{"id":7224,"date":"2010-08-04T09:54:05","date_gmt":"2010-08-04T12:54:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=7224"},"modified":"2010-08-04T09:54:05","modified_gmt":"2010-08-04T12:54:05","slug":"no-diva-do-doutor-mariante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/no-diva-do-doutor-mariante\/","title":{"rendered":"No Div\u00e3 do doutor Mariante"},"content":{"rendered":"<p>Numa manh\u00e3 de agosto, um tiro no cora\u00e7\u00e3o mata o presidente do pa\u00eds.<br \/>\nO peso do inconsciente nas decis\u00f5es pessoais e pol\u00edticas, a coer\u00eancia da trajet\u00f3ria do suicida, est\u00e3o no livro <em>Tr\u00eas no Div\u00e3<\/em>, que o psicanalista Jo\u00e3o Gomes Mariante autografa hoje, a partir das 19 horas, no audit\u00f3rio da Guarida Im\u00f3veis (rua Sete de Setembro, 1087).<br \/>\nMariante observa, com a lente da psican\u00e1lise, o comportamento e os processos mentais inconscientes nas personalidades de tr\u00eas importantes pol\u00edticos: Getulio Vargas, Oswaldo Aranha e Flores da Cunha. Tr\u00eas homens com os quais conviveu.<br \/>\nAbaixo, entrevista do autor ao editor Elmar Bones, publicada na edi\u00e7\u00e3o de abril do J\u00c1 Bom Fim.<br \/>\n<figure id=\"attachment_7226\" aria-describedby=\"caption-attachment-7226\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-7226\" title=\"JGM_Freud_hor\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/JGM_Freud_hor-300x224.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Mariante, 92 anos de idade, 60 de Pasican\u00e1lise\" width=\"300\" height=\"224\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7226\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Mariante, 92 anos de idade, 60 de Psican\u00e1lise<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<strong>Entrevista: Jo\u00e3o Gomes Mariante<br \/>\n<\/strong><br \/>\n-O senhor \u00e9 um porto alegrense da gema&#8230;<br \/>\n-Nasci na rua Mariante com a Castro Alves. Mas toda minha forma\u00e7\u00e3o at\u00e9 o gin\u00e1sio foi no Rio, no Col\u00e9gio Pedro II. Depois fiz Medicina em Niter\u00f3i, me formei na turma de 1946. Era o \u00fanico ga\u00facho, em meio a muitos paulistas, cariocas e nordestinos&#8230;<br \/>\n-Sua familia foi para o Rio, \u00e9 isso?<br \/>\n-N\u00e3o.Fui sozinho, para estudar. L\u00e1 casei e fiquei mais de 20 anos. Depois voltei para o Rio Grande, depois retornei ao Rio, onde me especializei na psiquiatria. De l\u00e1 fui para Buenos Aires onde morei oito anos. Terminei minha forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica l\u00e1 e retornei para S\u00e3o Paulo, onde trabalhei por 26 anos. Fui professor na Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas e v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo.<br \/>\n-E sua experi\u00eancia como jornalista?<br \/>\n-Trabalhei em jornais no Rio, onde conheci o Caf\u00e9 Filho, de quem fui assessor mais tarde. Dirigi tr\u00eas revistas m\u00e9dicas em S\u00e3o Paulo. &#8220;Medicina Social&#8221;, &#8220;Imprensa M\u00e9dica e &#8220;Anais de Higiene Mental&#8221;. Peguei o virus. Dizem que jornal \u00e9 uma cacha\u00e7a&#8230;\u00c9 pior que o crack, n\u00e3o se larga mais.<br \/>\n-Por que o livro Tr\u00eas no Div\u00e3?<br \/>\n-Quis conciliar essas duas experi\u00eancia, da psican\u00e1lise com o jornalismo. Os tr\u00eas personagens do livro eu conheci pessoalmente, privei com os tr\u00eas&#8230;<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-7227\" title=\"Aranha, GV,Mariante\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/Aranha-GVMariante1-300x227.jpg\" alt=\"Aranha, GV,Mariante\" width=\"300\" height=\"227\" \/><br \/>\n-Tem uma foto sua com Get\u00falio e Oswaldo&#8230;<br \/>\n-Aquilo foi num churrasco. Vou explicar. O dr. Armando Alencar, ent\u00e3o presidente do Superior Tribunal Federal era ga\u00facho de Rio Pardo, era meu padrinho de casamento. Eu me dava muito com ele, com os filhos dele. O dr. Armando a cada tr\u00eas ou quatro meses convidava o Getulio para um churrasco, e eu era h\u00f3spede permanente, passava os fins de semana no s\u00edtio dele em Itaipava. A\u00ed fiz conhecimento com o Get\u00falio&#8230;<br \/>\n-Falava com ele?<br \/>\n-Sim, sim. Tinha at\u00e9 uma foto a\u00ed com ele, tomando o chimarr\u00e3o, eu estava alcan\u00e7ando a cuia para ele. Era um painel, queimou no inc\u00eandio que destruiu meu consult\u00f3rio&#8230;<br \/>\n-Inc\u00eandio, como foi?<br \/>\n-Perdi quase tudo o que eu tinha. Estava no apartamento em que morava na Anita Garibaldi, fui avisado pela Regina Flores da Cunha, mas ela demorou para me encontrar. Quando vim para c\u00e1, isso estava um metro de lodo e cinza, os bombeiros tamb\u00e9m demoraram muito por causa do tr\u00e2nsito, mas quando cheguei j\u00e1 haviam apagado. Mas nada se salvou, um quadro do Portinari, um bom dinheiro que eu tinha guardado, de umas terras que vendi&#8230; J\u00e1 tinha alugado uma caixa num banco, mas deixei para o dia seguinte, estava muito cansado, fui para casa&#8230; aconteceu. Faz oito anos, mas ainda estou pagando as d\u00edvidas&#8230;<br \/>\n-Porque o senhor voltou para Porto Alegre?<br \/>\n-Tinha uma heran\u00e7a para receber aqui, no fim terminei indo mal, n\u00e3o gosto nem de falar nisso&#8230;<br \/>\n-Seguiu, ent\u00e3o, trabalhando aqui?<br \/>\n-Sim, em um m\u00eas que havia chegado n\u00e3o tinha mais hor\u00e1rio. Analisei muita gente: reitor de universidade, professores, juizes, desembargadores&#8230;<br \/>\n-Como o senhor conheceu o Oswaldo Aranha?<br \/>\n-Fui colega do filho dele no quartel, servimos no Forte Copacabana, nos tornamos muito amigos. Quando voltei para o Rio Grande, logo depois de formado, o Oswaldo Aranha me vendeu um jipe, vendeu por uma bagatela, s\u00f3 para n\u00e3o dizer que tinha me dado. Botei um reboque no jipe, coloquei minha mudan\u00e7a dentro e vim. Naquele tempo praticamente n\u00e3o tinha estrada, levei oito dias, em muitos trechos tinha que descer para retirar os galhos da estrada.<br \/>\n-Veio para Porto Alegre?<br \/>\n-N\u00e3o, para Porto Mariante, terra da minha familia. L\u00e1 comecei. Tinha uma cl\u00ednica, fazia de tudo: clinica geral, pediatria, quando via que n\u00e3o dava, levava para o hospital em Taquari ou Ven\u00e2ncio Aires&#8230;<br \/>\n-E o Flores, conheceu como?<br \/>\n-Conheci quando ele era deputado federal. Eu estava de volta ao Rio fazendo minha especializa\u00e7\u00e3o, morava no mesmo hotel em que ele ficava. Um dia no elevador eu o cumprimentei. Ele disse: &#8220;Pelo jeito, tu \u00e9s do Rio Grande&#8221;. Perguntou o que eu fazia no Rio, quando disse que era m\u00e9dico ele falou: Ent\u00e3o vou te pedir para me fazer umas inje\u00e7\u00f5es na veia&#8221;. A\u00ed, eu ia todos os dias ao quarto dele fazer a inje\u00e7\u00e3o. Fizemos amizade, ele me deu um rev\u00f3lver de presente.<br \/>\n-Ele era falante&#8230;<br \/>\n-Mas n\u00e3o se abria muito, n\u00e3o&#8230;<br \/>\n-E o suic\u00eddio do Getulio? Chegaram a dizer que foi assassinato&#8230;<br \/>\n-Isso \u00e9 mito, lenda. Queriam culpar algu\u00e9m. Foi suic\u00eddio. O suicida n\u00e3o se mata, ele mata algu\u00e9m dentro dele. Quem ele quis matar? seus inimigos da UDN, o Carlos Lacerda, as multinacionais&#8230;<br \/>\n-De qualquer forma, a morte dele \u00e9 um enigma&#8230;<br \/>\n-Ele sempre se moveu entre enigmas. O mito \u00e9 algo que ningu\u00e9m viu. \u00c9 eterno e perene. O her\u00f3i \u00e9 perene, mas n\u00e3o \u00e9 eterno. O mito \u00e9 eterno, Getulio se mitificou para a eternidade&#8230;<br \/>\n-Mas as verdadeiras causas&#8230;<br \/>\n-Muitas dessas coisas s\u00e3o inconscientes. N\u00e3o se pode provar nada nessa \u00e1rea. Tem que trabalhar com hip\u00f3teses e a hip\u00f3tese para ter alguma validade tem que ser um pouco arrojada&#8230;<br \/>\n-O senhor estava no Rio quando ele se matou?<br \/>\n-Sim. Fui ao Catete quando correu a not\u00edcia, quando cheguei ningu\u00e9m sabia direito o que tinha acontecido. O Euclides Aranha j\u00e1 estava l\u00e1 e disse: &#8220;Senta a\u00ed, o presidente est\u00e1 morto&#8221;. Na familia ningu\u00e9m acreditava que ele fosse se matar&#8230;<br \/>\n-Mas ele tinha tend\u00eancias suicidas?<br \/>\n-Eu mostro no livro que ele sempre foi um suicida em potencial. Tem uma cena na noite em que foi deflagrada a Revolu\u00e7\u00e3o de 30. Era uma correria danada, todo mundo agitado. A esposa do Osvaldo Aranha, dona Vindinha, contava que entrou no gabinete, o Getulio estava sentado, alisando um gato no seu colo. Ela perguntou o que ele pensava em fazer, ele tirou o revolver da cintura mostrou e continuou alisando o gato&#8230;Ele j\u00e1 estava sinalizando: em \u00faltimo caso tinha uma bala&#8230;<br \/>\n-Ele era realmente um manipulador?<br \/>\n-Ele era frio, gelado, tudo era estudado, falso, at\u00e9 o riso imotivado. Ele ria por qualquer coisa. Sempre foi mais preocupado com a tradi\u00e7\u00e3o, a posteridade, do que com a pr\u00f3pria vida. Se poderia dizer que ele amou mais a morte do que a vida.<br \/>\n-Ele amava o poder&#8230;<br \/>\n-Sabe qual era a biblia dele? O Principe, do Machiavel. Mas tinha influ\u00eancias do positivismo de Augusto Comte, seguia a cartilha castilhista-borgista. Nesse livro, n\u00e3o tive preocupa\u00e7\u00e3o com a parte hist\u00f3rica, tanto que quase n\u00e3o cito datas. O objetivo era fazer um estudo profundo da personalidade de cada um, algo que ningu\u00e9m fez at\u00e9 hoje&#8230;<br \/>\n-O que o senhor constata, por exemplo?<br \/>\n-A hipomania do Oswaldo Aranha. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o branda do que hoje se chama de sindrome bipolar&#8230; O Flores tinha surtos epileptiformes, n\u00e3o quer dizer que fosse epil\u00e9tico, tinha rajadas epil\u00e9pticas. Aquela investida dele no combate do Ibirapuit\u00e3, enfrentando de peito aberto a metralhadora, \u00e9 sintom\u00e1tica. \u00c9 um comportamento suicida&#8230;\u00c9 inconsciente, porque a rea\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 sempre de defesa, de preserva\u00e7\u00e3o.<br \/>\n-\u00c9 a coisa do hero\u00edsmo&#8230;<br \/>\n-O aspirante \u00e0 heroicidade prefere morrer como her\u00f3i do que viver como um cidad\u00e3o comum&#8230; Erico Ver\u00edssimo diz no Retrato: &#8220;Cambar\u00e1 macho n\u00e3o morre na cama&#8221;.<br \/>\n-Pode-se dizer que o senhor \u00e9 um freudiano?<br \/>\n-Eu sou um kleiniano (de Melanie Klein), mas n\u00e3o desprezo o Freud. N\u00e3o h\u00e1 nada na psican\u00e1lise que Freud n\u00e3o tenha abordado, \u00e0s vezes com outras palavras, mas nada escapa dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa manh\u00e3 de agosto, um tiro no cora\u00e7\u00e3o mata o presidente do pa\u00eds. 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