{"id":950,"date":"2008-03-04T14:45:14","date_gmt":"2008-03-04T17:45:14","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=950"},"modified":"2008-03-04T14:45:14","modified_gmt":"2008-03-04T17:45:14","slug":"um-crime-desafia-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/um-crime-desafia-porto-alegre\/","title":{"rendered":"Um crime desafia Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\"><strong>Elmar Bones<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">A imagem que Porto Alegre construiu nos \u00faltimos anos, de cidade-refer\u00eancia em pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas e de participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, estar\u00e1 definitivamente comprometida se n\u00e3o forem esclarecidos os fatos que ocorrem na Restinga desde o dia 12 de janeiro de 2008. <\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">J\u00e1 s\u00e3o quatro pessoas mortas: a l\u00edder comunit\u00e1ria Marlene \u00c1lvares de Oliveira, de 51 anos, seu companheiro, Osmar Matos de Souza, 57 anos, e duas prostitutas, uma delas abatida a pauladas, gritando por socorro no meio da rua. Passaram-se 50 dias, a pol\u00edcia n\u00e3o tem pista dos assassinos. A Restinga pede socorro e o movimento comunit\u00e1rio nas \u00e1reas populares est\u00e1 ferido de morte.<\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">Al\u00e9m da inoper\u00e2ncia policial, chama aten\u00e7\u00e3o a in\u00e9rcia da imprensa que at\u00e9 agora n\u00e3o deu a devida dimens\u00e3o ao caso. A reportagem mais completa saiu na Zero Hora deste domingo (50 dias depois!).<\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\"> O crime ocorreu por volta das 3h da madrugada do s\u00e1bado, 12 de janeiro. Na edi\u00e7\u00e3o do dia seguinte, domingo (que fecha s\u00e1bado de manh\u00e3!) saiu uma pequena nota imprecisa, sem foto na p\u00e1gina do obitu\u00e1rio, dizendo que \u201cum inc\u00eandio criminoso no bairro Restinga matou uma l\u00edder comunit\u00e1ria e deixou seu companheiro gravemente ferido\u201d. Mencionava um \u201chomem alto e branco\u201d que teria invadido o apartamento de Marlene e Souza, no t\u00e9rreo de um condom\u00ednio na rua Clara Nunes. Souza foi amarrado na sala com camisetas embebidas em \u00e1lcool, Marlene foi levada para o quarto dos fundos no p\u00e1tio. \u201cTeria sido torturada com agulhas de seringas, haveria ind\u00edcios de que ela teria sofrido viol\u00eancia sexual\u201d. No \u201cp\u00e9\u201d da mat\u00e9ria dizia que Marlene \u201cal\u00e9m de organizar um sop\u00e3o para moradoras mais carentes do bairro, tinha participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na comunidade, no Or\u00e7amento Participativo e no Conselho Municipal de Sa\u00fade\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">Na ter\u00e7a-feira, o caso ocupa tr\u00eas quartos de uma p\u00e1gina, na se\u00e7\u00e3o policial. \u201cPol\u00edcia sem pistas sobre matador de l\u00edder comunit\u00e1ria\u201d. Delegado \u201cn\u00e3o tem qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre o assassino (ou assassinos)\u201d, nem sobre os motivos do crime. \u201cA tortura, a viol\u00eancia sexual e o fogo ateado no (sic) corpo, que deixaram apavorados os moradores do bairro da Zona Sul s\u00e3o mist\u00e9rios que os policiais ainda n\u00e3o conseguiram entender\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">Socorrida por vizinhos que sentiram a fuma\u00e7a, Marlene morreu a caminho do hospital. Seu companheiro, com 70% do corpo queimado ainda resistiu alguns dias. Foi ele quem deu a \u00fanica pista: \u201cum homem alto e branco, desconhecido no bairro\u201d. Pelas declara\u00e7\u00f5es do delegado, a lei do sil\u00eancio estava imperando na Restinga. Ningu\u00e9m sabia nada. No boca-a-boca da comunidade, por\u00e9m, a hist\u00f3ria corria com detalhes macabros. Marlene, que dependia de muletas para andar, foi arrastada e perfurada com agulhas, antes de ser queimada. Seu companheiro, foi pendurado de cabe\u00e7a para baixo com \u00e1lcool derramado no \u00e2nus&#8230; <\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">A esta altura, mesmo sem informa\u00e7\u00f5es, o delegado tinha uma certeza: \u201cA pol\u00edcia n\u00e3o acredita que os traficantes da regi\u00e3o estejam por tr\u00e1s do crime. Policiais t\u00eam informa\u00e7\u00f5es de que eles e a l\u00edder comunit\u00e1ria tinham uma esp\u00e9cie de \u201cacordo\u201d: os traficantes n\u00e3o cometiam crimes na regi\u00e3o e Marlene n\u00e3o os delatava\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">Na parte final da mat\u00e9ria, o rep\u00f3rter relata uma r\u00e1pida passagem no local do crime, \u201cnas esquinas da Rua Clara Nunes e Antonio da Silveira\u201d, onde \u201co medo de alguns vizinhos \u00e9 tanto que eles abandonaram suas casas e n\u00e3o retornaram. Um vizinho conta que o apartamento das v\u00edtimas foi arrombado \u201cpara levar o que havia sobrado\u201d. No terminal do \u00f4nibus, algu\u00e9m informou que o ponto comercial mantido pela Aproder foi depredado, colocaram fogo nas paredes e nas lixeiras. Marlene era presidente da Aproder (Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00f3-Desenvolvimento da Restinga.). <\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">No dia seguinte, o jornal se manteve burocraticamente atento: \u201cCrime na Restinga: Pol\u00edcia apura outras hip\u00f3teses para assassinato\u201d. A nota de 25 linhas num canto da p\u00e1gina policial \u00e9 uma t\u00edpica manobra de investiga\u00e7\u00e3o sem rumo: \u201cNovas informa\u00e7\u00f5es levaram a pol\u00edcia da Capital a outras linhas de investiga\u00e7\u00e3o na morte da l\u00edder comunit\u00e1ria &#8230;\u201d A pol\u00edcia descobriu que horas antes do crime, Marlene teve um bate boca com uma mulher, com ci\u00fame do marido. Antes de ir embora, a mulher \u201cteria feito amea\u00e7as\u201d. O delegado incluiu entre as hip\u00f3tese o crime passional. A pol\u00edcia descobriu tamb\u00e9m que Marlene informou numa reuni\u00e3o que\u00a0 a Aproder j\u00e1 contava com R$ 370 mil em doa\u00e7\u00f5es, para construir um shopping comunit\u00e1rio. Segundo o rep\u00f3rter \u201cum policial raciocinou\u201d: \u2018Algu\u00e9m pode ter achado que o dinheiro ficava em uma conta banc\u00e1ria. Depois, invadiu a casa de Marlene e a torturou para que ela o entregasse (sic)\u201d. <\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">A partir da\u00ed a pol\u00edcia n\u00e3o tinha mais o que dizer e os rep\u00f3rteres, ao que parece, n\u00e3o tinham o que perguntar. No dia 12 de fevereiro, um texto legenda sob a foto da faixa colocada pelos moradores no pr\u00e9dio de Marlene, registrou um m\u00eas do crime sem solu\u00e7\u00e3o. Depois, talvez porque entramos em tempos de \u201cagenda positiva\u201d e houve uma confer\u00eancia mundial de cidade, com representantes de muitos pa\u00edses que vieram a Porto Alegre atra\u00eddos pelas experi\u00eancias da cidade com gest\u00e3o democr\u00e1tica e participa\u00e7\u00e3o popular, o assunto desapareceu.<\/span><\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-family: Times New Roman;font-size: small\"><span style=\"font-family: Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size: x-small\">Retornou neste domingo, na referida reportagem assinada por Carlos Wagner. Mesmo ele, rep\u00f3rter experiente, passeia pela periferia do drama da Restinga, onde duas pessoas foram queimadas vivas, uma prostituta apareceu pendurada num fio de nylon outra foi morta a pauladas gritando socorro no meio da rua. E ningu\u00e9m viu nada.<\/span><br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elmar Bones A imagem que Porto Alegre construiu nos \u00faltimos anos, de cidade-refer\u00eancia em pr\u00e1ticas democr\u00e1ticas e de participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, estar\u00e1 definitivamente comprometida se n\u00e3o forem esclarecidos os fatos que ocorrem na Restinga desde o dia 12 de janeiro de 2008. 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