{"id":71796,"date":"2018-12-19T14:05:37","date_gmt":"2018-12-19T16:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=71796"},"modified":"2018-12-19T14:05:37","modified_gmt":"2018-12-19T16:05:37","slug":"rasga-coracao-o-filme-fiel-a-peca-de-vianinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/rasga-coracao-o-filme-fiel-a-peca-de-vianinha\/","title":{"rendered":"Rasga Cora\u00e7\u00e3o, o filme,  \u00a0fiel a pe\u00e7a de Vianinha"},"content":{"rendered":"<p><strong>Francisco Ribeiro\u00a0<\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong>O conflito de gera\u00e7\u00f5es, tema central da pe\u00e7a <em>Rasga cora\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 escrita por Oduvaldo Viana Filho (1936-1974), o Vianinha, nos anos de chumbo da ditadura militar \u2013, ganha atualiza\u00e7\u00e3o na adapta\u00e7\u00e3o f\u00edlmica de Jorge Furtado sem, contudo, perder o vigor do texto original. Vianinha escreveu <em>Rasga cora\u00e7\u00e3o<\/em> nos dois \u00faltimos anos de sua curta vida, abreviada por um c\u00e2ncer pulmonar. Morreu sem v\u00ea-la encenada.<br \/>\nA pe\u00e7a compreende um per\u00edodo hist\u00f3rico de 40 anos. Dos anos 1930 ao come\u00e7o da d\u00e9cada de 1970. Da era Vargas ao p\u00f3s-1968. Um abismo de tempo, mas onde ainda era f\u00e1cil uma gera\u00e7\u00e3o entender a precedente. Assim, Cust\u00f3dio Manh\u00e3es, ou melhor, Manguari Pistol\u00e3o, um comunista <em>old school<\/em> no estilo do velho partid\u00e3o tem problemas de relacionamento com o filho, Luca, um adolescente neo-hippie, adepto da macrobi\u00f3tica e para quem o \u00fanico engajamento poss\u00edvel \u00e9 a defesa do meio ambiente.<br \/>\nA pe\u00e7a, devido \u00e0 censura, s\u00f3 foi liberada em 1979, j\u00e1 em plena \u201cAbertura\u201d e volta dos exilados. Teve a sua primeira montagem em 1979, com atua\u00e7\u00f5es, entre outros, de Raul Cortez e Vera Holtz. Foi um arraso. Ficou um temp\u00e3o em cartaz, apresenta\u00e7\u00f5es por v\u00e1rios palcos atrav\u00e9s do pa\u00eds, marcando, como Furtado, todos que a viram, gra\u00e7as, principalmente, a exuberante performance de Cortez no papel de Manguari Pistol\u00e3o. Inesquec\u00edvel.<br \/>\n<strong>O filme<\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><br \/>\nH\u00e1 v\u00e1rios tipos de adapta\u00e7\u00e3o, da mais fidedigna, quase uma ilustra\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o original \u2013 romance, conto, pe\u00e7a \u2013 a outras (tipo baseado em, ou inspirado em) que de t\u00e3o livres s\u00f3 tem de comum com a fonte o t\u00edtulo, \u00e0s vezes nem isso. Furtado, al\u00e9m de respeitar as inten\u00e7\u00f5es de Vianinha manteve, algo comum na adapta\u00e7\u00e3o de textos teatrais, boa parte dos di\u00e1logos da pe\u00e7a. Tamb\u00e9m utiliza a mesma estrat\u00e9gia do autor para viajar do presente ao passado atrav\u00e9s das compara\u00e7\u00f5es que Manguari (Marco Ricca) faz entre ele e Luca (Chay Suede) em situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas. Seja atrav\u00e9s dos conflitos com o pai (N\u00e9lson Diniz), ou do contraponto efetuado pelo amigo morto, Lorde Bundinha (George Sauma), um ser an\u00e1rquico, p\u00e2ndego, devasso, artista, meio d\u00e2ndi, meio l\u00fampen.<br \/>\nRespeitado o essencial, Furtado contextualizou as a\u00e7\u00f5es para entre a virada dos anos 60-70 do s\u00e9culo passado (<em>flashback<\/em>) \u00e0 segunda d\u00e9cada deste. O mundo \u00e9 outro, a cidade ficou violent\u00edssima e a cena, vista da janela, do corpo e do sangue na cal\u00e7ada de Copacabana passa longe de ser uma simples met\u00e1fora do Rio de Janeiro atual. Mas o mundo continua cheio de boas causas para lutar: sociais, caso de Manguari; ambientais, no de Luca, que passou de macrobi\u00f3tico a vegano na vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica.<br \/>\nH\u00e1 outras mudan\u00e7as. N\u00e3o escapou da atualiza\u00e7\u00e3o de Furtado um certo \u00a0olhar sobre a pol\u00eamica quest\u00e3o de g\u00eanero. Nisto, Luca tem como c\u00famplice Mil (Luisa Arraes), a namorada, que se veste como homem, enquanto ele, ao longo da hist\u00f3ria, vai adquirindo cada vez mais trejeitos femininos, pinta as unhas e termina vestido num saiote oriental. Esta \u201ctransgress\u00e3o\u201d indument\u00e1ria substitui o cabelo comprido de Luca no texto de Vianinha como origem do futuro confronto.<br \/>\nA conduta \u201cdesviante\u201d segue a repress\u00e3o institucional, pois, segundo a vis\u00e3o reacion\u00e1ria, conservadora do diretor da escola, a \u201clicenciosidade\u201d dos alunos \u2013 roupas, drogas, sexo \u2013 conduzir\u00e3o, se continuar, o estabelecimento aquilo que a gera\u00e7\u00e3o de Manguari chamava de frege, bagun\u00e7a. O protesto estudantil eclode e o velho Manguari, mesmo sem imaginar que o filho se torne um bolchevique, v\u00ea com simpatia o movimento e adere como bra\u00e7o auxiliar, embora discorde das t\u00e1ticas.<br \/>\nSoa sempre engra\u00e7ado a maneira como as novas gera\u00e7\u00f5es olham as velhas. No filme, Manguari escreve um plano de a\u00e7\u00f5es que lido por Mil na assembl\u00e9ia estudantil \u00e9 ca\u00e7oado por parecer um roteiro tur\u00edstico. N\u00e3o importa, vale a postura combativa, a capacidade imorredoura da sociedade, ou uma parte dela, de num determinado momento mandar a classe dirigente a merda, se organizar, sair para as ruas.<br \/>\nFurtado, numa entrevista, disse ter percebido que <em>Rasga cora\u00e7\u00e3o<\/em> ganhara atualidade durante as Jornadas de Junho, em 2013, quando jovens de todo o pa\u00eds sa\u00edram \u00e0s ruas, inicialmente, em protesto contra o aumento de 20 centavos da passagem de \u00f4nibus. O movimento ganhou amplitude e serviu de batismo pol\u00edtico para muita gente. Mostrou que a capacidade de contestar n\u00e3o estava anestesiada.<br \/>\nMas em <em>Rasga cora\u00e7\u00e3o <\/em>o quesito aliena\u00e7\u00e3o versus conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complicado. Luca, de uma postura reivindicat\u00f3ria e radical, muda para outra, alternativa. Ela \u00e9 incompreens\u00edvel para Manguari que, humildemente, quer apenas entender o filho. Este, entretanto, j\u00e1 n\u00e3o considera o pai como um revolucion\u00e1rio, mas sim um acomodado, gado, como os demais, pegando o \u00f4nibus para ir ao trabalho.<br \/>\nPonto de vista de Luca: fora \u00e0 revolta dos Cabanos e da guerra de Canudos (onde morreu todo mundo) a hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 um eterno \u201carriar de cal\u00e7as\u201d.<br \/>\nA posi\u00e7\u00e3o de Manguari: (&#8230;) \u201ceu sempre estive ao lado dos que t\u00eam sede de justi\u00e7a, menino. Eu sou um revolucion\u00e1rio, entendeu? (&#8230;) Voc\u00ea \u00e9 o covardezinho que quer fazer do medo de viver um espet\u00e1culo de coragem\u201d.<br \/>\nO conflito se estabelece e j\u00e1 que o di\u00e1logo foi abolido, Luca, mesmo contra a sua vontade, \u00e9 posto para fora do ninho. Adeus adolesc\u00eancia. Sem rancor. Ser\u00e1? Conflitos de gera\u00e7\u00e3o e do tempo. O novo \u00e0s vezes parece velho, e o antigo pode continuar a ser revolucion\u00e1rio. N\u00e3o se trata de ter ou n\u00e3o raz\u00e3o e os dois pontos de vista s\u00e3o plaus\u00edveis desde que n\u00e3o termine num di\u00e1logo de surdos. Rasga cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMarco Ricca veste bem a pele de um funcion\u00e1rio p\u00fablico que n\u00e3o jogou a toalha, onde ainda vive o Manguari que conservou seus ideais, ou parte deles, os sonhos de quem j\u00e1 quis mudar o mundo. Utopias que aos olhos de Luca podem parecer doentes como o ar, a \u00e1gua, a comida, as cidades. Resistir. E Manguari, mesmo pra l\u00e1 de escaldado, n\u00e3o se tornou um conformista, mesmo que n\u00e3o transe mais com a mulher, Lena (Drica Morais) ou que se masturbe, sexo voyeur, olhando a vizinha na janela do pr\u00e9dio da frente.<br \/>\nEntre Luca e Manguari, o amor incondicional da m\u00e3e, mulher, Lena, cujo horizonte vai pouco al\u00e9m da lista, sempre sujeita a cortes, do supermercado, ou o desejo, sempre postergado, da reforma do apartamento. Ela retrata bem aquilo que o escritor Jo\u00e3o Ant\u00f4nio (1937-1996), outro ex-morador da princesinha do mar, denominou de classe m\u00e9rdea (sic). \u00a0\u201cO sol j\u00e1 n\u00e3o bate no parapeito da janela (&#8230;) n\u00e3o queima o cotovelo\u201d, comentam, cena final, Lena e Manguari. N\u00e3o foi s\u00f3 isso que mudou. A luta continua.<br \/>\n<strong>Vianinha<\/strong><br \/>\n<strong>\u00a0<\/strong><br \/>\nDe volta ao texto de Vianinha, percebe-se que no discurso de Luca, Vianinha antecipa, em parte, o pensamento de Fernando Gabeira, ex-guerrilheiro, que em sua volta ao Brasil, 1979, far\u00e1 da pol\u00edtica do corpo, da ecologia, da alimenta\u00e7\u00e3o natural, algumas de suas bandeiras. Isto culminar\u00e1, na d\u00e9cada seguinte, com a cria\u00e7\u00e3o do Partido Verde. Assim, Luca pode ser considerado um \u201cverde\u201d <em>avant la lettre<\/em>.<br \/>\nIsto \u00e9 uma prova das antenas superligadas de Vianinha que como ator e autor viveu, profissionalmente, algumas das mazelas expostas em Rasga Cora\u00e7\u00e3o. Como ator, o processo de conscientiza\u00e7\u00e3o do jornalista Marcelo em <em>O desafio<\/em> (1965, de Paulo C\u00e9sar Sarraceni). Ou \u00a0o de Fl\u00e1vio, um desempregado, tamb\u00e9m em conflito com o pai, de <em>Um homem sem import\u00e2ncia<\/em> (1971, de Alberto Salva).<br \/>\nPor fim, como um dos criadores da primeira vers\u00e3o de <em>A grande fam\u00edlia<\/em> (Rede Globo, 1972-1975), onde o personagem Tuco (Armando Queiroz), tamb\u00e9m um neo-hippie, lembra Luca, mas num per\u00edodo onde a discuss\u00e3o pol\u00edtica, por causa da censura, era proibida.\u00a0 O comportamento de Tuco era uma das poucas transgress\u00f5es \u201cpermitidas\u201d numa \u00e9poca em que boa parte da sociedade brasileira \u2013 anestesiada pelo consumo, gra\u00e7as \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d \u2013 esquecia as pris\u00f5es, a tortura, os \u201cdesaparecimentos\u201d.<br \/>\nMas n\u00e3o faltavam focos de resist\u00eancia, e a arte \u2013 m\u00fasica, cinema, teatro, literatura \u2013 apesar da censura era um deles. Como dramaturgo Vianninha exp\u00f4s em <em>Rasga cora\u00e7\u00e3o <\/em>o conflito, as contradi\u00e7\u00f5es que conhecia muito bem por t\u00ea-las vivido, como muita gente, em casa. Manteve-se politicamente engajado at\u00e9 o fim num tempo onde isso era risco de vida. Tempo tamb\u00e9m onde a m\u00fasica era boa, cheia de poesia como a existente nas letras das belas can\u00e7\u00f5es do filme \u2013 Tom Z\u00e9, Capinan, Macal\u00e9, etc \u2013 que trazem um pouco da atmosfera da \u00e9poca em que Vianinha escreveu a pe\u00e7a. Uma justa homenagem.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Ribeiro\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0O conflito de gera\u00e7\u00f5es, tema central da pe\u00e7a Rasga cora\u00e7\u00e3o \u2013 escrita por Oduvaldo Viana Filho (1936-1974), o Vianinha, nos anos de chumbo da ditadura militar \u2013, ganha atualiza\u00e7\u00e3o na adapta\u00e7\u00e3o f\u00edlmica de Jorge Furtado sem, contudo, perder o vigor do texto original. 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