{"id":812,"date":"2006-12-26T14:41:00","date_gmt":"2006-12-26T17:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=812"},"modified":"2006-12-26T14:41:00","modified_gmt":"2006-12-26T17:41:00","slug":"cooperativas-agricolas-de-osorio-mortas-pelo-empreendedorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/cooperativas-agricolas-de-osorio-mortas-pelo-empreendedorismo\/","title":{"rendered":"Cooperativas agr\u00edcolas de Os\u00f3rio: mortas pelo empreendedorismo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse, especial para o J\u00c1<\/span><br \/>\nEmbora j\u00e1 n\u00e3o tenha o mesmo sortimento de \u00e9pocas mais pr\u00f3speras, o Armaz\u00e9m Santo Ant\u00f4nio continua sendo um dos grandes pontos de encontro da velha guarda de Os\u00f3rio. Aposentada ou n\u00e3o, uma maioria de veteranos se acostumou a buscar aqui a mais tradicional parceria dos sub\u00farbios brasileiros &#8212; pinga boa e conversa fiada \u2013 em que tantos apostam simplesmente para passar o tempo ou com a esperan\u00e7a de ganhar alguma coisa mediante presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o ou troca de favor.<br \/>\nSempre nas m\u00e3os do mesmo dono, o armaz\u00e9m come\u00e7ou aqui h\u00e1 40 anos, quando Adolfo Coelho largou o emprego de chefe da sacaria da Cooperativa Riz\u00edcola Osoriense e se estabeleceu em frente, na esquina da rua Firmiano Os\u00f3rio com a RS-30, a rodovia que liga Tramanda\u00ed a Santo Ant\u00f4nio da Patrulha, sua terra natal. O tr\u00e2nsito \u00e9 naturalmente mais intenso do que h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, mas o panorama n\u00e3o mudou muito nessa banda (oeste) da cidade. Os galp\u00f5es da extinta cooperativa continuam a dominar a paisagem, mas h\u00e1 muito tempo t\u00eam novos donos e usos diversos.<br \/>\nNascido em 1941, Coelho conhece esse ponto desde crian\u00e7a, quando passava por aqui para vender verduras aos veranistas de Tramanda\u00ed, como faziam tantos sitiantes das v\u00e1rzeas litor\u00e2neas e das encostas e vales da Serra Geral. Ia de carro\u00e7a com o pai chacareiro em Santo Ant\u00f4nio da Patrulha. Foi assim por alguns anos &#8212; at\u00e9 se convencer, j\u00e1 rapazote, de que n\u00e3o h\u00e1 futuro para empreendimentos em que um dos s\u00f3cios gosta mais de beber do que de trabalhar.<br \/>\nAssim que se sentiu maduro para aventurar-se sozinho no mundo do trabalho, separou-se do pai e virou trabalhador volante da agricultura. Uma de suas costumeiras maratonas era cortar arroz a foice nas v\u00e1rzeas de Capivari e Palmares do Sul, no extremo norte da Lagoa dos Patos.<br \/>\nNa primeira vez em que se deslocou para esses distantes distritos de Os\u00f3rio &#8212; hoje munic\u00edpios &#8211;, viajou de carona por um caminho de terra que passava por Viam\u00e3o, nos arredores da capital, pois n\u00e3o havia rodovia que prestasse entre as comunidades do litoral norte. S\u00f3 depois da primeira safra aprendeu que desde 1921 havia um trem di\u00e1rio ligando Palmares do Sul a Os\u00f3rio. Naquele momento, por\u00e9m &#8212; no in\u00edcio do governo de Leonel Brizola (1959-1963) &#8212; a ferrovia j\u00e1 estava desativada. O governo JK (1956-1961) apostava tudo nas rodovias, abrindo caminho para a produ\u00e7\u00e3o da emergente ind\u00fastria automobil\u00edstica.<br \/>\nFoi nesse momento que Coelho se deu conta de quanto a economia da regi\u00e3o, baseada no cultivo do arroz e na cria\u00e7\u00e3o de gado, carecia de meios eficientes de transporte. Assim nasceu seu sonho de juntar dinheiro suficiente para comprar um caminh\u00e3o e viver de fretes encomendados por arrozeiros e pecuaristas.<br \/>\nEle demorou a realizar o projeto, mas conseguiu. Foi uma vit\u00f3ria conquistada aos poucos, degrau por degrau. Seu Coelho ap\u00f3ia o cotovelo no balc\u00e3o, p\u00f5e o queixo dentro da palma da m\u00e3o e come\u00e7a a recordar.<br \/>\nFoi no dia 1\u00ba de maio de 1961, depois de fazer muitos biscates nos bastidores da economia do litoral norte, que arranjou emprego no engenho da cooperativa de arroz, um dos maiores empreendimentos de Os\u00f3rio, na \u00e9poca. Mais de 50 pessoas tocavam o secador e o descascador da cooperativa. Fundada em fevereiro de 1960, a empresa cooperativista chegou a ter 324 s\u00f3cios. Numa daquelas safras memor\u00e1veis, recebeu 320 mil sacas de arroz, sendo obrigada a estocar o produto em armaz\u00e9ns alheios, como os dep\u00f3sitos vazios da ferrovia Palmares-Os\u00f3rio. At\u00e9 no aeroporto se guardou arroz, lembra um ex-s\u00f3cio da CRO.<br \/>\nEm 1966, apoiado pela esposa osoriense, Coelho largou o emprego e abriu o armaz\u00e9m. Por um motivo ou outro muita gente procurava o Armaz\u00e9m Santo Ant\u00f4nio: ou para fazer compra de secos e molhados, ou para tomar uma boa pinga dos velhos alambiques litor\u00e2neos, ou t\u00e3o somente para encontrar os conhecidos e trocar informa\u00e7\u00f5es sobre oportunidades de neg\u00f3cios.<br \/>\nNa d\u00e9cada de 1970, depois da inaugura\u00e7\u00e3o da pista dupla da BR-290, a famosa Free Way, que reduziu sensivelmente o tempo de viagem da capital para as praias, Coelho comprou uma camioneta Ford F-100 para entrega de mantimentos aos fregueses do armaz\u00e9m. Depois comprou um caminh\u00e3o e come\u00e7ou a puxar arroz para os conhecidos da Riz\u00edcola, que j\u00e1 come\u00e7ava a sofrer a concorr\u00eancia de diversos engenhos privados, todos instalados aqui por perto, na antiga Estrada da Perua.<br \/>\nEssa \u00e9poca foi marcada especialmente pela expans\u00e3o da Cerealista Osoriense, que operava na beira da RS-30, junto ao trevo de liga\u00e7\u00e3o com a Free Way. Os veranistas de fim-de-semana, que anteriormente paravam no centro de Os\u00f3rio para comprar p\u00e3o, p\u00e9-de-moleque, roscas de polvilho, lingui\u00e7a e queijo colonial, come\u00e7aram a passar direto. O com\u00e9rcio da cidade ainda era dominado pela tradicional Casa Ramos, que ocupava um quarteir\u00e3o central e vendia de tudo, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a Free Way, complementada pela BR-101, intensificou a tradicional caracter\u00edstica osoriense como ponto de passagem. Permaneceu por\u00e9m a antiga identidade agr\u00edcola da cidade.<br \/>\nQuando n\u00e3o era tempo de colheita de arroz, Adolfo Coelho pegava uns fretes vadios nos arredores. No inverno chegou a carregar cana para a usina da Agasa (A\u00e7\u00facar Ga\u00facho S.A.), fundada no in\u00edcio dos anos 60 \u00e0s margens da Lagoa dos Barros, em terras de Santo Ant\u00f4nio da Patrulha. Fora da\u00ed, estava sempre no balc\u00e3o do armaz\u00e9m. Por isso tem na mem\u00f3ria muitos epis\u00f3dios ligados \u00e0 cooperativa instalada do outro lado da rua. Como aquela vez em que o capataz da cooperativa, Adalberto de Tal, vulgo Beto, atravessou a rodovia, apressado. Estranho aquilo, sair do trabalho, naquela hora, duas e meia da tarde.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Pouco depois veio a not\u00edcia<\/span><br \/>\nO capataz, homem esquentado, tinha feito uma bobagem: matou com uma \u00fanica facada no cora\u00e7\u00e3o o gerente Rudi Garske. Atarantado, Beto teria ido pra casa tomar um banho antes de se entregar \u00e0 pol\u00edcia. Diante do filho ca\u00e7ula, perdeu o rumo, pegou o rev\u00f3lver e deu um tiro no pr\u00f3prio ouvido.<br \/>\nMuitos freq\u00fcentadores do Armaz\u00e9m Santo Ant\u00f4nio ainda se lembram desse epis\u00f3dio, uma das maiores trag\u00e9dias da hist\u00f3ria de Os\u00f3rio. At\u00e9 parece que era sina do cooperativismo osoriense atrair esse tipo de crime. Muitos anos depois da dupla trag\u00e9dia da Riz\u00edcola, outro assassinato marcou o encerramento das atividades da Cooperativa de Carnes do Litoral, a outra que tamb\u00e9m tinha sede em Os\u00f3rio.<br \/>\nAs duas cooperativas tinham s\u00f3cios em comum e chegaram a misturar-se (a Riz\u00edcola incorporou ativos da Coocarnes, bem mais antiga), mas n\u00e3o resistiram ao progresso, marcado pelo empreendedorismo individual. Antigos moradores de Os\u00f3rio contam que alguns cabe\u00e7as da Coocarnes colocavam seus bois gordos diretamente em a\u00e7ougues do litoral, enquanto cobravam de outros associados a entrega da produ\u00e7\u00e3o no abatedouro da cooperativa.<br \/>\nDesse jeito, n\u00e3o houve como impedir que a vaca fosse para o brejo, junto com boa parte do sistema cooperativista ga\u00facho, atingido em cheio pela crise do balan\u00e7o de pagamentos do Brasil, em 1982. Para n\u00e3o fechar, a Coocarnes arrendou suas instala\u00e7\u00f5es a um aventureiro vindo de outro estado sulino. N\u00e3o demorou, o arrendat\u00e1rio foi morto a tiro por capangas de um fazendeiro descontente com o n\u00e3o pagamento de uma boiada. Acabou assim a cooperativa dos produtores de carne do litoral norte. O que resta do cooperativismo de produ\u00e7\u00e3o em Os\u00f3rio \u00e9 uma usina da Corlac que manipula leite bovino.<br \/>\nA Riz\u00edcola prolongou sua agonia at\u00e9 1996, quando foi liquidada. Na m\u00e9dia hist\u00f3rica, ela recebia, secava, descascava e ensacava 10 milh\u00f5es de quilos de arroz por ano. A maior parte dessa produ\u00e7\u00e3o era vendida para o Rio e S\u00e3o Paulo, onde a marca Albatroz tinha freguesia certa.<br \/>\nO movimento da cooperativa arrozeira come\u00e7ou a cair depois que muitos agricultores financiados pelo Banco do Brasil passaram a instalar armaz\u00e9ns e secadores em suas pr\u00f3prias terras. Sem mais precisar da cooperativa, os s\u00f3cios foram se desligando. No final, restavam apenas 40. A d\u00edvida da CRO com o BB recaiu nas costas de nove s\u00f3cios, que ficaram conhecidos na cidade como \u201cO Grupo dos Nove\u201d.<br \/>\nAlguns deles lutam at\u00e9 hoje na Justi\u00e7a para n\u00e3o pagar a conta. Outros fizeram acordo para quitar sua d\u00edvida em vinte anos. \u00c9 o caso do \u00faltimo presidente Rodolfo Israel Scholl. No frigir dos ovos, restou-lhe um saldo devedor de R$ 84 mil, j\u00e1 parcialmente amortizado. Aos que pensam que o fardo lhe seja leve, ele afirma que vem pagando \u201cuns 11 mil reais por ano\u201d.<br \/>\nAos 65 anos, aposentado em tempo integral, Scholl j\u00e1 se livrou das atividades agr\u00edcolas, transferidas para o filho. Suas principais ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o as reuni\u00f5es do centro esp\u00edrita durante a semana e os jogos aos s\u00e1bados do Milion\u00e1rios Futebol Clube, time que fundou quando era mo\u00e7o.<br \/>\nOs pr\u00e9dios da CRO foram leiloados e est\u00e3o alugados. Um abriga a Serralheria Kassner, o outro hospeda a Oficina Mec\u00e2nica Entusiasta, especializada em jipes \u2013 uma das curti\u00e7\u00f5es osorienses.<br \/>\nNos fundos, um antigo galp\u00e3o virou cancha de esportes. Na fachada dos dois galp\u00f5es da frente, sob a tinta das pinturas mais recentes, ainda se pode ver, bem apagado, o emblema da Cooperativa Riz\u00edcola, marco inicial ou final da carreira de muita gente e tema recorrente das conversas dos botecos da vizinhan\u00e7a.<br \/>\nNo Armaz\u00e9m Santo Ant\u00f4nio, o expediente nunca termina antes das nove da noite. Assunto n\u00e3o falta: as safras, as chuvas, a seca, o frio, a temporada de ver\u00e3o, o valor dos fretes de caminh\u00e3o&#8230;Hoje com tr\u00eas caminh\u00f5es, dois deles dirigidos pelos filhos, Adolfo Coelho n\u00e3o enjeita servi\u00e7o, mesmo consciente de que os fretes nunca estiveram t\u00e3o por baixo, com tanto caminh\u00e3o vazio rodando de um lado para outro.<br \/>\nQuem tem paci\u00eancia para ouvir conversa fiada encontra aqui farto material para documentar a evolu\u00e7\u00e3o da cultura popular brasileira. Um dos assuntos emergentes \u00e9 a for\u00e7a do vento, principalmente depois da grande planta\u00e7\u00e3o de cata-ventos feita por espanh\u00f3is e alem\u00e3es, especialistas na produ\u00e7\u00e3o de uma tal energia heli\u00f3tica, como dizem alguns cidad\u00e3os de Os\u00f3rio. Ou ser\u00e1 energia heli\u00e9trica?<br \/>\nSim, por aqui h\u00e1 quem acredite que a energia e\u00f3lica come\u00e7a com a letra H. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por efeito da pinga. O pessoal gosta tamb\u00e9m de cerveja, futebol e m\u00fasica. S\u00e3o famosos na vizinhan\u00e7a os churrascos promovidos pela AABA &#8212; Associa\u00e7\u00e3o dos Amigos do Bar do Adolfo. Quem duvida, veja as fotos expostas no mural, ao lado de bandeiras e posters do Inter e do Gr\u00eamio, numa das paredes internas do Armaz\u00e9m Santo Ant\u00f4nio. Embora seja colorado, Adolfo n\u00e3o discrimina os gremistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse, especial para o J\u00c1 Embora j\u00e1 n\u00e3o tenha o mesmo sortimento de \u00e9pocas mais pr\u00f3speras, o Armaz\u00e9m Santo Ant\u00f4nio continua sendo um dos grandes pontos de encontro da velha guarda de Os\u00f3rio. 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