{"id":8828,"date":"2011-02-12T18:26:28","date_gmt":"2011-02-12T21:26:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=8828"},"modified":"2011-02-12T18:26:28","modified_gmt":"2011-02-12T21:26:28","slug":"belo-montetucurui-hoje-como-ontem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/belo-montetucurui-hoje-como-ontem\/","title":{"rendered":"BELO MONTE\/TUCURU\u00cd: HOJE COMO ONTEM"},"content":{"rendered":"<p><em>(Lucio Flavio Pinto)<\/em><br \/>\nEm 1975 a hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed come\u00e7ou a ser constru\u00edda no rio Tocantins,\u00a0 no Par\u00e1, 350 quil\u00f4metros a sudoeste de Bel\u00e9m. Viria a ser a terceira maior usina do mundo.<br \/>\n\u00a0A Construtora Camargo Corr\u00eaa foi escolhida para instalar o primeiro canteiro de obras.<br \/>\nUma vez instalada no local, ganhou a concorr\u00eanciaprincipal. E l\u00e1 permanece at\u00e9 hoje, sempre faturando, passados 36 anos.<br \/>\n\u00a0O or\u00e7amento inicial de Tucuru\u00ed era de US$ 2,1 bilh\u00f5es. Quando chegou em US$ 7,5 bilh\u00f5es, dez anos depois, a rubrica espec\u00edfica desapareceu. Foi remetida das contas da Eletronorte, subsidi\u00e1ria da regi\u00e3o norte, para a contabilidade da sua enorme controladora, a Eletrobr\u00e1s.<br \/>\n\u00a0O pre\u00e7o final pode ter chegado a uns US$ 15 bilh\u00f5es, sete vezes mais do que a previs\u00e3o na largada da obra. Mas pode ter ido al\u00e9m, ningu\u00e9m mais sabe ao certo.<br \/>\n\u00a0O que a Camargo Corr\u00eaa ganhou entre 1975 e 1984, quando a usina come\u00e7ou a funcionar, permitiu ao seu propriet\u00e1rio, Sebasti\u00e3o Camargo, se tornar o primeiro bilion\u00e1rio brasileiro na listagem dos mais ricos do mundo.<br \/>\nSua fortuna pessoal dobrou no per\u00edodo: de US$ 500 milh\u00f5es para US$ 1 bilh\u00e3o.<br \/>\n\u00a0Correspondeu ao lucro l\u00edquido acumulado nesse dec\u00eanio, \u00e0 boa m\u00e9dia de US$ 50 milh\u00f5es a mais por ano. Sem atualiza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria.<br \/>\n\u00a0Ningu\u00e9m protestou quando o canteiro secund\u00e1rio virou principal. Nem quando o contrato original foi seguidamente aditado.<br \/>\n\u00a0Ou quando dele derivaram outros contratos, na usina ou em uma de suas principais depend\u00eancias, o sistema de transposi\u00e7\u00e3o da enorme barragem de concreto, com mais de 70 metros de altura (correspondente a um pr\u00e9dio de 17 andares), que custou R$ 1,6 bilh\u00e3o, o maior do pa\u00eds.<br \/>\n\u00a0Nem quando o Tocantins, o 25\u00ba maior rio do mundo, com 2.200 quil\u00f4metros de extens\u00e3o, cuja bacia drena 10% do territ\u00f3rio nacional, come\u00e7ou a ser aterrado para que do seu leito fosse erguida a represa, a obra p\u00fablica que mais concreto absorveu no Brasil at\u00e9 ent\u00e3o.<br \/>\n\u00a0Com o fechamento do rio, a \u00e1gua subiu e inundou uma \u00e1rea de tr\u00eas mil quil\u00f4metros quadrados, afogando milh\u00f5es de metros c\u00fabicos da floresta que havia em seu interior.<br \/>\n\u00a0A legisla\u00e7\u00e3o ambiental brasileira s\u00f3 come\u00e7aria a nascer seis anos depois. Mas a Eletronorte sabia que Tucuru\u00ed causaria profundos danos \u00e0 natureza, acima e abaixo da represa, por pelo menos 200 quil\u00f4metros a montante.<br \/>\nTratou de fazer um levantamento ecol\u00f3gico das consequ\u00eancias da hidrel\u00e9trica.<br \/>\n\u00a0A tarefa foi realizada por uma \u00fanica pessoa, em 1977, o americano Robert<br \/>\nGoodland. Ele era o autor, com seu compatriota Howard Irvin, de um estudo<br \/>\nextremamente cr\u00edtico sobre a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia durante o regime militar.<br \/>\n\u00a0O t\u00edtulo do livro, embora equivocado, dizia tudo sobre o seu conte\u00fado: \u201cAmaz\u00f4nia: do inferno verde ao deserto vermelho\u201d.<br \/>\n\u00a0Da tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas foi expurgado todo um cap\u00edtulo, sobre a matan\u00e7a de \u00edndios pelos projetos de \u201cdesenvolvimento\u201d, embora a editora da publica\u00e7\u00e3o tivesse o selo da honor\u00e1vel Universidade de S\u00e3o Paulo, a USP.<br \/>\nO levantamento que Goodland fez sobre o impacto ambiental da hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed podia ser considerado apenas como um exaustivo roteiro para uma pesquisa muito mais ampla, complexa e detalhada \u2013 que nunca foi executada.<br \/>\n\u00a0Problemas que eram vis\u00edveis mesmo a olho nu s\u00f3 foram considerados pelos \u201cbarrageiros\u201d quando se materializaram. Efeitos danosos que podiam ser evitados ou prevenidos foram deixados \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<br \/>\n\u00a0De Tucuru\u00ed, no Tocantins, para Belo Monte, no Xingu, caminhando para oeste do Brasil, como sempre, na sina (e sanha) dos sempre bandeirantes, muita coisa mudou \u2013 mas, talvez, n\u00e3o o substancial.<br \/>\n\u00a0Ontem, um grupo de manifestantes levou a Bras\u00edlia um abaixo-assinado de 500 mil nomes contra a constru\u00e7\u00e3o da usina, que \u00a0ocupar\u00e1 justamente o lugar at\u00e9 agora de Tucuru\u00ed no ranking das maiores hidrel\u00e9tricas do mundo.<br \/>\n\u00a0A caudalosa ades\u00e3o de subscritores do manifesto dificilmente sensibilizar\u00e1 aqueles que, 20 anos depois de come\u00e7arem a tratar da hidrel\u00e9trica, n\u00e3o t\u00eam mais d\u00favida alguma de que ela precisa ser constru\u00edda. De qualquer maneira.<br \/>\n\u00a0A correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o \u00e9 a mesma de 1975. Por tr\u00e1s do selo de autoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 uma ditadura, como ent\u00e3o. Mas o Estado (no caso, personificado na Uni\u00e3o Federal) pode muito. Talvez ainda mais do que a sociedade.<br \/>\n\u00a0A norma processual do licenciamento ambiental foi violada para dar passagem a uma figura que o c\u00f3digo ecol\u00f3gico desconhece: a \u201clicen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o parcial\u201d.<br \/>\n\u00a0O que ela \u00e9 sen\u00e3o a vers\u00e3o atualizada ao mundo jur\u00eddico da figura concreta do canteiro secund\u00e1rio de Tucuru\u00ed em 1975? A obra pode n\u00e3o come\u00e7ar (ou jamais vir a ser legalizada), mas seu canteiro j\u00e1 estar\u00e1 pronto.<br \/>\n\u00a0Os R$ 19,5 bilh\u00f5es de financiamento de longo prazo do BNDES (num or\u00e7amento global de R$ 24,7 bilh\u00f5es, ainda inconsolidado) podem n\u00e3o sair, mas at\u00e9 o final do pr\u00f3ximo m\u00eas um bilh\u00e3o de reais do \u201cempr\u00e9stimo ponte\u201d j\u00e1 ter\u00e1 sido aplicado para executar a licen\u00e7a parcial.<br \/>\n\u00a0E o fato estar\u00e1 consumado, assim como consumatum sunt Santo Ant\u00f4nio e Jirau, bem mais a oeste (j\u00e1 quase no fim da rota dos bandeirantes em torr\u00e3o p\u00e1trio), no Estado de Rond\u00f4nia e no rio Madeira, o mais caudaloso afluente do oce\u00e2nico rio Amazonas.<br \/>\n\u00a0As tr\u00eas mega-hidrel\u00e9tricas previstas para a Amaz\u00f4nia (sem contar outras cinco\u00a0 ainda em conjecturas para o vale do Tapaj\u00f3s\/Teles Pires) representam capacidade instalada de 17,4 mil megawatts (20% a mais do que Itaipu), ainda que apenas metade desse potencial constitua energia firme (dispon\u00edvel ao longo do ano), ao custo de R$ 43 bilh\u00f5es.<br \/>\n\u00a0Esses n\u00fameros soam como poesia, para quem disp\u00f5e do poder decis\u00f3rio, por v\u00e1rios \u00e2ngulos e perspectivas, enquanto as cr\u00edticas e rea\u00e7\u00f5es a esses projetos lhes chegam aos ouvidos como cacofonia irrealista, absurda.<br \/>\n\u00a0O Brasil n\u00e3o \u00e9 o mesmo de 1975. Mas para esses cidad\u00e3os \u00e9 como se fosse. Ao menos quando se trata da Amaz\u00f4nia. Para eles, a hist\u00f3ria se escreve com bulldozers.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Lucio Flavio Pinto) Em 1975 a hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed come\u00e7ou a ser constru\u00edda no rio Tocantins,\u00a0 no Par\u00e1, 350 quil\u00f4metros a sudoeste de Bel\u00e9m. Viria a ser a terceira maior usina do mundo. \u00a0A Construtora Camargo Corr\u00eaa foi escolhida para instalar o primeiro canteiro de obras. Uma vez instalada no local, ganhou a concorr\u00eanciaprincipal. E [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[1031,1032,358],"class_list":["post-8828","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-belo-monte","tag-hidreletricas","tag-meio-ambiente"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":8828,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-2io","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8828","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8828"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8828\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8828"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8828"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8828"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}