{"id":7246,"date":"2010-08-13T15:05:48","date_gmt":"2010-08-13T18:05:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=7246"},"modified":"2010-08-13T15:05:48","modified_gmt":"2010-08-13T18:05:48","slug":"por-que-os-jornalistas-estao-cada-vez-mais-doentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/por-que-os-jornalistas-estao-cada-vez-mais-doentes\/","title":{"rendered":"POR  QUE OS JORNALISTAS EST\u00c3O ADOECENDO MAIS"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Elaine Tavares*<\/em><br \/>\nO psic\u00f3logo, professor e pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem.<br \/>\nO trabalho ouviu dezenas de profissionais de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, a partir do m\u00e9todo de pesquisa quantitativo e qualitativo, envolvendo profissionais de r\u00e1dio, TV, impresso e assessorias de imprensa.<br \/>\nE, apesar da amostragem envolver apenas dois estados brasileiros, o relato imediatamente foi assumido pelos delegados ao Congresso de Santa Catarina \u2013 que aconteceu de 23 a 25 de julho &#8211; evidenciando assim que esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que se expressa em todo o pa\u00eds.<br \/>\nSegundo Heloani a m\u00eddia \u00e9 um setor que transforma o imagin\u00e1rio popular, cria mitos e consolida inverdades. Uma delas diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria vis\u00e3o do que seja o jornalista.<br \/>\nQuem v\u00ea a televis\u00e3o, por exemplo, pode criar a imagem deformada de que a vida do jornalista \u00e9 de puro glamour.<br \/>\nA pesquisa de Roberto tira o v\u00e9u que encobre essa realidade e revela um drama digno de Shakespeare. Deixa claro que, assim como a absoluta maioria \u00e9 completamente apaixonada pelo que faz, ao mesmo tempo est\u00e1 em sofrimento pelo que faz, o que na pr\u00e1tica quer dizer que, amando o jornalismo eles n\u00e3o se sentem fazendo esse jornalismo que amam, sendo obrigados a realizarem outra coisa, a qual odeiam. Da\u00ed a doen\u00e7a!<br \/>\nUm dado interessante da pesquisa \u00e9 que a maioria do pessoal que trabalha no jornalismo \u00e9 formada por mulheres e, entre elas, a maioria \u00e9 solteira, pelo simples fato de que \u00e9 muito dif\u00edcil encontrar um parceiro que consiga compreender o ritmo e os hor\u00e1rios da profiss\u00e3o.<br \/>\nNesse caso, a solid\u00e3o e a frustra\u00e7\u00e3o acerca de uma rela\u00e7\u00e3o amorosa bem sucedida tamb\u00e9m viram foco de doen\u00e7a.<br \/>\nHeloani percebeu que as empresas de comunica\u00e7\u00e3o atualmente tendem a contratar pessoas mais jovens, provocando uma guerra entre gera\u00e7\u00f5es dentro das empresas.<br \/>\nComo os mais velhos n\u00e3o tem mais sa\u00fade para acompanhar o ritmo fren\u00e9tico imposto pelo capital, os patr\u00f5es apostam nos jovens, que ainda tem sa\u00fade e s\u00e3o completamente despolitizados. Porque est\u00e3o come\u00e7ando e querem mostrar trabalho, eles aceitam tudo e, de quebra, n\u00e3o gostam de pol\u00edtica ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores. \u201cOs patr\u00f5es adoram, porque eles n\u00e3o d\u00e3o trabalho\u201d.<br \/>\nOutro elemento importante desta \u201cjovializa\u00e7\u00e3o\u201d da profiss\u00e3o \u00e9 o desaparecimento gradual do jornalismo investigativo. Como os jornalistas s\u00e3o muito jovens, eles n\u00e3o tem toda uma bagagem de conhecimento e experi\u00eancia para adentrar por estas veredas.<br \/>\nIsso aparece tamb\u00e9m no fato de que a procura por universidades tradicionais caiu muito. USP, Metodista ou C\u00e1sper L\u00edbero (no caso de S\u00e3o Paulo) perdem feio para as \u201cuni\u201d, que s\u00e3o as dezenas de faculdades privadas que assomam pelo pa\u00eds afora. \u201c\u00c9 uma forma\u00e7\u00e3o muitas vezes sem qualidade, o que aumenta a falta de senso cr\u00edtico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado\u201d.<br \/>\nAssim, os jovens v\u00e3o chegando, criando avers\u00e3o pelos \u201cvelhos\u201d, fazendo mil e uma fun\u00e7\u00f5es e afundando a profiss\u00e3o.<br \/>\nUm exemplo disso \u00e9 o aumento da multifun\u00e7\u00e3o entre os jornalistas mais novos. Eles acabam naturalizando a id\u00e9ia de que podem fazer tudo, filmar, dirigir, iluminar, escrever, editar, blogar etc&#8230;<br \/>\nA jornada de trabalho, que pela lei seria de 5 horas, nos dois estados pesquisados n\u00e3o \u00e9 menos que 12 horas. H\u00e1 um excesso vertiginoso.<br \/>\nPara os mais velhos, al\u00e9m da cobran\u00e7a di\u00e1ria por \u201catualiza\u00e7\u00e3o e flexibilidade\u201d h\u00e1 sempre o estresse gerado pelo medo de perder o emprego. Conforme a pesquisa, os jornalistas est\u00e3o sempre envolvidos com uma esp\u00e9cie de \u201cplano B\u201d, o que pode causa muitos danos a sa\u00fade f\u00edsica e mental.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que a maioria dos entrevistados n\u00e3o ultrapasse a barreira dos 20 anos na profiss\u00e3o. \u201cEles fatalmente adoecem, n\u00e3o ag\u00fcentam\u201d.<br \/>\nO ass\u00e9dio moral que toda essa situa\u00e7\u00e3o causa n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Colocados diante da agilidade dos novos tempos, da necessidade da multifun\u00e7\u00e3o, de fazer milhares de cursos, de realizar tantas fun\u00e7\u00f5es, as pessoas reprimem emo\u00e7\u00f5es demais, que acabam explodindo no corpo. \u201cSe h\u00e1 uma profiss\u00e3o que abra\u00e7ou mesmo essa id\u00e9ia de multifun\u00e7\u00e3o foi o jornalismo. E a\u00ed, o colega vira advers\u00e1rio. A reda\u00e7\u00e3o vive uma esp\u00e9cie de terrorismo \u00e0s avessas\u201d.<br \/>\nConforme Heloani, esta estrat\u00e9gia patronal de exigir que todos saibam um pouco de tudo nada mais \u00e9 do que a proposta bem clara de que todos s\u00e3o absolutamente substitu\u00edveis. A partir da\u00ed o profissional vive um medo constante, se qualquer um pode fazer o que ele faz, ele pode ser demitido a qualquer momento. \u201cPor isso os problemas de ordem cardiovascular s\u00e3o muito frequentes.<br \/>\nHoje, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e o fen\u00f4meno da morte s\u00fabita come\u00e7am a aparecer de forma assustadora, al\u00e9m da sistem\u00e1tica depend\u00eancia qu\u00edmica\u201d.<br \/>\nO trabalho realizado por Roberto Heloani verificou que nos estados de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro 93% dos jornalistas j\u00e1 n\u00e3o tem carteira assinada ou contrato. Isso \u00e9 outra fonte de estresse.<br \/>\nN\u00e3o bastasse a inseguran\u00e7a laboral, o trabalhador ainda \u00e9 deixado sozinho em situa\u00e7\u00f5es de risco nas investiga\u00e7\u00f5es e at\u00e9 na quest\u00e3o judicial. Premidos por toda essa gama de dificuldades os jornalistas n\u00e3o tem tempo para a fam\u00edlia, n\u00e3o conseguem ler, n\u00e3o se dedicam ao lazer, n\u00e3o fazem atividades f\u00edsicas, n\u00e3o ficam com os filhos. Com este cen\u00e1rio, a doen\u00e7a \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia natural.<br \/>\nO jornalista ganha muito mal, vive submetido a um ambiente competitivo ao extremo, diante de uma cotidiana falta de estrutura e ainda precisa se equilibrar na corda bamba das rela\u00e7\u00f5es de poder dos ve\u00edculos.<br \/>\nNo mais das vezes estes trabalhadores n\u00e3o tem vida pessoal e toda a sua intera\u00e7\u00e3o social s\u00f3 se realiza no trabalho.<br \/>\nSegundo Heloani, 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% est\u00e3o na fase da exaust\u00e3o, o que significa que de cada quatro jornalistas, um est\u00e1 prestes a ter de ser internado num hospital por conta da carga emocional e f\u00edsica causada pelo trabalho.<br \/>\nDoen\u00e7as como s\u00edndrome do p\u00e2nico, ang\u00fastia, depress\u00e3o s\u00e3o recorrentes e h\u00e1 os que at\u00e9 pensam em suic\u00eddio para fugir desta tortura, situa\u00e7\u00e3o mais comum entre os homens.<br \/>\nO resultado deste quadro aterrador, ao ser apresentado aos jornalistas, levou a uma conclus\u00e3o \u00f3bvia. As sa\u00eddas que os jornalistas encontram para enfrentar seus terrores j\u00e1 n\u00e3o podem mais ser individuais. Elas n\u00e3o d\u00e3o conta, s\u00e3o insuficientes.<br \/>\n Para Heloani, mesmo entre os jovens, que se acham indestrut\u00edveis, j\u00e1 se pode notar uma mudan\u00e7a de comportamento na medida em que tamb\u00e9m v\u00e3o adoecendo por conta das press\u00f5es. \u201cAs sa\u00eddas coletivas s\u00e3o as \u00fanicas que podem ter alguma efic\u00e1cia\u201d, diz Roberto.<br \/>\nQuanto a isso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rubens Lunge, n\u00e3o tem d\u00favidas. \u201c\u00c9 s\u00f3 amparado pelo sindicato, em a\u00e7\u00f5es coletivas, que os jornalistas encontrar\u00e3o for\u00e7as para mudar esse quadro\u201d.<br \/>\nRubens conta da emo\u00e7\u00e3o vivida por uma jornalista na cidade de Sombrio, no interior do estado, quando, depois de v\u00e1rias den\u00fancias sobre sobrecarga de trabalho, ele apareceu para verificar. \u201cEla chorava e dizia, `n\u00e3o acredito que o sindicato veio\u00b4. Pois o sindicato foi e sempre ir\u00e1, porque s\u00f3 juntos podemos mudar tudo isso\u201d. Rubens anda lembra dos famosos pesco\u00e7\u00f5es, praticados por jornais de Santa Catarina, que levam os trabalhadores a se internarem nas empresas por quase dois dias, sem poder ver os filhos, submetidos a press\u00e3o, sem dormir. \u201cIsso sem contar as fraudes, como a de alguns jornais catarinenses, que n\u00e3o tem qualquer empregado. Todos s\u00e3o transformados em s\u00f3cios-cotistas. Assim, ou se matam de trabalhar, ou n\u00e3o recebem um tost\u00e3o\u201d.<br \/>\n*<em>Jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Elaine Tavares* O psic\u00f3logo, professor e pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem. 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