{"id":808,"date":"2006-12-18T14:32:02","date_gmt":"2006-12-18T17:32:02","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/2006\/12\/18\/estudo-mostra-que-passivo-do-amianto-no-rs-e-realidade-ocultada\/"},"modified":"2006-12-18T14:32:02","modified_gmt":"2006-12-18T17:32:02","slug":"estudo-mostra-que-passivo-do-amianto-no-rs-e-realidade-ocultada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/estudo-mostra-que-passivo-do-amianto-no-rs-e-realidade-ocultada\/","title":{"rendered":"Estudo mostra que passivo do amianto no RS \u00e9 realidade ocultada"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><strong>Cl\u00e1udia Viegas, especial para o J\u00c1<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O Rio Grande do Sul est\u00e1 na rota dos Estados brasileiros que dever\u00e3o enfrentar o passivo humano-ambiental causado pela exposi\u00e7\u00e3o de trabalhadores ao amianto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esta \u00e9 uma das constata\u00e7\u00f5es indiretas da tese de doutorado &#8220;A constru\u00e7\u00e3o da desprote\u00e7\u00e3o social no contexto hist\u00f3rico-contempor\u00e2neo do trabalhador exposto ao amianto&#8221;, da pesquisadora Dolores Sanches W\u00fcnsch, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUCRS).<\/p>\n<p align=\"justify\">Tal conclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma evid\u00eancia, mas fruto de um processo de reconstru\u00e7\u00e3o do quadro hist\u00f3rico-social cuja recomposi\u00e7\u00e3o vem sendo sistematicamente dificultada pela falta de informa\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas sobre o adoecimento de trabalhadores expostos \u00e0 fibra e pela invisibilidade do processo de adoecimento \u2013 os males causados pelo amianto n\u00e3o s\u00e3o facilmente detect\u00e1veis e demoram, em m\u00e9dia, 20 a 30 anos para se manifestar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m disto, \u00e9 corrente a id\u00e9ia err\u00f4nea de que basta cessar a exposi\u00e7\u00e3o para que cesse igualmente o risco de adoecimento. Tal no\u00e7\u00e3o contribui ainda mais para que a quest\u00e3o dos riscos do uso do amianto seja relegada, impedindo o desvelamento da real situa\u00e7\u00e3o das pessoas que j\u00e1 tiveram ou t\u00eam contato com o mineral.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #cc3300\"><strong>Mecanismos ocultados<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Segundo Dolores, &#8220;o amianto \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio que est\u00e1 para detonar nos pr\u00f3ximos 20 a 30 anos nos pa\u00edses em desenvolvimento&#8221;. Isto porque o uso do mineral intensificou-se a partir dos anos 70 e 80 e mesmo com o recente banimento em alguns estados, no caso do Brasil, o efeito da lat\u00eancia passar\u00e1 a ser experimentado. &#8220;E possivelmente esses trabalhadores que estar\u00e3o doentes estar\u00e3o tamb\u00e9m sem prote\u00e7\u00e3o social, pois eles passam por diferentes empregos, v\u00e3o adoecendo e perdem o v\u00ednculo&#8221;, observa a pesquisadora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m de n\u00e3o haver dados da Previd\u00eancia Social, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ou do Minist\u00e9rio do Trabalho que mapeiem adequadamente o contingente de doentes por exposi\u00e7\u00e3o ao amianto, h\u00e1 outros mecanismos de oculta\u00e7\u00e3o social do problema. Um deles \u00e9 a dificuldade de nexo causal, ou seja, de associa\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o no ambiente de trabalho. Outro \u00e9 a &#8220;descren\u00e7a sobre o real risco de adoecimento, pelo lado do empregador, e da inexist\u00eancia de doen\u00e7as associadas, pelos \u00f3rg\u00e3os governamentais&#8221;. E h\u00e1 tamb\u00e9m uma falsa associa\u00e7\u00e3o de que a doen\u00e7a esteja relacionada somente ao per\u00edodo temporal de exposi\u00e7\u00e3o, ou seja, &#8220;durante a utiliza\u00e7\u00e3o do amianto no processo produtivo&#8221;. Para complicar ainda mais, falta o monitoramento, por parte de a\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia \u00e0 sa\u00fade, das pessoas j\u00e1 comprovadamente doentes.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Mortes no RS<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A pesquisa de Dolores voltou-se \u00e0 realidade de uma grande ind\u00fastria do setor de autope\u00e7as localizada na regi\u00e3o da Serra ga\u00facha. O estudo teve in\u00edcio em 2000, ano em que foi realizado, em Osasco (SP), um congresso mundial sobre doen\u00e7as relacionadas ao amianto. &#8220;Foi ent\u00e3o que constatamos que, no Rio Grande do Sul, o setor de autope\u00e7as \u00e9 o mais exposto \u00e0 fibra&#8221;, afirma. Mesmo assim, n\u00e3o h\u00e1 muitos dados sobre o adoecimento de trabalhadores em empresas desse setor. &#8220;Segundo o N\u00facleo de Informa\u00e7\u00f5es sobre Sa\u00fade (NIS) da Secretaria de Sa\u00fade do Estado, de 1999 a 2003, foram registradas 25 mortes por mesotelioma (tumor maligno) e duas por asbestose (fibrose pulmonar). No entanto, n\u00e3o se disp\u00f5e de maiores informa\u00e7\u00f5es sobre esses \u00f3bitos, mas apenas a faixa et\u00e1ria e a freq\u00fc\u00eancia por munic\u00edpio. Essas informa\u00e7\u00f5es sinalizam, de forma imprescind\u00edvel, a necessidade de se promover vigil\u00e2ncia em sa\u00fade voltada, em especial, para as patologias inerentes \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e que possam se manifestar a longo prazo, bem como pela completa aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es sobre os trabalhadores vitimados, como se constatou na busca ativa dos que foram a \u00f3bito, a qual foi realizada junto \u00e0s Secretarias de Sa\u00fade dos munic\u00edpios relacionados&#8221;, analisa Dolores.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Neblina e interdi\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A empresa alvo do estudo conta com uma m\u00e9dia de 2 mil trabalhadores e foi fundada na d\u00e9cada de 50. Dolores chegou \u00e0s informa\u00e7\u00f5es sobre as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade dos trabalhadores locais por meio de pesquisa indireta e do Sindicato dos Trabalhadores na Ind\u00fastria Metal\u00fargica de Caxias do Sul. &#8220;Muitos trabalhadores passaram por essa empresa, e a maior exposi\u00e7\u00e3o ocorreu nas d\u00e9cadas de 80 e 90, quando o amianto foi utilizado em maior quantidade&#8221;, relata. &#8220;O amianto chegava em estado bruto, era prensado e cortado manualmente para a produ\u00e7\u00e3o de pastilhas de freio e outros tipos de autope\u00e7as&#8221;, afirma.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na d\u00e9cada de 80, o sindicato come\u00e7ou um trabalho com os expostos ao amianto, mas n\u00e3o havia uma iniciativa por parte da empresa. &#8220;Em 1991, a DRT [Delegacia Regional do Trabalho] interditou um setor da empresa porque n\u00e3o havia exaustores, nem controle algum da exaust\u00e3o&#8221;, lembra Dolores. De acordo com ela, o fato foi desencadeado principalmente porque a concentra\u00e7\u00e3o de fibras no ambiente industrial estava muito al\u00e9m do permitido pela Norma Regulamentadora (NR) 15 do Minist\u00e9rio do Trabalho, que trata de insalubridade. &#8220;A norma prev\u00ea como limite de concentra\u00e7\u00e3o para exposi\u00e7\u00e3o do trabalhador a quantidade de duas fibras por cent\u00edmetro c\u00fabico. Na \u00e9poca, foi realizada uma medi\u00e7\u00e3o e constatou-se haver 50 fibras por cent\u00edmetro c\u00fabico. Parecia haver uma neblina permanente no local&#8221;, conta.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Controle ou banimento?<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Foi a partir da d\u00e9cada de 90, quando a empresa ampliou sua atua\u00e7\u00e3o junto ao mercado exportador, que intensificou-se tamb\u00e9m a press\u00e3o pelo banimento do uso do amianto. Contudo, de parte do setor industrial, passou a se fortalecer a tese do uso controlado, sob o argumento de que, com os devidos cuidados de controle ambiental, a fibra n\u00e3o traria agravos \u00e0 sa\u00fade. Tal sustenta\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio j\u00e1 em 1986, com a Conven\u00e7\u00e3o 162, resultante da 72\u00aa reuni\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), a qual estabelece normas sobre a utiliza\u00e7\u00e3o do amianto em condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. No mesmo ano, a Recomenda\u00e7\u00e3o 172 da OIT emitiu recomenda\u00e7\u00f5es de diretrizes para a utiliza\u00e7\u00e3o do mineral em condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. E, em 1989, foi firmado um acordo nacional pelo uso do amianto em condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, o qual foi assinado pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI) e pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Ind\u00faistria (CNTI).<\/p>\n<p align=\"justify\">Esse acordo \u00e9 revisto a cada tr\u00eas anos e vem sendo homologado, sistematicamente, pelo Minist\u00e9rio do Trabalho. A id\u00e9ia de controle, contudo, n\u00e3o ganha apoio em uma boa parcela da sociedade. &#8220;A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea) defende que n\u00e3o existe comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de que o uso controlado n\u00e3o seja nocivo&#8221;, aponta Dolores. Mesmo assim, em 1995 foi aprovada, em n\u00edvel nacional, a Lei 9.055, a qual garante o uso do amianto, mantendo as normas relativas \u00e0 crisotila (um dos tipos dessa fibra), segundo os acordos internacionais ratificados. Essa lei, regulamentada pelo Decreto 2.350, de 15 de outubro de 1997, regula o uso controlado do amianto no territ\u00f3rio nacional, disciplinando a extra\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o, a utiliza\u00e7\u00e3o, a comercializa\u00e7\u00e3o e o transporte, restringindo \u00e0 variedade crisotila. Na pr\u00e1tica, ela traduz o posicionamento do governo brasileiro em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 proposta das centrais sindicais, que propunham a substitui\u00e7\u00e3o do mineral, mesmo que gradativamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Essa legisla\u00e7\u00e3o estabelece tamb\u00e9m a obrigatoriedade de encaminhar ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e aos sindicatos representativos dos trabalhadores a listagem completa dos empregados, constando a indica\u00e7\u00e3o do setor, da fun\u00e7\u00e3o, da idade, da data de admiss\u00e3o e da avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica peri\u00f3dica com o respectivo diagn\u00f3stico, bem como a necessidade da realiza\u00e7\u00e3o do acordo entre sindicatos de trabalhadores e empresas com observ\u00e2ncia de normas de seguran\u00e7a e sa\u00fade no trabalho, os quais dever\u00e3o ser encaminhados para as Delegacias Regionais do Trabalho&#8221;, explica Dolores. Ela acrescenta que a mesma lei &#8220;estabelece a obrigatoriedade de as empresas se cadastrarem junto ao Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, sendo que atualmente, no Brasil \u2013 dados de 2004 \u2013, 168 possuem cadastro, cujo n\u00famero obtido deve ser obrigatoriamente apresentado quando da aquisi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria-prima junto ao fornecedor, que, por sua vez, s\u00f3 poder\u00e1 entregar a mesma \u00e0s empresa cadastradas&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Substitui\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Mesmo antes de entrar em vigor o uso controlado, empresas do setor de autope\u00e7as que usam amianto \u2013 entre as quais a que foi alvo da pesquisa \u2013 j\u00e1 vinham trabalhando pela substitui\u00e7\u00e3o do produto. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio em 1994. Nesse ano, foi consolidado um acordo que permitia a empresas do ramo adotarem medidas visando a substituir o mineral. &#8220;Na ocasi\u00e3o, por iniciativa do Minist\u00e9rio do Trabalho, foi criada uma comiss\u00e3o interinstitucional e firmado um protocolo de inten\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o de estudos conjuntos envolvendo as entidades empresariais e de trabalhadores, visando a substitui\u00e7\u00e3o do amianto nesse setor de industrializa\u00e7\u00e3o&#8221;, recorda-se Dolores. Ela acrescenta que participaram da comiss\u00e3o coordenadora dos trabalhos as seguintes entidades: Central \u00danica dos Trabalhadores, For\u00e7a Sindical, Sindipe\u00e7as (patronal), Fundacentro e Minist\u00e9rio do Trabalho. &#8220;A comiss\u00e3o concluiu os trabalhos propondo, de forma consensual, a substitui\u00e7\u00e3o do amianto na fabrica\u00e7\u00e3o de autope\u00e7as at\u00e9 31 de dezembro de 1997 e o t\u00e9rmino da comercializa\u00e7\u00e3o em 30 de junho de 1998. A proposta de acordo para a substitui\u00e7\u00e3o do amianto no setor de autope\u00e7as, por\u00e9m, n\u00e3o extrapolou as fronteiras de S\u00e3o Paulo.&#8221; Observou-se, ent\u00e3o, uma franca contradi\u00e7\u00e3o, pois, segundo o Sindicato dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias Metal\u00fargicas e de Material El\u00e9trico de Osasco e regi\u00e3o, &#8220;os principais fabricantes informaram, na \u00e9poca, que se encontravam aptos a fabricar e a comercializar todos os seus produtos automotivos sem amianto em quatro anos, bem como, desde 1985, j\u00e1 forneciam, para fins de exporta\u00e7\u00e3o, produtos isentos do mineral&#8221;, assinala a pesquisadora.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Estados proibiram isoladamente<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Em alguns estados, a partir de 2001, foram aprovadas leis de proibi\u00e7\u00e3o do uso do amianto. Neles incluem-se S\u00e3o Paulo (nos munic\u00edpios de S\u00e3o Paulo, Osasco, Mogi Mirim, Bauru, S\u00e3o Caetano do Sul, Campinas e Ribeir\u00e3o Preto), Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. &#8220;Todas as leis cont\u00eam medidas de banimento progressivo da produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o. No Rio Grande do Sul, a lei estabelece tr\u00eas anos para os estabelecimentos industriais e quatro anos para o comerciais e adequarem a ela&#8221;, afirma a pesquisadora. Contudo, n\u00e3o faltaram na Justi\u00e7a A\u00e7\u00f5es Diretas e Inconstitucionalidade (Adins) para contestar as leis estaduais, sob o argumento de tratar-se de mat\u00e9ria de compet\u00eancia federal.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Rio Grande do Sul<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">No Rio Grande do Sul, em junho de 2001, foi aprovada a Lei n\u00ba 11.643, que disp\u00f5e sobre a proibi\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de produtos \u00e0 base de amianto no Estado, concedendo tr\u00eas anos para as empresas industriais e quatro para os estabelecimentos comerciais. A lei vem acompanhada de um protocolo de vigil\u00e2ncia \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o e dos trabalhadores expostos, o qual foi apresentado na Oficina Nacional. A Secretaria de Sa\u00fade do Estado, atrav\u00e9s da Pol\u00edtica de Aten\u00e7\u00e3o Integral \u00e0 Sa\u00fade do Trabalhador (PAIST), a partir de algumas iniciativas conjuntas com a DRT, passou a visitar as empresas que utilizam o mineral, exigindo informa\u00e7\u00f5es sobre os trabalhadores expostos, em especial, o monitoramento quanto aos exames peri\u00f3dicos. Num mapeamento inicial, a Secretaria de Sa\u00fade do Estado, com fonte no cadastro do Sebrae, constatou, em 2000, 23 empresas industriais que utilizavam o amianto como mat\u00e9ria-prima, num total de 2.333 trabalhadores expostos no Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">A Cidade de Caxias do Sul, na Serra ga\u00facha, era o local que apresentava o maior \u00edndice de trabalhadores expostos, totalizando 82%, dos postos de trabalho, ou seja, 1.917 trabalhadores estavam atuando, nessa data, em empresas metal\u00fargicas, na confec\u00e7\u00e3o, repara\u00e7\u00e3o e fabrica\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as e acess\u00f3rios para ve\u00edculos automotivos, como lonas e pastilhas de freios. Nesse mesmo ramo, foram encontrados mais 71 trabalhadores em outras regi\u00f5es do Estado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os demais expostos concentravam-se na Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre e atuavam na produ\u00e7\u00e3o de artefatos de fibrocimento e cimento para constru\u00e7\u00e3o, que tem como produto principal caixas d \u00e1gua, constituindo-se no segundo maior segmento de expostos, com 204 trabalhadores empregados. Outras empresas foram identificadas pelo cadastro com os seguintes produtos: fabrica\u00e7\u00e3o de estruturas pr\u00e9-moldadas de cimento armado, tubo de cimento amianto, artefatos de borracha para uso industrial, ve\u00edculos e m\u00e1quinas como anel de veda\u00e7\u00e3o e borracha de veda\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m confec\u00e7\u00e3o de roupas profissionais imperme\u00e1veis.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Poucos realizam exames<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A legisla\u00e7\u00e3o que obriga a realiza\u00e7\u00e3o de exames p\u00f3s-demissionais, baseada em conhecimento cient\u00edfico, tem-se revelado inoperante. Isto porque o n\u00famero de trabalhadores que realizam o p\u00f3s-demissional \u00e9 m\u00ednimo. &#8220;A partir de informa\u00e7\u00f5es obtidas junto \u00e0 Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade do Estado do Rio Grande do Sul, estima-se que apenas entre 5% e 30% dos trabalhadores voltam \u00e0 empresa para a realiza\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica dos exames, de acordo com o ramo produtivo&#8221;, aponta Dolores. Esse exame deveria ser feito a cada tr\u00eas anos at\u00e9 serem completados 30 anos do fim da exposi\u00e7\u00e3o do trabalhador \u00e0 fibra. &#8220;Tivemos situa\u00e7\u00f5es bastante contradit\u00f3rias. Dois trabalhadores praticamente da mesma idade, com diagn\u00f3stico de mesotelioma. Um foi reconhecido pela empresa, o outro n\u00e3o. Esse \u00faltimo fez o diagn\u00f3stico fora&#8221;, compara a pesquisadora. Conforme ela, muitas vezes os exames m\u00e9dicos s\u00e3o superficiais. &#8220;N\u00e3o se pergunta se o trabalhador este exposto ao amianto, mas se ele era ou n\u00e3o fumante&#8221;, conta Dolores, dizendo que essa \u00e9 uma das estrat\u00e9gias para procurar desvincular doen\u00e7as j\u00e1 manifestas da exposi\u00e7\u00e3o ao amianto. &#8220;Os m\u00e9dicos n\u00e3o t\u00eam preparo, ou ent\u00e3o t\u00eam a id\u00e9ia de que n\u00e3o existem doen\u00e7as relacionadas \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o ao amianto&#8221;, ressalta Dolores. &#8220;Tem que haver uma legisla\u00e7\u00e3o mais rigorosa e uma pol\u00edtica de reconhecimento legal&#8221;, defende.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">Invisibilidade<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A grande conclus\u00e3o da tese de Dolores W\u00fcnsch est\u00e1 na grave invisibilidade criada e mantida culturalmente em torno do problema da exposi\u00e7\u00e3o ao amianto e seus efeitos. &#8220;Chama a aten\u00e7\u00e3o, na tese, o nexo silenciado. Na Europa, chamam de conspira\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio. \u00c9 como se, por onde and\u00e1ssemos, enxerg\u00e1ssemos o que a sociedade n\u00e3o v\u00ea, porque h\u00e1 uma secundariza\u00e7\u00e3o do papel do trabalhador no capitalismo. H\u00e1 uma dispers\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e, quanto maior a dispers\u00e3o, mais distante se fica do processo. Todo mundo conhece algu\u00e9m que j\u00e1 morreu por causa do amianto, mas essas pessoas est\u00e3o em tempos e em espa\u00e7os diferentes. E ao dizerem que agora n\u00e3o se usa mais amianto, querem colocar um ponto final em algo que n\u00e3o acabou, pois a lat\u00eancia dos efeitos persiste&#8221;, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udia Viegas, especial para o J\u00c1 O Rio Grande do Sul est\u00e1 na rota dos Estados brasileiros que dever\u00e3o enfrentar o passivo humano-ambiental causado pela exposi\u00e7\u00e3o de trabalhadores ao amianto. Esta \u00e9 uma das constata\u00e7\u00f5es indiretas da tese de doutorado &#8220;A constru\u00e7\u00e3o da desprote\u00e7\u00e3o social no contexto hist\u00f3rico-contempor\u00e2neo do trabalhador exposto ao amianto&#8221;, da pesquisadora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-808","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-d2","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=808"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/808\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}