{"id":717,"date":"2006-01-30T12:55:42","date_gmt":"2006-01-30T15:55:42","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=717"},"modified":"2006-01-30T12:55:42","modified_gmt":"2006-01-30T15:55:42","slug":"a-maioridade-da-casa-de-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-maioridade-da-casa-de-cinema\/","title":{"rendered":"A maioridade da  Casa de Cinema"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/casacine_media.jpg?0.9354222335481096\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"225\" height=\"300\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Gerbase diz que a produ\u00e7\u00e3o ga\u00facha \u00e9 que provocou a cria\u00e7\u00e3o da Casa de Cinema<br \/>\n(Fotos: Naira Hofmeister\/J\u00c1)<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Naira Hofmeister e S\u00e9rgio Lagranha<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>A Casa de Cinema nasceu em 1987 para fazer cinema, mas faz tev\u00ea com prazer. Publicidade, n\u00e3o. O grande divisor de \u00e1guas foi o curta Ilha das Flores (1989). Logo depois, o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Fernando Collor fechou a Embrafilme e outros \u00f3rg\u00e3os federais de apoio ao cinema nacional. Com o curta repercutindo no mundo, a turma resolveu resistir. E deu certo.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Em 1995, como co-produtora, participou do longa Felicidade \u00c9&#8230;, no qual respondeu pelo \u00faltimo dos quatro epis\u00f3dios, Estrada, dirigido por Jorge Furtado. Depois veio Toler\u00e2ncia (2000), de Carlos Gerbase, o primeiro longa integralmente feito pela Casa. em seguida Houve Uma Vez Dois Ver\u00f5es (2002), O Homem Que Copiava (2003), Meu Tio Matou Um Cara (2004), todos de Furtado e Sal de Prata (2005), de Gerbase.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Como essa turma talentosa teve coragem de resistir e fazer cinema de qualidade em Porto Alegre \u00e9 o que contamos na entrevista abaixo com Carlos Gerbase, Ana Luiza Azevedo \u2013 que est\u00e1 em pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o de seu primeiro longa-metragem &#8211; e Jorge Furtado.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 A Casa de Cinema completou 18 anos em dezembro. Nesse per\u00edodo viu o cinema brasileiro perder instrumentos como a Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilmes) e renascer no final dos anos 90. Como foram esses anos para voc\u00eas?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Carlos Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 Na verdade todo mundo fala da Embrafilmes, mas para n\u00f3s n\u00e3o fez diferen\u00e7a ela ter acabado porque financiava basicamente longas-metragens. Agora com o fim da Funda\u00e7\u00e3o do Cinema Brasileiro, que era o antigo departamento cultural da Embrafilmes, foi brabo. Teve ainda o fim do Concine {Conselho Nacional de Cinema, \u00f3rg\u00e3o colegiado criado em 1976 e vinculado ao Minist\u00e9rio da Cultura}. S\u00f3 depois percebemos que a Embrafilmes Distribuidora tamb\u00e9m era important\u00edssima pra n\u00f3s. Todo mundo fala que o Collor {Fernando Collor de Mello, presidente da Rep\u00fablica de 1990\/92} acabou com a Embrafilmes, mas ele acabou com tudo! Sorte que n\u00f3s t\u00ednhamos feito Ilha das Flores (1989). Acho que Ilha das Flores tem um papel importante, pois foi feito sem dinheiro algum, sem apoio.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Luiza Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 S\u00f3 com a vontade de fazer e o apoio dos fornecedores. A Kodak deu pel\u00edcula, o laborat\u00f3rio fez toda a revela\u00e7\u00e3o de gra\u00e7a. Foi um filme que a gente fez entre parceiros. Naquele momento a Casa de Cinema, assim como todos os outros produtores de cinema, estava num impasse: fechar as portas ou continuar.\u00a0 Isso era in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 e, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00f3s \u00e9ramos 12 s\u00f3cios.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Voc\u00eas iniciaram como uma cooperativa&#8230;<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Era como um condom\u00ednio, porque eram quatro produtoras que formavam uma cooperativa de produtoras. A Casa de Cinema era formada por 12 s\u00f3cios daquelas produtoras. Naquele tempo, cinema n\u00e3o tinha muita sa\u00edda, a gente come\u00e7ava a acumular d\u00edvidas, muitas produtoras de cinema estavam fechando. Ent\u00e3o resolvemos que ir\u00edamos fechar a Casa de Cinema.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 E t\u00ednhamos uma lei entre n\u00f3s: n\u00e3o far\u00edamos filmes publicit\u00e1rios. Tinha muita gente que fazia para entrar no mercado. Havia essa possibilidade de transformar a Casa de Cinema numa produtora de comerciais. Nesse momento come\u00e7amos a decidir nosso futuro.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Alguns resolveram criar a sua produtora de publicidade. O Z\u00e9 Pedro [Jos\u00e9 Pedro Goulart] criou a Zeppelin, o Werner [Sch\u00fcnemann] e a M\u00f4nica [Schmiedt] criaram a 30 Segundos e n\u00f3s resolvemos continuar. Eu e a Luli [Luciana Tomasi, produtora] fomos as mais resistentes a n\u00e3o fechar, exatamente porque Ilha das Flores come\u00e7ava a nos dar um retorno do exterior, come\u00e7\u00e1vamos a ser procurados. Eu achava um absurdo fechar naquele momento. As coisas estavam come\u00e7ando a acontecer, depois de um investimento de quatro anos. De repente, fechar?<\/p>\n<p align=\"justify\"><em><strong><span style=\"color: #cc3300\">\u201cA id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 que a Casa de Cinema criou a movimenta\u00e7\u00e3o, mas o contr\u00e1rio. Os filmes criaram a Casa de Cinema. Por isso ela nasceu j\u00e1 relativamente forte.\u201d (Gerbase)<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Voc\u00eas tinham a inten\u00e7\u00e3o de fazer um p\u00f3lo de cinema ga\u00facho?<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\"><br \/>\nGerbase<\/span><\/strong> \u2013 O tal do p\u00f3lo de cinema ga\u00facho \u00e9 uma coisa que n\u00e3o depende de empresas ou de oficializar as coisas. Depende de filmes, que s\u00e3o anteriores \u00e0 Casa de Cinema. Todos n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos feito filmes. Ent\u00e3o o que aconteceu foi que a Casa de Cinema oficializou ou institucionalizou algo que j\u00e1 acontecia. Inclusive com colabora\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias pessoas que estavam fazendo filmes junto conosco.\u00a0 A id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 que a Casa de Cinema criou a movimenta\u00e7\u00e3o, mas o contr\u00e1rio. Os filmes criaram a Casa de Cinema. Por isso ela nasceu j\u00e1 relativamente forte.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 A id\u00e9ia inicial\u00a0 era um pouco de unir for\u00e7as. Cada um tinha a sua produtora. Eu tinha uma produtora que era a Luz Produ\u00e7\u00f5es, junto com o Jorge [Furtado] e o Z\u00e9 Pedro [Goulart]; O Gerbase tinha uma com a Luciana [Tomasi]. Nenhuma das produtoras tinha condi\u00e7\u00f5es de sobreviver sozinha, pagar o espa\u00e7o, manter os filmes em dia. O primeiro material que fizemos, dizia: O cinema ga\u00facho agora tem endere\u00e7o. Porque era sempre assim: algu\u00e9m queria exibir o Dorival [O dia em que Dorival encarou a guarda \u2013 1986], ligava pra minha casa; eu tinha que ligar para casa do Jorge porque a c\u00f3pia estava com ele. A gente n\u00e3o tinha um espa\u00e7o, na verdade a In V\u00eddeo era a \u00fanica que tinha.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 Naquelas&#8230; era no andar de cima da minha casa.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 E de 1987 pra c\u00e1, o que mudou?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 S\u00e3o dois cen\u00e1rios diferentes: o cen\u00e1rio de curta-metragem e de longa-metragem. Quando come\u00e7amos n\u00e3o tinha longa, e a perspectiva de fazer um estava bem distante. At\u00e9 t\u00ednhamos o projeto, mas era caro, muito caro a ponto de ser filmado. A distribui\u00e7\u00e3o de curtas sempre funcionou mais ou menos do mesmo jeito: temos as c\u00f3pias aqui e as pessoas que t\u00eam interesse, procuram. Claro, metade delas se surpreendia com o fato de ter que pagar. A distribui\u00e7\u00e3o continua do mesmo jeito, mas o que acontece \u00e9 que temos muito mais t\u00edtulos, inclusive alguns que\u00a0 s\u00e3o de outros cineastas ga\u00fachos que est\u00e3o aqui conosco, que foram inclu\u00eddos como \u201cOutras Hist\u00f3ricas\u201d na caixa dos curtas em DVD. \u00c9 um mercado que n\u00e3o tem uma luta econ\u00f4mica\u00a0 como no caso dos longas. J\u00e1 o mercado de longas \u00e9 um outro cen\u00e1rio que s\u00f3 come\u00e7amos a entrar em 1999. Nos associamos com a Columbia, que \u00e9 uma major. Todos os nossos longas foram distribu\u00eddos por majors, cinco pela Columbia e um pela Fox.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><em><span style=\"color: #cc3300\">\u201cJ\u00e1 superamos aquele problema de que o cinema brasileiro era tecnicamente ruim. N\u00e3o \u00e9 mais.Hoje, o cinema brasileiro tem qualidade t\u00e9cnica.\u201d (Ana Luiza Azevedo)<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/casacine_ana.jpg?0.440973274222676\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"186\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Ana Azevedo dirigindo o curta Dona Cristina Perde a Mem\u00f3ria<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 E funciona?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 \u00c9 dif\u00edcil responder, mas funciona. N\u00f3s temos os mesmos problemas que o cinema brasileiro como um todo. A l\u00f3gica da legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 de apoio \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o. A maioria dos filmes n\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda ou precariamente distribu\u00edda. As produtoras em si n\u00e3o se capitalizam nunca. A n\u00e3o ser aquelas que eventualmente fazem filmes de muita bilheteria, em termos de Brasil. Mas nem assim: Fernando Meirelles deu entrevista dizendo que eles continuam no vermelho. Ent\u00e3o se Cidade de Deus, que teve tr\u00eas milh\u00f5es de espectadores, n\u00e3o se pagou, imagina quem teve 500 mil, 600 mil, cem mil ou cinq\u00fcenta mil?\u00a0 Sobre as majors, eu tenho uma opini\u00e3o, que sempre falo em nossas reuni\u00f5es: ruim com elas, pior sem.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Hoje, grande parte dos cineastas que est\u00e3o fazendo longa-metragem, vieram do curta-metragem, e se adaptaram, como n\u00f3s da Casa de Cinema, a produzir. Tem muitas produtoras funcionando e funcionando bem, produzindo direito. Ent\u00e3o acho que j\u00e1 superamos aquele problema de que o cinema brasileiro era tecnicamente ruim. N\u00e3o \u00e9. Acho que o cinema brasileiro, hoje, tem qualidade t\u00e9cnica, tem bons roteiristas, bons diretores, tem capacidade para concorrer no mercado. Agora, a distribui\u00e7\u00e3o, mesmo as pr\u00f3prias majors, n\u00e3o est\u00e3o preparadas para distribuir filmes brasileiros. Tem estrutura e est\u00e3o preparadas para distribuir cinema norte-americano. Mas sinto falta \u2013 e acho que n\u00e3o sou s\u00f3 eu \u2013, de profissionais no mercado brasileiro que saibam olhar o filme brasileiro e pensar como que ele tem que ser distribu\u00eddo para chegar no seu p\u00fablico.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 E pensar como que ele vai enfrentar as terr\u00edveis redu\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o nas salas&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 \u00c9&#8230; ainda tem tudo isso. Mas tem que ser aquela coisa: esse filme tem tal\u00a0 perfil para ganhar esse nicho de mercado. Os norte-americanos fazem isso com os filmes deles l\u00e1. Ou seja, j\u00e1 v\u00eam com uma estrat\u00e9gia pronta pra c\u00e1. Eu acho que nos falta isso. Falta essa profissionaliza\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que as distribuidoras n\u00e3o sejam profissionais, n\u00e3o \u00e9 isso. Mas elas n\u00e3o est\u00e3o preparadas para o produto espec\u00edfico, que \u00e9 o filme brasileiro, que \u00e9 diferente.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Mas est\u00e1 melhorando?<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Gerbase<\/strong><\/span> \u2013 H\u00e1 um di\u00e1logo entre o cinema brasileiro e as majors. Esse di\u00e1logo \u00e9 positivo, porque os filmes est\u00e3o a\u00ed, t\u00eam p\u00fablico. Os brasileiros querem rodar e est\u00e3o nos cinemas via distribui\u00e7\u00e3o das majors. Os filmes que movimentaram o cinema brasileiro nos \u00faltimos anos foram distribu\u00eddos pelas majors. Eu acho que isso \u00e9 bom, \u00e9 positivo. O problema que isso \u00e9 uma fatia do mercado, uma parte do cinema brasileiro. A parte que n\u00e3o consegue entrar, reclama. Em 2004, por exemplo, teve a famosa discuss\u00e3o Ancinav [Ag\u00eancia Nacional do Cinema e do Audiovisual], que foi uma tentativa de repensar o modelo como um todo. O governo, aparentemente, estava bancando isso, havia vontade pol\u00edtica. Mas a\u00ed houve um choque com o centro e o governo acabou tirando o p\u00e9, voltou atr\u00e1s. Eu sou favor\u00e1vel a repensar,\u00a0 sou contra acabar com tudo, porque tem gente que prega isso. Inclusive pessoas inteligentes. Eu acho que n\u00e3o, acho que tem coisas que precisam ser priorizadas. A discuss\u00e3o \u00e9 sempre essa: a Lei do Audiovisual, principal mecanismo de financiamento.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Uma das propostas que estava inclu\u00edda na Ancinav, para a regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado, modificava o cen\u00e1rio que temos hoje, onde os filmes que entram em exibi\u00e7\u00e3o com um n\u00famero muito grande de c\u00f3pias, acabam sufocando os outros. O Harry Potter, por exemplo, entrou com seiscentas e tantas c\u00f3pias. Levando em conta que o Brasil tem mil e setecentas salas, um ter\u00e7o delas ficaram ocupadas com um \u00fanico filme. Isso \u00e9 uma coisa que sufoca o mercado. Claro que n\u00e3o \u00e9 fact\u00edvel proibir o filme de entrar com o n\u00famero de c\u00f3pias que quiser. O projeto previa que a partir de um determinado n\u00famero de c\u00f3pias, tinha uma taxa\u00e7\u00e3o, que vai aumentando. Ent\u00e3o, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria distribuidora, se quiser investir e puder pagar mais. E esse dinheiro iria fomentar a pr\u00f3pria atividade. Esse tipo de regulamenta\u00e7\u00e3o que estava prevista acabou caindo por terra junto. O grande problema da Ancinav, \u00e9 que se tentou discutir num \u00fanico momento muita coisa. Coisas boas acabaram sendo soterradas, porque tinham outras que eram question\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Como voc\u00eas analisam a pol\u00edtica cultural brasileira e as Leis de Incentivo?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 Se n\u00e3o tivesse a Lei do Audiovisual e a Lei Rouanet n\u00e3o haveria filmes. A lei tem coisas positivas, realmente ajuda que os filmes sejam feitos. Alguns filmes conseguem coloca\u00e7\u00e3o no mercado porque ganham dinheiro das majors tamb\u00e9m. O dinheiro dos longas vem de duas fontes: primeiro \u00e9 a Lei do Audiovisual, onde a empresa, quando vai pagar seu Imposto de Renda, pode destinar uma parte para os filmes. Isso interessa as grandes, como Copesul, RGE, Ipiranga&#8230; Geralmente outra parte do dinheiro vem das majors, que s\u00e3o as grandes empresas multinacionais, que pagam um imposto extremamente alto. Uma parte desse imposto pode ser reduzido em cima dos filmes brasileiros. Aqui na Casa de Cinema nossos filmes podem ter essas duas fontes conjugadas. No cinema brasileiro como um todo. Isso faz com que esses filmes que ganham dinheiro das majors tenham uma coloca\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil no mercado, porque s\u00e3o filmes em que eles investiram dinheiro.\u00a0 E a outra pe\u00e7a do quebra cabe\u00e7a \u00e9 a Globo Filmes, que escolhe alguns filmes considerados mais vi\u00e1veis no mercado, injeta indiretamente algum dinheiro via divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 S\u00f3 queria lembrar mais uma coisa que foi bastante importante nesse governo, que foram os concursos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase <\/span><\/strong> \u2013 S\u00e3o duas op\u00e7\u00f5es para financiar os filmes, duas filosofias diferentes de financiamento neoliberal, que \u00e9 essa coisa de aplicar uma parte do imposto. Na primeira, quem decide o filme que vai ser feito s\u00e3o os pr\u00f3prios donos do dinheiro, que \u00e9 uma grande empresa, as majors, a Globo Filmes. O concurso j\u00e1 \u00e9 outra l\u00f3gica, que j\u00e1 existe na Argentina, por exemplo. O dinheiro do financiamento p\u00fablico, na Argentina, \u00e9 um fundo de imposto, que paga o concurso.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 Na RGE \u00e9 um dinheiro incentivado, mas que \u00e9 repassado aos cineastas atrav\u00e9s de um concurso. A\u00ed \u00e9 bacana, porque n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com o departamento de marketing da empresa.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase <\/span><\/strong>\u2013 A diferen\u00e7a \u00e9 que na Argentina eles fazem filmes mais baratos. N\u00e3o vou nem dizer se s\u00e3o melhores ou piores, mas s\u00e3o mais baratos, sem d\u00favida. Estive na Argentina agora e olhei alguns n\u00fameros. \u00c9 um ter\u00e7o do que n\u00f3s gastamos. E eles t\u00eam um p\u00fablico razo\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 E qual a diferen\u00e7a no formato deles?<\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 A pol\u00edtica cultural deles \u00e9 diferente. A nossa, veio o presidente Itamar Franco, depois o FHC {Fernando Henrique Cardoso}, com essa id\u00e9ia de que o cinema tem que dialogar com o mercado. N\u00e3o \u00e9 o governo que vai tutelar a escolha, como em outros lugares. Na Argentina, a filosofia \u00e9 essa. Tu ganhas X para fazer o filme, mais X quando entregar a primeira c\u00f3pia em DVD. Depois mais X para distribuir e quando entrar em cartaz, recebe mais.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 Como \u00e9 na Fran\u00e7a e em outros lugares.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Em termos de liberdade de cria\u00e7\u00e3o, os dois formatos t\u00eam diferen\u00e7a? No caso das LICs, a decis\u00e3o seria das empresas e, nos concursos, do governo?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 N\u00e3o&#8230; porque n\u00e3o \u00e9 o governo. Os concursos s\u00e3o comiss\u00f5es, j\u00faris formados por pessoas ligadas ao mercado cinematogr\u00e1fico, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o governo. Um dos grandes problemas do ex-presidente Fernando Collor com a Embrafilmes \u00e9 que, exatamente naquele momento, se discutia a forma de repasses das verbas, que sempre era muito fechada. At\u00e9 estava se criando concursos, teve o primeiro de desenvolvimento de projetos. A forma come\u00e7ava a ser repensada e transformada. Somente agora se retomou esse formato. As verbas do governo s\u00e3o repassadas atrav\u00e9s de concursos. O resultado disso \u00e9 uma renova\u00e7\u00e3o muito grande de cineastas, muita gente nova. \u00c9 o resultado desse sistema.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Como foi que voc\u00eas criaram essa parceria com a Globo, come\u00e7aram a fazer televis\u00e3o. Esse foi o caminho encontrado perante as dificuldades de fazer cinema?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 a gente j\u00e1 fazia, por exemplo, D\u00f3ris para Maiores. N\u00f3s\u00a0 faz\u00edamos pequenas coisas que entravam na programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase <\/span><\/strong>\u2013 A id\u00e9ia de fazer televis\u00e3o sempre foi simp\u00e1tica para n\u00f3s. \u00c9 diferente de fazer publicidade. Televis\u00e3o todo mundo quer fazer, n\u00e3o tem nenhum preconceito com televis\u00e3o. O que acontece \u00e9 que h\u00e1 pequenos produtores.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 &#8211; Mas ao longo desse\u00a0 per\u00edodo voc\u00eas acabaram fazendo muita tev\u00ea. E existe uma certa cr\u00edtica de mesclar cinema com televis\u00e3o, como se a tev\u00ea banalizasse as produ\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Eu n\u00e3o concordo com essa id\u00e9ia de que a televis\u00e3o nos prostitui. Tive bel\u00edssimas experi\u00eancias com a\u00a0 televis\u00e3o. Acho que Cidade dos Homens rompeu com muita coisa. Acho que todo o espa\u00e7o que se consegue dentro da televis\u00e3o acaba renovando linguagem, coisas que antes n\u00e3o eram captadas na televis\u00e3o. Acho b\u00e1rbaro. Acho muito rom\u00e2ntico a gente pensar em uma produtora que vai viver s\u00f3 de cinema..N\u00f3s n\u00e3o conseguimos. No entanto, a televis\u00e3o tamb\u00e9m tem uma frustra\u00e7\u00e3o que \u00e9 um super trabalh\u00e3o, mas vai ao ar e acaba. \u00c9 um produto ef\u00eamero, passou e nunca mais. Mas d\u00e1 uma possibilidade de experimenta\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito legal, que o cinema infelizmente n\u00e3o propicia. N\u00e3o tem como fazer um filme a cada hora. O Gerbase fez Toler\u00e2ncia em 1999, filmou Sal de Prata em 2004 e agora est\u00e1 preparando um outro pra sei l\u00e1 quando. Se a gente fosse esperar isso, sem fazer nada no meio do caminho&#8230;J\u00e1 a tev\u00ea d\u00e1 essa possibilidade. E n\u00e3o s\u00f3 aos cineastas, mas a toda uma equipe que se qualifica, tem trabalho.\u00a0 No momento estamos fazendo quadros para o Fant\u00e1stico e tem uma equipe permanentemente trabalhando e que est\u00e1 aprendendo um monte.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 &#8211; Voc\u00eas utilizaram a produ\u00e7\u00e3o de tev\u00ea no DVD?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Na caixa de DVD dos curtas conseguimos colocar alguns dos produtos que fizemos para a televis\u00e3o. Dia de Visita [epis\u00f3dio da s\u00e9rie Brava Gente, que foi ao ar em 2001, pela TV Globo] \u00e9 um dos trabalhos que mais gosto do resultado. E acho que \u00e9 um trabalho extremamente ousado para televis\u00e3o. Ele tem tr\u00eas minutos onde n\u00e3o se diz uma palavra. Se tu pensares nisso, \u00e9 um ritmo completamente diferente do que a tev\u00ea estava usando. Aquela coisa de prender a aten\u00e7\u00e3o do espectador. Eu queria provar que \u00e9 poss\u00edvel fazer isso usando um plano extremamente longo, criando um suspense&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Essa parceria com a RBS \u00e9 \u00fanica no Brasil. Isso incita aquela velha discuss\u00e3o sobre o P\u00f3lo de Cinema Ga\u00facho&#8230;<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 A gente meio que ensinou a RBS a fazer cinema. Agora, eles j\u00e1 fazem sozinhos, n\u00e3o precisam mais da nossa m\u00e3ozinha. A RBS poderia entrar muito mais, mas \u00e9 claro que a\u00ed a Globo d\u00e1 uma prensa neles, n\u00e9? Mas seria \u00f3timo se a RBS fosse muito mais forte do que \u00e9 na \u00e1rea da realiza\u00e7\u00e3o, da produ\u00e7\u00e3o. Se tivesse novelas, miniss\u00e9ries&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Tem um n\u00facleo dentro da RBS, com a Alice Urbim, Gilberto Perin. A Alice tinha esse projeto h\u00e1 muito tempo de fazer teledramaturgia. E nunca conseguia espa\u00e7o. A Casa de Cinema come\u00e7ou colocando curtas que j\u00e1 existiam nesse espa\u00e7o que eles conseguiram dentro da programa\u00e7\u00e3o. E a pr\u00f3pria RBS come\u00e7ou a se dar conta que o p\u00fablico queria ver a dramaturgia produzida no Rio Grande do Sul. Ent\u00e3o isso foi abrindo espa\u00e7os. E acho que esses projetos que eles t\u00eam agora das Hist\u00f3rias Curtas \u00e9 b\u00e1rbaro. Tem muita gente boa surgindo, \u00e9 um espa\u00e7o para quem est\u00e1 come\u00e7ando. J\u00e1 tem um espa\u00e7o sedimentado e tomara que consigam aumentar.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013\u00a0 No Brasil ainda \u00e9 incipiente a rela\u00e7\u00e3o dos produtores de cinema com as redes de tev\u00ea?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Essa associa\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o com a atividade cinematogr\u00e1fica existe\u00a0 no mundo inteiro. No Brasil tem um modelo em que a produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito centralizada na pr\u00f3pria emissora, que produz sua programa\u00e7\u00e3o, diferente do que existe quase que no mundo inteiro. Essa associa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental na Fran\u00e7a, Alemanha, Inglaterra. \u00c9 atrav\u00e9s dela que se viabiliza a atividade cinematogr\u00e1fica. Acho que no Brasil a gente est\u00e1 engatinhando ainda. Praticamente s\u00f3 a Globo faz isso. Tem que ter investimentos das outras redes tamb\u00e9m.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 As associa\u00e7\u00f5es da Globo s\u00e3o estrat\u00e9gicas, pois como concession\u00e1ria de um canal de tev\u00ea n\u00e3o poderia obter recursos da LIC.<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 A Lei do Audiovisual teoricamente impede que uma produtora n\u00e3o independente utilize seus recursos. Mas a\u00ed o \u2018n\u00e3o-independente\u2019 tamb\u00e9m \u00e9 subjetivo. Na verdade quando ela produz um produto dela como Os Normais, na verdade, a produtora \u00e9 outra. O X da quest\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a outra produtora e a Globo. Mas isso n\u00e3o nos toca diretamente, porque a nossa rela\u00e7\u00e3o eventual com a Globo \u00e9 como produtora. A Globo entra, ou n\u00e3o entra, depende dela. Mas todo o filme, quem produz \u00e9 a Casa de Cinema.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 No nosso caso, os apoios da Globo Filmes foram posteriores ao nosso filme estar pronto, n\u00e3o houve qualquer interfer\u00eancia na pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do filme. Tem outros filmes que a Globo se associa antes, ent\u00e3o ai participa da realiza\u00e7\u00e3o do filme. O pr\u00f3prio Carandiru foi anunciado antes&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Quando voc\u00eas come\u00e7aram, em 1987, existia um tipo de estrutura pra fazer cinema em Porto Alegre. Hoje j\u00e1 temos o n\u00famero suficiente de profissionais qualificados?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 Sem d\u00favida melhorou muito. Hoje \u00e9 muito mais f\u00e1cil locar equipamento, at\u00e9 pela evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, das tecnologias digitais. Tem muito mais gente pronta para fazer filmes na \u00e1rea t\u00e9cnica, muito mais atores e atrizes. Duas faculdades de cinema s\u00e9rias.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 \u00c9 outro cen\u00e1rio, completamente diferente. O que acontecia \u00e9 que as pessoas come\u00e7avam a fazer cinema e quando se qualificavam, iam para o Rio e S\u00e3o Paulo. Claro que isso ainda acontece, mas hoje existe um mercado aqui para quem optar em ficar. Ent\u00e3o, os t\u00e9cnicos de cinema ou audiovisual, podem ficar em Porto Alegre e trabalhar. E esse mercado de conte\u00fado audiovisual est\u00e1 crescendo muito, se diversificando. Agora tem a Internet, gente trabalhando com cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado para celular. Lembro-me quando foi realizado O Quatrilho [F\u00e1bio Barreto, Brasil, 1994] que a maior parte da equipe era de fora. Esse ano, o Beto Brant vai filmar aqui e vir\u00e3o ele, o co-diretor e o fot\u00f3grafo, mas s\u00f3 porque ele acha importante trazer. O resto da equipe ser\u00e1 toda daqui.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em><strong><span style=\"color: #cc3300\">\u201cTodos os pa\u00edses devem ter a sua cultura refletida atrav\u00e9s da imagem em movimento, atrav\u00e9s da sua m\u00fasica.\u201d (Ana Luiza Azevedo)<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 E voc\u00eas acham que est\u00e1 se criando uma consci\u00eancia empresarial de que investir em cultura \u00e9 legal?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Sem d\u00favida que grande parte das empresas j\u00e1 perceberam que investir em cultura tem um retorno muito grande. Acredito que elas devam ter suas pesquisas de retorno de imagem atrav\u00e9s dos projetos \u2013 que a gente n\u00e3o conhece \u2013 mas que mostram que mudou a partir do momento que fez esse investimento. Se qualquer uma empresa dessas fosse pagar a quantidade de vezes que o nome dela saiu no jornal, em raz\u00e3o dos projetos, seria muitas vezes maior do que o valor que eles investem em cultura.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Gerbase<\/strong> <\/span>\u2013 O que a LIC tem de diferente da lei do Audiovisual, \u00e9 que no Audiovisual o empres\u00e1rio coloca s\u00f3 o dinheiro do imposto, n\u00e3o coloca dinheiro dele. A LIC exige que o empres\u00e1rio que quiser patrocinar um projeto dessas \u00e1reas coloque mais 20% do dinheiro dele. \u00c9 um investimento que tem que ser pensado.<br \/>\n<span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 Agora, o que a gente tem tido bastante e essa quest\u00e3o do vicio. O empres\u00e1rio que investia em cultura sem a lei e passou a investir com a lei, agora s\u00f3 coloca mais dinheiro se tiver ren\u00fancia. \u00c9 um problema&#8230; Existir cinema num pais \u00e9 importante. Seria uma cat\u00e1strofe a gente viver aqui, s\u00f3 com uma imagem realizada nos EUA,\u00a0 em outros paises. A gente n\u00e3o teria em nenhum momento o espelho, onde pud\u00e9ssemos nos olhar e saber quem n\u00f3s somos. Por isso \u00e9 importante que as pessoas invistam em cinema. \u00c9 uma quest\u00e3o de soberania nacional. Todos os pa\u00edses devem ter a sua cultura refletida atrav\u00e9s da imagem em movimento, atrav\u00e9s da sua m\u00fasica&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Deve ter o governo tamb\u00e9m&#8230;<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Sem d\u00favida. O cinema \u00e9 uma atividade h\u00edbrida, por que ele \u00e9 uma atividade cultural e tamb\u00e9m \u00e9 um produto. \u00c0s vezes, ajuda e, \u00e0s vezes, complica. Porque \u00e9 uma discuss\u00e3o que est\u00e1 dentro da \u00e1rea do com\u00e9rcio e, simultaneamente, da cultura.\u00a0 Em 2005 foi aprovado pela Unesco que o cinema \u00e9 um produto que n\u00e3o pode ser discutido apenas com leis de mercado. Isso foi uma grande vit\u00f3ria da Fran\u00e7a, nossa, de pa\u00edses perif\u00e9ricos na industria cinematogr\u00e1fica, que n\u00e3o t\u00eam a hegemonia dos EUA.\u00a0 Porque a tend\u00eancia \u00e9 uma domina\u00e7\u00e3o total da industria norte-americana, que l\u00e1 no in\u00edcio da atividade, em 1914, percebeu a potencialidade e criou um mercado, incentivos, e chegou ao n\u00edvel atual.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em><span style=\"color: #cc3300\"><strong>\u201cO DVD surgiu com uma tecnologia que, associada aos televisores maiores, \u00e0 melhor qualidade de som em casa, \u00e0 inseguran\u00e7a na rua, est\u00e1 tirando o p\u00fablico dos cinemas. \u00c9 um caso novo, uma revolu\u00e7\u00e3o completa.\u201d (Gerbase)<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/casacine_med.jpg?0.050714141170486615\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"225\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Gerbase e Ana Azevedo apostam no mercado de DVDs<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Essa id\u00e9ia de lan\u00e7ar a caixa de curtas da Casa de Cinema tem a ver com isso?<br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Gerbase<\/strong> <\/span>\u2013 Se dizia do VHS ia acabar com o cinema, depois que a tev\u00ea a cabo ia acabar, n\u00e3o aconteceu. Agora, com o DVD surgiu uma tecnologia que, associada aos televisores maiores, \u00e0 melhor qualidade de som em casa, \u00e0 inseguran\u00e7a na rua, \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de cinema nos shoppings, \u00e0 pirataria, est\u00e1 tirando o p\u00fablico dos cinemas. Em dois anos, o n\u00famero de gente que vai ao cinema caiu no mundo todo, e no Brasil, caiu muito. \u00c9 um caso novo, uma revolu\u00e7\u00e3o completa. \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o para distribuir. N\u00f3s estamos conseguindo entrar no Rio de Janeiro, em S\u00e3o Paulo, vende-se pela Internet. J\u00e1 pensou, daqui a pouco estamos chegando na Europa, nos Estados Unidos. Por isso, a gente fez a caixa de DVD com legenda em ingl\u00eas, espanhol, franc\u00eas e portugu\u00eas. \u00c9 um produto que vai ganhar o mundo, n\u00f3s vamos ganhar espa\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Deu muito trabalho recuperar os curtas mais antigos?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<span style=\"color: #000000\"> &#8211;<\/span> <\/span><\/strong>N\u00f3s revisamos todos os filmes. Os que estavam com imagem ou som meia boca, n\u00f3s refizemos. A telecinagem\u00a0 \u00e9 um trabalho que custa um bom dinheiro. Com legendas t\u00ednhamos uns tr\u00eas ou quatro curtas, todo o resto teve que ser feito. Nossas ilhas [de edi\u00e7\u00e3o] ficaram ocupadas durante meses.\u00a0 V\u00e1rios curtas antigos tinham m\u00fasicas de discos que n\u00e3o t\u00ednhamos direitos, ent\u00e3o refizemos. .<br \/>\n<strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 A gente quis fazer um trabalho primoroso, criterioso. O Giba [Assis Brasil] \u00e9 o homem que tem grande responsabilidade por isso. Ele ficou nas ilhas de edi\u00e7\u00e3o, madrugadas a fio, conferindo legenda por legenda.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 O que motivou voc\u00eas a editarem a caixa de curtas?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong><span style=\"color: #cc3300\"> <\/span>\u2013 Acho duas coisas muito legais na caixa: primeiro, a possibilidade disponibilizar todos os nossos curtas para o p\u00fablico, o que a gente fez para tev\u00ea e tamb\u00e9m para o cinema. Essa possibilidade de colocar os produtos de televis\u00e3o, d\u00e1 um ar de perman\u00eancia. Outra coisa, s\u00e3o 40 filmes ao todo. J\u00e1 imaginou a quantidade de atores ga\u00fachos que tem? Todos os nomes que tu pensares est\u00e3o nessa caixa. Tem um volume de trabalho de dezoito anos que \u00e9 muito legal e que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nosso. Tem uma quantidade de atores, de t\u00e9cnicos. Um dia desses est\u00e1vamos vendo as fichas t\u00e9cnicas dos filmes de alunos e est\u00e3o l\u00e1 pessoas que hoje s\u00e3o profissionais, que est\u00e3o no mercado. D\u00e1 um belo retrato do cinema ga\u00facho dos \u00faltimos 23 anos que \u00e9 muito interessante.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Ana, voc\u00ea acaba de ser premiada pela Petrobras pelo conjunto de sua obra e, conseq\u00fcentemente, ganhou verbas para filmar seu primeiro longa-metragem. Em que p\u00e9 est\u00e1 o projeto?<br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 N\u00f3s estamos trabalhando na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o do filme, pensando como ele vai ser esteticamente.Ainda estou trabalhado no roteiro, apesar de j\u00e1 ter a vers\u00e3o final. Como eu me envolvo muito nos outros projetos da casa, acabava sempre deixando o longa para depois. A\u00ed tive o pr\u00eamio Bndes e agora esse a Petrobras, que foi um pr\u00eamio pessoal. A\u00ed me botaram na parede, n\u00e9? (risos)<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 O enredo fala sobre fotografia, sobre percep\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Ana Azevedo<\/strong> <\/span>\u2013 \u00c9 um filme que fala sobre o olhar. A hist\u00f3ria de um garoto do interior, que vive no seu mundinho, e que atrav\u00e9s com o contato com o pai, fot\u00f3grafo, que ele n\u00e3o conhecia, come\u00e7a a perceber o mundo de forma diferente, atrav\u00e9s do olhar. Ele percebe que\u00a0 mundo \u00e9 muito maior&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Poder\u00edamos encontrar uma certa polariza\u00e7\u00e3o na Casa de Cinema entre o Gerbase e o Furtado? Um fazendo filmes que pendem para a cr\u00f4nica, essa coisa de contar hist\u00f3rias do cotidiano, e outro, com tem\u00e1ticas mais er\u00f3ticas?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Gerbase<\/span><\/strong> \u2013 Eu e o Jorge trabalhamos juntos algumas vezes. J\u00e1 fizemos roteiros em parceria e nos damos muito bem. Mas cada um tem as suas prefer\u00eancias tem\u00e1ticas, a sua forma\u00e7\u00e3o. Se bem que a gente tem muitas coisas em comum: os dois estudaram no Anchieta, eu fiz jornalismo, ele acabou fazendo tamb\u00e9m, n\u00f3s temos exatamente a mesma idade. Mas a forma\u00e7\u00e3o dele tem muitas refer\u00eancias a esse mundo da tev\u00ea, e eu, do Super 8. \u00c9 diferente, \u00e9 outra escola. Se a gente considerar o ponto de sa\u00edda dos dois, s\u00e3o bem diferentes. E nos encontramos depois e fizemos muitas coisas juntos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Ana Azevedo<\/span><\/strong> \u2013 Acho que s\u00e3o bem diferentes os filmes de cada um, e acho fundamental que sejam. Seria um problema se a gente trabalhasse num grupo de seis, durante 18 anos \u2013 ou mais, porque antes da Casa j\u00e1 trabalh\u00e1vamos juntos \u2013 e de repente estiv\u00e9ssemos fazendo um monte de filmes iguais. Ent\u00e3o se cada um consegue manter o filme com a cara do diretor, mesmo com participa\u00e7\u00e3o e contribui\u00e7\u00e3o de todos, \u00e9 fundamental! A mesma coisa com o meu filme, eu acabei de dar o roteiro final para o Gerbase olhar. Quero que eles critiquem, que eles olhem, mas vai ter a minha cara, a minha dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Gerbase<\/strong> <\/span>\u2013\u00a0 Naturalmente as diferen\u00e7as aparecem. Eventualmente t\u00eam os trabalhos mais coletivos, as coisas da televis\u00e3o, meio que dilui um pouco, mas chega na hora do cinema, a autoria permanece. Meus filmes s\u00e3o bem diferentes, com certeza.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><\/strong> <strong><span style=\"color: #cc3300\">\u201cA televis\u00e3o \u00e9 muito melhor que o cinema brasileiro\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Entrevista com Jorge Furtado:<\/em><\/p>\n<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/casacine_nairahofmeister.jpg?0.4683495827529757\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"200\" height=\"267\" \/><br \/>\n<span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Jorge Furtado diz que s\u00f3 sabe filmar o que conhece<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Como foi essa experi\u00eancia de revisitar todos seus curtas para lan\u00e7ar a caixa de DVDs da Casa de Cinema?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Jorge Furtado<\/span><\/strong> \u2013 Eu adorei fazer a caixinha e o que eu achei de mais legal, \u00e9 que ela preserva os filmes numa ordem cronol\u00f3gica, com qualidade e no formato digital. E tamb\u00e9m o fato de termos feito legendagem para quatro idiomas. Gosto especialmente de Anchietanos*, que foi meu primeiro roteiro. Ia ser um longa-metragem que acabei n\u00e3o conseguindo fazer. Ent\u00e3o, fiz para televis\u00e3o, mas considero que \u00e9 meu primeiro longa.\u00a0 A tev\u00ea tem um problema: o produto \u00e9 visto por 40 milh\u00f5es de pessoas, mas parece que ningu\u00e9m viu, porque \u00e9 espalhado. E as pessoas dizem que nunca viram. E se n\u00e3o viram, n\u00e3o tem como ver nunca mais. E agora, est\u00e1 dispon\u00edvel. V\u00e1rios filmes que nunca tinham sido nem telecinados, como o Temporal, que \u00e9 meu primeiro filme. Veja Bem, que eu fiz para S\u00e3o Paulo, pra Secretaria de Cultura&#8230; E tamb\u00e9m o Paradoxo (2004), o \u00faltimo curta que eu fiz, que \u00e9 um document\u00e1rio sobre um pioneiro do cinema, um cineasta amador de Caxias, tamb\u00e9m s\u00f3 foi visto em S\u00e3o Paulo, uma vez. Ent\u00e3o, resgatar esses filmes raros e preservar com qualidade e legenda dos outros todos, foi o que mais me deixou feliz.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 E a caixa tem uma caracter\u00edstica de compila\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica?<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\"><br \/>\nFurtado<\/span><\/strong> \u2013 \u00c9 a obra completa de todo mundo. Depois de a caixinha estar pronta, a \u00fanica coisa que eu dirigi, que n\u00e3o tem em DVD, foi um epis\u00f3dio de Com\u00e9dias da Vida Privada, que n\u00e3o est\u00e1 ali, nem no DVD do programa mesmo. Todas as outras coisas que eu dirigi, todos os curtas, todas as s\u00e9ries de tev\u00ea est\u00e3o em no DVD.\u00a0 Nesse caso, n\u00e3o s\u00e3o os melhores momentos, mas uma obra completa, tem tudo. Inclusive O Temporal, meu primeiro filme, que \u00e9 ruim, por exemplo. \u00c9 ruim&#8230; principalmente mal dirigido. Mas \u00e9 bem produzido, bem fotografado&#8230; ele tem qualidades, claro!<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Na caixa foram inclu\u00eddos diversos curtas realizados para a televis\u00e3o. Essa foi a via econ\u00f4mica encontrada para sobreviver num momento de crise? E quanto essa mistura interfere na sua produ\u00e7\u00e3o de cinema?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Furtado<\/span><\/strong> \u2013 Eu n\u00e3o vejo a televis\u00e3o como uma coisa alternativa ao cinema. Para mim s\u00e3o duas formas de express\u00e3o da nossa linguagem \u2013 que \u00e9 a linguagem audiovisual \u2013, com caracter\u00edsticas muito deferentes. A televis\u00e3o \u00e9 real: ela atinge 40 milh\u00f5es de pessoas, tem lucratividade, ela se reproduz, as pessoas adoram, sentem falta. Se a televis\u00e3o brasileira parasse um dia,\u00a0 provocaria uma revolu\u00e7\u00e3o. E o cinema brasileiro parou dois anos e, alem de n\u00f3s cineastas, ningu\u00e9m sentiu falta. Ent\u00e3o, essa id\u00e9ia de que televis\u00e3o \u00e9 uma coisa menor, n\u00e3o concordo, acho que s\u00e3o diferentes. Acho que \u00e9 poss\u00edvel fazer coisas de qualidade na TV e no cinema e fazer coisas ruins em ambas.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 A televis\u00e3o brasileira tem qualidade?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Furtado<\/span><\/strong> &#8211; Acho que a televis\u00e3o \u00e9 muito melhor que o cinema brasileiro, todo mundo acha: o p\u00fablico, mundialmente. A popula\u00e7\u00e3o gosta, tem bons programas. 95% \u00e9 porcaria, \u00e9 p\u00e9ssimo. Mas os 5% que a tev\u00ea produz de qualidade todo ano \u2013 Dia de Maria, Cena Aberta, A Grande Fam\u00edlia \u2013 esses 5% s\u00e3o muito melhores do que a m\u00e9dia do cinema brasileiro, que \u00e9 muito ruim. Em grande parte o cinema brasileiro n\u00e3o se defende: nem esteticamente, nem atinge p\u00fablico, e \u00e9 muito elitista, porque e feito s\u00f3 para quem tem dinheiro para pagar ingresso. Acho que cinema brasileiro esta aprendendo muita coisa, ruins e boas. Eu me interesso pelos dois ve\u00edculos. Pretendo continuar fazendo tev\u00ea e filmes.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Alguns cr\u00edticos tomam como exemplo o Cidade dos Homens, onde voc\u00ea foi um dos roteiristas. Dizem que a s\u00e9rie perdeu a profundidade e os questionamentos no final dos quatro anos de exibi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m fazem a mesma critica com Carandiru na tev\u00ea, comparado com o filme&#8230;<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Furtado<\/span><\/strong> \u2013 Quando vi o Carandiru \u2013 o filme \u2013, achei que ele seria mais bem sucedido como uma s\u00e9rie de televis\u00e3o. Porque o livro do Dr\u00e1uzio (Varella \u2013 Esta\u00e7\u00e3o Carandiru), baseado em hist\u00f3rias reais, n\u00e3o tem uma ordem, ele \u00e9 um painel de hist\u00f3rias. Essas muitas pequenas hist\u00f3rias, no filme, est\u00e3o aproximadas de uma maneira espacial, elas se passam dentro do Carandiru e alguns personagens se tocam. Mas s\u00e3o hist\u00f3rias independentes. Ent\u00e3o, ao ver filme, que \u00e9 longo, percebi que algumas poderiam sair, outras serem deslocadas. Essa caracter\u00edstica de que se pode tirar coisas, faz com se perceba que n\u00e3o tem uma estrutura inteira, de hist\u00f3ria. No caso de Cidade do Homens, h\u00e1 um filme anterior ao Cidade de Deus \u2013 um curta, estrelado pelo\u00a0 Douglas e pelo Darlan, chamado Palace II \u2013 que \u00e9 um epis\u00f3dio do livro do Paulo Lins, que n\u00e3o entrou no filme. Mas depois do filme, todo mundo pensou que dava para pegar aquele personagem e contar muitas outras hist\u00f3rias. O filme \u00e9 violent\u00edssimo, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel passar na tev\u00ea depois da meia noite. A s\u00e9rie foi pensada para um determinado hor\u00e1rio. Mesmo sem a viol\u00eancia, foi um sucesso genial, estrondoso. Est\u00e1 sendo distribu\u00edda no mundo todo. O Darlan foi indicado ao Emmy Internacional por Melhor Ator. N\u00e3o \u00e9 um subproduto do filme.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Como voc\u00ea recebe as cr\u00edticas?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Furtado <\/span><\/strong>&#8211; Todos os filmes que s\u00e3o feitos recebem cr\u00edticas. Ruins e excelentes. Na verdade, pouca cr\u00edtica de verdade, porque tem muita gente \u2018falando sobre\u2019 cinema e televis\u00e3o. Ent\u00e3o se tu pegares o exemplo do Meu tio&#8230;, ele teve excelentes criticas em todo o Brasil, com exce\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul. Folha de S\u00e3o Paulo, JB, Estad\u00e3o, O Globo, Veja, Isto\u00e9. No Rio Grande do Sul n\u00e3o teve muitas cr\u00edticas boas, principalmente porque os ga\u00fachos foram ver o filme esperando ver um filme ga\u00facho, eu acho.\u00a0 Outra quest\u00e3o e essa da superficialidade: o que \u00e9 superficial ou profundo? Eu acho que uma boa hist\u00f3ria, bem contada, sempre \u00e9 profunda. Existe uma id\u00e9ia de que a com\u00e9dia \u00e9 superficial, de que um filme, para ser importante ou s\u00e9rio, n\u00e3o pode ser engra\u00e7ado, n\u00e3o pode ser uma comedia. Eu n\u00e3o dou import\u00e2ncia para isso.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Que tipo de filmes voc\u00ea gosta de fazer?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Furtado<\/span><\/strong> &#8211; Eu gosto de fazer filmes bem diferentes uns dos outros. Os tr\u00eas longas que filmei at\u00e9 hoje s\u00e3o distintos e o pr\u00f3ximo vai ser ainda mais diferente. Nada parecido com o que eu j\u00e1 fiz. Se tu te guiares pela cr\u00edtica, vai perder o rumo. Tem que pensar o que te incomoda e o que te d\u00e1 prazer e fazer um filme verdadeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>J\u00c1 \u2013 Voc\u00ea pensa em fazer filmes no exterior?<br \/>\n<\/strong><strong><span style=\"color: #cc3300\">Furtado<\/span><\/strong> \u2013 Eu j\u00e1 recebi inclusive convites para ir filmar fora do Brasil. Mas n\u00e3o consigo de jeito algum. S\u00f3 sei falar do que conhe\u00e7o. Se fosse fazer um filme nos Estados Unidos, o t\u00edtulo seria \u201cPerdido em Nova Iorque\u201d (risos).<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>* Anchietanos, rodado em 1997, foi o epis\u00f3dio n\u00b0 19 da s\u00e9rie &#8220;Com\u00e9dias da vida privada&#8221; da TV Globo. O curta n\u00e3o est\u00e1 inclu\u00eddo na sele\u00e7\u00e3o de filmes do diretor na caixa de DVD, mas vem de brinde nos primeiros conjuntos vendidos.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gerbase diz que a produ\u00e7\u00e3o ga\u00facha \u00e9 que provocou a cria\u00e7\u00e3o da Casa de Cinema (Fotos: Naira Hofmeister\/J\u00c1) Naira Hofmeister e S\u00e9rgio Lagranha A Casa de Cinema nasceu em 1987 para fazer cinema, mas faz tev\u00ea com prazer. Publicidade, n\u00e3o. O grande divisor de \u00e1guas foi o curta Ilha das Flores (1989). Logo depois, o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-717","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-bz","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=717"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/717\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}