{"id":800,"date":"2006-11-23T14:21:18","date_gmt":"2006-11-23T17:21:18","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=800"},"modified":"2006-11-23T14:21:18","modified_gmt":"2006-11-23T17:21:18","slug":"quem-polui-o-rio-dos-sinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/quem-polui-o-rio-dos-sinos\/","title":{"rendered":"Quem polui o Rio dos Sinos"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Elmar Bones<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">O diretor t\u00e9cnico da Fepam, Jackson Muller, \u00e9 bi\u00f3logo. Mas naquela manh\u00e3 ele mais parecia um m\u00e9dico \u00e0 beira de um paciente terminal. Pr\u00f3ximo a seus p\u00e9s, na beira d\u2019\u00e1gua, peixinhos se debatiam, asfixiados. A trinta metros, no meio do rio, um aerador agitava a \u00e1gua para melhorar a oxigena\u00e7\u00e3o. \u201cEle ainda est\u00e1 sob terapia intensiva. Nos pontos mais cr\u00edticos vamos ter que colocar linhas de oxig\u00eanio puro para ajudar\u201d, diz Muller, fitando a outra margem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando menino, Muller vinha ali pescar com seu pai: \u201cV\u00ednhamos com cani\u00e7os, a gente jogava a linha l\u00e1 no meio do rio\u201d. Agora, aos 42 anos, ele dirige uma opera\u00e7\u00e3o custosa que envolve barcos, draga, bombas d\u2019\u00e1gua, compressores e oxig\u00eanio &#8211; uma opera\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia para tentar reanimar o rio dos Sinos, atingido por uma brutal carga de polui\u00e7\u00e3o que deixou um trecho de 15 quil\u00f4metros praticamente sem vida. \u201cEstamos tentando criar um corredor de passagem a fim de que os peixes possam subir para a desova\u201d, explica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ele aponta a curva onde os peixes mortos formaram um tapete, no local chamado Pesqueiro, entre Port\u00e3o e Sapucaia do Sul. \u00c9 um ponto onde o rio faz um cotovelo e o movimento das \u00e1guas \u00e9 mais lento. Ali se acumulou a carga t\u00f3xica. Como \u00e9 \u00e9poca da piracema, uma grande quantidade de peixes vinha subindo o rio, para desovar na nascente. \u201cQuando chegaram aqui, os cardumes ficaram sem oxig\u00eanio, come\u00e7aram a buscar ref\u00fagio nas margens e a morrer\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">O oxig\u00eanio \u00e9 o indicador da vida no rio. Normalmente, o \u00edndice de oxig\u00eanio naquele ponto \u00e9 de 5 miligramas por litro. No dia do desastre chegou a zero e agora, um m\u00eas depois, ainda est\u00e1 em 0,8 miligramas por litro, insuficiente para que os peixes sobrevivam.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Mediadas paliativas:<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">\u201c\u00c9 o maior desastre ambiental no Sinos em 40 anos\u201d, segundo Muller. Foram recolhidas 100 toneladas de peixes de 16 esp\u00e9cies \u2013 Cascudo, Grumat\u00e3, Viola, Car\u00e1, Jundi\u00e1, Car\u00e1 (2), Lambari, Piava, Tra\u00edra, Dourado, Branca, Mandi, Pintado, Biru, Biru (2), Voga \u2013 al\u00e9m de exemplares de outras duas esp\u00e9cies ex\u00f3ticas de peixes.<\/p>\n<p align=\"justify\">A mortandade foi causada por um conjunto de fatores coincidentes. O rio estava com o n\u00edvel baixo em fun\u00e7\u00e3o das chuvas que foram insuficientes no inverno e da capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua fora do normal para as lavouras de arroz. Fora isso, a \u00e1gua estava sendo represada pelo vento e, em alguns pontos, pelo assoreamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para completar o quadro da trag\u00e9dia, uma carga maior de efluentes t\u00f3xicos foi lan\u00e7ada por ind\u00fastrias, fato bastante comum nos fins de semana. No ponto em que se concentrou essa carga, o oxig\u00eanio foi a zero, matando os cardumes que subiam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nascente. \u201cEsse epis\u00f3dio \u00e9 um divisor de \u00e1guas\u201d, avalia Muller, lembrando que o problema \u00e9 recorrente e cumulativo. \u201cA situa\u00e7\u00e3o do rio vem se deteriorando ano a ano\u201d, diz. Na verdade, h\u00e1 meio s\u00e9culo a mortandade de peixes no rio dos Sinos j\u00e1 era preocupa\u00e7\u00e3o do ecologista Henrique Lu\u00eds Roessler, o primeiro a denunciar a transforma\u00e7\u00e3o do rio num esgoto a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Crime<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">O movimento Viva S\u00e3o Leopoldo, que inclui diversas entidades de lojistas, empres\u00e1rios e lideran\u00e7as comunit\u00e1rias da cidade lan\u00e7ou um manifesto, cobrando provid\u00eancias efetivas e exigindo a divulga\u00e7\u00e3o dos culpados pelo crime do Rio dos Sinos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O texto, de 31 de outubro, entregue aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e \u00e0s autoridades da regi\u00e3o e do Estado, diz que nada tem sido feito pelo rio h\u00e1 muitos anos. \u201cO Sinos e seus afluentes est\u00e3o pela hora da morte, envenenados por pessoas sem escr\u00fapulos\u201d, denuncia o grupo.<\/p>\n<p align=\"justify\">As institui\u00e7\u00f5es apoiadoras da iniciativa garantem que n\u00e3o v\u00e3o abrir m\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o dos culpados. \u201cAs empresas devem ser denunciadas publicamente para que todos possamos saber quem s\u00e3o os algozes do rio dos Sinos. As multas devem ser expressivas para que eles possam avaliar o abalo moral da sua empresa e quanto custaria se adequarem \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o ambiental\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">O manifesto diz ainda que \u201cse sabe quem s\u00e3o as empresas poluidoras, mas por conchavos, propinas, desconversa\u00e7\u00f5es e descaso, nada \u00e9 cobrado e fiscalizado e os desgastes ambientais continuam, s\u00f3 que cada vez mais, em maiores propor\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">O movimento Viva S\u00e3o Leopoldo exige ainda que o trabalho da Fepam seja constante daqui para frente, para que os dados coletados sirvam de prova para poder autuar os infratores.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">\u201cJogaram produtos muito fortes no rio\u201d<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00e1bado, 7 de outubro. O barco Martim Pescador, com 54 pessoas a bordo, retorna de Porto Alegre em dire\u00e7\u00e3o a S\u00e3o Leopoldo. Era em torno de quatro da tarde, quando, j\u00e1 no rio dos Sinos, come\u00e7aram a aparecer os peixes mortos, muitos se debatendo asfixiados. Na altura em que o Arroio Port\u00e3o des\u00e1gua no Sinos, pr\u00f3ximo a Sapucaia do Sul, uma verdadeira trag\u00e9dia \u2013 milhares de peixes mortos cobrem a superf\u00edcie do rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">O relato \u00e9 do ex-prefeito e ex-secret\u00e1rio do Meio Ambiente de S\u00e3o Leopoldo, Henrique Prieto, 68. Ele \u00e9 presidente do Instituto Martim Pescador, que criou h\u00e1 quatro anos e que se dedica \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ambiental. Estava regressando de uma aula com seu barco-escola, quando presenciou o desastre.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ali mesmo, Prieto resolveu fazer um documento, para confirmar que a mortandade come\u00e7ava no Arroio Port\u00e3o. Todas as pessoas no barco assinaram o texto. Outra provid\u00eancia imediata foi contatar a Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (Fepam) e a secretaria de Meio Ambiente de S\u00e3o Leopoldo.<\/p>\n<p align=\"justify\">As primeiras informa\u00e7\u00f5es chegaram ao Servi\u00e7o de Emerg\u00eancia da Fepam por volta das 18h, pelo bi\u00f3logo Joel Garcia, coordenador do servi\u00e7o de fiscaliza\u00e7\u00e3o da Secretaria do Meio Ambiente de S\u00e3o Leopoldo. Quem atendeu ao chamado foi a bi\u00f3loga Cleonice, da Fepam.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c0s 13h do dia seguinte, ela se deslocou ao rio dos Sinos acompanhada do engenheiro qu\u00edmico Renato das Chagas, para a localidade de Passo do Carioca. L\u00e1, iniciaram a avalia\u00e7\u00e3o do estrago e tomaram as primeiras medidas para atenuar o desastre.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao longo do s\u00e1bado e do domingo, os peixes mortos foram se acumulando. Na segunda-feira, 9 de outubro, os cardumes come\u00e7aram a ser retidos. Tamb\u00e9m neste dia, iniciou-se a coleta de amostras de sedimento, \u00e1gua, peixes e efluentes, trabalho que prosseguiu at\u00e9 o dia 13.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2006\/11\/peixes-aparecem-mortos-no-rio-dos-sinos-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-14620 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2006\/11\/peixes-aparecem-mortos-no-rio-dos-sinos-2.jpg\" alt=\"peixes-aparecem-mortos-no-rio-dos-sinos-2\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Barco Martim Pescador foi o primeiro a registrar o desastre<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Ainda indignado com o acontecimento, Henrique Prieto \u00e9 pessimista sobre a solu\u00e7\u00e3o para o caso. \u201cVai acabar em pizza mais uma vez\u201d, prev\u00ea. \u201cPrimeiro porque a Fepam demorou a fazer a an\u00e1lise do rio, s\u00f3 come\u00e7ou na segunda-feira. Foi poss\u00edvel detectar os produtos que causaram a mortandade, mas n\u00e3o identificar quem fez isso\u201d, entende.<\/p>\n<p align=\"justify\">O presidente do Instituto Martim Pescador n\u00e3o tem d\u00favidas de que a gota d\u2019\u00e1gua para a ocorr\u00eancia da mortandade foi o despejo de efluentes industriais. \u201cEm um determinado momento, jogaram produtos muito fortes no rio\u201d, acredita.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cSe a Fepam tivesse uma fiscaliza\u00e7\u00e3o eficiente, isso n\u00e3o teria acontecido. O problema \u00e9 que o \u00f3rg\u00e3o ambiental n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es, falta gente. O arroio Port\u00e3o \u00e9 uma verdadeira cloaca, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o aconteceu nada. \u00c9 preciso vontade pol\u00edtica para montar essa grande estrutura de fiscaliza\u00e7\u00e3o. E multar\u201d, defende.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Documento para Yeda<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">A Fepam diz que o desastre totalizou 80 toneladas de peixes, o Instituto Martim Pescador calcula que sejam 160 toneladas. O \u00f3rg\u00e3o ambiental do Estado estima em 1 milh\u00e3o o n\u00famero de peixes mortos. \u201cPensamos que foram mais de 2 milh\u00f5es, porque a ocorr\u00eancia se deu no per\u00edodo de reprodu\u00e7\u00e3o, havia muitos peixes pequenos\u201d, diz Henrique Prieto, presidente da ONG.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m de denunciar e contabilizar os danos da trag\u00e9dia, o Instituto Martim Pescador tamb\u00e9m agiu para que os culpados sejam encontrados. Dois dias depois do crime, lan\u00e7ou um disque-den\u00fancia, que recebeu 24 mensagens. O conte\u00fado foi encaminhado \u00e0 Fepam, Minist\u00e9rio P\u00fablico e Pol\u00edcia Civil de Sapucaia do Sul, que abriu inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p align=\"justify\">Houve ainda outras atividades como o abra\u00e7o ao Rio dos Sinos, bloqueio simb\u00f3lico da BR-116, e um protesto em 7 de novembro, quando o epis\u00f3dio completou um m\u00eas. \u201cA id\u00e9ia \u00e9 promover alguma a\u00e7\u00e3o no dia 7 de cada m\u00eas, para n\u00e3o deixar que este fato seja esquecido\u201d, promete o presidente do Instituto Martim Pescador.<\/p>\n<p align=\"justify\">Prieto conta ainda que a ONG far\u00e1 uma exposi\u00e7\u00e3o com fotos, n\u00fameros, mapas e o conte\u00fado das mensagens recebidas no disque-den\u00fancia. O Instituto tamb\u00e9m est\u00e1 preparando um documento a ser entregue para a nova governadora, exigindo medidas para o meio ambiente, como a melhoria na infra-estrutura e a contrata\u00e7\u00e3o de mais funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">\u201cMeio ambiente n\u00e3o \u00e9 prioridade\u201d<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">A Associa\u00e7\u00e3o dos Servidores da Fepam (Asfepam) encaminhou carta aberta ao Conselho Estadual do Meio Ambiente e \u00e0 sociedade ga\u00facha em 7 de novembro. O texto diz que o monitoramento do rio mostra que a qualidade da \u00e1gua cai cada vez mais pelo despejo de esgoto sanit\u00e1rio e industrial. \u201cIsto tem gerado ocorr\u00eancias c\u00edclicas de mortandade de peixes\u201d. A Asfepam lembra que desde 1977 o \u00f3rg\u00e3o ambiental tem se esfor\u00e7ado para mitigar impactos gerados pelas atividades poluidoras naquela bacia, como a portaria de curtumes no in\u00edcio da d\u00e9cada 80, o sistema de monitoramento e o Comit\u00ea da Bacia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para o grupo de funcion\u00e1rios da Fepam, o epis\u00f3dio evidencia falhas dos sistemas planejados para proteger o ambiente no Rio Grande do Sul. A falta de estrutura e de recursos dificulta, por exemplo, o trabalho de enquadramento dos rios (metas de qualidade) e dos planos de bacias como diretrizes definidoras da recupera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da qualidade da \u00e1gua. Os servidores tamb\u00e9m criticam a descontinuidade administrativa no setor. Desde a cria\u00e7\u00e3o da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, h\u00e1 sete anos, foram cinco secret\u00e1rios \u2013 somente no \u00faltimo quadri\u00eanio, quatro pessoas assumiram o cargo. Al\u00e9m disso, a Asfepam reclama que \u201co corpo t\u00e9cnico foi publicamente desacreditado\u201d, apesar de trabalhar de forma an\u00f4nima, evitando muitos outros desastres.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cO que o epis\u00f3dio comprova \u00e9 que meio ambiente n\u00e3o \u00e9 prioridade para os representantes da sociedade deste Estado\u201d, resume a Asfepam, observando que o desenvolvimento tem sido pensado sem preocupa\u00e7\u00f5es em impedir agravos ao meio ambiente. \u201c\u00c9 urgente a implementa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es preventivas. S\u00e3o necess\u00e1rios gestores com conhecimento e comprometimento com as causas ambientais, garantia de execu\u00e7\u00e3o dos recursos or\u00e7ament\u00e1rios do Estado para os \u00f3rg\u00e3os do Sistema Estadual de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental\u201d, conclui o manifesto.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Prefeituras tem 180 dias para apresentar plano <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">A situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia ambiental levou a Fepam a publicar uma portaria em 11 de outubro, determinando a redu\u00e7\u00e3o em 30% da vaz\u00e3o licenciada de todas as atividades industriais situadas na sub-bacia do Arroio Port\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">A medida para combater a polui\u00e7\u00e3o industrial n\u00e3o \u00e9 isolada. A mesma portaria define o prazo de 180 dias para os munic\u00edpios apresentarem uma proposta de Plano de Saneamento, voltado a redu\u00e7\u00e3o do lan\u00e7amento de esgoto dom\u00e9stico sem pr\u00e9vio tratamento. As cidades da Bacia do Rio dos Sinos tratam, em m\u00e9dia, apenas 10% do esgoto.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cS\u00e3o Leopoldo trata s\u00f3 18%, Novo Hamburgo 2%, Sapiranga 2%. Cerca 90% do esgoto dom\u00e9stico dos 32 munic\u00edpios \u00e9 despejado in natura no rio. E essa regi\u00e3o tem uma popula\u00e7\u00e3o de 1,3 milh\u00e3o de habitantes. O problema \u00e9 que as prefeituras n\u00e3o t\u00eam dinheiro para tratar esgotos. A \u00fanica maneira \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um fundo federal com esse fim\u201d, entende o presidente do Instituto Martim Pescador, Henrique Prieto, que \u00e9 ex-prefeito de S\u00e3o Leopoldo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m do esgoto, h\u00e1 casos de lavouras em \u00c1reas de Prote\u00e7\u00e3o Permanente, uso indiscriminado de agrot\u00f3xicos, ocupa\u00e7\u00f5es irregulares de banhados, extra\u00e7\u00e3o mineral, pesca predat\u00f3ria na piracema, destrui\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o ciliar, dep\u00f3sito de areia e lixo.<br \/>\nBoa parte dos 190 km de extens\u00e3o do rio dos Sinos est\u00e1 comprometida. A bacia hidrogr\u00e1fica possui uma \u00e1rea de 3.820 km2, correspondendo \u00e0 4,5% da bacia hidrogr\u00e1fica do Gua\u00edba e 1,5% da \u00e1rea total do Estado do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p align=\"justify\">Suas nascentes est\u00e3o localizadas na Serra Geral, no munic\u00edpio de Cara\u00e1, a cerca de 900 metros de altitude correndo no sentido leste-oeste at\u00e9 a cidade de Novo Hamburgo, desembocando no delta do rio Jacu\u00ed entre as ilhas Grande dos Marinheiros e das Gar\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Em dois anos, 313 empresas multadas<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Depois do desastre ambiental no Rio dos Sinos em 7 de outubro, a Fepam autuou seis ind\u00fastrias, entre os dias 8 e 19: dois curtumes, duas papeleiras, uma empresa de alimentos, e uma qu\u00edmica. Ao todo, as multas aplicadas superam R$ 1,2 milh\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Foram punidas a UTRESA (Uni\u00e3o dos Trabalhadores em Res\u00edduos de Est\u00e2ncia Velha), a Tr\u00eas Portos S\/A \u2013 Ind\u00fastria de Papel, de Esteio, e a Gelita do Brasil, curtume de pele de porco, de Est\u00e2ncia Velha. As outras tr\u00eas infratoras n\u00e3o puderam ser identificadas ap\u00f3s obterem liminar no dia 19 de outubro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma delas \u00e9 a PSA Ind\u00fastria de Papel, de S\u00e3o Leopoldo. Essa empresa, ali\u00e1s, foi flagrada pela Fepam fazendo um novo despejo de carga poluidora no Rio dos Sinos, em 11 de novembro. As imagens foram mostradas na televis\u00e3o, mas o nome da empresa, mais uma vez, n\u00e3o foi citado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Funcion\u00e1rios da Fepam lembram que as seis companhias identificadas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas culpadas. \u201cN\u00e3o vamos conseguir encontrar todas as respons\u00e1veis. Mas atrav\u00e9s de an\u00e1lises de proced\u00eancias, identificamos essas seis cometendo irregularidades\u201d, explica o diretor t\u00e9cnico Jackson Muller.<\/p>\n<p align=\"justify\">O fato \u00e9 que apenas nos \u00faltimos dois anos, em 1.283 vistorias, o \u00f3rg\u00e3o ambiental multou 313 empresas de 30 munic\u00edpios. Todas essas companhias estavam infringindo a lei, despejando res\u00edduos t\u00f3xicos sem tratamento no rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">A Funda\u00e7\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental do Rio Grande do Sul informa a localiza\u00e7\u00e3o e a atividade dos autuados, mas n\u00e3o libera o nome.A fiscaliza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o governamental \u00e9 feita conforme o volume de efluentes de cada empresa. At\u00e9 20 metros c\u00fabicos por dia \u00e9 fiscalizada semestralmente, mais de 20 metros c\u00fabicos\/dia \u00e9 mensal. S\u00e3o feitas coletas para an\u00e1lise da \u00e1gua: Ph, temperatura, DQO, presen\u00e7a de metais pesados.<\/p>\n<p align=\"justify\">A polui\u00e7\u00e3o industrial chega diretamente ao Sinos, mas tamb\u00e9m des\u00e1gua nele, atrav\u00e9s de pequenos cursos d\u2019\u00e1gua como o arroio S\u00e3o Joaquim, Cruzinha, Port\u00e3o, Jo\u00e3o Correia Pinto, Gauchinho, Pampa e outros nos quais v\u00e1rias empresas lan\u00e7am seus efluentes. \u201cAs demandas cresceram exponencialmente e a capacidade do rio \u00e9 a mesma, ou at\u00e9 inferior, porque ele tem menos \u00e1gua\u201d, diz Muller.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14617\" aria-describedby=\"caption-attachment-14617\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2006\/11\/poluicao-sinos.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14617\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2006\/11\/poluicao-sinos.jpg\" alt=\"Maior desastre ambiental dos \u00faltimos 40 anos na Bacia do Rio dos Sinos matou peixes de 18 esp\u00e9cies | Fotos: Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"500\" height=\"375\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-14617\" class=\"wp-caption-text\">Maior desastre ambiental dos \u00faltimos 40 anos na Bacia do Rio dos Sinos matou peixes de 18 esp\u00e9cies | Fotos: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">As seis empresas autuadas pela Fepam, entre 8 e 19 de outubro de 2006:<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><em><strong>1-Liminar concedida pela Pretora da 2\u00aa Vara Civil de S\u00e3o Leopoldo em 19\/10\/06 \u2013 14h:40 min<br \/>\n(impedido de divulgar)\u00a0&#8211;\u00a0R$ 131.175,00<br \/>\n<\/strong><\/em><strong><span style=\"color: #666666\">2-Liminar concedida pelo Juiz de Direito Pela 3\u00aa Vara Civel de S\u00e3o Leopoldo em 19\/10\/06 -14h:20min (impedido de divulgar) \u00a0 &#8211;\u00a0R$ 166.086,00<br \/>\n<\/span><\/strong><em><strong>3-U.T.R.E.S.A \u2013 Uni\u00e3o dos Trabalhadores em Res\u00edduos de Est\u00e2ncia Velha\u00a0Est\u00e2ncia Velha\u00a0 R$ 463.386,00<br \/>\n<\/strong><\/em><strong><span style=\"color: #666666\">4-TRES PORTOS S\/A &#8211; INDUSTRIA DE PAPEL\u00a0Esteio\u00a0 R$ 109.423,34<br \/>\n<\/span><\/strong><strong><em>5-GELITA DO BRASIL LTDA (curtimento de pele de porco, alta carga org\u00e2nica) \u00a0Est\u00e2ncia Velha\u00a0\u00a0R$ 158.604,00<br \/>\n<\/em><span style=\"color: #666666\">6- Liminar concedida pelo Juiz de Direito pela 3\u00aa Vara Civel de S\u00e3o Leopoldo em 19\/10\/06 -14h:20min (impedido de divulgar)\u00a0&#8211;\u00a0R$ 188.432,00<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #333333;font-size: x-small\">Valor total das multas \u00a0R$ 1.217.106,63<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Canoas e Campo Bom lideram a lista<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Dos 32 munic\u00edpios que fazem parte da Bacia do Rio dos Sinos, apenas Glorinha e Cara\u00e1, onde se localiza a nascente, n\u00e3o t\u00eam empreendimentos autuados pela Fepam nos \u00faltimos dois anos. A lista \u00e9 liderada por Canoas, que registra 57 empresas autuadas, a maior parte do setor de transporte rodovi\u00e1rio de produtos e ou res\u00edduos perigosos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em segundo lugar, est\u00e1 Campo Bom, que apresenta 38 companhias de diversos ramos multadas por cometerem irregularidades com preju\u00edzos ao meio ambiente. S\u00e3o empresas como f\u00e1bricas de cal\u00e7ados, de artefatos de pl\u00e1sticos, de produtos qu\u00edmicos, entre outras. A lista ainda tem Cachoeirinha (27 ocorr\u00eancias), Gravata\u00ed (25 autuados), Port\u00e3o e S\u00e3o Leopoldo (23 empresas multadas, cada), Novo Hamburgo (22 ocorr\u00eancias), Est\u00e2ncia Velha (16), Gramado (12), Esteio (10) e Santo Ant\u00f4nio da Patrulha (10).<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Curtumes e f\u00e1bricas de cal\u00e7ado ainda s\u00e3o vil\u00f5es<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Entre as atividades mais poluidoras que foram multadas pela Fepam entre 2004 e outubro de 2006 na Bacia do Rio dos Sinos, destaca-se o ramo coureiro-cal\u00e7adista. As f\u00e1bricas de cal\u00e7ado, componentes para cal\u00e7ados, acabamento em couro e curtume completo somam 39 empreendimentos autuados.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outros ramos tamb\u00e9m representativos s\u00e3o: com\u00e9rcio varejista de combust\u00edveis (postos de gasolina), que somou 23 ocorr\u00eancias; transporte rodovi\u00e1rio de produtos e ou res\u00edduos perigosos (19); f\u00e1bricas de artefatos de material pl\u00e1stico (16); f\u00e1bricas de produtos qu\u00edmicos (10); e f\u00e1bricas de artefatos de papel (7).<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"intertit\">Rio dos Sinos, v\u00edtima antiga<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">A polui\u00e7\u00e3o do Rio dos Sinos pelas ind\u00fastrias e as seguidas mortandades de peixes. Era exatamente este um dos temas de Henrique Lu\u00eds Roessler h\u00e1 meio s\u00e9culo, quando ele come\u00e7ou a publicar no Correio do Povo as suas cr\u00f4nicas, pioneiras do ambientalismo no Brasil.<\/p>\n<p align=\"justify\">Sua atualidade \u00e9 atestada pelas manchetes e as fotografias nos jornais dos nossos dias. Ele mostra como o Sinos, manancial que nasce cristalino e em cujas margens se desenvolveu a coloniza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 no Rio Grande do Sul, \u00e9 uma v\u00edtima antiq\u00fc\u00edssima do descaso.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cEm 1924, quando se comemorou o centen\u00e1rio da Imigra\u00e7\u00e3o Alem\u00e3, j\u00e1 havia 700 curtumes instalados junto \u00e0 bacia dos Sinos\u201d, diz o autor do livro. Em 1957, Roessler j\u00e1 denunciava a mortandade de peixes e denunciava as ind\u00fastrias e prefeituras.<\/p>\n<p align=\"justify\">O ecologista, segundo Centeno, atribu\u00eda a quatro fatores a degrada\u00e7\u00e3o dos recursos naturais no Rio Grande do Sul: inefici\u00eancia do governo, o descaso dos pol\u00edticos, atitude predat\u00f3ria dos empres\u00e1rios e a passividade da sociedade. \u201cTodos esses fatores est\u00e3o presentes nos acidentes ambientais de hoje\u201d, diz Centeno. \u00c9 sempre assim: \u201cQuando acontece, h\u00e1 uma gritaria, as empresas pedem tempo e prometem resolver, depois o assunto cai no esquecimento, at\u00e9 acontecer de novo\u201d, resume.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elmar Bones O diretor t\u00e9cnico da Fepam, Jackson Muller, \u00e9 bi\u00f3logo. Mas naquela manh\u00e3 ele mais parecia um m\u00e9dico \u00e0 beira de um paciente terminal. Pr\u00f3ximo a seus p\u00e9s, na beira d\u2019\u00e1gua, peixinhos se debatiam, asfixiados. A trinta metros, no meio do rio, um aerador agitava a \u00e1gua para melhorar a oxigena\u00e7\u00e3o. \u201cEle ainda est\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":14625,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-800","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-cU","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/800","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=800"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/800\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}