{"id":787,"date":"2006-09-27T14:08:21","date_gmt":"2006-09-27T17:08:21","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=787"},"modified":"2006-09-27T14:08:21","modified_gmt":"2006-09-27T17:08:21","slug":"dono-de-banca-decide-parar-de-vender-as-revistas-veja-e-epoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/dono-de-banca-decide-parar-de-vender-as-revistas-veja-e-epoca\/","title":{"rendered":"Dono de banca decide parar de vender as revistas Veja e \u00c9poca"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/teste2\/med_Jornaleiro_Thais%20Fernandes.jpg?0.9758440260323095\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"225\" \/><br \/>\n<\/strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><span style=\"color: #000000;font-size: small\"><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Ele quer\u00a0que outros jornaleiros tamb\u00e9m percebam a import\u00e2ncia de seu trabalho<br \/>\n<\/strong><\/span><\/span><strong>(Fotos: Thais Fernandes\/J\u00c1)<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Marcelo Salles, especial para o J\u00c1 *<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Trinta e tr\u00eas anos, jornaleiro h\u00e1 nove. Propriet\u00e1rio da banca que fica num movimentado ponto de Porto Alegre, F\u00e1bio Marinho tomou uma decis\u00e3o: n\u00e3o vai mais vender a revista Veja. &#8220;N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel ficarmos esperando que os outros venham fazer algo por n\u00f3s (&#8230;). Todos somos, de alguma forma, respons\u00e1veis pelo mundo em que vivemos&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">F\u00e1bio est\u00e1 se formando em Hist\u00f3ria e comunicou sua decis\u00e3o em carta enviada ao jornalista Hamilton Oct\u00e1vio de Souza e publicada na revista Caros Amigos de julho (<a href=\"http:\/\/carosamigos.terra.com.br\/da_revista\/edicoes\/ed112\/caros_leitores.asp\">leia a \u00edntegra aqui<\/a>).<\/p>\n<p align=\"justify\">Sua esperan\u00e7a \u00e9, como conta nessa entrevista, contribuir para que outros jornaleiros &#8220;tamb\u00e9m tenham uma tomada de consci\u00eancia e percebam a import\u00e2ncia de seu trabalho na sociedade e tomem iniciativas, por pequenas que sejam, que contribuam para pormos um fim a este avan\u00e7o dos liberais, ou neoliberais, se preferir, que s\u00f3 tem trazido sacrif\u00edcios para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Seu e-mail \u00e9: <a href=\"mailto:marinho147@hotmail.com\">marinho147@hotmail.com<\/a>. E o endere\u00e7o da banca \u00e9\u00a0Rua Dom Diogo de Souza, n\u00b0 100, bairro Cristo Redentor.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>H\u00e1 quanto tempo voc\u00ea trabalha como jornaleiro?<br \/>\n<\/strong>Tenho 33 anos, sou jornaleiro h\u00e1 nove anos, sempre como propriet\u00e1rio e no mesmo ponto de venda.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Qual o perfil dos seus clientes?<br \/>\n<\/strong>O perfil de meus clientes \u00e9 variado devido ao fato de minha banca ficar pr\u00f3xima a um terminal de \u00f4nibus que atravessa a cidade de norte a sul e na frente de uma institui\u00e7\u00e3o de ensino particular. Ent\u00e3o, atendo desde o desempregado sem perspectiva at\u00e9 o empres\u00e1rio de sucesso; atendo pessoas de todas as classes econ\u00f4micas.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Por que a decis\u00e3o de parar de comercializar a revista Veja?<br \/>\n<\/strong>A gota d&#8217;\u00e1gua que me fez parar com a Veja foi uma &#8220;reportagem&#8221; sobre o presidente venezuelano Hugo Ch\u00e1vez, em que ele era retratado como um tiranete, um ser ex\u00f3tico, s\u00f3 que tudo era escrito num tom muito ofensivo, sem o menor respeito por um presidente de Estado, de uma na\u00e7\u00e3o soberana, eleito pelo voto popular. A\u00ed eu pensei: a Veja foi longe demais. E tomei a decis\u00e3o de n\u00e3o vend\u00ea-la novamente. Mas era uma decis\u00e3o que vinha sendo amadurecida desde a \u00e9poca do &#8220;esc\u00e2ndalo&#8221; do jornalista [Larry Rother], aquele que chamou o Lula de b\u00eabado, quando a Veja fez uma s\u00e9rie de reportagens tentando afirmar a mesma coisa. Olha, n\u00e3o sou lulista, mas a Veja foi desrespeitosa naquele momento, e comecei a pensar em n\u00e3o vend\u00ea-la. Essa decis\u00e3o foi levada a termo a partir da tomada de consci\u00eancia de que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel ficarmos esperando que os &#8220;outros&#8221; \u2013 ou o Lula, ou o &#8220;salvador&#8221; \u2013 venham fazer algo por n\u00f3s, e de que todos n\u00f3s, de alguma forma, somos respons\u00e1veis pelo mundo em que vivemos. Ent\u00e3o, na minha opini\u00e3o, \u00e9 chegada a hora de fazermos algo para modificar a realidade que nos cerca; o que eu posso fazer \u00e9 isto, ent\u00e3o fiz.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Sua decis\u00e3o se estende a alguma outra publica\u00e7\u00e3o ou \u00e9 restrita \u00e0 revista Veja?<br \/>\n<\/strong>A revista \u00c9poca recebe um tratamento semelhante, embora h\u00e1 menos tempo, a partir da crise do &#8220;mensal\u00e3o&#8221; (um ano, n\u00e3o \u00e9?). Tamb\u00e9m n\u00e3o sou petista, mas \u00e9 fato que a revista for\u00e7ou a barra, se calou durante os anos FHC e agora resolve praticar jornalismo investigativo? D\u00e1 licen\u00e7a! A revista Primeira Leitura que fechou as portas em junho tamb\u00e9m recebia tratamento semelhante, nem preciso dizer por qu\u00ea, n\u00e9?<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Isso n\u00e3o pode prejudicar o seu trabalho, visto que a Veja \u00e9 uma das publica\u00e7\u00f5es mais vendidas e que, portanto, gera grande retorno \u00e0 banca?<br \/>\n<\/strong>Sobre perder vendas, bem, entre ganhar dinheiro com a Veja ou perder algumas vendas e contribuir para que os meus clientes descubram a Caros Amigos, a CartaCapital, a Reportagem, fico com esta segunda op\u00e7\u00e3o, sem falar no componente \u00e9tico que em mim \u00e9 muito forte.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Voc\u00ea n\u00e3o corre risco de sofrer algum tipo de boicote pelo mercado editorial como um todo, ou pela editora Abril em especial?<br \/>\n<\/strong>Realmente n\u00e3o d\u00e1 mais para ag\u00fcentar a Veja. Olha, n\u00e3o temo boicote, mas estou surpreso com a repercuss\u00e3o. Recebi v\u00e1rios e-mails de pessoas me cumprimentando e elogiando minha atitude. Vamos ver como a [editora] Abril vai reagir. Se me boicotarem, espero contar com sua ajuda para denunciarmos mais uma da Abril.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>O que voc\u00ea gosta de ler, entre livros, jornais, revistas e s\u00edtios na internet?<br \/>\n<\/strong>Estou me formando em Hist\u00f3ria e, portanto, gosto de tudo que esteja relacionado \u00e0 pol\u00edtica, teoria e educa\u00e7\u00e3o. Afora isto, gosto dos grandes escritores nacionais como Machado de Assis, Guimar\u00e3es Rosa, Jo\u00e3o Cabral de Mello Neto, Erico Verissimo, Mario Quintana. Enfim, ler \u00e9 meu v\u00edcio. Revistas eu n\u00e3o leio muito por ter pego o v\u00edcio de ler um livro inteiro de um autor e tentar entender suas teses. As poucas revistas que leio s\u00e3o Caros Amigos, CartaCapital e Reportagem e s\u00f3. Jornal aqui no sul n\u00e3o tem um que preste, pelo menos que eu conhe\u00e7a. Infelizmente n\u00e3o consegui leitores para o Brasil de Fato e a distribuidora cortou meu reparte, de modo que evito ler jornais. De internet eu n\u00e3o gosto muito n\u00e3o, s\u00f3 utilizo para correspond\u00eancia e downloads.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Pelo que voc\u00ea observa entre seus clientes, h\u00e1 uma insatisfa\u00e7\u00e3o com as publica\u00e7\u00f5es da grande imprensa? Voc\u00ea acredita haver espa\u00e7o entre os leitores para publica\u00e7\u00f5es com linhas editoriais que destoam da m\u00eddia hegem\u00f4nica?<br \/>\n<\/strong>Pois \u00e9, j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil vender as revistas alternativas&#8230; n\u00e3o sei se h\u00e1 espa\u00e7o para novas publica\u00e7\u00f5es. Se voc\u00ea j\u00e1 esteve em alguma edi\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Social Mundial, deve ter percebido que a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 maior do que a gente pensa, mas da\u00ed a sustentar uma nova revista eu j\u00e1 n\u00e3o sei, minha percep\u00e7\u00e3o de jornaleiro \u00e9 que n\u00e3o, mas estou vendo a situa\u00e7\u00e3o de um ponto de observa\u00e7\u00e3o muito restrito que \u00e9 minha banca.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Por favor, esteja \u00e0 vontade para acrescentar qualquer outra informa\u00e7\u00e3o que julgue relevante.<br \/>\n<\/strong>Olha, escrevi aquela carta para o Hamilton Oct\u00e1vio de Souza na esperan\u00e7a de v\u00ea-la publicada e que outros jornaleiros como eu fizessem algo parecido. A minha categoria \u00e9 muito desunida e o sindicato (pelo menos aqui em Porto Alegre) trabalha para mant\u00ea-la desunida. Assim, espero que outros tamb\u00e9m tenham uma tomada de consci\u00eancia e percebam a import\u00e2ncia de seu trabalho na sociedade e tomem iniciativas, por pequenas que sejam, que contribuam para pormos um fim a este avan\u00e7o dos liberais, ou neoliberais, se preferir, que s\u00f3 tem trazido sacrif\u00edcios para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">* Mat\u00e9ria originalmente publicada no site Fazendo M\u00e9dia <a href=\"http:\/\/www.fazendomedia.com\/\">(www.fazendomedia.com<\/a>)<br \/>\nMarcelo Salles \u2013 <a href=\"mailto:salles@fazendomedia.com\">salles@fazendomedia.com<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">\u201cTinha que tomar uma atitude ao inv\u00e9s de s\u00f3 criticar\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Thais Fernandes, especial para o J\u00c1 *<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 um ano e meio, o estudante de Hist\u00f3ria e dono de banca F\u00e1bio Marinho resolveu parar de vender as revistas Veja, \u00c9poca e Primeira Leitura. &#8220;Em certa medida tamb\u00e9m sou respons\u00e1vel pela difus\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n<p align=\"justify\">O jornaleiro n\u00e3o se diz panflet\u00e1rio. Conta que pensou em fazer apenas a sua parte, alertando a categoria dos donos de bancas para a import\u00e2ncia da consci\u00eancia no trabalho que exercem. &#8220;Fa\u00e7o parte de uma ind\u00fastria, e tinha que tomar uma atitude ao inv\u00e9s de s\u00f3 criticar&#8221;, afirma.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para ele, a revista Veja \u00e9 muito agressiva e tendenciosa em suas coberturas \u2013 uma reportagem sobre o presidente da Venezuela, Hugo Ch\u00e1vez, foi a gota d\u2019\u00e1gua para que tomasse a decis\u00e3o de n\u00e3o vender mais a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Primeiro foi o Lula. Em uma mat\u00e9ria que falava sobre o jornalista americano, que chamou o presidente de b\u00eabado, Lula aparecia nas fotos de olho vermelho ou de outra forma que lembrasse o alcoolismo. O Ch\u00e1vez a mesma coisa, tentaram destruir a imagem dele de l\u00edder. Os dois s\u00e3o presidentes eleitos democraticamente, e precisam ser respeitados&#8221;, conta.<\/p>\n<p align=\"justify\">A revista \u00c9poca acabou indo pelo mesmo caminho, e tamb\u00e9m parou de aparecer nas prateleiras de F\u00e1bio. A Primeira Leitura, que fechou suas portas no \u00faltimo m\u00eas de junho, antes ficava &#8220;s\u00f3 nos cantinhos, onde as pessoas n\u00e3o enxergam&#8221;, e tamb\u00e9m parou de ser comercializada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Perguntado sobre sua orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Marinho se diz de esquerda, um &#8220;socialista democrata, mas n\u00e3o sou Lulista e nem petista&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma poss\u00edvel resposta das editoras propriet\u00e1rias das publica\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 preocupa\u00e7\u00e3o para F\u00e1bio, e segundo Jos\u00e9 Claudino de Oliveira, assessor jur\u00eddico do sindicato dos vendedores de jornais e revistas do RS, nem deveria ser.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na opini\u00e3o de Oliveira, a empresa n\u00e3o teria motivos para se preocupar com uma a\u00e7\u00e3o isolada como a do jornaleiro, que n\u00e3o traz preju\u00edzos. Esclarece que o sindicato une aut\u00f4nomos em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e nada mais, e a decis\u00e3o de F\u00e1bio \u00e9 particular, n\u00e3o tendo nenhuma participa\u00e7\u00e3o da entidade. &#8220;Se n\u00e3o vender quem n\u00e3o ganha \u00e9 ele&#8221;, explica.<\/p>\n<p align=\"justify\">O assessor diz ainda que, se o jornaleiro precisar de ajuda caso haja a ofensiva, seu caso ter\u00e1 de ser estudado, pois \u00e9 at\u00edpico. &#8220;Se tu tens uma padaria, e vende p\u00e3o, n\u00e3o vai ficar questionando o tempo todo de onde vem a farinha&#8221;, exemplifica Oliveira.<\/p>\n<p align=\"justify\">F\u00e1bio n\u00e3o concorda, e diz que &#8220;se a farinha \u00e9 transg\u00eanica ou radioativa&#8221; precisa sim, ser questionada. Mesmo sabendo que a maioria dos seus clientes quase nunca quer estabelecer um di\u00e1logo para confrontar pensamentos, e sim um &#8220;mon\u00f3logo&#8221; para a pura e simples exposi\u00e7\u00e3o dos mesmos, ele segue firme na sua decis\u00e3o usando a sua &#8220;pequena, mas \u00fatil margem de manobra&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>*\u00a0Mat\u00e9ria originalmente publicada na vers\u00e3o impressa do Fazendo M\u00e9dia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele quer\u00a0que outros jornaleiros tamb\u00e9m percebam a import\u00e2ncia de seu trabalho (Fotos: Thais Fernandes\/J\u00c1) Marcelo Salles, especial para o J\u00c1 * Trinta e tr\u00eas anos, jornaleiro h\u00e1 nove. 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