{"id":71811,"date":"2018-12-19T20:09:58","date_gmt":"2018-12-19T22:09:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=71811"},"modified":"2018-12-19T20:09:58","modified_gmt":"2018-12-19T22:09:58","slug":"universidade-e-a-ultima-trincheira-contra-a-estupidez-diz-jornalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/universidade-e-a-ultima-trincheira-contra-a-estupidez-diz-jornalista\/","title":{"rendered":"&quot;Universidade \u00e9 a \u00faltima trincheira contra a estupidez&quot;, diz jornalista"},"content":{"rendered":"<p>Em palestra na abertura do semin\u00e1rio da Andifes sobre os 70 anos da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e 30 anos da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, na ter\u00e7a-feira em Brasilia, o jornalista Luiz Cl\u00e1udio Cunha conclamou os 63 reitores de Universidades Federais presentes a que &#8220;resistam \u00e0 imbecilidade e \u00e0 ignor\u00e2ncia&#8221; que, segundo ele, est\u00e3o caracterizando a Era Bolsonaro.<br \/>\nProfissionais de v\u00e1rias \u00e1reas de conhecimento participaram do debate a respeito da reafirma\u00e7\u00e3o da democracia e do direito constitucional \u00e0 autonomia universit\u00e1ria e \u00e0 liberdade de express\u00e3o.<br \/>\nEm seu longo e contundente pronunciamento, Luiz Cl\u00e1udio Cunha fez um detalhado relato dos ataques que a institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria foi alvo no per\u00edodo ditatorial, que o presidente eleito abertamente elogia.<br \/>\nO discurso de Cunha, na \u00edntegra:<br \/>\n<em>&#8220;Hoje, nesse ato dedicado aos Direitos Humanos e \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, estamos pr\u00f3ximos a tr\u00eas datas importantes e relacionadas. H\u00e1 uma semana, 10 de dezembro, celebramos os 70 anos do documento p\u00fablico mais traduzido do mundo, a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, com seus 30 perenes artigos transcritos em 514 diferentes idiomas do planeta. Cinco dias atr\u00e1s, 13 de dezembro, lembramos os 50 anos do maior golpe contra os direitos humanos no Brasil: a edi\u00e7\u00e3o do AI-5, o ato institucional mais implac\u00e1vel da ditadura de 21 anos que, a partir do golpe de 1\u00ba de abril de 1964, agrediu duramente a milhares de brasileiros \u2013 presos, torturados, mortos, desaparecidos, exilados ou cassados pelo regime dos generais.<\/em><br \/>\n<em>E dentro de exatas duas semanas, na primeira ter\u00e7a-feira de 2019, dia inicial do novo ano, teremos os militares de volta ao poder, 34 anos ap\u00f3s a queda da ditadura em 1985.<\/em><br \/>\n<em>Em 64, os generais tomaram o poder pela for\u00e7a das armas e dos tanques. Agora, em 2019, os generais voltam ao poder pela sacralidade do voto popular. Tr\u00eas d\u00e9cadas passadas do fim da ditadura, temos a volta dos militares e do militarismo, com a prolifera\u00e7\u00e3o de generais, coron\u00e9is e outras patentes na campanha eleitoral, resgatados com vota\u00e7\u00f5es consagradoras nas assembleias, na C\u00e2mara dos Deputados, no Senado Federal, ressuscitados pelo voto com poder e protagonismo nos principais gabinetes dos pal\u00e1cios, dos minist\u00e9rios e do poder em geral. <\/em><br \/>\n<em>Os militares retomam o comando do Pa\u00eds porque n\u00f3s, o povo, elegemos o capit\u00e3o Jair Bolsonaro e, com ele, seus camaradas. Este \u00e9 o paradoxo, esta \u00e9 a trag\u00e9dia da democracia brasileira. Ap\u00f3s 21 anos de regime militar, o militarismo emergente da elei\u00e7\u00e3o de 2018 \u00e9 o avesso de um pa\u00eds que ainda tentava se civilizar, na express\u00e3o mais ampla da palavra. <\/em><br \/>\n<em>A civiliza\u00e7\u00e3o do processo pol\u00edtico \u00e9 a radicaliza\u00e7\u00e3o do poder civil. A generaliza\u00e7\u00e3o do poder, pela exagerada presen\u00e7a e inger\u00eancia dos generais, \u00e9 a degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. Nenhuma grande democracia no mundo d\u00e1 tantos poderes a tantos generais.<\/em><br \/>\n<em>Nem os cinco generais-presidentes da ditadura de 64 deram espa\u00e7o t\u00e3o desmedido aos militares como o capit\u00e3o-presidente da democracia de 2018. O primeiro deles, Castello Branco, tinha s\u00f3 5 oficiais-generais no minist\u00e9rio. O segundo, Costa e Silva, o terceiro, Garrastaz\u00fa M\u00e9dici, e o quarto, Ernesto Geisel, tiveram, cada um, 7 militares em suas equipes de governo. O \u00faltimo da ditadura, Jo\u00e3o Figueiredo, abrigou 6 militares. <\/em><br \/>\n<em>O governo do capit\u00e3o Jair Bolsonaro ter\u00e1\u00a0 9 militares em postos chaves do minist\u00e9rio:<\/em><br \/>\n<em>Um general no Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional(Augusto Heleno), outro na Defesa (Fernando Azevedo e Silva), mais um na Secretaria de Governo (Carlos Alberto dos Santos Cruz). Ter\u00e1 um almirante nas Minas e Energia (Bento Costa Lima), outro general na Comunica\u00e7\u00e3o (Floriano Peixoto Vieira Neto), outro mais na Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos (Maynard Marques de Santa Rosa), um tenente-coronel na Ci\u00eancia e Tecnologia (Marcos Pontes), um capit\u00e3o na Infraestrutura (Tarc\u00edsio Gomes de Freitas) e um capit\u00e3o na Transpar\u00eancia, Fiscaliza\u00e7\u00e3o e CGU (Wagner Ros\u00e1rio). <\/em><br \/>\n<em>A overdose de militarismo revive a Guerra Fria e sua paranoia anticomunista. Os fantasmas ressurgem quando se constata que o capit\u00e3o exalta e elogia o tempo infeliz dos generais. \u201cEu sou a favor da ditadura, de um regime de exce\u00e7\u00e3o\u201d, confessou Bolsonaro na C\u00e2mara dos Deputados, em 1993, quando iniciava o terceiro de seus sete baldios mandatos de deputado, sempre na massa obscura do baixo clero.\u00a0 <\/em><br \/>\n<em>Os n\u00fameros crus da ditadura louvada com desfa\u00e7atez pelo capit\u00e3o mostram a gravidade do que pensa e diz o futuro presidente sobre o regime de exce\u00e7\u00e3o. Alguns dados que deveriam vexar o insens\u00edvel capit\u00e3o Bolsonaro: 500 mil cidad\u00e3os investigados pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a; 200 mil detidos por suspeita de subvers\u00e3o; 50 mil presos s\u00f3 entre abril e agosto de 1964; 10 mil torturados; 10 mil exilados; 4.862 mandatos cassados, de presidentes a vereadores; 1.312 militares reformadas; 1.148 funcion\u00e1rios p\u00fablicos exonerados; 1.202 sindicatos sob interven\u00e7\u00e3o; 49 ju\u00edzes expurgados; tr\u00eas ministros do Supremo afastados; o Congresso Nacional fechado 3 vezes; censura pr\u00e9via \u00e0 imprensa, r\u00e1dio, TV e \u00e0s artes; 434 mortos pela repress\u00e3o, 144 deles desaparecidos at\u00e9 hoje.<\/em><br \/>\n<em>A ditadura aclamada por Bolsonaro atacou com viol\u00eancia tamb\u00e9m o que mais assusta os tiranos: a Universidade, o santu\u00e1rio do conhecimento, o baluarte do livre-pensamento, a sede da consci\u00eancia cr\u00edtica. Cerca de 300 professores foram punidos e afastados apenas entre\u00a0 1964 e 1971, conforme apura\u00e7\u00e3o do respeitado historiador mineiro Rodrigo Patto S\u00e1 Motta.<\/em><br \/>\n<em>Os expurgos tamb\u00e9m atingiram os reitores. Com base no AI-5, a ditadura aposentou os reitores da USP e da UFMG e os diretores de outras cinco faculdades \u2014 no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Os militares perceberam que a trucul\u00eancia do AI-5 n\u00e3o bastava para cessar a resist\u00eancia ao golpe nas universidades. Dois meses depois, fevereiro de 1969, editaram o Decreto-Lei 477, para atacar diretamente as organiza\u00e7\u00f5es estudantis. Mais de 1 mil estudantes foram expurgados, e proibidos por tr\u00eas anos de se matricular em outra faculdade. <\/em><br \/>\n<em>S\u00f3 em 1969 o surto punitivo afastou 140 professores, entre eles paradigmas como os f\u00edsicos M\u00e1rio Schemberg e Jos\u00e9 Leite Lopes, o soci\u00f3logo Florestan Fernandes, o parasitologista Luiz Hildebrando Pereira, a historiadora Maria Yedda Linhares, entre outros. A ditadura afiou suas garras em 1970 e enxertou nas principais universidades do pa\u00eds 40 Assessorias de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00e3o (as execr\u00e1veis ASI), bra\u00e7o longo e dedo duro do onipresente SNI, o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es. <\/em><br \/>\n<em>Alguns reitores anteciparam o servi\u00e7o sujo antes de Bras\u00edlia, criando seu pr\u00f3prio sistema de informa\u00e7\u00e3o ainda em 1968. A Universidade de S\u00e3o Paulo, por exemplo, que n\u00e3o integrava a rede federal e n\u00e3o estava obrigada a isso, criou ela mesma a sua ASI. A USP levou 40 anos para corrigir um grave erro de conduta que manchava sua biografia. Em abril de 2014, o Instituto de Qu\u00edmica da universidade inaugurou uma est\u00e1tua e revogou a demiss\u00e3o por abandono de cargo a que tinha submetido a professora Ana Rosa Kucinski. Durante quatro d\u00e9cadas, apesar dos testemunhos e evid\u00eancias, a USP ignorou que Kucinski e seu marido, Wilson Silva, f\u00edsico l\u00e1 formado, tinham sido sequestrados pelos militares por liga\u00e7\u00f5es com a guerrilha da ALN. O casal, at\u00e9 hoje, est\u00e1 entre os desaparecidos pela repress\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>O historiador S\u00e1 Motta encontrou um documento constrangedor de uma conversa do reitor da UFRJ com o c\u00f4nsul americano, logo ap\u00f3s o golpe de 64. Indagado sobre estudantes presos num arrast\u00e3o do PCB, o reitor se esquivou, dizendo: \u201cTenho um acordo com o DOPS para que os agentes evitem prender estudantes dentro do campus. Nada tenho contra pris\u00f5es feitas a partir do port\u00e3o de sa\u00edda&#8230;\u201d, disse o magn\u00edfico, lavando as m\u00e3os. <\/em><br \/>\n<em>Esse conluio entre regime militar e universidade foi mais intenso e ign\u00f3bil aqui mesmo, na capital brasileira, quando os generais aclamados pelo capit\u00e3o-presidente profanaram a sagrada autonomia da Universidade de Bras\u00edlia, a academia que estava no cora\u00e7\u00e3o da nova ordem sem cora\u00e7\u00e3o, o regime que combatia a for\u00e7a das ideias pela ideia da for\u00e7a armada, desalmada, desatinada. Um regime que expurgou da UnB seus dois primeiros reitores, nomes primeiros da educa\u00e7\u00e3o e do compromisso \u00e9tico com a escola e com a liberdade do pensamento: <\/em><br \/>\n<em>Darcy Ribeiro, criador e fundador da UnB, e An\u00edsio Teixeira, lan\u00e7ador do movimento da &#8216;Escola Nova&#8217;, uma escola que enfatizava o desenvolvimento do intelecto e a capacidade de julgamento \u2014 tudo aquilo que sofre censura do ordin\u00e1rio projeto da \u2018escola sem partido\u2019 sonhado pelo capit\u00e3o e sua turma. A nova ordem que trazia a desordem institucional afastou ambos \u2014 Darcy e An\u00edsio \u2014 da UnB, de Bras\u00edlia, das escolas, dos jovens, do pa\u00eds. <\/em><br \/>\n<em>Juntos, Darcy e An\u00edsio, as duas refer\u00eancias maiores da UnB, permaneceram apenas 25 meses \u00e0 frente da universidade. O mais longevo reitor em Bras\u00edlia resistiu no cargo 106 meses, quase nove anos. Resistiu porque era um militar, um interventor, um duro preposto da nova ordem que desprezava a velha ordem democr\u00e1tica, um capit\u00e3o como Bolsonaro: o novo reitor, Jos\u00e9 Carlos Azevedo, era um capit\u00e3o-de-mar-e-guerra da Marinha, o que n\u00e3o deixa de ser simb\u00f3lico da vis\u00e3o estreita que a ditadura tinha da universidade. <\/em><br \/>\n<em>Azevedo desembarcou na UnB em maio de 76, uma semana ap\u00f3s o \u2018Dia Nacional de Lutas contra Pris\u00f5es Arbitr\u00e1rias\u2019. O capit\u00e3o come\u00e7ou punindo os estudantes, os estudantes reagiram com uma greve de quatro meses e Azevedo chamou a PM. Era a quarta invas\u00e3o armada do campus, desde o golpe de 64. Mais de mil estudantes foram expulsos, bem como professores de esquerda. Azevedo era homem de confian\u00e7a do CENIMAR, o servi\u00e7o secreto da Marinha que sequestrou Honestino Guimar\u00e3es, um estudante de Geologia de 18 anos. <\/em><br \/>\n<em>Presidente da UNE na clandestinidade, ele foi preso pela Marinha no Rio, torturado pelo Ex\u00e9rcito em Bras\u00edlia e levado pela Aeron\u00e1utica ao Araguaia, onde foi executado e enterrado na selva pelas tropas que combatiam a guerrilha. Honestino, como Kucinski, \u00e9 um dos desaparecidos da ditadura. O capit\u00e3o-reitor ainda convocaria mais duas vezes a PM para sustentar sua gest\u00e3o linha-dura, que s\u00f3 acabaria em mar\u00e7o de 85, tr\u00eas dias antes que o \u00faltimo general da ditadura, seu amigo Jo\u00e3o Figueiredo, deixasse o Planalto pela porta dos fundos para n\u00e3o passar a faixa ao sucessor civil.<\/em><br \/>\n<em>Os grandes homens, como dizia a Ora\u00e7\u00e3o F\u00fanebre do ateniense P\u00e9ricles, est\u00e3o guardados em nossos cora\u00e7\u00f5es e mentes, mas tamb\u00e9m esculpidos na pedra dos monumentos, dos museus, das escolas. Aqui na UnB temos a Funda\u00e7\u00e3o Darcy Ribeiro, o Pavilh\u00e3o An\u00edsio Teixeira, a revista Darcy e o Memorial Darcy Ribeiro, que ele mesmo &#8211; fiel ao seu estilo sedutor &#8211; batizou como &#8216;Beij\u00f3dromo&#8217;. O DCE da UnB tem o nome de Honestino, que ainda batiza o Museu Nacional, na Esplanada dos Minist\u00e9rios. A ponte que cruza o lago Parano\u00e1 teve, por dois anos, o nome de Honestino, mas uma decis\u00e3o da Justi\u00e7a, em 2017, devolveu ao lugar o batismo original Ponte Costa e Silva, o general que firmou o AI-5 que liberou a repress\u00e3o mais sangrenta que fez desaparecer Honestino e tantos outros. O capit\u00e3o Azevedo morreu em fevereiro de 2010 \u2014 e n\u00e3o tem um s\u00f3 espa\u00e7o com seu nome na UnB que ele ultrajou e oprimiu. Azevedo foi descartado no lix\u00e3o do esquecimento.<\/em><br \/>\n<em>Lamento o revisionismo hist\u00f3rico do capit\u00e3o Bolsonaro e daqueles que, de forma apressada, carimbam como terroristas todos os que chegaram ao limite da pr\u00f3pria vida para confrontar o arb\u00edtrio. \u00c9 uma leviandade que fere os fatos, a mem\u00f3ria e principalmente a universidade, a nossa universidade. Foi na parcela mais consciente, mais insubmissa, mais generosa da juventude que se buscou a for\u00e7a do bem para o bom combate, o justo combate ao mal da for\u00e7a e da prepot\u00eancia.<\/em><br \/>\n<em>Esse bando de irm\u00e3os estava aqui, na universidade. Para eles, Shakespeare escreveu, em Henrique V : \u201c&#8230; E nenhuma festa de S\u00e3o Crispim acontecer\u00e1\/ Desde este dia at\u00e9 o fim do mundo\/ Sem que nela estejamos lembrados;\/ N\u00f3s poucos, n\u00f3s poucos e felizes, n\u00f3s bando de irm\u00e3os;\/ Pois quem hoje derramar seu sangue comigo,\/ Ser\u00e1 meu irm\u00e3o; seja ele o mais vil que for\/ Este dia enobrecer\u00e1 sua condi\u00e7\u00e3o.\u201d <\/em><br \/>\n<em>\u201cWe few, we happy few, we band of brothers&#8230;\u201d<\/em><br \/>\n<em>Foi da universidade, desse bando de irm\u00e3os, que se elevou o protesto mais veemente, a rebeldia mais indignada, o gesto mais altivo contra o mal, a prepot\u00eancia, a for\u00e7a. Repudiando o que fizeram aqui, ao atropelar a sagrada autonomia da universidade, denunciando o que fizeram ali, ao afrontar o sagrado imp\u00e9rio da lei, ao violar a Constitui\u00e7\u00e3o, o Parlamento, os tribunais, as liberdades, ferindo os direitos humanos, machucando o corpo humano.<\/em><br \/>\n<em>Muitos jovens deste pa\u00eds poderiam ter calado, ter sufocado, ter consentido com o que se fazia e desfazia. Mas, reagiram, buscaram as ruas, as escolas, os parlamentos. Quando esses espa\u00e7os foram cercados, ocupados e desfigurados pela for\u00e7a, foram obrigados \u00e0 resist\u00eancia e ao confronto extremo. No limite do insuport\u00e1vel, abandonaram fam\u00edlias, carreiras, amigos, afetos e a luz do dia para um combate desproporcional, arrojado, irrestrito, ut\u00f3pico contra a viol\u00eancia que atingia a todos. N\u00e3o fizeram aquilo porque eram mandados, comandados, teleguiados. Fizeram tudo aquilo porque queriam, porque sentiam, porque deviam, pelo justo imperativo da sobreviv\u00eancia, pelo forte motivo da urg\u00eancia, pelo simples dever de consci\u00eancia. Arriscaram suas vidas, acabaram suas vidas lutando e combatendo por nossas vidas.<\/em><br \/>\n<em>Que se diga ao capit\u00e3o Bolsonaro! Esses jovens foram resistentes, como a Resist\u00eancia francesa que lutou contra o invasor e o opressor nazista. Foram inconfidentes, como os her\u00f3is da conjura\u00e7\u00e3o mineira que anteciparam o grito por liberdade. Foram combatentes, como os jovens do ex\u00e9rcito brancaleone de George Washington que desafiaram o Imp\u00e9rio brit\u00e2nico para estabelecer os fundamentos do regime democr\u00e1tico. Foram insurgentes como os negros que combatiam o apartheid na \u00c1frica do Sul. <\/em><br \/>\n<em>Lutaram pela liberdade contra a opress\u00e3o de ex\u00e9rcitos, regimes e sistemas que s\u00f3 sobrevivem \u00e0 custa da liberdade dos outros. Fizeram levantes sancionados pelo direito imemorial e universal \u00e0 luta contra a tirania.<\/em><br \/>\n<em>Que se explique ao capit\u00e3o Bolsonaro! Guerrilha n\u00e3o se confunde com terrorismo, definido sim pelo deliberado objetivo de infundir terror entre a popula\u00e7\u00e3o civil, sob o risco assumido de v\u00edtimas inocentes \u2013 como no caso do terror consumado do 11 de Setembro nas Torres G\u00eameas de Nova York, como no caso do terror frustrado da bomba do DOI-CODI no Riocentro do Rio de Janeiro. \u00c9 por isso que ningu\u00e9m, nem mesmo um c\u00ednico, se atreve a escrever &#8220;terroristas de Sierra Maestra&#8221; ou &#8220;terroristas do Araguaia&#8221;. Eram guerrilheiros, n\u00e3o terroristas. <\/em><br \/>\n<em>Que se esclare\u00e7a ao capit\u00e3o Bolsonaro! Terrorista era o Estado, que usou da for\u00e7a e abusou da viol\u00eancia para alcan\u00e7ar e machucar dissidentes presos, indefesos, algemados, pendurados, desprotegidos diante de um aparato impiedoso que agia \u00e0 margem da lei, na clandestinidade, nos por\u00f5es, torturando e matando sob o remorso de um codinome, encoberto na camuflagem de um capuz.<\/em><br \/>\n<em>Que se lembre ao capit\u00e3o Bolsonaro! Terroristas eram os assassinos de Honestino Guimar\u00e3es, Vladimir Herzog, David Capistrano da Costa, Manoel Raimundo Soares, Stuart Angel Jones, Manoel Fiel Filho, Paulo Wright, Zuzu Angel e tantos outros. Ulysses Guimar\u00e3es ensinou, na promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988: &#8220;A sociedade foi Rubens Paiva, n\u00e3o os fac\u00ednoras que o mataram. Quando, ap\u00f3s tantos anos de lutas e sacrif\u00edcios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposi\u00e7\u00e3o de sua honra: temos \u00f3dio \u00e0 ditadura. \u00d3dio e nojo&#8221;, refor\u00e7ou Ulysses.<\/em><br \/>\n<em>Aos guerrilheiros que combateram a ditadura, minha emo\u00e7\u00e3o. Aos c\u00ednicos, como o capit\u00e3o Bolsonaro, meu lamento.<\/em><br \/>\n<em>Ao cinismo se soma, tamb\u00e9m, a vis\u00e3o obtusa que o capit\u00e3o-presidente tem de \u00e1reas cruciais para a qualidade de vida dos brasileiros. Para o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, o capit\u00e3o teve um bom lampejo inicial: a indica\u00e7\u00e3o de um respeitado ex-reitor de Pernambuco, Mozart Neves Ramos, que presidiu esta ANDIFES em 2002. O nome n\u00e3o emplacou porque recebeu um absurdo, inexplicado veto da bancada evang\u00e9lica, que tem influ\u00eancia b\u00edblica sobre o novo governo. <\/em><br \/>\n<em>Emparedado pela religi\u00e3o, o capit\u00e3o-presidente n\u00e3o chegou ao exagero de convocar um general, mas trouxe algu\u00e9m que os molda. O colombiano Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez, brasileiro naturalizado h\u00e1 20 anos, \u00e9 professor em\u00e9rito da Escola de Comando e Estado-Maior do Ex\u00e9rcito (ECEME), passagem obrigat\u00f3ria para majores e tenentes-coron\u00e9is que ambicionam ser generais, o topo da carreira. O homem da Educa\u00e7\u00e3o de Bolsonaro \u00e9, como seu capit\u00e3o comandante, um nost\u00e1lgico da ditadura. V\u00e9lez escreveu no seu blog: \u201c1964 \u00e9 uma data para lembrar e comemorar&#8230; ela nos livrou do comunismo\u201d. <\/em><br \/>\n<em>V\u00e9lez criticou a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, que investigou as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos pela ditadura e responsabilizou os cinco generais-presidentes pelos 434 casos de mortes e desaparecimentos praticados por 377 agentes p\u00fablicos do regime militar. Para o mal-educado V\u00e9lez, a CNV foi \u201cmais uma encena\u00e7\u00e3o para a \u2018omiss\u00e3o da verdade\u2019&#8230; a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor\u201d. Assombrado ainda pelos dem\u00f4nios da Guerra Fria do s\u00e9culo passado, V\u00e9lez diz que \u201cos regulamentos do MEC fizeram os brasileiros ref\u00e9ns de um sistema de ensino afinado com a tentativa de impor \u00e0 sociedade uma doutrina\u00e7\u00e3o de \u00edndole cientificista e enquistado na ideologia marxista&#8230;\u201d E por a\u00ed vai o em\u00e9rito professor dos futuros generais!&#8230;<\/em><br \/>\n<em>O novo chanceler, Ernesto Ara\u00fajo, vem tamb\u00e9m do baixo clero do Itamaraty. Como seu chefe, idolatra Donald Trump, para ele, \u201do \u00fanico que pode salvar o Ocidente\u201d. Miss\u00e3o fr\u00edvola dada pelo capit\u00e3o ao chanceler, segundo ele: \u201cLibertar o Itamaraty do marxismo cultural\u201d. <\/em><br \/>\n<em>Tudo, no iminente governo do capit\u00e3o, \u00e9 coisa de comunista! Ara\u00fajo diz ter uma cruzada sacrossanta: \u201cAjudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista, um sistema anti-humano e anticrist\u00e3o pilotado pelo marxismo cultural. A f\u00e9 em Cristo significa lutar contra o globalismo&#8230; abrir-se para a presen\u00e7a de Deus na pol\u00edtica e na hist\u00f3ria\u201d. Traduzindo isso a\u00ed, como diz Bolsonaro: o Brasil acima do globalismo, Deus e Trump acima de todos&#8230; <\/em><br \/>\n<em>O saudosista V\u00e9lez e o messi\u00e2nico Ara\u00fajo s\u00e3o duas inven\u00e7\u00f5es \u2014 que o capit\u00e3o engoliu \u2014 de uma figura ainda mais bizarra, um brasileiro enquistado h\u00e1 uma d\u00e9cada numa pequena cidade da Virg\u00ednia, nos Estados Unidos. Olavo de Carvalho \u00e9 um ex\u00f3tico ex-astr\u00f3logo que se tornou, via internet, um guru do cl\u00e3 Bolsonaro e da direita radical brasileira. <\/em><br \/>\n<em>Autoproclamado fil\u00f3sofo, embora sem t\u00edtulo universit\u00e1rio, Olavo foi mu\u00e7ulmano e marxista na juventude e agora, na maturidade dos 70 anos, converteu-se em crist\u00e3o fundamentalista e em conservador extremado. \u00c9 recomend\u00e1vel tirar as crian\u00e7as da sala, antes de ouvir suas arengas aberrantes no YouTube, onde ele troca as v\u00edrgulas por palavr\u00f5es cabeludos. Na sua alucinada arrog\u00e2ncia, o ex-professor de astrologia e alquimia investe contra alguns dos c\u00e9rebros mais brilhantes da humanidade. Para Olavo, Charles Darwin \u00e9 o pai do nazismo, Isaac Newton \u00e9 burro, Galileu Galilei \u00e9 charlat\u00e3o e Albert Einstein \u00e9 uma fraude.\u00a0\u00a0 <\/em><br \/>\n<em>Da cabe\u00e7a amalucada de Olavo, que faz a cabe\u00e7a do capit\u00e3o-presidente, s\u00e3o excretadas algumas das frases mais grotescas do anedot\u00e1rio nacional. Alguns exemplos: \u201cO general Geisel era comunista\u201d, \u201ccigarro n\u00e3o d\u00e1 c\u00e2ncer\u201d, \u201cquerem trocar a religi\u00e3o cat\u00f3lica por uma religi\u00e3o bi\u00f4nica mundial\u201d, \u201ca Pepsi-Cola usa c\u00e9lulas de fetos abortados como ado\u00e7ante\u201d, \u201co nazismo e o FMI s\u00e3o de esquerda\u201d, \u201ca astrologia \u00e9 a \u00fanica ci\u00eancia com discurso racional do come\u00e7o ao fim\u201d, \u201cn\u00e3o h\u00e1 a menor prova do sistema helioc\u00eantrico de Cop\u00e9rnico\u201d. <\/em><br \/>\n<em>Mais um pouco, e o atrevido Olavo ainda vai convencer o cr\u00e9dulo Bolsonaro de que a terra \u00e9, de fato, plana!&#8230; Olavo \u00e9 autor de um best-seller que j\u00e1 vendeu 320 mil exemplares, intitulado O M\u00ednimo que Voc\u00ea Precisa Saber para n\u00e3o Ser um Idiota. Pelo conte\u00fado desmiolado de seu desarranjado processo mental, Olavo certamente n\u00e3o leu o m\u00ednimo que deveria para n\u00e3o ser um idiota&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Certa vez, numa mesa do m\u00edtico bar Veloso, em Ipanema, o humorista Mill\u00f4r Fernandes definiu para o compositor Tom Jobim: \u201cO mundo tem muitos idiotas, Tom, mas felizmente est\u00e3o todos nas outras mesas&#8230;\u201d. O admir\u00e1vel mundo novo da internet, para nossa infelicidade, trouxe gente como Olavo de Carvalho para as mesas de todos n\u00f3s! E, para azar do Brasil, inoculou Olavo na cabe\u00e7a de Bolsonaro. <\/em><br \/>\n<em>Como express\u00e3o da minguada import\u00e2ncia que dedica ao Meio Ambiente e aos Direitos Humanos, o capit\u00e3o deixou por \u00faltimo a defini\u00e7\u00e3o das duas pastas. Para o Meio Ambiente, Bolsonaro chamou o advogado Ricardo Salles, fundador do Movimento Endireita Brasil, que no ano passado tentou vender 34 florestas e esta\u00e7\u00f5es experimentais de madeira em S\u00e3o Paulo, apesar de ser o secret\u00e1rio de Meio Ambiente do Governo Alckmin. <\/em><br \/>\n<em>Alinhado com o seu capit\u00e3o \u2014 que desistiu de fazer no Brasil em 2019 a Confer\u00eancia do Clima, a COP 25, e amea\u00e7a abandonar o Acordo de Paris endossado por 195 pa\u00edses \u2014, Salles apareceu batendo contin\u00eancia para outra maluquice do futuro governo: \u201cA discuss\u00e3o sobre aquecimento global \u00e9 secund\u00e1ria. \u00c9 uma discuss\u00e3o in\u00f3cua, agora&#8230;\u201d, trovejou o ministro. Ele apenas ecoa outra predat\u00f3ria ideia do astr\u00f3logo Olavo, que desclassifica toda a agenda ambiental do planeta como um reles, pueril \u2018alarmismo clim\u00e1tico\u2019. <\/em><br \/>\n<em>S\u00f3 no ano passado, segundo a ONG alem\u00e3 GermanWatch, 11.500 pessoas morreram por conta de ciclones, deslizamentos, inunda\u00e7\u00f5es e furac\u00f5es, entre outros desastres. Eles provocaram danos econ\u00f4micos que chegam a 375 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. O Brasil perde 1,4 milh\u00e3o de hectares de vegeta\u00e7\u00e3o natural por ano, mais que a metade da \u00e1rea de Alagoas. S\u00f3 em abril, o desmatamento da Amaz\u00f4nia foi 84% maior do que no mesmo per\u00edodo do ano passado. A grande floresta perdeu 20% da vegeta\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 50 anos. <\/em><br \/>\n<em>O di\u00f3xido de carbono, apesar da ignor\u00e2ncia acumulada de Bolsonaro e Olavo, \u00e9 o g\u00e1s da polui\u00e7\u00e3o que provoca o efeito-estufa, desequilibra a natureza e eleva a temperatura do planeta, derrete os polos e dizima esp\u00e9cies de mam\u00edferos, aves, peixes e r\u00e9pteis. De 1970 para c\u00e1, essa popula\u00e7\u00e3o diminuiu em 60%.<\/em><br \/>\n<em>Esse irrespons\u00e1vel \u2018alarmismo\u2019 levou um choque brutal de realidade na sexta-feira, 14, aqui mesmo no Brasil. Em Antonina, cidade do litoral refrescante do Paran\u00e1, um dos Estados mais frios do pa\u00eds, a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica na manh\u00e3 de sexta-feira chegou a 57\u00baC! Se isso n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia do aquecimento global, capit\u00e3o Bolsonaro, s\u00f3 pode ser coisa da \u2018ideologia globalista ou do sistema anticrist\u00e3o do marxismo cultural!&#8230; <\/em><br \/>\n<em>Ontem, segunda-feira, na pr\u00f3pria cidade onde mora o capit\u00e3o, o Rio de Janeiro fervia com uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de 45\u00baC. S\u00f3 pode ser perf\u00eddia de comunista! E o ver\u00e3o nem come\u00e7ou&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Finalmente, para fechar o espet\u00e1culo, Bolsonaro escolheu a ministra dos Direitos Humanos.\u00a0 A pastora Damares Alves logo viralizou na internet com um v\u00eddeo de 2016 onde ela aparece, quase possu\u00edda, diante dos fieis de sua igreja batista em Belo Horizonte, lembrando o dia em que, com 10 anos \u2014 prestes a cometer suic\u00eddio \u2014, teria ficado cara a cara com Jesus num p\u00e9 de goiabeira. Ela narrava o seu drama pessoal, de uma crian\u00e7a traumatizada aos 6 anos pelo abuso sexual que sofreu de um pastor evang\u00e9lico. \u00c9 uma catarse de forte conte\u00fado emocional, que comoveu muitos e assustou outros tantos.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 sempre tocante um depoimento transtornado pela mem\u00f3ria de uma crian\u00e7a violentada, um ato bestial que todos condenamos. Mas, a purga\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Damares, que se exp\u00f4s na igreja como pastora, sem imaginar que seria ministra dois anos depois, tem um grave problema. \u00c0 mulher de C\u00e9sar&#8230; Ou melhor, \u00e0 mulher ministra de Bolsonaro n\u00e3o basta ser sensata. \u00c9 preciso parecer sensata. <\/em><br \/>\n<em>\u00c9 bom lembrar que a expia\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica de Damares, no limite de um surto nervoso, n\u00e3o \u00e9 o depoimento de uma crian\u00e7a de 10 anos, mas a narrativa de uma mulher ent\u00e3o na maturidade de seus 52 anos. O desempenho carregado de ang\u00fastia e agonia da pastora, beirando o desequil\u00edbrio emocional, n\u00e3o passa uma boa impress\u00e3o sobre a sensatez que se espera de uma ministra mentalmente equilibrada que precisa tratar com bom senso dos temas complexos de sua pasta \u2014 Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos.\u00a0 <\/em><br \/>\n<em>A quest\u00e3o mais grave que envolve Damares n\u00e3o \u00e9 o constrangedor relato sobre Jesus no p\u00e9 de goiaba. Ela ainda defende valores conservadores e religiosos contra o abortamento num pa\u00eds onde 1 milh\u00e3o de abortos induzidos, proibidos por lei, s\u00e3o praticados anualmente. O aborto inseguro e clandestino causou a morte de 203 mulheres em 2016, um \u00f3bito a cada dois dias, duas mil mortes nos \u00faltimos 10 anos, segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Damares promete continuar na luta para manter essa criminosa ilegalidade. <\/em><br \/>\n<em>Um temor ainda maior \u00e9 a vis\u00e3o religiosa extremada que a ministra tem sobre a rela\u00e7\u00e3o crian\u00e7a e escola, ferindo frontalmente o princ\u00edpio civilizado da separa\u00e7\u00e3o entre Estado e Igreja, consagrado na Constitui\u00e7\u00e3o que expressa a soberania do Estado Laico. Na mesma igreja onde contou sobre Jesus e a goiabeira, Damares expressou uma pervers\u00e3o que o rep\u00f3rter Bernardo Mello Franco, de O Globo, revelou ao pa\u00eds: sua funda descren\u00e7a na escola e sua f\u00e9 radical na igreja. Disse Damares: \u201cChegou a nossa hora. \u00c9 o momento da igreja de Jesus ocupar a na\u00e7\u00e3o. \u00c9 o momento de a igreja governar. As institui\u00e7\u00f5es piraram. S\u00f3 uma n\u00e3o pirou: \u00e9 a igreja de Jesus&#8230; A escola n\u00e3o \u00e9 mais lugar seguro para nossos filhos. O \u00fanico lugar em que seu filho est\u00e1 protegido \u00e9 o templo, a igreja!&#8230;\u201d<\/em><br \/>\n<em>Dessa vez, n\u00e3o era um surto, nem um depoimento alucinado. Era apenas a firme convic\u00e7\u00e3o da pastora que virou ministra. E isso \u00e9 muito mais grave do que o desvario na goiabeira&#8230; O capit\u00e3o Bolsonaro deveria, num serm\u00e3o particular com Damares, explicar a ela que este n\u00e3o \u00e9 o momento da igreja governar. Nem agora, nem nunca, j\u00e1 que vivemos numa democracia, n\u00e3o num Estado teocr\u00e1tico. O Brasil n\u00e3o precisa ser \u2018ocupado\u2019 por nenhuma igreja. As institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o piraram e ningu\u00e9m precisa subir em p\u00e9 de goiaba para descobrir o lugar certo para nossos filhos. A escola, que dispensa qualquer desatino m\u00edstico, ser\u00e1 sempre o lugar certo, seguro e sensato para as crian\u00e7as brasileiras. <\/em><br \/>\n<em>Essa \u00e9 a inacredit\u00e1vel barafunda de pensamentos obtusos, defini\u00e7\u00f5es esdr\u00faxulas, bobagens expl\u00edcitas, bo\u00e7alidade galopante e rombuda burrice que parecem intumescer alguns c\u00e9rebros do iminente Governo Bolsonaro. <\/em><br \/>\n<em>S\u00e3o evid\u00eancias assustadoras que resumem uma overdose acumulada de militarismo redivivo, uma vis\u00e3o retr\u00f3grada da realidade, uma clara intoler\u00e2ncia intelectual, um medieval fundamentalismo religioso e uma absurda repulsa a marcos civilizat\u00f3rios consagrados nos pa\u00edses mais avan\u00e7ados do mundo. O Brasil de Bolsonaro \u2014 de seus avatares autorit\u00e1rios e astr\u00f3logos influentes, de seus diplomatas e professores impregnados de ideologia que fingem combater, de seus fan\u00e1ticos pirados pela f\u00e9 e pela salva\u00e7\u00e3o divina \u2014, o Brasil do capit\u00e3o amea\u00e7a uma marcha batida pelos coturnos da insensatez,\u00a0 na contram\u00e3o do progresso, do conhecimento e da hist\u00f3ria. <\/em><br \/>\n<em>Os direitos humanos \u2014 que hoje celebramos aqui \u2014 estar\u00e3o sempre amea\u00e7ados quando a estupidez interdita a intelig\u00eancia. A universidade \u00e9 nossa \u00faltima trincheira de resist\u00eancia. <\/em><br \/>\n<em>Reitoras e Reitores, por favor, resistam \u00e0 imbecilidade e \u00e0 ignor\u00e2ncia!<\/em><br \/>\n*Luiz Cl\u00e1udio Cunha, jornalista, foi consultor da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e \u00e9 autor de Opera\u00e7\u00e3o Condor: o Sequestro dos Uruguaios (ed. L&amp;PM, 2008). e-mail: <a href=\"mailto:cunha.luizclaudio@gmail.com\">cunha.luizclaudio@gmail.com<\/a><br \/>\n<em>\u00a0<\/em><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em palestra na abertura do semin\u00e1rio da Andifes sobre os 70 anos da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos e 30 anos da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, na ter\u00e7a-feira em Brasilia, o jornalista Luiz Cl\u00e1udio Cunha conclamou os 63 reitores de Universidades Federais presentes a que &#8220;resistam \u00e0 imbecilidade e \u00e0 ignor\u00e2ncia&#8221; que, segundo ele, est\u00e3o caracterizando a Era [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":71812,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-71811","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":71811,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-iGf","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71811"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71811\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}