{"id":914,"date":"2007-12-01T14:09:59","date_gmt":"2007-12-01T17:09:59","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=914"},"modified":"2020-09-15T00:31:29","modified_gmt":"2020-09-15T03:31:29","slug":"falta-abrir-a-caixa-preta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/falta-abrir-a-caixa-preta\/","title":{"rendered":"Falta abrir a caixa-preta"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Renan Antunes de Oliveira<\/span><\/p>\n<p>Existem fal\u00eancias e fal\u00eancias na economia brasileira. Mas nenhuma tem os ingredientes da monumental derrocada daquela que foi a primeira empresa a\u00e9rea do pa\u00eds, a maior da Am\u00e9rica Latina e a 15\u00aa do mundo.<\/p>\n<p>A Varig conseguiu quebrar mesmo faturando US$ 1 bilh\u00e3o por ano. Caiu na m\u00e3o de especuladores estrangeiros pela bagatela de US$ 24 milh\u00f5es. Eles a revenderam para a Gol por US$ 320 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Mesmo parecendo um neg\u00f3cio bem amarradinho, ele ainda pode gorar. Vai depender dos resultados da CPI do Apag\u00e3o. Para usar linguagem aeron\u00e1utica: se a CPI conseguir abrir a caixa-preta da Varig, pode encontrar provas de que houve interven\u00e7\u00e3o indevida do governo e corrup\u00e7\u00e3o no Judici\u00e1rio para favorecer os investidores estrangeiros que serviram de intermedi\u00e1rios da compra pela Gol.<\/p>\n<p>Por 80 anos a Varig cruzou os c\u00e9us e as crises econ\u00f4micas do pa\u00eds. Foi pilotada pelas melhores cabe\u00e7as do empresariado nacional \u2013 e mesmo sendo a marca mais conhecida do Brasil caiu com um rombo de quase R$ 8 bi.<\/p>\n<p>Na quebra, arrastou o fundo de pens\u00e3o dos empregados, outrora uma pot\u00eancia. Deixou quase 20 mil credores na chuva. N\u00e3o pagou impostos. Deu o calote nos sal\u00e1rios, FGTS e aposentadorias de 9 mil trabalhadores \u2013 \u00e9 de se pesquisar se n\u00e3o se trata do maior caso de fraude trabalhista do continente.<\/p>\n<p>Esta fal\u00eancia anunciada esteve no radar de empres\u00e1rios, pol\u00edticos e ju\u00edzes desde a d\u00e9cada de 90. Leonel Brizola e Yeda Crusius, A\u00e9cio Neves e Jos\u00e9 Serra, Lula e Z\u00e9 Dirceu, Dilma e Onix Lorenzoni, FHC e Collor \u2013 todos, em algum momento, deram seus pitacos para tentar corrigir a rota da companhia.<\/p>\n<p>Nada funcionou. Em 2005, embarcou na viagem o vivaldino empres\u00e1rio chin\u00eas Lap Chan, testa-de-ferro do fundo de especuladores americano Matlin-Patterson.<\/p>\n<p>Manobrando entre a nata da intelig\u00eancia econ\u00f4mica brasileira, ele conseguiu a m\u00e1gica de desmembrar a Varig da Funda\u00e7\u00e3o Ruben Berta para comprar a parte boa pelos US$ 24 milh\u00f5es, em julho de 2006, para revend\u00ea-la pelos US$ 320 milh\u00f5es, em mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Esta manobra, rara at\u00e9 no mundo dos grandes neg\u00f3cios, nem foi ainda bem explicada e j\u00e1 parece assimilada pelo mercado \u2013 s\u00f3 ressalvando que a CPI ainda n\u00e3o decolou. Os donos da Gol compradora est\u00e3o sendo incensados pelas revistas de economia como g\u00eanios da d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Na quinta 26 de mar\u00e7o, quase um ano depois da quebra e apenas um m\u00eas ap\u00f3s a venda para a Gol, outra CPI, ent\u00e3o aparentemente inofensiva, conduzida pela Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio de Janeiro, se antecipou e pediu \u00e0 Justi\u00e7a a quebra do sigilo banc\u00e1rio e fiscal do chin\u00eas e do juiz carioca Luiz Ayoub, que autorizou o neg\u00f3cio (lembrando que a Varig foi vendida na primeira vez num leil\u00e3o judicial conduzido por ele).<\/p>\n<p>Juiz suspeito? O homem se sentiu ofendido e processou os deputados. Seu protesto foi abafado pelo esc\u00e2ndalo da venda de senten\u00e7as pelos colegas.<\/p>\n<p>Na mesma quinta, o Superior Tribunal de Justi\u00e7a condenou a Uni\u00e3o a pagar a indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 3 bilh\u00f5es \u00e0 Varig por preju\u00edzos causados pelos planos econ\u00f4micos de governos anteriores.<\/p>\n<p>Se e quando tal senten\u00e7a passar pelo STF, e quando for corrigida para quase R$ 7 bilh\u00f5es, e se for paga pelo governo (que dever\u00e1 descontar seus impostos&#8230;.), o c\u00e9u vai ficar nublado outra vez. Quem vai levar a bolada? A quebrada Funda\u00e7\u00e3o Ruben Berta? A Gol? \u00c9 bom saber logo, antes que o chin\u00eas leve tudo.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Ast\u00facias de um chin\u00eas chamado Lap Shan<\/span><\/p>\n<p>Nos bons tempos a Varig mantinha 450 v\u00f4os di\u00e1rios, um enorme desafio log\u00edstico vencido com efici\u00eancia e classe: o servi\u00e7o de bordo chegou a ser o melhor da avia\u00e7\u00e3o internacional. O luxo acabou com a chegada da Era do Amendoim com Barrinhas de Cereal.<\/p>\n<p>A crise pintou no horizonte nos anos 90, quando ela estava bem de sa\u00fade e com muita gordura para queimar: tinha frota pr\u00f3pria com 100 avi\u00f5es e U$ 2,4 bilh\u00f5es de patrim\u00f4nio l\u00edquido positivo. No d\u00f3lar de hoje, seriam 4 bilh\u00f5es e 800 milh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p>A Varig come\u00e7ou a quebrar quando perdeu o monop\u00f3lio dos v\u00f4os internacionais. Os executivos da \u00e9poca foram sendo abatidos pelo pre\u00e7o da gasolina, por crises internacionais, pela competi\u00e7\u00e3o com a concorr\u00eancia e at\u00e9 por seus pr\u00f3prios umbigos: a empresa trocou seis presidentes em cinco anos.<\/p>\n<p>Em uma d\u00e9cada voando sem rumo a Varig vendeu a frota. E passou a alugar avi\u00f5es. Assim, queimou a gordura de US$ 2,4 bilh\u00f5es. Pior: abriu um rombo de US$ 2,5 bilh\u00f5es. Gordura e rombo somados, ela perdeu quase US$ 5 bilh\u00f5es, m\u00e9dia de 500 milh\u00f5es de d\u00f3lares anuais de preju\u00edzo.<\/p>\n<p>De onde saiu tanta incompet\u00eancia gerencial? No mundo dos grandes neg\u00f3cios d\u00e1 para viver por anos rolando esta d\u00edvida. No da Varig seria barbada porque at\u00e9 em seu pior momento, mar\u00e7o de 2006, ela ainda faturava 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares por m\u00eas, US$ 1,2 bi por ano.<\/p>\n<p>Com este dinheiro at\u00e9 um gerente medianamente inteligente seria capaz de rolar a d\u00edvida principal e ir cozinhando a crise por d\u00e9cadas: daria para esperar at\u00e9 a poss\u00edvel abertura de uma rota espacial para Marte, quando a empresa teria foguetes e se credenciaria para fazer tal viagem.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o. Dando tiros e mais tiros no pr\u00f3prio p\u00e9, em novembro de 2005 a Varig vendeu sua subsidi\u00e1ria de carga VarigLog para o espertalh\u00e3o chin\u00eas Lap Chan (foto).<\/p>\n<p>Ele pagou US$ 69 milh\u00f5es. Mas a VarigLog vendida levava junto uma d\u00edvida de US$ 153 milh\u00f5es com a pr\u00f3pria Varig, por servi\u00e7os de transporte j\u00e1 realizados. Logo, a VarigLog valia os 69 pagos e mais os 153. Sacaram a opera\u00e7\u00e3o? Seria t\u00e3o bom como comprar um carro usado, cheio de barras de ouro no porta-malas.<\/p>\n<p>Tendo feito este primeiro neg\u00f3cio com a Varig, o chin\u00eas ficou bem perto da garganta da empresa, preparando-se para beber seu sangue.<\/p>\n<p>Os executivos brasileiros n\u00e3o enxergaram o vampiro voando na sala? Parece que n\u00e3o, porque logo o chin\u00eas se ofereceu para comprar o dinheiro em caixa da Varig&#8230;<\/p>\n<p>Isto mesmo. Comprar dinheiro! E pagar com dinheiro. \u00c9 duro de entender mas f\u00e1cil de explicar: a Varig vendia uma passagem por 1.000 reais no cart\u00e3o de cr\u00e9dito, para receber no fim do m\u00eas. O chin\u00eas pagava, adiantado, 500 pelos mil, a\u00ed Varig n\u00e3o precisava esperar o fim do m\u00eas.<\/p>\n<p>Assim, a partir de dezembro de 2005 ele come\u00e7ou a comprar estes cr\u00e9ditos futuros (as vendas de janeiro por cart\u00e3o de cr\u00e9dito, dinheiro bom em poder das administradoras de cart\u00f5es Visa e Mastercard).<\/p>\n<p>Enforcada, a Varig foi vendendo seu dinheiro de caixa at\u00e9 junho, quando n\u00e3o tinha mais nem para pagar gasolina dos avi\u00f5es. O dinheiro bom dela estava todo com Chan.<\/p>\n<p>A\u00ed Chan, j\u00e1 dono de uma parte da Varig, tentou comprar toda companhia por mais 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Prometeu que se comprasse faria aparecer dinheiro para gasolina &#8211; imagine o vampiro guloso j\u00e1 agarrado no pesco\u00e7o, mas procurando mais uma veia da v\u00edtima.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta agora demonizar o chin\u00eas. Ele \u00e9 apenas um intermedi\u00e1rio. Todo mundo sabia que ele n\u00e3o tinha um tost\u00e3o furado. O dinheiro usado por ele para estas manobras veio do fundo Matlin-Patterson. De quem \u00e9 o fundo? De grandes companhias a\u00e9reas americanas e de fundos de pens\u00f5es do primeiro mundo. \u00c9 o tipo fundo-abutre, que se nutre de empresas mal das pernas, comprando-as por uma ninharia, para revend\u00ea-las com lucro.<\/p>\n<p>Quando o chin\u00eas fez a proposta dos US$ 400 milh\u00f5es, os credores e os empregados da Varig sentiram o cheiro do golpe.<\/p>\n<p>Os credores temiam que se Chan comprasse n\u00e3o receberiam suas d\u00edvidas, os empregados sabiam que ficariam sem sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que entrou na briga esta honrada institui\u00e7\u00e3o brasileira chamada Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Tr\u00eas ju\u00edzes da Vara de Fal\u00eancias do Rio de Janeiro (escolhidos porque \u00e9 l\u00e1 que a Varig tinha sede) passaram a acompanhar um processo de recupera\u00e7\u00e3o judicial, novo nome da concordata, fal\u00eancia, quebradeira.<\/p>\n<p>Era muita areia para tr\u00eas cabe\u00e7as sem dinheiro, sem nenhum traquejo pros neg\u00f3cios e assoberbadas por milhares de outros processos.<\/p>\n<p>Eles deveriam achar solu\u00e7\u00e3o para o megacomplexosuperproblema que por 15 anos consumiu a intelig\u00eancia nacional \u2013 e r\u00e1pido, porque o chin\u00eas estava com sede.<\/p>\n<p>Emergiu desta trinca o juiz Luiz Ayoub, agora uma celebridade nacional. Ele bolou a solu\u00e7\u00e3o de leiloar a Varig pela melhor oferta. Seria um processo transparente. Chamou as TVs e comandou o show de martelo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Os empregados formaram um cons\u00f3rcio batizado TGV (Trabalhadores do Grupo Varig) e se apresentaram.<\/p>\n<p>Como lastro usaram seus cr\u00e9ditos trabalhistas, as contribui\u00e7\u00f5es no fundo Aerus, dinheiro do banco USB e apoio log\u00edstico da Lan Chile.<\/p>\n<p>Veio o leil\u00e3o. O chin\u00eas n\u00e3o fez nenhum movimento. Os empregados fizeram uma proposta e venceram.<\/p>\n<p>Nas duas semanas entre a vit\u00f3ria e o pagamento o governo entrou no rolo, consumando uma interven\u00e7\u00e3o no fundo Aerus \u2013 com a medida, ele tirou o lastro dos empregados.<\/p>\n<p>O juiz anulou o leil\u00e3o e fez outro. Quem se apresentou desta vez? N\u00e3o precisa ser g\u00eanio da economia para saber que foi o chin\u00eas. S.o.z.i.n.h.o! Ele, que tinha oferecido US$ 400 milh\u00f5es pela empresa (aquela proposta recusada), que n\u00e3o participara do primeiro leil\u00e3o, ainda estava interessado.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que ele sabia que os empregados iriam ganhar e depois perder? Mist\u00e9rios vampirescos. Esperando quieto, entrou sozinho no segundo leil\u00e3o e nem precisou pagar os US$ 400 milh\u00f5es, bastou oferecer 24. E levou.<\/p>\n<p>At\u00e9 seu Otto deve se revirar na tumba.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Faxineiro que chegou \u00e0 presid\u00eancia previu o fim<\/span><br \/>\nOs mais antigos varig\u00f3logos dizem que a Varig s\u00f3 foi bem administrada no tempo do seu Otto. Otto Ernest Meier. O imigrante dur\u00e3o que trouxe um avi\u00e3o da Alemanha e plantou as ra\u00edzes do imp\u00e9rio do ar, no Rio Grande do Sul, em 1927.<\/p>\n<p>O neg\u00f3cio parecia ir bem. Vapt vupt, Otto perdeu tudo. Dizem historiadores ga\u00fachos que ele tinha uma queda por Hitler e por isso o presidente Get\u00falio Vargas manobrou pra tir\u00e1-lo do comando. Empres\u00e1rios turbinados pelo dinheiro p\u00fablico do Rio Grande assumiram o controle da companhia em 1941.<\/p>\n<p>Na escala de 1945 a Varig sem Otto estava quase quebrada. Como avi\u00e3o era novidade, o empresariado ga\u00facho optou por doar o que sobrou do patrim\u00f4nio para os empregados, voltando-se outra vez para carnes e couros \u2013 bota vis\u00e3o nisso.<\/p>\n<p>Sob inspira\u00e7\u00e3o do primeiro faxineiro, Ruben Martin Berta, al\u00e7ado a top executivo, foi criada uma funda\u00e7\u00e3o para gerenciar a companhia. Era para ser uma inova\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, \u00faltimo passo antes e o mais parecido com a tomada do poder pelos trabalhadores.<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o nasceu sem oposi\u00e7\u00e3o porque era uma titica. Ningu\u00e9m poderia imaginar que ela cresceria a ponto de ser um rabo t\u00e3o grande capaz de balan\u00e7ar o cachorro.<\/p>\n<p>Berta profetizou que a Varig gerenciada pela funda\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia quebrar se e quando os empregados (que em tese a dirigiriam) quisessem \u2013 quando ele morreu, em 1966, ela foi rebatizada com seu nome, aqui abreviado para FRB.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o imaginava que antes do colapso final o Brasil produziria Fernando Collor. Em 1990, o presidente abriu o mercado da avia\u00e7\u00e3o nas rotas internacionais, dando o primeiro golpe na Varig.<\/p>\n<p>Em 91, ainda sem se dar por vencida, a empresa encomenda novos avi\u00f5es da Boeing e tenta decolar. Veio a Guerra do Golfo e com ela disparam os pre\u00e7os do petr\u00f3leo, pinta uma recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela vende seus avi\u00f5es para bancos e empresas que alugam avi\u00f5es. Passa a pagar aluguel para o que antes fora seu &#8211; pode tal id\u00e9ia?<\/p>\n<p>Depois de Collor, Fernando Henrique botou o segundo prego no caix\u00e3o, com sua desvaloriza\u00e7\u00e3o do Real de 1999.<\/p>\n<p>Em 2001 a moribunda passou a sofrer concorr\u00eancia da Gol no mercado interno. Foi justo o ano do atentado de 11 de setembro, paralisando o setor a\u00e9reo. As d\u00edvidas da Varig aumentaram, a pequena Gol sentiu menos o golpe e tomou-lhe a freguesia.<\/p>\n<p>A FRB continuou viva, at\u00e9 porque ela s\u00f3 existe para proporcionar benef\u00edcios sociais aos empregados da Varig. Quando n\u00e3o mais o fizesse deveria ser extinta, conforme seus estatutos e a Lei das Funda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pelo receitu\u00e1rio neoliberal, a FRB representa o passado glorioso e o presente fracassado da Varig por ter administrado a empresa privada como sendo uma estatal ineficiente.<\/p>\n<p>No mercado, seus administradores eram vistos como nadando em mordomias, enquanto geriam a empresa com incompet\u00eancia, para dizer o m\u00ednimo.<\/p>\n<p>At\u00e9 a quebradeira, a FRB era um INSS com dinheiro. Tinha a cia a\u00e9rea para gerenciar e tirar dela lucro para pagar benef\u00edcios m\u00e9dicos, suplementar aposentadorias e at\u00e9 financiar casa aos empregados.<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o para um erro comum: os empregados nunca foram donos da Varig. N\u00e3o tinham cotas, nem a\u00e7\u00f5es. E tamb\u00e9m n\u00e3o eram donos da FRB. A funda\u00e7\u00e3o \u00e9 que era dona de tudo. Os empregados eram apenas isto: empregados.<\/p>\n<p>Sem patr\u00e3o, quem mandou na Varig na era p\u00f3s herr Otto? O Col\u00e9gio Deliberante da FRB. E depois dele o Conselho Curador da FRB, escolhido pelo Col\u00e9gio, que por sua vez indicava o Conselho. Complicado, n\u00e9? Bem, \u00e9 mais f\u00e1cil explicar como a Santa S\u00e9 escolhe o col\u00e9gio cardinal\u00edcio e os papas, inclusive com a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da fuma\u00e7a branca que avisa a escolha do novo pont\u00edfice.<\/p>\n<p>Alheios \u00e0s lutas pelo poder dentro do Col\u00e9gio e do Conselho, alheios tamb\u00e9m aos atos da diretoria da Varig, os empregados tinham a vida garantida pela FRB &#8211; com promessa de amparo vital\u00edcio pelo seu fundo de pens\u00f5es, o Aerus, fundo este resultado de aplica\u00e7\u00f5es financeiras das \u00e9pocas de vacas gordas.<\/p>\n<p>Por tr\u00eas d\u00e9cadas foi quase t\u00e3o seguro e confort\u00e1vel ser da Varig quanto ser empregado do Banco do Brasil ou da Petrobras.<\/p>\n<p>Entre os anos 80 e 90 a Varig entrou na zona de turbul\u00eancia do setor aeron\u00e1utico internacional e come\u00e7ou a se&#8230;modernizar. Dividiu-se, criaram-se subsidi\u00e1rias, empresas agregadas, afiliadas, associadas, formou-se um cipoal de controladas, vendidas e arrendadas, hangares e hot\u00e9is, tanta coisa que s\u00f3 com b\u00fassola para se saber aonde ela ia. E a FRB inchou mais do que reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e0s v\u00e9speras de elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando a Varig quebrou em mar\u00e7o do ano passado, seus 11 mil empregados ficaram \u00f3rf\u00e3os. Mais da metade deles at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguiu voltar ao trabalho. Desde a quebradeira a Aerus est\u00e1 pagando os benef\u00edcios com vales.<\/p>\n<p>O generoso fundo de pens\u00e3o minguou, acabou sob interven\u00e7\u00e3o do governo. Seu futuro tem a mesma seguran\u00e7a de uma caixa de f\u00f3sforos vazia na sarjeta em dia de enxurrada \u2013 no fim de abril dezenas de pensionistas e aposentados que tiveram benef\u00edcios cortados realizaram uma maratona de protestos nos aeroportos Congonhas, Gale\u00e3o e Salgado Filho.<\/p>\n<p>At\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o da CPI do Apag\u00e3o, a Assembl\u00e9ia do Rio de Janeiro foi a \u00fanica tribuna popular interessada no futuro da companhia a\u00e9rea nascida no RS. Mas isso porque o Rio tamb\u00e9m tomou um calote da Varig. O estado pagou R$ 240 milh\u00f5es em ICMS recolhido indevidamente para que a empresa continuasse operando e assim mantendo empregos na Cidade Maravilhosa. A\u00ed ela quebrou, vendeu a parte boa e se mudou para S\u00e3o Paulo, num calote dentro do calote.<\/p>\n<p>Os empregados que perderam as vagas sofreram tamb\u00e9m uma pequena humilha\u00e7\u00e3o: em entrevista a uma revista, os novos controladores disseram que s\u00f3 estavam levando para a nova Varig \u201caqueles empregados que tratavam bem os passageiros\u201d \u2013 parece que dois em cada tr\u00eas da turma posta na rua s\u00f3 estava de uniforme para destratar viajantes.<\/p>\n<p>A Varig quebrada e mudada para Sampa encolheu quase ao tamanho que tinha quando era comandada pelo faxineiro, que assim viu cumprida sua profecia: \u201cOs empregados v\u00e3o acabar com ela\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renan Antunes de Oliveira Existem fal\u00eancias e fal\u00eancias na economia brasileira. 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