{"id":9071,"date":"2011-03-28T12:49:40","date_gmt":"2011-03-28T15:49:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=9071"},"modified":"2011-03-28T12:49:40","modified_gmt":"2011-03-28T15:49:40","slug":"mudei-para-a-cidade-do-atropelador-de-ciclistas-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/mudei-para-a-cidade-do-atropelador-de-ciclistas-2\/","title":{"rendered":"Mudei para a cidade do atropelador de ciclistas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Mudei para a cidade do atropelador de ciclistas que&#8230;\u00e9 tamb\u00e9m repleta de \u00e1rvores nativas e imigrantes antigas: jacarand\u00e1s, tipuanas, guarapuvus, abacateiros, goiabeiras, pitangueiras, palmeiras, flamboyants, cinamomos, sibipirunas, alfeneiros, salsos-chor\u00f5es. Seus habitantes t\u00eam especial apre\u00e7o tamb\u00e9m pelo cultivo de flores.<br \/>\nEm peda\u00e7os min\u00fasculos de terra no meio do asfalto vicejam ger\u00e2nios, beijos, beijinhos, azal\u00e9ias, rosas, margaridas, pet\u00fanias. As flores n\u00e3o definem status social ou econ\u00f4mico, aparecem nas janelas humildes tanto quanto nos abastados varand\u00f5es.<br \/>\nUma grande \u00e1gua, como diriam os antigos chineses, abra\u00e7a essa urbanidade faceira de la\u00e7os feitos por vias que unem os bairros. Bem, unir de verdade n\u00e3o unem, em qualquer capital, bairro \u00e9 como time para os moradores nativos ou imigrantes antigos.<br \/>\nEm Porto Alegre n\u00e3o \u00e9 diferente, dif\u00edcil \u00e9 escolher entre tantos bairros charmosos um, apenas um, para viver, especialmente se o vivente \u00e9 do tipo estrangeiro em qualquer lugar, filho pr\u00f3digo sem pedigree.<br \/>\nFloresta n\u00e3o, gritavam os jornais do dia. Crimes hediondos estavam surpreendendo o local conhecido como pacato, um antigo bairro residencial de f\u00e1cil acesso ao centro. Deixei para l\u00e1, Floresta n\u00e3o!<br \/>\nMas esse nome t\u00e3o simp\u00e1tico para um bairro ficou escondido em algum canto do meu c\u00e9rebro. Estaria eu em processo de auto-sabotagem achando simp\u00e1tico um bairro que de repente virara capa policial dos jornais?<br \/>\nDefinitivamente risquei dos itens de procura o simp\u00e1tico nome Floresta, que pouco freq\u00fcentei na d\u00e9cada de 1980 para al\u00e9m de uma ou outra pe\u00e7a alternativa no teatro que virou igreja pentecostal.<br \/>\nCentro? Polu\u00eddo? Barulhento? Perigoso? Que nada. Perguntei a tr\u00eas amigos que moram no centro e l\u00e1 estava um dos mais apaixonantes times do cora\u00e7\u00e3o. Tem o pessoal que s\u00f3 ama l\u00e1, \u00e0s margens do Gua\u00edba, o velho Porto dos Casais, assim n\u00e3o abre m\u00e3o do Gas\u00f4metro, do Parque Marinha do Brasil, segundo eles incompar\u00e1vel ao da Reden\u00e7\u00e3o ou ao Parc\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Vida no Centro<\/span><br \/>\nMuita vida no Centro. \u00c9 calmo \u00e0 noite, pacato \u00e0 moda antiga com seus casar\u00f5es, muitos reformados pelos pr\u00f3prios moradores, outros sendo levados na pazinha, j\u00e1 que a manuten\u00e7\u00e3o de casar\u00f5es n\u00e3o \u00e9 caf\u00e9 pequeno para or\u00e7amentos dom\u00e9sticos.<br \/>\nQue jogue a primeira pedra quem nunca sonhou em morar ou abrir um neg\u00f3cio num casar\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o de Porto Alegre. Como desprezar uma vista para o Gua\u00edba?<br \/>\nEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Cidade Baixa vida noturna garantida e exceto na Lima e Silva, que ferve noite e dia, as transversais s\u00e3o cheias de calmo charme, apartamentos antigos, amplas salas, frondosos janel\u00f5es, sobradinhos simp\u00e1ticos.<br \/>\nAli d\u00e1 para ter sossego de dia e agita\u00e7\u00e3o \u00e0 noite. Ali\u00e1s, Cidade Baixa e Bom Fim disputam com classe a turma da boemia, que n\u00e3o se faz de rogada e circula pelos dois com sinceridade. N\u00e3o \u00e9 bem o caso de vestir camiseta de dois times, mas admirar times campe\u00f5es seja com a camiseta que for.<br \/>\nO Bom Fim, como o Partenon, concentra povo da UFRGS e da PUC, o \u00f4nibus f\u00e1cil, direto, \u00e9 logo ali. O bairro nasce no Parque da Reden\u00e7\u00e3o, o mais antigo da cidade, vem dali debaixo, da Cidade Baixa, bem roots, e morre l\u00e1 no Moinhos, o bairro dos aristocratas da d\u00e9cada de 1960 que em termos econ\u00f4micos, pelo menos, jamais perdeu a majestade, nem quando a nata migrou para Petr\u00f3polis e Tr\u00eas Figueiras.<br \/>\nPela Ipiranga, tomando cuidado para n\u00e3o cair no Dil\u00favio, \u00e0 esquerda o famoso Menino Deus, imortalizado pela m\u00fasica de Caetano. Bem l\u00e1 em baixo perto da \u00e1gua, a zona Sul, que cerca o Gua\u00edba, a rua Silv\u00e9rio, o Morro Santa Tereza, Ipanema e as ch\u00e1caras com praias do lago, que aqui todos chamam de rio.<br \/>\nA natureza l\u00e1 para baixo sempre foi abundante e nos \u00faltimos 30 anos ela avan\u00e7ou pelas ruas da cidade. \u00c9 raro, bem raro mesmo, encontrar em Porto Alegre alguma rua sem vegeta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCurioso nessa paix\u00e3o dos ga\u00fachos pelo cultivo do verde, que o bairro Jardim Bot\u00e2nico, aos p\u00e9s de Petr\u00f3polis, tenha sido durante tantos anos um bairro humilde e que s\u00f3 agora esteja despertando os olhos do interesse imobili\u00e1rio.<br \/>\nVisitei um apartamento com vista para o Jardim Bot\u00e2nico, aquela garantia de eterno verde, e apaixonei-me completamente, mas era pequeno demais para as necessidades dos livros e papelada do meu lar.<br \/>\nO Jardim Bot\u00e2nico \u00e9 uma esp\u00e9cie de Baixo Petr\u00f3polis, assim como Santa Cec\u00edlia e nesse quesito, salvo algumas exce\u00e7\u00f5es, Porto Alegre n\u00e3o \u00e9 diferente de muitas outras cidades; destina as \u00e1reas medianamente altas como redutos para a popula\u00e7\u00e3o economicamente privilegiada.<br \/>\nSim, h\u00e1 diferen\u00e7as sociais e econ\u00f4micas como em qualquer cidade brasileira; crimes, disputas, m\u00e1fias do tr\u00e1fico, gente agressiva, maus tratos a crian\u00e7as e animais, altos \u00edndices de cesarianas e desmames abruptos, mas nesses dias de muita curti\u00e7\u00e3o no meu humilde apartamento com fog\u00e3o a lenha, na divisa entre o bairro Floresta e o Auxiliadora, estou assim quase alienada dos problemas do mundo; jogo a toalha por alguns dias.<br \/>\nQue me desculpem as mazelas do mundo, mas preciso ficar na paz, afinal a mocinha do 302, que gosta de cuidar das flores do jardim do pr\u00e9dio, veio em pessoa na minha porta trazer um peda\u00e7o de bolo de boas vindas. Achei t\u00e3o \u201cqualidade de vida da capital\u201d.<br \/>\nSinto-me no incr\u00edvel direito de passear pelas ruas sob a imensid\u00e3o das tipuanas, tomar uma cerveja no barzinho bacana como uma turista feliz, descabelada e de chinelos de dedo.<br \/>\nSinto a sombra das dores da guerra e da trag\u00e9dia japonesa, me importo bastante com a amea\u00e7a de fechamento do curso de obstetr\u00edcia da USP, mas o skate me chama e eu voo com a pequena pela cidade que pouco se importa se uma mulher de cabelos brancos andando de skate \u00e9 bizarra ou n\u00e3o.<br \/>\nParab\u00e9ns para Porto Alegre, que completa nesta semana 239 anos de vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mudei para a cidade do atropelador de ciclistas que&#8230;\u00e9 tamb\u00e9m repleta de \u00e1rvores nativas e imigrantes antigas: jacarand\u00e1s, tipuanas, guarapuvus, abacateiros, goiabeiras, pitangueiras, palmeiras, flamboyants, cinamomos, sibipirunas, alfeneiros, salsos-chor\u00f5es. 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