{"id":7274,"date":"2010-08-26T19:55:53","date_gmt":"2010-08-26T22:55:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=7274"},"modified":"2010-08-26T19:55:53","modified_gmt":"2010-08-26T22:55:53","slug":"tudo-comecou-com-uma-reportagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/tudo-comecou-com-uma-reportagem\/","title":{"rendered":"Leia o texto que deu origem ao processo"},"content":{"rendered":"<p><em>Reportagem publicada no Jornal J\u00e1, edi\u00e7\u00e3o 287, de maio de 2001.<\/em><br \/>\n<em>A reportagem do jornal J\u00c1 sobre os eventos que culminaram com o assassinato de Lindomar Rigotto, foi publicada em maio de 2001. A mat\u00e9ria, premiada pela Associa\u00e7\u00e3o Riograndense de Imprensa naquele ano, deu origem a duas a\u00e7\u00f5es movidas pela vi\u00fava Julieta Vagas Rigotto, m\u00e3e de Lindomar.\u00a0 Leia a \u00edntegra do texto.<br \/>\n<\/em><br \/>\n<strong>Uma trag\u00e9dia em tr\u00eas atos<\/strong><br \/>\n<span class=\"assina\">Elmar Bones*<\/span><br \/>\nO empres\u00e1rio Lindomar Rigotto foi morto com um tiro \u00e0s nove horas da manh\u00e3 de 17 de fevereiro de 1999, quando perseguia quatro homens que assaltaram a boate Ibiza, de sua propriedade, em Atl\u00e2ntida, no litoral ga\u00facho.<br \/>\nA not\u00edcia no \u201chor\u00e1rio nobre\u201d da televis\u00e3o soou como mais um exemplo na escalada da criminalidade no pa\u00eds. Mas era muito mais do que isso.<br \/>\nPor tr\u00e1s da manchete apressada desenrolava-se uma hist\u00f3ria com todos os ingredientes para um thriller policial de sucesso: dinheiro, drogas, corrup\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nLindomar Vargas Rigotto, conhecido por T\u00eati, administrador de empresas, tinha 47 anos. Vivia num apartamento de 240 metros quadrados na rua Lauro de Oliveira, na Bela Vista, bairro elegante da capital ga\u00facha.<br \/>\nEra visto na noite ao volante de uma Mercedes branca ou de uma Blazer preta. Estava com seus bens indispon\u00edveis por causa de um processo sobre o desvio de verbas p\u00fablicas em andamento na Justi\u00e7a.<br \/>\nDois meses antes de sua morte, fora indiciado pela morte de Amanda, uma garota de programa, de 24 anos. O inqu\u00e9rito, hoje na Justi\u00e7a aponta-o por homic\u00eddio culposo e omiss\u00e3o de socorro.<br \/>\nNo relat\u00f3rio encaminhado ao juiz , o delegado Cl\u00e1udio Barbedo considerou relevante mencionar o depoimento de uma testemunha que disse que \u201cT\u00eati era conhecido na noite como usu\u00e1rio e traficante de coca\u00edna\u201d.<br \/>\nAmanda caiu do apartamento que T\u00eati Rigotto mantinha para encontros amorosos no 14\u00ba. andar de um edif\u00edcio da rua Duque de Caxias, no centro de Porto Alegre. Ele tinha h\u00e1bitos nada convencionais, segundo o zelador e os porteiros do condom\u00ednio.<br \/>\nCostumava chegar sozinho, em seguida chegavam mulheres procurando-o. Houve um per\u00edodo em que duas mulheres, uma loira e uma morena sem a metade do bra\u00e7o esquerdo moraram no apartamento por algum tempo.<br \/>\nNo relat\u00f3rio que encaminhou \u00e0 Justi\u00e7a, incriminando-o pela morte de Andr\u00e9a, o delegado Cl\u00e1udio Barbedo anotou que T\u00eati dep\u00f4s \u201csorrindo, senhor de si, falando como se estivesse proferindo uma confer\u00eancia\u201d.<br \/>\nOs rep\u00f3rteres que o viram chegar para depor no dia 12 de novembro disseram que ele parecia \u201cum personagem de Scorcese\u201d: \u00f3culos escuros, terno azul marinho, cal\u00e7a com bainha italiana, camisa azul, gravata colorida e gel nos cabelos compridos.<br \/>\nDesceu de sua Blazer preta, falou ao celular e subiu rapidamente as escadarias da delegacia, ignorando as c\u00e2meras de tev\u00ea e policiais que se aglomervam na ante-sala do gabinete do delegado.<br \/>\nS\u00f3 n\u00e3o conseguiu evitar Ana Catarina, a m\u00e3e de Amanda, a garota de programa, que na verdade se chamava Andr\u00e9a Viviane Catarina.<br \/>\nPlantada no estreito corredor que leva ao gabinete do delegado, a mulher precocemente envelhecida interrompeu a passagem de Lindomar, ergueu uma foto da neta e gritou:<br \/>\n-\u201cEu quero saber porque mataste a minha filha, porque deixaste \u00f3rf\u00e3o este anjinho. Eu n\u00e3o vou descansar enquanto n\u00e3o pagares pelo teu crime\u201d.<br \/>\nNo mesmo dia, mas em momento diferente, a pol\u00edcia ouviu tamb\u00e9m o depoimento de Marilda, de 37 anos, solteira e ex-\u201cdan\u00e7arina de boite\u201d, tamb\u00e9m implicada na morte de Amanda.<br \/>\nMarilda havia sido namorada de T\u00eati e morou no apartamento dele por seis meses. Ainda tinha as chaves e sempre que ia ao pr\u00e9dio utilizava o box dele na garagem para estacionar seu Corsa branco.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Ato 1. Um golpe de mestre<\/span><br \/>\nO nome de Lindomar Rigotto apareceu nos jornais pela primeira vez em mar\u00e7o de 1987, quando assumiu o cargo de \u201cassistente da dire\u00e7\u00e3o financeira\u201d da Companhia Estadual de Energia El\u00e9trica (CEEE), a maior estatal ga\u00facha.<br \/>\nFoi indicado para o cargo por seu irm\u00e3o Germano Rigotto, \u00e0 \u00e9poca, l\u00edder do governo Pedro Simon na Assembl\u00e9ia Estadual. \u201cHouve resist\u00eancia ao seu nome, mas o irm\u00e3o exigiu\u201d, lembra um ex-assessor do ent\u00e3o secret\u00e1rio de Minas e Energia, Alcides Saldanha.<br \/>\nFoi Saldanha quem assinou a nomea\u00e7\u00e3o de Lindomar. Alguns deputados da oposi\u00e7\u00e3o questionaram em plen\u00e1rio o \u201ctr\u00e1fico de influ\u00eancia pol\u00edtica\u201d na estatal e o caso ganhou nota nos jornais. N\u00e3o passou disso.<br \/>\nFortalecido, Lindomar foi direto ao que lhe interessava e tornou-se o \u201cverdadeiro gerente\u201d das negocia\u00e7\u00f5es que culminaram com a assinatura de dois contratos para a constru\u00e7\u00e3o de onze subesta\u00e7\u00f5es de transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica no Estado.<br \/>\nOs contratos que depois se tornariam famosos com os n\u00fameros 1.000 e 1001, vinham sendo protelados por conta de \u201cdefici\u00eancias e dificuldades\u201d. Nas m\u00e3os de Lindomar, em poucos dias os entraves foram removidos e as negocia\u00e7\u00f5es conclu\u00eddas com dois cons\u00f3rcios \u2013 Sulino e Unesul, formados por onze empresas.<br \/>\nMais: logo ap\u00f3s a assinatura dos contratos, foram antecipados pagamentos, contrariando as normas expl\u00edcitas baixadas pelo pr\u00f3prio governador em fun\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-falimentar da CEEE.<br \/>\nFoi t\u00e3o r\u00e1pido que o pr\u00f3prio presidente da companhia, Oswaldo Baumgarten, disse depois que n\u00e3o tomou conhecimento da assinatura dos dois contratos, nem da libera\u00e7\u00e3o dos recursos. \u201cFui tra\u00eddo\u201d, declarou ele \u00e0 CPI formada posteriormente para investigar as den\u00fancias de fraude.<br \/>\nLogo depois de assinados os contratos, uma sindic\u00e2ncia interna recolheu \u201cind\u00edcios de irregularidade\u201d nos contratos. Lindomar e outros seis funcion\u00e1rios da CEEE foram afastados.<br \/>\nMas o caso s\u00f3 foi merecer aten\u00e7\u00e3o no governo seguinte (de Alceu Collares, do PDT), quando a economista Dilma Rousseff assumiu a secretaria de Minas e Energia e pediu uma auditoria nos dois contratos.<br \/>\nO trabalho foi feito pela Contadoria e Auditoria Geral do Estado (Cage), depois de longas e atribuladas avalia\u00e7\u00f5es. Comprovou as irregularidades j\u00e1 apontadas na sindic\u00e2ncia interna e concluiu que a companhia estatal fora lesada em pelo menos R$ 65,9 milh\u00f5es nos dois contratos.<br \/>\nO PMDB j\u00e1 havia retornado ao governo estadual, com Antonio Britto, quando a oposi\u00e7\u00e3o conseguiu as assinaturas necess\u00e1rias para instalar uma CPI sobre o caso, no dia 13 de maio de 1995..<br \/>\nA esta altura, Lindomar Rigotto associado ao irm\u00e3o, Julius, tornara-se dono das casas noturnas mais badaladas do Sul do Pa\u00eds, os Ibiza Club.<br \/>\nA CPI concluiu seu trabalho um ano e meio depois. Apurou a responsabilidade de 13 pessoas, com Lindomar na cabe\u00e7a. \u201cDe tudo o que se apurou, tem-se como comprovada a pr\u00e1tica de corrup\u00e7\u00e3o passiva e enriquecimento il\u00edcito de Lindomar Rigotto\u201d, diz o relat\u00f3rio da CPI.<br \/>\nEm sua conta banc\u00e1ria, cujo sigilo foi quebrado, foram encontrados cr\u00e9ditos de R$ 1 milh\u00e3o e 170 mil, de fonte n\u00e3o esclarecida. Durante o per\u00edodo em que participava do julgamento da licita\u00e7\u00e3o ele comprou e pagou praticamente \u00e0 vista o apartamento de 240 metros quadrados em que morava no bairro Bela Vista, em Porto Alegre.<br \/>\nNuma decis\u00e3o \u201cin\u00e9dita no Brasil\u201d, o relat\u00f3rio assinado pelo deputado petista Pepe Vargas, (primo de Rigotto e depois prefeito de Caxias do Sul) incriminava como \u201cagentes corruptores no processo\u201d as onze empresas*, que formavam os dois cons\u00f3rcios. \u201cAgiram em conluio para lesar os cofres p\u00fablicos\u201d, diz o relat\u00f3rio.<br \/>\nNa CPI, o diretor financeiro da CEEE, Silvino Marcon, revelou as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do caso. Declarou que os 156 mil reais encontrados em sua conta banc\u00e1ria, sem origem esclarecida eram \u201csobras da campanha de 1986\u201d (na qual se elegeu Pedro Simon).<br \/>\nAfirmou que a coloca\u00e7\u00e3o de Lindomar Rigotto na posi\u00e7\u00e3o de assistente da diretoria financeira foi \u201cuma determina\u00e7\u00e3o de Alcides Saldanha\u201d, ent\u00e3o secret\u00e1rio de Minas e Energia do Estado. Em seu depoimento, Saldanha admitiu que fez a indica\u00e7\u00e3o \u201catendendo pleito pol\u00edtico de sua base partid\u00e1ria em Caxias do Sul\u201d.<br \/>\nO presidente da CEEE, Oswaldo Baumgarten, disse que foi tra\u00eddo pelo diretor financeiro, Silvino Marcon, que n\u00e3o o informou sobre os dois contratos. A provid\u00eancia que tomou foi consultar o secret\u00e1rio de Minas e Energia sobre a possibilidade de substituir Marcon. N\u00e3o obteve resposta.<br \/>\nTr\u00eas meses depois, em 18 de dezembro de 1987, os contratos foram ratificados em solenidade no Pal\u00e1cio Piratini, com a presen\u00e7a de Saldanha e do governador Pedro Simon.<br \/>\nAl\u00e9m da adultera\u00e7\u00e3o de documentos, numa das licita\u00e7\u00f5es \u201cn\u00e3o havia sequer determina\u00e7\u00e3o do local da obra, sequer o terreno havia sido escolhido, nem o projeto da obra existia\u201d.<br \/>\nNum trecho, o documento que aprovou a licita\u00e7\u00e3o \u00e9 exemplar: \u201cO pre\u00e7o total foi obtido multiplicando-se os pre\u00e7os unit\u00e1rios pelas quantidades estimadas pela CEEE, a fim de haver nivelamento uniforme, uma vez que ainda n\u00e3o existe o projeto definitivo das subesta\u00e7\u00f5es\u201d.<br \/>\nA CPI constatou que as propostas dos dois cons\u00f3rcios foram elaboradas \u201cem combina\u00e7\u00e3o e, talvez, at\u00e9 ao mesmo tempo e pelas mesmas pessoas\u201d.<br \/>\nEmbora tenha produzido mais de 300 quilos de papel , a CPI n\u00e3o conseguiu avaliar o valor exato dos preju\u00edzos causados \u00e0 CEEE nos dois contratos, por superfaturamento (pre\u00e7os acima do mercado) e c\u00e1lculo fraudulento da corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria.<br \/>\nAt\u00e9 dezembro de 1994, quando foram suspensos os contratos e os pagamentos, a CEEE j\u00e1 tinha desembolsado R$ 141 milh\u00f5es, sendo pelo menos R$ 42,3 milh\u00f5es pagos indevidamente \u2013 R$ 25,6 milh\u00f5es por conta de superfaturamento e R$ 16,7 milh\u00f5es pela corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria indevida.<br \/>\nAl\u00e9m dos valores estabelecidos em contrato, a CEEE pagou aos dois cons\u00f3rcios cerca de R$ 20 milh\u00f5es a mais em componentes que n\u00e3o foram inclu\u00eddos na licita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA CPI considerou \u201cdescabida influ\u00eancia de empres\u00e1rios interessados nas obras realizadas\u201d. Stefan Guarani, representante comercial da Lorenzetti, uma das empresas, disse em seu depoimento que \u201ccirculava livremente nas depend\u00eancias da CEEE e l\u00e1 realizava tratativas destinadas a favorecer a realiza\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios com a estatal\u201d.<br \/>\nDeclarou tamb\u00e9m que patrocinava festas e distribu\u00eda brindes a empregados da estatal.<br \/>\nLindomar Rigotto, embora apontado por todos os envolvidos como o \u201cverdadeiro gerente das negocia\u00e7\u00f5es com os dois cons\u00f3rcios, tentou responsabilizar o estudante Evandro Grigol, estagi\u00e1rio da CEEE, \u201chip\u00f3tese considerada absurda por todos os outros depoentes\u201d, segundo o relat\u00f3rio.<br \/>\nPor fim limitou-se a dizer que n\u00e3o havia qualquer registro escrito de sua participa\u00e7\u00e3o nos contratos.<br \/>\nSegundo apurou a CPI, a CEEE teve que recorrer a um empr\u00e9stimo intermediado pelo Banco do Brasil para pagar os contratos.<br \/>\nSilvino Marcon informou que os contatos com o Banco do Brasil para viabilizar um empr\u00e9stimo de 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e0 CEEE, come\u00e7aram em junho de 1987.<br \/>\nA opera\u00e7\u00e3o se realizou em mar\u00e7o de 1988, com dinheiro repassado pela ag\u00eancia do BB em Nassau (Bahamas), o que significa que o dinheiro foi captado no exterior.<br \/>\nO relat\u00f3rio da CPI foi aprovado pelo plen\u00e1rio da Assembl\u00e9ia do Estado e encaminhado ao Minist\u00e9rio P\u00fablico no final de 1996.<br \/>\nO processo que investiga a fraude nos contratos da CEEE est\u00e1 na 2\u00aa. Vara da Fazenda P\u00fablica, com o n\u00famero 01196058232. Os autos somam 32 volumes* e envolvem 41 r\u00e9us, 12 empresas e 29 pessoas f\u00edsicas. Segundo a promotoria de Justi\u00e7a e Defesa do Patrim\u00f4nio P\u00fablico, o processo corre em segredo de Justi\u00e7a.<br \/>\n*<em>No dinal de 2009, j\u00e1 eram 110 volumes e o processo continua em 1a. inst\u00e2ncia. <\/em><br \/>\n<span class=\"intertit\">Ato 2. Um beijo na pedra fria<\/span><br \/>\nO sol ainda aquecia a fachada do Solar Meridien, quando o corpo de uma mulher nua caiu do 14\u00ba. andar, no fim de uma ter\u00e7a-feira, dia 29 de setembro de 1998.<br \/>\nAnt\u00f4nio da Luz, de 31 anos, porteiro do Col\u00e9gio Paula Soares, estava no port\u00e3o da escola, de onde se v\u00ea todo o Meridien. Ouviu um grito estridente de mulher, olhou na dire\u00e7\u00e3o e viu um corpo despencando pela lateral do pr\u00e9dio. Ele lembra que \u201cpassava um pouquinho das seis e meia da tarde\u201d.<br \/>\nO investigador Lopes, da primeira delegacia, chegou ao local meia hora depois. O corpo estava estendido no p\u00e1tio interno do pr\u00e9dio e junto dele o policial encontrou uma pulseira prateada, um anel com pedras brancas, uma alian\u00e7a com pedras azuis e roxas, um brinco de argola, um rel\u00f3gio Quartz Supertec com a pulseira marron partida.<br \/>\nFormado por tr\u00eas blocos de 14 andares cada um, o Solar Meridien tem entrada principal no n\u00famero 995 da rua Duque de Caxias, no centro de Porto Alegre, a 200 metros do pal\u00e1cio do governo ga\u00facho.<br \/>\nFoi Jorge, o porteiro, quem ouviu uma voz feminina avisar pelo interfone que \u201cuma mulher caiu do pr\u00e9dio\u201d.<br \/>\nQuando saiu para ver, encontrou o propriet\u00e1rio do apartamento 1402, Lindomar Rigotto e sua amiga Marilda de Souza Zeferino que saiam do elevador, conversando em voz baixa.<br \/>\nO corpo foi removido por volta das 22 horas. O s\u00edndico, dr. Benites, e os porteiros dos tr\u00eas pr\u00e9dios ficaram reunidos para tentar entender o que acontecera.<br \/>\nS\u00f3 no dia seguinte a pol\u00edcia ficou sabendo a identidade da v\u00edtima. Um advogado compareceu \u00e0 delegacia e disse que a mo\u00e7a havia cometido suic\u00eddio, saltando da janela do apartamento 1.402, de propriedade de seu cliente, Lindomar Vargas Rigotto, que se apresentaria quando necess\u00e1rio para prestar esclarecimentos.<br \/>\nEntregou as roupas, alguns objetos e os documentos de Andr\u00e9a Viviane Catarina, de 24 anos, conhecida como Amanda, entre as garotas de programa que freq\u00fcentam os prost\u00edbulos chiques da cidade, na avenida Farrapos.<br \/>\nEla foi vista na noite anterior por sua colega Jasmine (Rose da Silva Teixeira), saindo sozinha do Gruta Azul por volta das tr\u00eas horas da madrugada. \u201cDisse que estava indo para casa\u201d, declarou Jasmine.<br \/>\nNa casa de Andr\u00e9a, em Viam\u00e3o, a pol\u00edcia encontrou J\u00e9ssica sua filha de sete anos, e Ros\u00e2ngela, uma vizinha que cuidava da menina enquanto a m\u00e3e trabalhava \u00e0 noite. \u201cDesde ontem ela n\u00e3o aparece\u201d, informou Ros\u00e2ngela. Disse tamb\u00e9m que Andr\u00e9a costumava trabalhar na boate Caleche, em Canoas.<br \/>\nNa Caleche, o gerente disse que a viu chegar pouco depois das tr\u00eas e sair meia hora depois com o empres\u00e1rio Lindomar Vargas Rigotto, o T\u00eati. Freq\u00fcentador de casas noturnas da avenida Farrapos, em Porto Alegre, era a primeira vez que T\u00eati ia \u00e0 Caleche, em Canoas.<br \/>\nAndr\u00e9a, ao contr\u00e1rio, freq\u00fcentava a casa h\u00e1 mais de ano. Nessa mesma tarde em que a pol\u00edcia fazia investiga\u00e7\u00f5es, um informante an\u00f4nimo telefonou ao Departamento de Intelig\u00eancia da Pol\u00edcia Civil para dizer que Andr\u00e9a tinha sido jogada pelo empres\u00e1rio, \u201cdono das boates Ibiza Club\u201d.<br \/>\nAs investiga\u00e7\u00f5es constataram muitas falhas na vers\u00e3o dos fatos apresentada por Rigotto e Marilda Zeferino de Souza, sua ex-namorada. \u201cEles combinaram o depoimento, era um xerox um do outro\u201d, disse o delegado.<br \/>\nDisseram que Andr\u00e9a havia bebido whisky e cheirado coca\u00edna. Os exames de laborat\u00f3rio n\u00e3o detectaram qualquer sinal de \u00e1lcool ou drogas no sangue de Andr\u00e9a.<br \/>\nO laudo da necropsia diz que a v\u00edtima apresentava pelo menos tr\u00eas les\u00f5es \u2013 duas nas costas e uma no rosto \u2013 que n\u00e3o tinham rela\u00e7\u00e3o com a queda. Ela foi ferida antes de cair, o que indicava que houve luta no apartamento.<br \/>\nSinais de luta tamb\u00e9m foram encontrados na cama e nas paredes do apartamento. Na parede externa, havia marca de p\u00e9s descal\u00e7os. Um teste feito pelo Instituto de Criminal\u00edstica indicou que o corpo de Andr\u00e9a recebeu um impulso no in\u00edcio da queda.<br \/>\nOutro detalhe: Lindomar e Marilda disseram que Andr\u00e9a jogou os an\u00e9is pela janela, mas eles foram encontrados junto ao corpo, no p\u00e1tio do pr\u00e9dio.<br \/>\nAs investiga\u00e7\u00f5es foram prejudicadas porque a primeira per\u00edcia no local foi incompleta e uma segunda per\u00edcia, que poderia esclarecer muita coisa, encontrou tudo limpo e arrumado. A \u00fanica coisa destoante encontrada foi uma \u201cponta\u201d de maconha, esquecida na gaveta da c\u00f4moda.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Ato 3. Um tiro certeiro no olho <\/span><br \/>\nCinco homens chegaram num Monza dourado. Estacionaram a cem metros da boate Ibiza, a mais badalada do litoral ga\u00facho, na avenida Central, em Atl\u00e2ntida.<br \/>\nUm dos homens ficou para fazer a \u201csegunda\u201d, isto \u00e9 a troca de carro durante a fuga. Os outros se dirigiram \u00e0 boate.<br \/>\nNa porta alegaram que haviam esquecido os documentos, ao sa\u00edrem do baile. N\u00e3o foi dif\u00edcil entrar, os porteiros e vigilantes j\u00e1 tinham sido dispensados.<br \/>\nDentro da boate 14 pessoas ainda trabalhavam, apagando os \u00faltimos vest\u00edgios do carnaval que terminou \u00e0s sete horas daquela Quarta Feira de Cinzas.<br \/>\nCom uma pistola os homens rendem os funcion\u00e1rios e mandam chamar o chefe.<br \/>\nA secret\u00e1ria Helena liga para sala onde Lindomar Rigotto, o T\u00eati, est\u00e1 com o gerente, fechando o balan\u00e7o da noite. A Ibiza teve cerca de mil pessoas em seu \u00faltimo baile do carnaval de 1999.<br \/>\nA consuma\u00e7\u00e3o m\u00ednima era 20 reais. Mas o gerente disse \u00e0 pol\u00edcia que os ladr\u00f5es levaram entre 10 e 20 mil reais. N\u00e3o \u00e9 o \u00fanico ponto controverso que emerge dos depoimentos tomados no inqu\u00e9rito policial, que descreve assim os fatos:<br \/>\nCom o dinheiro numa sacola, os assaltantes tomaram o Corsa verde de um dos gar\u00e7ons, que estava na frente da boate.<br \/>\nAtr\u00e1s sai um Gol branco, cantando os pneus, com os far\u00f3is ligados. Ao volante, T\u00eati com os longos cabelos soltos, buzina e grita: \u201cLadr\u00e3o! Ladr\u00e3o! Pega, Ladr\u00e3o!\u201d.<br \/>\nPouco atr\u00e1s dele vem uma Parati, com o gerente da Ibiza, que tamb\u00e9m buzina e tenta chamar aten\u00e7\u00e3o para os assaltantes em fuga.<br \/>\nOs fugitivos buscam alcan\u00e7ar a Estrada do Mar, rumo a Porto Alegre. Entram na avenida Paraguassu. O piso irregular da avenida, cheia de \u201cbacias\u201d provocadas pela chuva, os obriga a reduzir a velocidade.<br \/>\nT\u00eati chega a dez metros do carro dos assaltantes. Numa das \u201cbacias\u201d da pista irregular quase bate no Corsa dos fugitivos. Um deles mete a cabe\u00e7a para fora e atira. O gol de T\u00eati se desgoverna. Sobe o canteiro de grama que divide as pistas da avenida e vai parar junto a uma casuarina, j\u00e1 na praia de Xangril\u00e1, a tr\u00eas quil\u00f4metros de onde o assalto come\u00e7ou.<br \/>\nO gerente do Ibiza diz que tentou continuar atr\u00e1s dos assaltantes, mas foi recha\u00e7ado a tiros. Uma bala ricocheteou no cap\u00f4 e bateu no parabrisa na altura do motorista, mas n\u00e3o teve for\u00e7a para atravessar o vidro.<br \/>\nO gerente, ent\u00e3o, desistiu. T\u00eati, ca\u00eddo sobre o banco estava ferido com um tiro pouco acima do olho. Ainda estava vivo quando a primeira testemunha chegou. Morreu a caminho do hospital.<br \/>\nNa primeira barreira da Policia Rodovi\u00e1ria, tr\u00eas assaltantes foram presos. Eram eles: Cl\u00f3vis Pimentel de Almeida, Caito Maxiloni Lampert e Wanderlei Rosa.<br \/>\nO quarto assaltante, Antonio Carlos Gross, foi detido em casa dez dias depois. Ele havia ficado do lado de fora da boate, na \u201cespera\u201d.<br \/>\nOutro que n\u00e3o estava no carro e s\u00f3 foi preso no dia 9 de abril era Paulo Ezequiel de Oliveira, de 19 anos, que nega participa\u00e7\u00e3o no assalto. Foi ele que desceu do Corsa para entrar no Monza que seria usado na troca de carros durante a fuga.<br \/>\nCom a pris\u00e3o de Ezequiel, o delegado Heraldo Guerreiro deu por encerrado o inqu\u00e9rito sobre a morte do empres\u00e1rio Lindomar Vargas Rigotto, o T\u00eati.<br \/>\nA \u00fanica coisa que, segundo ele, n\u00e3o pode ser esclarecida foi a quantia de dinheiro levada no assalto. O que aconteceu com o dinheiro n\u00e3o foi descoberto.<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u201cEle morreu por imprud\u00eancia\u201d <\/span><br \/>\nUma semana antes da morte do empres\u00e1rio, um informante dissera a pol\u00edcia que T\u00eati Rigotto havia contratado dois pistoleiros para matar Ricardo Gutheil, o seu gerente no Ibiza Club, em Atl\u00e2ntida.<br \/>\nO pr\u00f3prio delegado Heraldo Guerreiro investigou o fato, ouvindo o T\u00eati e o gerente, que disse n\u00e3o acreditar na hist\u00f3ria porque tinha as melhores rela\u00e7\u00f5es com o patr\u00e3o.<br \/>\nO delegado acabou acreditando na hip\u00f3tese levantada pelo pr\u00f3prio T\u00eati, que atribu\u00eda a den\u00fancia a um ex-s\u00f3cio que se tornara seu inimigo e h\u00e1 tempos procurava prejudic\u00e1-lo. J\u00e1 tinha inclusive encaminhado documentos \u00e0 Receita Federal pretendendo incrimin\u00e1-lo por sonega\u00e7\u00e3o de Imposto de Renda.<br \/>\nNo inqu\u00e9rito que j\u00e1 encaminhou \u00e0 Justi\u00e7a, o delegado Guerreiro sequer menciona a hip\u00f3tese de \u201cqueima de arquivo\u201d, ligada \u00e0 morte da garota de programa Andr\u00e9ia Viviane Catarina, a Amanda, pela qual T\u00eati fora indiciado. \u201cFoi assalto comum, ele morreu por imprud\u00eancia, por sair desarmado atr\u00e1s de ladr\u00f5es\u201d, diz o delegado.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Tr\u00eas homens cumprem senten\u00e7a<\/span><br \/>\nOs cinco implicados no assassinato do empres\u00e1rio Lindomar Rigotto, ocorrido no assalto \u00e0 boate Ibiza, em Atl\u00e2ntida, no dia 17 de fevereiro de 1999, foram julgados em novembro do ano passado (Ano 2000).<br \/>\nTr\u00eas foram condenados a 19 anos de pris\u00e3o: Wanderlei da Rosa, Caito Maxiloni Lampert e Cl\u00f3vis Pimentel de Almeida, que segundo a pol\u00edcia foi o autor do disparo que matou Rigotto.<br \/>\nWanderlei est\u00e1 no pres\u00eddio Central em Porto Alegre e tem um pedido de remiss\u00e3o de pena em exame na Comiss\u00e3o T\u00e9cnica de Classifica\u00e7\u00e3o. Ca\u00edto e Pimentel cumprem pena no Hospital Penitenci\u00e1rio, vinculado ao Pres\u00eddio Central.<br \/>\nTamb\u00e9m foram julgados pela morte do empres\u00e1rio os assaltantes Antonio Carlos Gross e Paulo Ezequiel de Oliveira. Os dois chegaram a ser recolhidos ao pres\u00eddio Central, durante as investiga\u00e7\u00f5es do crime, mas foram absolvidos.<br \/>\n*<em>Participaram desta reportagem: Olides Canton, Paulo Santaf\u00e9, Cleber Dioni e Adriana Lampert.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reportagem publicada no Jornal J\u00e1, edi\u00e7\u00e3o 287, de maio de 2001. A reportagem do jornal J\u00c1 sobre os eventos que culminaram com o assassinato de Lindomar Rigotto, foi publicada em maio de 2001. A mat\u00e9ria, premiada pela Associa\u00e7\u00e3o Riograndense de Imprensa naquele ano, deu origem a duas a\u00e7\u00f5es movidas pela vi\u00fava Julieta Vagas Rigotto, m\u00e3e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[701,175,184],"class_list":["post-7274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-caso-rigotto","tag-imprensa","tag-jornal-ja"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-1Tk","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7274"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7274\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}