{"id":859,"date":"2007-08-08T16:17:28","date_gmt":"2007-08-08T19:17:28","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=859"},"modified":"2007-08-08T16:17:28","modified_gmt":"2007-08-08T19:17:28","slug":"consumo-e-o-grande-tabu-da-midia-da-catastrofe-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/consumo-e-o-grande-tabu-da-midia-da-catastrofe-climatica\/","title":{"rendered":"Consumo \u00e9 o grande tabu da m\u00eddia da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mariano Senna da Costa, de Berlim, especial para o J\u00c1<\/strong><br \/>\nDesde que o Painel Intergovernamental da Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC, sigla em ingl\u00eas) divulgou em fevereiro seu segundo relat\u00f3rio confirmando a responsabilidade humana sobre o fen\u00f4meno, alternam-se na m\u00eddia vers\u00f5es e contra-vers\u00f5es a respeito das causas e efeitos do problema.<br \/>\nUm exemplo interessante foi o da edi\u00e7\u00e3o de junho da revista alem\u00e3 Cicero. &#8220;A mentira do clima &#8211; Um dossi\u00ea contra o Eco-p\u00e2nico&#8221;, dizia o t\u00edtulo. Entre an\u00e1lises parciais sobre o interesse de ONGs no assunto e um gloss\u00e1rio com as d\u00favidas que ainda persistem na discuss\u00e3o, a revista criticou a forma sensacionalista como a grande imprensa tem abordado a quest\u00e3o. Logo na primeira p\u00e1gina do texto h\u00e1 uma reprodu\u00e7\u00e3o da capa de dois jornais de Berlin, o Die Tageszeitung e o Berliner Zeitung. Ambos publicados no dia 3 de fevereiro, noticiando a profecia da ONU para a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, mas exibindo em suas capas cen\u00e1rios opostos. Um trazia uma montagem do port\u00e3o de Brandenburgo, s\u00edmbolo tur\u00edstico da capital alem\u00e3, inundado. O outro ilustrava o mesmo lugar transformado em um deserto.<br \/>\nIndependente das diferentes interpreta\u00e7\u00f5es, o fato \u00e9 que mesmo prevendo cat\u00e1strofes, a grande m\u00eddia ainda se nega a debater o ponto nevr\u00e1lgico para enfrentar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica: o consumo. Seja na Europa, nos EUA, ou na Am\u00e9rica Latina, e salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, nenhum ve\u00edculo toca no assunto. E ele n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. &#8220;Como pode a economia crescer infinitamente num planeta finito? De onde vir\u00e3o os recursos? Temos que mudar a forma de contabilizar o uso dos nossos recursos&#8221;, defendia o ecologista Jos\u00e9 Lutzenberger j\u00e0 na d\u00e9cada de 90.<br \/>\n<strong>Clima de consumo<\/strong><br \/>\nUltimamente o alerta vem sendo refor\u00e7ado por experts do aquecimento global. &#8220;N\u00f3s vamos ter problemas tanto com a quantidade de consumo quanto com o padr\u00e3o das coisas que compramos&#8221;, declarou o pesquisador do INPE, Carlos Nobre, em entrevista ao jornal Folha de S\u00e3o Paulo no dia 08 de mar\u00e7o deste ano. Como uma das maiores autoridades brasileiras sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, Nobre faz coro com outros nomes conhecidos internacionalmente. Em seu \u00faltimo livro &#8220;The Revenge of Gaia&#8221; (A Vingan\u00e7a de Gaia), James Lovelock diz que o maior desafio mundial na luta contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 o que ele chamou de &#8220;in\u00e9rcia social&#8221;. &#8220;Pense em como ser\u00e1 dif\u00edcil para na\u00e7\u00f5es como China, \u00cdndia e Estados Unidos mudar o comportamento de suas popula\u00e7\u00f5es&#8221;, traz o texto publicado em fevereiro de 2006.<br \/>\nUma das tentativas de abordar o tema de forma mais profunda e abrangente foi feita pelos norte-americanos Michael Maniates, Thomas Princen e Ken Conca no livro &#8220;Confronting Consumption&#8221; (Confrontando o Consumo). Publicado em 2002 o livro descreve cases, faz an\u00e1lises e reflex\u00f5es sobre conceitos tipo &#8220;imers\u00e3o social do consumo&#8221;, &#8220;soberania do consumidor&#8221; e &#8220;pol\u00edticas do consumo&#8221;. &#8220;O desafio n\u00e3o \u00e9 apenas confrontar o consumo, mas transformar as estruturas que sustentam ele&#8221;, diz a conclus\u00e3o do livro.<br \/>\nA publicidade \u00e9 uma dessas estruturas. &#8220;Realmente \u00e9 uma quest\u00e3o ainda sem respostas. Como mudar a mentalidade das pessoas, como faz\u00ea-las refletir sobre a abund\u00e2ncia de que disp\u00f5e, se o sistema de comunica\u00e7\u00e3o que as condiciona e educa diariamente depende primordialmente da publicidade, das vendas e do consumo? Eu realmente n\u00e3o sei&#8221;, declara Michael Maniates, professor de ci\u00eancia pol\u00edtica e ci\u00eancia ambiental no Allegheny College na Pennsylvania.<br \/>\n<strong>Iniciativa X In\u00e9rcia<\/strong><br \/>\nEntre as iniciativas que tentam enfrentar o desafio est\u00e1 a revista &#8220;Adbusters&#8221;. Com sede no Canad\u00e1 e 90 mil &#8220;apoiadores&#8221; em todo o mundo, ela visa combater o que chama de &#8220;polui\u00e7\u00e3o f\u00edsica e mental&#8221; das grandes corpora\u00e7\u00f5es. Na capa de Agosto do site h\u00e1 um artigo sobre a iniciativa da Prefeitura de S\u00e3o Paulo de regular a publicidade ao ar livre. A id\u00e9ia vem sendo seguida por outras capitais brasileiras, como Porto Alegre, mas em ambos os casos os argumentos para a implementa\u00e7\u00e3o de leis que regulem a publicidade n\u00e3o tem a ver com a &#8220;racionaliza\u00e7\u00e3o do consumo&#8221;, mas com o que se pode chamar de &#8220;bem estar urbano&#8221;.<br \/>\nDe maneira geral m\u00eddia e governos falam confortavelmente sobre uma solu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ou pol\u00edtica para o controle das emiss\u00f5es de gases estufa. Por\u00e9m, parecem n\u00e3o querer ver que quando o foco \u00e9 o indiv\u00edduo as contradi\u00e7\u00f5es continuam cada vez maiores. &#8220;Conhe\u00e7o uma mulher absolutamente convencida de que algo precisa ser feito. Mas ela nem cogita deixar de ter a \u00e1gua da sua piscina na temperatura de uma ta\u00e7a de ch\u00e1 bem quente durante todo o inverno, n\u00e3o importa o que isto custe&#8221;, exemplifica a jornalista brit\u00e2nica Deborah Orr em artigo no The Independent. Uma das poucas vozes a atacar sistematicamente a incoer\u00eancia de pol\u00edticos e grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o, ela usa a autocr\u00edtica como forma de abordar temas escamoteados do notici\u00e1rio. &#8220;Em alguns momentos, a habilidade para convencer a n\u00f3s mesmos de que desastres s\u00e3o coisas que acontecem com outras pessoas \u00e9 realmente muito podedorosa&#8221;, comenta ela em outro artigo.<br \/>\nSentado confortavelmente em seu jardim no sub\u00farbio de Berlim, o m\u00e9dico aposentado Claus Kuhlmann, sabe que o consumo \u00e9 um ponto importante no debate para &#8220;salvar o mundo&#8221;. Mas ele tamb\u00e9m sabe qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 imaginar uma mudan\u00e7a de h\u00e1bitos. &#8220;D\u00f3i s\u00f3 de pensar em reduzir aquilo que normalmente compro, mesmo que seja algo sup\u00e9rfluo&#8221;, admite. Aos 64 anos, Claus acredita que s\u00f3 depois que &#8220;algo muito grave acontecer&#8221; \u00e9 que as pessoas talvez acordem. &#8220;Dific\u00edl imaginar um mundo sem crescimento econ\u00f4mico, sem capitalismo. \u00c9 como pensar numa volta \u00e0 idade m\u00e9dia&#8221;, comenta ele, concordando com o slogam da c\u00fapula do G8 deste ano: &#8220;Nenhuma pol\u00edtica do clima sem a economia&#8221;.<br \/>\nOtimismo e Ceticismo<br \/>\nPara Wolfgang Pomrehn, geof\u00edsico e meteorologista que atua como jornalista especializado em assuntos do clima e energia desde meados da d\u00e9cada de 90, a redu\u00e7\u00e3o do consumo n\u00e3o \u00e9 nem desej\u00e1vel, nem fact\u00edvel. &#8220;Eu sou c\u00e9tico quanto a isso. Primeiro h\u00e1 uma quest\u00e3o moral a\u00ed, pois mesmo na Alemanha, h\u00e1 pessoas que j\u00e1 consomem o m\u00ednimo, que dir\u00e1 em outros pa\u00edses do mundo&#8221;.<br \/>\nOutro aspecto, segundo ele, diz respeito a quest\u00f5es como a estrutura e a tecnologia de gera\u00e7\u00e3o, sobre as quais o cidad\u00e3o comum tem pouca ou nenhuma influ\u00eancia. &#8220;Para os propriet\u00e1rios de apartamentos e casas alugadas, por exemplo, pouco interessa se os inquilinos precisam gastar mais ou menos energia com aquecimento por conta das condi\u00e7\u00f5es do isolamento t\u00e9rmico dos im\u00f3veis&#8221;. Wolfgang defende assim, uma s\u00e9rie de medidas pol\u00edticas de dif\u00edcil implementa\u00e7\u00e3o. Entre elas est\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o do transporte coletivo, em detrimento da &#8220;cultura do autom\u00f3vel&#8221;. Isso sem afetar o bem estar social. &#8220;Algumas medidas j\u00e1 est\u00e3o sendo postas em pr\u00e1tica, mas ainda s\u00e3o muito poucas e vem aparecendo muito devagar&#8221;, avalia ele que em setembro estar\u00e1 lan\u00e7ando um livro sobre o tema.<br \/>\nApesar da in\u00e9rcia do debate, o otimismo continua sendo a base do discurso oficial. &#8220;Uma das coisas maravilhosas do capitalismo \u00e9 que a economia consegue aperfei\u00e7oar aquilo que o p\u00fablico deseja comprar&#8221;, acredita o secret\u00e1rio de meio ambiente da Embaixada brasileira em Berlim, Fl\u00e1vio Mello. E essa vis\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lida para a &#8220;sustentabilidade da m\u00eddia&#8221;. &#8220;Eu acho que \u00e9 poss\u00edvel que os \u00f3rg\u00e3os publicit\u00e1rios e a iniciativa privada de modo geral se antecipem a essa necessidade de mudan\u00e7a. Acho que o &#8216;consumo destrutivo&#8217; tende a diminuir progressivamente porque ele \u00e9 autodestrutivo e as pessoas t\u00eam instinto de preserva\u00e7\u00e3o&#8221;, pondera o secret\u00e1rio que \u00e9 um dos interlocutores da pol\u00edtica brasileira para biocombust\u00edveis na Alemanha.<br \/>\nAli\u00e1s, uma das grandes promessas para combater os problemas provocados pela queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 a sua substitui\u00e7\u00e3o por produtos de origem vegetal. Pelo menos para o Brasil. &#8220;Para discutir a quest\u00e3o clim\u00e1tica com seriedade, tem que olhar a quest\u00e3o dos biocombust\u00edveis. E olhar com muito carinho&#8221;, avisou o presidente Lula durante o encontro do G8 na Alemanha. O objetivo, segundo o presidente, seria convencer o mundo de que os biocombust\u00edveis s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o para a substitui\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, para a despolui\u00e7\u00e3o do planeta e para a gera\u00e7\u00e3o de renda. &#8220;Os pa\u00edses ricos precisam aceitar que os pa\u00edses em desenvolvimento t\u00eam o direito de crescer como eles cresceram, para conquistar a mesma qualidade de vida que eles conquistaram&#8221;, arrematou Lula.<br \/>\nNa contram\u00e3o desse discurso est\u00e3o entidades malditas para o stablishment. &#8220;N\u00e3o creio que os pa\u00edses em desenvolvimento precisam ser ajudados pelos pa\u00edses desenvolvidos. Devemos lutar todos juntos por uma mudan\u00e7a de paradigma&#8221;, acredita a agricultora francesa, Isabelle Rouet, de 27 anos. Integrante da Via Campesina, ela defende que antes de falar em substitui\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis \u00e9 fundamental reduzir o seu consumo. &#8220;As pessoas na Europa devem entender que elas usam muito mais recursos do que disp\u00f5e. Esse excedente vem de fora, atrav\u00e9s de uma rela\u00e7\u00e3o comercial bastante desequilibrada&#8221;. Para Isabelle a simples mudan\u00e7a de produtos, ou insumos n\u00e3o tornar\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es entre ricos e pobres mais justa. &#8220;\u00c9 uma quest\u00e3o de cultura e filosofia&#8221;. Mas movimentos como a Via Campesina, que s\u00f3 na Fran\u00e7a tem cerca de 10 mil membros, est\u00e3o fora do governo e da grande m\u00eddia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariano Senna da Costa, de Berlim, especial para o J\u00c1 Desde que o Painel Intergovernamental da Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC, sigla em ingl\u00eas) divulgou em fevereiro seu segundo relat\u00f3rio confirmando a responsabilidade humana sobre o fen\u00f4meno, alternam-se na m\u00eddia vers\u00f5es e contra-vers\u00f5es a respeito das causas e efeitos do problema. 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