{"id":71734,"date":"2018-12-18T01:15:04","date_gmt":"2018-12-18T03:15:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=71734"},"modified":"2018-12-18T01:15:04","modified_gmt":"2018-12-18T03:15:04","slug":"pampa-ja-perdeu-20-da-sua-vegetacao-nativa-com-avanco-da-soja-e-da-silvicultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/pampa-ja-perdeu-20-da-sua-vegetacao-nativa-com-avanco-da-soja-e-da-silvicultura\/","title":{"rendered":"Pampa j\u00e1 perdeu 20% da sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa com avan\u00e7o da soja e da silvicultura"},"content":{"rendered":"<p>O pampa riograndense perde vegeta\u00e7\u00e3o nativa e est\u00e1 crescentemente acuado pelo avan\u00e7o das lavouras de soja, que usam insumos sem controle, principalmente venenos nocivos \u00e0 fauna e \u00e0 flora.<br \/>\nEssa foi a s\u00edntese de um conjunto de quatro palestras de especialistas da UFRGS sobre o bioma Pampa que representa 2% do territ\u00f3rio brasileiro e ocupa 60% do Rio Grande do Sul.<br \/>\nHenrique Hasenack, do Departamento de Ecologia da UFRGS, baseado em levantamentos feitos desde 1985 pelo sat\u00e9lite Landsat, disse que nesses 33 anos, o territ\u00f3rio pampeano perdeu 20% de suas forma\u00e7\u00f5es campestres, enquanto houve crescimento de 27,7% nas \u00e1reas de lavouras e de 2% em silvicultura.<br \/>\nRealizado na tarde de segunda (17) no audit\u00f3rio do Centro Cultural da UFRGS, o encontro denominado Pacto pelo Pampa atraiu cerca de 80 pessoas entre estudantes, professores, agr\u00f4nomos e produtores rurais.<br \/>\nDiante da constata\u00e7\u00e3o generalizada de que a popula\u00e7\u00e3o e as entidades regionais ignoram o que os estudos cient\u00edficos v\u00eam revelando sobre a degrada\u00e7\u00e3o paulatina do Pampa, o bot\u00e2nico Paulo Brack encerrou o evento convocando os presentes a participar de uma nova reuni\u00e3o em mar\u00e7o.<br \/>\nNesse m\u00eas o Departamento de Ecologia da universidade pretende reiniciar o movimento em defesa da recupera\u00e7\u00e3o do principal bioma ga\u00facho, que se estende ainda por quase todo o Uruguai, por boa parte da Argentina e um pedacinho do Paraguai.<br \/>\n\u201cN\u00f3s precisamos parar de falar somente para n\u00f3s mesmos\u201d, exclamou Brack, salientando que nos \u00faltimos dois anos, ap\u00f3s o golpe civil,\u00a0\u00a0houve um retrocesso no tratamento das quest\u00f5es ambientais e \u201cagora sabemos que vai piorar\u201d.<br \/>\nPara evitar o agravamento da situa\u00e7\u00e3o, os estudiosos e t\u00e9cnicos que se manifestaram no debate final enfatizaram a necessidade de uni\u00e3o de todos no sentido de defender a legisla\u00e7\u00e3o vigente e impedir sua destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO QUE DISSE CADA UM<br \/>\nEduardo V\u00e9lez, do Instituto Curicaca, apresentou um quadro atualizado das \u00e1reas priorit\u00e1rias para a biodiversidade no bioma Pampa.<br \/>\nS\u00e3o 516 \u201calvos\u201d, destacando-se 291 plantas, 52 esp\u00e9cies de peixes, 43 aves, 23 mam\u00edferos e 19 r\u00e9pteis, entre outras esp\u00e9cies menos numerosas. Os \u201ccustos\u201d que mais concorrem para reduzir a biodiversidade s\u00e3o a agricultura, a silvicultura, hidrel\u00e9tricas, estradas e urbaniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHenrique Hasenack, do Departamento de Ecologia da UFRGS, baseou-se em levantamentos feitos desde 1985 pelo sat\u00e9lite Landsat que, nesses 33 anos, o territ\u00f3rio pampeano perdeu 20% de suas forma\u00e7\u00f5es campestres, enquanto houve crescimento de 27,7% nas \u00e1reas de lavouras e de 2% em silvicultura.<br \/>\n\u201cNo total, a perda de vegeta\u00e7\u00e3o nativa foi de 600 mil hectares por d\u00e9cada\u201d, concluiu, lembrando que 10% do territ\u00f3rio riograndense s\u00e3o ocupados por \u00e1gua, a come\u00e7ar pela Lagoa dos Patos. Essas informa\u00e7\u00f5es podem ser capturadas no site\u00a0mapbiomas.org<br \/>\nCarlos Nabinger, da Agronomia da UFRGS, especialista em produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria em campos nativos, afirmou que \u201cas tecnologias de processos devem anteceder o uso de insumos\u201d. Com isso, ele quis dizer que \u00e9 preciso aprofundar o conhecimento que se tem sobre os \u201cservi\u00e7os ecossist\u00eamicos\u201d oferecidos pelo bioma Pampa antes de usar a terra ao bel prazer do propriet\u00e1rio.<br \/>\nSegundo estudo de 2014 realizado por Robert Costanza, os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos somam US$ 125 trilh\u00f5es a US$ 145 trilh\u00f5es anuais no mundo inteiro. Para dar uma ideia dos recursos naturais envolvidos nesse trabalho invis\u00edvel e desprezado pela maioria das pessoas, Nabinger lembrou que o Pampa cont\u00e9m 3 mil esp\u00e9cies de plantas (mais de 600 forrageiras), 480 esp\u00e9cies de aves, 92 mam\u00edferos, 84 anf\u00edbios e r\u00e9pteis \u2013 isso sem falar da mesofauna, da microfrauna e da microflora.<br \/>\nAs tecnologias de processos citadas acima referem-se a conhecimentos auferidos na gest\u00e3o de pastagens para engorda de bovinos. Em 30 anos, a tecnologia acumulada pela UFRGS evoluiu de uma produ\u00e7\u00e3o de 60 quilos de carne por hectare\/ano para 140 kg apenas com ajuste de carga bovina, para 230 kg com manipula\u00e7\u00e3o da estrutura das pastagens e para 340 kg com o plantio de forrageiras. Pode-se chegar a 900 kg\/ha\/ano com sobressemeadura de pastos de inverno e a 1200 kg com irriga\u00e7\u00e3o e fertiliza\u00e7\u00e3o. Apenas uma elite de pecuaristas vem aplicando esses conhecimentos.<br \/>\nPara avan\u00e7ar, segundo Nabinger, \u00e9 preciso: 1) estabelecer uma pol\u00edtica de pagamento de servi\u00e7os ambientais; 2) estabelecer um ordenamento territorial e n\u00e3o, apenas, um zoneamento agroecol\u00f3gico.<br \/>\nGerhard Overbeck,\u00a0da UFRGS, perguntou qual \u00e1rea do Pampa est\u00e1 sendo recuperada para que o Brasil cumpra a promessa de restaurar 12 milh\u00f5es de hectares at\u00e9 2030, conforme o chamado Desafio de Bonn, assumido pelo governo Dilma Rousseff.<br \/>\nPelo que se sabe, nenhum peda\u00e7o do Pampa est\u00e1 oficialmente inserido no programa de restaura\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa.<br \/>\nAo mostrar fotos de \u00e1reas degradadas por queimadas ap\u00f3s o corte de \u00e1reas de pinus, ele lembrou que a restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do bioma Pampa \u00e9 dificultada pela falta de sementes de esp\u00e9cies nativas.<br \/>\nNos debates finais, alguns presentes, entre agr\u00f4nomos e produtores rurais, manifestaram-se preocupados com o avan\u00e7o da soja em campos nativos. Na regi\u00e3o de Acegu\u00e1, ficou provado que os solos s\u00e3o inadequados para o cultivo da leguminosa.<br \/>\nUm representante da Agapan lamentou a volta do uso do herbicida 2.4.D, que fora proibido h\u00e1 35 anos, no in\u00edcio da vig\u00eancia da lei dos agrot\u00f3xicos.<br \/>\nO professor Miguel Dallagnol, da Agronomia, afirmou que os cientistas precisam mudar a estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o sobre a degrada\u00e7\u00e3o do bioma Pampa. Uma medida importante ser\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de sementes de vegetais nativos.<br \/>\nOutro associado da Agapan, fot\u00f3grafo profissional em Santa Maria, fez um desabafo sobre a atua\u00e7\u00e3o de sojicultores em Santiago e em Lavras do Sul, onde, segundo ele, \u201cos pesquisadores est\u00e3o tremendo a perna\u201d diante de uma mineradora que se prepara para explorar o vale do rio Taquaremb\u00f3 .<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pampa riograndense perde vegeta\u00e7\u00e3o nativa e est\u00e1 crescentemente acuado pelo avan\u00e7o das lavouras de soja, que usam insumos sem controle, principalmente venenos nocivos \u00e0 fauna e \u00e0 flora. 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