n-Aprendizado por refor\u00e7o \u00e9 uma t\u00e9cnica muito utilizada no adestramento de animais. Ela funciona a base de recompensa.\u00a0 Peguemos o exemplo dos c\u00e3es. Se o cachorro pegar o jornal ganha um biscoito, etc. Meu trabalho consistiu em ajudar a melhorar as t\u00e9cnicas de adapta\u00e7\u00e3o deste processo de aprendizagem para as m\u00e1quinas. \u00c9 algo que vem avan\u00e7ando muito. Em 1997, um supercomputador da IBM, o Deep Blue, venceu\u00a0 Garry Kasparov, o campe\u00e3o mundial de xadrez. Mais, no jogo GO (um jogo chin\u00eas, envolvendo pe\u00e7as brancas e pretas num tabuleiro), considerado o mais dif\u00edcil do mundo, e que seria imposs\u00edvel desenvolver uma intelig\u00eancia artificial capaz de enfrentar um jogador h\u00e1bil, tamb\u00e9m foi vencido por um computador, sendo empregada \u00e0 t\u00e9cnica de aprendizagem por refor\u00e7o.<br \/>\n<strong>Mas onde \u00e9 que entra esta t\u00e9cnica de aprendizagem por refor\u00e7o na IA?<\/strong><br \/>\n-O agente, a IA, observa o que est\u00e1 acontecendo num ambiente naquele momento. Atrav\u00e9s do exame de uma situa\u00e7\u00e3o o agente escolhe uma determinada a\u00e7\u00e3o com base na refer\u00eancia a conquistar. Enfim, a IA estabelece um padr\u00e3o de quais recompensas s\u00e3o oferecidas a cada momento. Isso \u00e9 muito aplicado em rob\u00f4s, por exemplo.<br \/>\n<strong>Muitas m\u00e1quinas j\u00e1 t\u00eam um desempenho melhor em certas tarefas do que um ser humano. Como preparar a sociedade para a IA?<\/strong><br \/>\n-\u00c9 um problema delicado e remete aos prim\u00f3rdios da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial quando, na Inglaterra, membros do movimento ludista quebravam as m\u00e1quinas que substitu\u00edam o trabalho humano. Verificou-se com o passar do tempo que era uma bobagem, pois novas profiss\u00f5es foram criadas. Por isso h\u00e1 um certo otimismo em rela\u00e7\u00e3o a IA. Muitas pessoas acreditam que ocorrer\u00e1 um processo semelhante ao da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e os trabalhadores migrar\u00e3o para outras \u00e1reas de atividades, servi\u00e7os, etc. N\u00e3o sou t\u00e3o otimista.<br \/>\n<strong>Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\n-O problema \u00e9 que as coisas n\u00e3o se passar\u00e3o da mesma maneira devido a velocidade das mudan\u00e7as. Vai atingir as pessoas mais pobres, a parcela mais vulner\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para transformar um pedreiro em um engenheiro, assim, rapidamente. Num cen\u00e1rio mais pr\u00f3ximo, d\u00e1 para dizer que muita gente perder\u00e1 o emprego, e, dada a velocidade, talvez n\u00e3o tenham tempo de migrar para novas profiss\u00f5es. Da\u00ed esta ideia que cada vez ganha mais corpo que \u00e9 a da renda m\u00ednima universal, um rendimento para que as pessoas, literalmente, n\u00e3o morram de fome, e que tenham uma vida minimamente decente. Isso \u00e9 algo plaus\u00edvel.<br \/>\n<strong>Em termos de trabalho e empregos, que setor ser\u00e1 o mais afetado, pelo menos num primeiro momento, pela IA?<\/strong><br \/>\n-O de transportes. Muitas empresas, como a Tesla, Google, Uber, j\u00e1 est\u00e3o desenvolvendo carros aut\u00f4nomos. A tecnologia j\u00e1 existe e o comportamento destes carros aut\u00f4nomos em testes na circula\u00e7\u00e3o \u2013 percorrendo longas dist\u00e2ncias sem se envolver em acidente \u2013 \u00a0\u00e9 melhor do que os ve\u00edculos dirigidos por seres humanos. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo, dez anos, aproximadamente, para que os motoristas sejam substitu\u00eddos. De resto, nos avi\u00f5es quase todas as atividades j\u00e1 s\u00e3o feitas por computadores, o piloto s\u00f3 est\u00e1 envolvido no pouso e na decolagem. E trens tamb\u00e9m n\u00e3o precisam de condutores.<br \/>\n<strong>Al\u00e9m dos transportes, que outras \u00e1reas ser\u00e3o afetadas pela IA?<\/strong><br \/>\n-A probabilidade nos pr\u00f3ximos anos \u00e9 que desapare\u00e7am empregos nas \u00e1reas de telemarketing, contabilidade. Breve n\u00e3o existir\u00e3o mais \u00a0vendedores de lojas, escritores t\u00e9cnicos (redatores que compilam artigos da Web). O Google, por exemplo \u2013 atrav\u00e9s do news.google.com \u2013 j\u00e1 tem um servi\u00e7o de not\u00edcias elaborado por IA. Tamb\u00e9m desaparecer\u00e3o empregos como maquinistas, pilotos na \u00e1rea comercial.\u00a0 Na \u00e1rea de sa\u00fade, hoje, computadores s\u00e3o capazes de realizar, em muitos casos, exames e diagn\u00f3sticos com interpreta\u00e7\u00f5es muito mais precisas do que os profissionais do ramo. \u00a0O mesmo vale para dentistas, treinadores, terapeutas recreacionais, pessoas que trabalham com limpeza. A lista n\u00e3o para de crescer.<br \/>\n<strong>Um mundo de adaptados versus outro de assistidos, livres para consumir a sua telerrealidade. Corremos o risco de criar um apartheid?<\/strong><br \/>\n-Principalmente se as pessoas come\u00e7arem a estender a IA aos seus corpos, melhorando-os. Se isso ocorrer formar\u00e1 uma casta diferente de pessoas. Elas conseguir\u00e3o pensar mais r\u00e1pido, ter mais for\u00e7a, enxergar melhor, bem diferente de outras menos capacitadas. Isso criaria um estigma.<br \/>\n<strong>O sr falou em modificar os seres humanos, esta \u00e9 uma outra possibilidade da IA?<\/strong><br \/>\n-As experi\u00eancias come\u00e7aram numa \u00e1rea chamada de neuroprot\u00e9tica. Um exemplo s\u00e3o os bra\u00e7os rob\u00f3ticos, que diferentemente da pr\u00f3tese tradicional, n\u00e3o s\u00e3o membros puramente acoplados, pois l\u00eaem os sinais do c\u00e9rebro da pessoa para fazer o movimento desejado como mexer a m\u00e3o, pegar alguma coisa. Ou seja, literalmente l\u00ea a mente. Isso j\u00e1 existe. Depois come\u00e7ou a se fazer pesquisa com olhos artificiais. Funciona, mas ainda n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel no mercado. O problema est\u00e1 entre aqueles que j\u00e1 nasceram cegos, pois, neste caso, existem conex\u00f5es no c\u00e9rebro que n\u00e3o foram desenvolvidas.\u00a0 Mas para aqueles onde a pr\u00f3tese \u00e9 poss\u00edvel se pode, dominada a tecnologia, \u00a0fazer a seguinte quest\u00e3o: o que me impediria de colocar uma pr\u00f3tese de aparelho ocular muito superior \u2013 fazer 20 x de zoom, infravermelho \u2013 ao natural humano? Enfim, Ser\u00e1 poss\u00edvel dotar algu\u00e9m com uma vis\u00e3o muito superior a de uma pessoa normal.<br \/>\n<strong>Bem-vindo ao mundo dos ciborgs, dos robocops &#8230;<\/strong><br \/>\n-\u00c9 isso a\u00ed. Pr\u00f3teses com \u00f3timos desempenhos para m\u00e3os, pernas, coluna, olhos, etc.<br \/>\n<strong>Biotecnologia, nanotecnologia, neurotecnologia. H\u00e1 alguma possibilidade de eliminar a morte?<\/strong><br \/>\n-T\u00eam duas vis\u00f5es sobre isso. Numa delas, a indaga\u00e7\u00e3o: por que a gente morre? Ou, por que ter\u00edamos de morrer? Cada vez vivemos mais. Mas, h\u00e1 uma hora em que o cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma bomba, para de funcionar. Com o avan\u00e7o da tecnologia, o cora\u00e7\u00e3o, pulm\u00e3o, assim como os demais \u00f3rg\u00e3os, poderiam ser trocados por outros artificiais. Ent\u00e3o, o que impediria uma pessoa de viver para sempre?<br \/>\n<strong>Est\u00e1 provado que a escola pode fornecer conhecimentos, mas n\u00e3o pode aumentar o quociente de intelig\u00eancia de uma pessoa\u00a0 O maior QI j\u00e1 verificado \u00e9 o de um matem\u00e1tico australiano, de origem chinesa, com cerca de 230 pontos. A tecnologia est\u00e1 acenando com a possibilidade de se introduzir microchips no c\u00e9rebro, multiplicando a capacidade intelectual. Como o sr. v\u00ea isso?<\/strong><br \/>\n-\u00c9 a interface c\u00e9rebro-computador, ou mente-m\u00e1quina. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo. Em 2005 teve um estudo feito pela IBM que consistia em simular no computador o funcionamento dos neur\u00f4nios individuais do c\u00e9rebro de um rato. Simular no n\u00edvel qu\u00edmico: dopamina, neur\u00f4nio, transmiss\u00e3o de sinal el\u00e9trico. Depois de 50 dias eles conseguiram simular no computador o que aconteceria em um segundo no c\u00e9rebro deste rato. Foi lento, mas, constatou-se que \u00e9 poss\u00edvel fazer a simula\u00e7\u00e3o de um c\u00e9rebro. No que isto implica? Ser\u00e1 que este c\u00e9rebro simulado seria t\u00e3o consciente quanto o nosso?<br \/>\n<strong>Caberia, talvez, uma outra pergunta de conte\u00fado filos\u00f3fico, religioso. O que \u00e9 que nos permite ser inteligentes? \u00c9 s\u00f3 a maneira como nosso c\u00e9rebro \u00e9 organizado ou tem alguma coisa a mais?<\/strong><br \/>\n-Pode n\u00e3o ser s\u00f3 o c\u00e9rebro. Seria a alma? \u00c9 dif\u00edcil discutir a parte religiosa, ela n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfica. \u00a0Nesta \u00e1rea se parte do pressuposto que n\u00e3o h\u00e1 nada sobrenatural, que o c\u00e9rebro \u00e9 um conjunto de coisas qu\u00edmicas e el\u00e9tricas que est\u00e3o acontecendo ali. O conhecimento disso, de que \u00e9 um processo qu\u00edmico e f\u00edsico, \u00e9 que possibilita, por exemplo, a fabrica\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios antidepressivos, ou de estimulantes para quem tem d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o. Uma das possibilidades que se discute seriamente \u00e9 que uma vez assumido que o c\u00e9rebro \u00e9 s\u00f3 um sistema que obedece \u00e0s leis da qu\u00edmica e da f\u00edsica, certamente conseguiremos reproduzir todo o seu funcionamento no computador. O que me faz \u00a0falar e sentir, agora, por exemplo, \u00e9 o que o meu c\u00e9rebro est\u00e1 processando. Ou seja, a priori, poderia, neste computador aqui do lado, ter um c\u00e9rebro artificial, uma c\u00f3pia da minha consci\u00eancia, funcionando da mesma maneira que a minha. O que abre uma quest\u00e3o muito mais complicada. \u00c9 \u00e9tico fazer isso? Creio que h\u00e1 um limite.<br \/>\n<strong>Uma vez feita \u00e0s modifica\u00e7\u00f5es no corpo, no c\u00e9rebro, ainda estar\u00edamos diante de um ser humano ou seria outra coisa?<\/strong><br \/>\n-Um meio termo. Substituir os \u00f3rg\u00e3os \u00e9 algo plaus\u00edvel. Tamb\u00e9m, diferentemente, a partir\u00a0 c\u00e9lulas-tronco fertilizadas in vitro, \u00e9 poss\u00edvel criar um rim. Isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 artificial, n\u00e3o se trata de uma pr\u00f3tese rob\u00f3tica, mas algo produzido atrav\u00e9s de elementos do meu pr\u00f3prio organismo. A outra coisa \u00e9 fazer o upload do meu c\u00e9rebro e transferi-lo para o computador, fazendo-o passar a agir exatamente igual a mim, pensar as mesmas coisas. Seria eu ou simplesmente uma simula\u00e7\u00e3o perfeita? Trata-se de uma das perguntas centrais da filosofia da IA. A possibilidade de criar aquilo que se denomina de zumbi filos\u00f3fico, um ser id\u00eantico ao humano.<br \/>\n<strong>Isto remete a um tema pol\u00eamico. Existe a possibilidade da cria\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia artificial?<\/strong><br \/>\n-Cada vez mais as m\u00e1quinas adquirem a capacidade de estabelecer reconhecimentos de padr\u00f5es, fazer os cruzamentos de dados que os seres humanos conseguem efetuar.<br \/>\n<strong>Cen\u00e1rio um pouco apocal\u00edptico. AS as m\u00e1quinas terminar\u00e3o por controlar tudo?<\/strong><br \/>\n-Na computa\u00e7\u00e3o existe algo chamado \u00a0lei de Moore. Ela diz que a capacidade dos computadores dobra a cada ano e meio. Como as coisas est\u00e3o cada vez mais r\u00e1pidas, vai chegar uma hora em que uma IA ser\u00e1 equivalente a um ser humano. Depois haver\u00e1 outra que ser\u00e1 um pouquinho melhor e da\u00ed segue num processo sem fim, e em tempos cada vez menores. Imagine isso num espa\u00e7o de 100 anos. A verdade \u00e9 que n\u00e3o tem como impedir, parar o progresso cient\u00edfico. N\u00e3o tem como controlar todo mundo. Teria que matar todos que t\u00eam este conhecimento. Enfim, os avan\u00e7os em termos de tecnologia s\u00e3o exponenciais, cada vez mais r\u00e1pidos.<br \/>\n<strong>O conhecimento de como controlar a tecnologia tem que estar paralelo ao desenvolvimento da mesma?<\/strong><br \/>\n-Exato. E isso \u00e9 parte do trabalho da pesquisa que estou fazendo agora. Chama-se controle e seguran\u00e7a sobre IA. Algo ainda bem preliminar, mas, s\u00f3 para dar um exemplo: j\u00e1 se sabe que existe IA que consegue discriminar, analisar curr\u00edculos, ver se tu \u00e9s um bom natch (um ser compat\u00edvel com o tipo de cultura que existe na empresa). Google e Microsoft fazem isso, treinam IA que verifica perfis de pessoas que profissionalmente seriam mais promissoras.<br \/>\n<strong>S\u00e3o infal\u00edveis?<\/strong><br \/>\n-N\u00e3o. Cometem erros como, por exemplo, o de prever, em alguns casos, que o rendimento das mulheres seria inferior ao dos homens. Isso, olhando os dados e as estat\u00edsticas das empresas, n\u00e3o tem nenhum fundamento ou diferen\u00e7as significativas. A IA sempre estabelece padr\u00f5es, uma m\u00e9dia. Um dos problemas relativos a IA em \u00e1reas m\u00e9dicas \u00e9 naquilo que ela pode explorar por conta pr\u00f3pria. Assim, se a IA \u00e9 capaz \u00a0de fazer um diagn\u00f3stico correto, muito superior a um ser humano, pode errar na dosagem de rem\u00e9dios, matar sem querer, algo que um m\u00e9dico n\u00e3o faria. Ele sabe que se triplicar a dosagem de um determinado rem\u00e9dio o paciente vai passar mal, pode morrer. Este tipo de compreens\u00e3o, de nuance, ainda \u00e9 dif\u00edcil para uma IA. \u00c9 preciso desenvolver um m\u00e9todo que indique as dosagens, que a probabilidade de dar um problema seja menor do que 0,01 por cento. Ou seja, incluir restri\u00e7\u00f5es no processo de decis\u00f5es da IA para que ela n\u00e3o fa\u00e7a coisas que sejam perigosas.<br \/>\n<strong>Com p\u00f3s-doutorado no MIT e, inclusive, sendo ex-professor desta prestigiosa institui\u00e7\u00e3o, o sr deve receber muitos convites para trabalhar no exterior. O que o faz permanecer na UFRGS?<\/strong><br \/>\n-Recebi muitos e-mails do Google, da Microsoft e da IBM querendo me contratar. Os sal\u00e1rios que oferecem s\u00e3o \u00f3timos, n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com o que ganho aqui. Mas, o que me levou a querer voltar e permanecer no Brasil, em Porto Alegre, foi, em primeiro lugar, a minha fam\u00edlia. Por outro lado, at\u00e9 o mestrado, fiz toda a minha forma\u00e7\u00e3o aqui, na UFRGS. Esta universidade me proporcionou tudo no passado e, nos \u00faltimos anos, sempre viajo a convite para realizar palestras e cursos no exterior, Europa e Estados Unidos, sobre IA. Enfim, tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o gratid\u00e3o e poder devolver tudo que aprendi a esta querida institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz tempo que a intelig\u00eancia artificial (IA) deixou os centros acad\u00eamicos de pesquisa e ganhou o mundo. Se j\u00e1 estamos prontos para conviver com rob\u00f4s, muito em breve n\u00e3o acharemos estranho, ou assustador, a presen\u00e7a de carros aut\u00f4nomos sem motoristas. J\u00e1 existem m\u00e1quinas capazes de fazer c\u00e1lculos ou estabelecer diagn\u00f3sticos melhores do que qualquer pessoa. 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