{"id":9513,"date":"2011-06-01T11:33:04","date_gmt":"2011-06-01T14:33:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=9513"},"modified":"2011-06-01T11:33:04","modified_gmt":"2011-06-01T14:33:04","slug":"estamos-servindo-de-cobaias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/estamos-servindo-de-cobaias\/","title":{"rendered":"\u201cEstamos servindo de cobaias\u201d *"},"content":{"rendered":"<p>Cada vez mais cientistas acreditam que o uso constante do telefone celular pode estar relacionado com o aumento dos casos de tumores cerebrais. Os estudos n\u00e3o s\u00e3o conclusivos, mas um ponto j\u00e1 \u00e9 consenso: as crian\u00e7as s\u00e3o muito mais sens\u00edveis aos efeitos das radia\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAs grandes ind\u00fastrias do setor j\u00e1 desembolsaram algumas centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares em estudos. Existem dois grandes projetos sobre a telefonia celular em andamento, envolvendo 16 pa\u00edses de quatro continentes.<br \/>\nHoje, mais de tr\u00eas bilh\u00f5es de pessoas utilizam a telefonia m\u00f3vel. No Brasil, j\u00e1 s\u00e3o mais de 100 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, perto de 57% da popula\u00e7\u00e3o, segundo dados da Anatel, de fevereiro deste ano.<br \/>\nO pouco interesse no assunto deve-se \u00e0 falta de informa\u00e7\u00e3o, segundo o engenheiro \u00c1lvaro Augusto Almeida de Salles, um dos maiores especialistas em pesquisas sobre telecomunica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nChefe do Laborat\u00f3rio de Comunica\u00e7\u00f5es Eletro-\u00d3ticas do Departamento de Engenharia El\u00e9trica da UFRGS, Salles coordena uma equipe de pesquisadores, que h\u00e1 mais de dez anos estuda os efeitos biol\u00f3gicos das radia\u00e7\u00f5es eletromagn\u00e9ticas no organismo humano.<br \/>\n\u201cUma coisa \u00e9 certa: est\u00e1 se usando amplamente uma tecnologia que ainda n\u00e3o se mostrou in\u00f3cua \u00e0 sa\u00fade\u201d, adverte.<br \/>\n*Esta entrevista exclusiva ao jornalista Cleber Dioni Tentardini foi\u00a0publicada na Revista\u00a0J\u00c1 em 2007. O professor falou sobre as duas grandes pesquisas em andamento, como os pa\u00edses est\u00e3o lidando com as novas descobertas, os efeitos nas crian\u00e7as e que medidas o Brasil deve adotar para prevenir os usu\u00e1rios dos perigos dessa tecnologia, que veio para ficar.<br \/>\n<strong>O que est\u00e1 claro nesse terreno, professor?<\/strong><br \/>\nUma coisa \u00e9 certa: est\u00e1 se usando amplamente uma tecnologia que ainda n\u00e3o se mostrou in\u00f3cua \u00e0 sa\u00fade. Ao contr\u00e1rio, os resultados das pesquisas dispon\u00edveis mostram diversos efeitos danosos \u00e0 sa\u00fade, inclusive c\u00e2ncer. Ent\u00e3o, estamos servindo de cobaias. Como afirmou o doutor Leif Salford, neurocirurgi\u00e3o na Universidade de Lund, na Su\u00e9cia, referindo-se \u00e0s bilh\u00f5es de pessoas no mundo que conversam pelos celulares, for\u00e7ando livremente radia\u00e7\u00f5es eletromagn\u00e9ticas para seus c\u00e9rebros: \u201cEsta \u00e9 a maior experi\u00eancia biol\u00f3gica na hist\u00f3ria do mundo\u201d. H\u00e1 pesquisas em andamento no v\u00e1rias partes. Em Naila, na Alemanha, e em Netanya, em Israel, os estudos mostram que o risco de novos casos de c\u00e2ncer \u00e9 bem maior entre as pessoas que viveram durante dez anos num raio de 400 metros das Esta\u00e7\u00f5es de R\u00e1dio Base (ERBs). Este estudo mostrou que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel assumir que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o casual entre emiss\u00f5es de r\u00e1dio freq\u00fc\u00eancias e o aumento de incid\u00eancia de c\u00e2ncer.<br \/>\n<strong>Esses riscos j\u00e1 foram reconhecidos pelas empresas?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o publicamente. S\u00e3o os efeitos biol\u00f3gicos, que n\u00f3s chamamos de n\u00e3o-t\u00e9rmicos. Como falei no semin\u00e1rio em Bras\u00edlia, em abril, j\u00e1 existem evid\u00eancias cient\u00edficas suficientes sobre os efeitos biol\u00f3gicos da radia\u00e7\u00e3o emitida pelos celulares. Por isso, n\u00e3o existe outra alternativa sen\u00e3o a ado\u00e7\u00e3o imediata do Princ\u00edpio da Precau\u00e7\u00e3o. Principalmente pela dissemina\u00e7\u00e3o dos celulares entre as crian\u00e7as.<br \/>\n<strong>As crian\u00e7as est\u00e3o mais expostas \u00e0 radia\u00e7\u00e3o dos celulares?<\/strong><br \/>\nCrian\u00e7as e adolescentes. Os efeitos s\u00e3o mais cr\u00edticos que em adultos, especialmente porque nas crian\u00e7as e adolescentes a espessura do cr\u00e2nio \u00e9 menor e maior a penetra\u00e7\u00e3o, a onda atinge a regi\u00f5es mais internas do c\u00e9rebro. Al\u00e9m disto, nas crian\u00e7as verifica-se que o metabolismo \u00e9 mais r\u00e1pido e quaisquer efeitos danosos devem ser mais cr\u00edticos, e normalmente, as recomenda\u00e7\u00f5es de prud\u00eancia e cautela s\u00e3o menos consideradas.<br \/>\n<strong>H\u00e1 estudos com crian\u00e7as?<\/strong><br \/>\nO professor Ohm Gandhi, da Engenharia El\u00e9trica e Computa\u00e7\u00e3o da Universidade de Utah (EUA), publicou uma pesquisa sugerindo que os c\u00e9rebros das crian\u00e7as absorvem 50% a mais a radia\u00e7\u00e3o dos telefones m\u00f3veis do que adultos. William Stewart, do Departamento da Sa\u00fade da Inglaterra, alertou h\u00e1 dois anos que crian\u00e7as com idade inferior a nove anos n\u00e3o deveriam utilizar telefones m\u00f3veis porque o tecido do c\u00e9rebro \u00e9 particularmente vulner\u00e1vel e que o cr\u00e2nio em crescimento das crian\u00e7as \u00e9 menos espesso que aqueles dos adultos, e ent\u00e3o menos resistente \u00e0 radia\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>E as pesquisas sobre as Esta\u00e7\u00f5es de R\u00e1dio-Base?<\/strong><br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o normalmente est\u00e1 bem afastada das ERBs e a dist\u00e2ncia \u00e9 fundamental porque a radia\u00e7\u00e3o decai na medida em que a pessoa se afasta da antena. Mas \u00e9 preciso meios eficazes para fiscalizar essas antenas. Ent\u00e3o, o aparelho celular passa a representar o maior perigo, por estar encostado na cabe\u00e7a. Mas o mais grave nisso \u00e9 que os estudos trabalham com n\u00edveis de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 radia\u00e7\u00e3o bem abaixo dos limites permitidos. Nesse estudo de Naila, por exemplo, os n\u00edveis de radia\u00e7\u00e3o estavam cerca de 800 vezes menor.<br \/>\n<strong>O que acha da legisla\u00e7\u00e3o de Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nEm Porto Alegre, a lei 8.706, de 14 de janeiro de 2001, proposta pelo ent\u00e3o vereador Juarez Pinheiro (PT) obriga os fabricantes de aparelhos celulares a divulgar os n\u00edveis de radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica emitidos pela antena dos telefones e substituir os aparelhos cujo n\u00edvel de radia\u00e7\u00e3o supere o limite aceito internacionalmente. N\u00e3o vingou. Nessa mesma \u00e9poca surgiu um projeto de lei na Assembl\u00e9ia Legislativa ga\u00facha que tornaria obrigat\u00f3rio \u00e0s operadoras de telefonia colocar adesivos nos aparelhos para advertir os usu\u00e1rios sobre os riscos \u00e0 sa\u00fade, como nas carteiras de cigarro, mas n\u00e3o sei o que houve, deve ter sido engavetado.<br \/>\n<strong>O que significa o Princ\u00edpio de Precau\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\n\u00c9 um crit\u00e9rio que j\u00e1 foi adotado em v\u00e1rios pa\u00edses diante do alto grau de incerteza cient\u00edfica frente aos potenciais riscos de determinada tecnologia, no caso, a telefonia m\u00f3vel celular. Toma-se uma atitude preventiva sem esperar os resultados da pesquisa cient\u00edfica. Porque se os riscos existem, s\u00e3o sem d\u00favida problemas de Sa\u00fade P\u00fablica, e como tal devem ser tratados. A pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade decidiu que j\u00e1 \u00e9 hora de adotar o Princ\u00edpio da Precau\u00e7\u00e3o sobre o uso do celular e do funcionamento das Esta\u00e7\u00f5es de R\u00e1dio-Base.<br \/>\n<strong>Esse princ\u00edpio tem amparo na legisla\u00e7\u00e3o em vigor?<\/strong><br \/>\nA Anatel \u00e9 a reguladora. Ela precisa estabelecer normas mais r\u00edgidas do que est\u00e1 em vigor, j\u00e1 que os estudos apontam a possibilidade de ocorrer preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade dos usu\u00e1rios em n\u00edveis muito abaixo da radia\u00e7\u00e3o emitida hoje pelos aparelhos.<br \/>\n<strong>A Anatel adotou uma norma ineficiente?<\/strong><br \/>\nAcontece que as normas existentes para os aparelhos celulares e para as ERBs prev\u00eaem somente os efeitos t\u00e9rmicos, de curta dura\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 foram comprovados, como o aquecimento dos tecidos internos do ouvido e de outras partes do corpo. Hoje, a Anatel utiliza a norma adotada pela ICNIRP, que estabelece a radia\u00e7\u00e3o emitida pelo celular, a Taxa de Absor\u00e7\u00e3o Espec\u00edfica (SAR) m\u00e1xima permitida \u00e9 de dois miliwatts por grama de tecido (2 mW\/g), considerando-se a antena do parelho a uma dist\u00e2ncia m\u00ednima de dois cent\u00edmetros da cabe\u00e7a. S\u00f3 que pesquisas recentes mostram repetidas vezes efeitos danosos \u00e0 sa\u00fade em n\u00edveis de exposi\u00e7\u00e3o substancialmente abaixo da norma ICNIRP.<br \/>\n<strong>Quem estipula a SAR?<\/strong><br \/>\nPela pr\u00f3pria ICNIRP. SAR significa a pot\u00eancia por unidade de massa de tecido.<br \/>\n<strong>Em quanto a norma \u00e9 superada?<\/strong><br \/>\nEm muitas vezes. A dois cent\u00edmetros voc\u00ea est\u00e1 no limite da norma. \u00c0 medida que a antena se aproxima, esses valores come\u00e7am a crescer, a ponto de que, a um cent\u00edmetro, voc\u00ea j\u00e1 superou tr\u00eas ou quatro vezes a norma. E, quando a antena est\u00e1 encostada na cabe\u00e7a, esse limite \u00e9 superado entre cinco e dez vezes. A Anatel adotou esse limite em 1999 e j\u00e1 est\u00e1 na hora de adotar uma norma mais r\u00edgida, que proteja os usu\u00e1rios. O problema \u00e9 que a norma existente est\u00e1 baseada somente nos efeitos t\u00e9rmicos, que j\u00e1 foram comprovados, mas a precau\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m, justamente para proteger as pessoas do que pode ocorrer.<br \/>\n<strong>Qual \u00e9 a norma mais r\u00edgida?<\/strong><br \/>\nSugerimos como limite de exposi\u00e7\u00e3o aos campos eletromagn\u00e9ticos 0,6 V\/m, adotado em Salzburg, na \u00c1ustria. A norma su\u00ed\u00e7a e italiana tamb\u00e9m s\u00e3o recomend\u00e1veis. Esse limite est\u00e1 sendo pleiteado na Fran\u00e7a, atrav\u00e9s de dois projetos de lei em tramita\u00e7\u00e3o na Assembl\u00e9ia Nacional.<br \/>\n<strong>Quais s\u00e3o os problemas com os aparelhos celulares?<\/strong><br \/>\nS\u00e3o muito ineficientes. O principal problema \u00e9 com a antena atualmente utilizada na grande maioria dos telefones m\u00f3veis, que \u00e9 do tipo monop\u00f3lo convencional. Pior ainda nos aparelhos com antena interna. Quando est\u00e1 afastada de qualquer obst\u00e1culo, esta antena irradia simetricamente em torno de si mesma, em um plano perpendicular a ela. Quando est\u00e1 muito pr\u00f3xima \u00e1 cabe\u00e7a, perde a irradia\u00e7\u00e3o em simetria, em c\u00edrculo, e cerca de 70% da energia que deveria chegar a uma ERB \u00e9 absorvida pela cabe\u00e7a, ficando menos de 30% para a fun\u00e7\u00e3o principal, que \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o com a Esta\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima. E geralmente em pot\u00eancia elevada devido ao ajuste autom\u00e1tico dos aparelhos. Nestas condi\u00e7\u00f5es, os resultados medidos mostram que mesmo normas restritivas s\u00e3o substancialmente superadas. Essa tecnologia n\u00e3o foi dimensionada para operar pr\u00f3xima da cabe\u00e7a, mas foi aproveitada de um tipo de antena que j\u00e1 existia, dos r\u00e1dios port\u00e1teis, por exemplo.<br \/>\n<strong>Quais preju\u00edzos dos efeitos t\u00e9rmicos?<\/strong><br \/>\nOs mais notados s\u00e3o no olho. Quando h\u00e1 aquecimento, o globo ocular pode ficar esbranqui\u00e7ado, que chamamos de opacidade, e se aproxima de uma catarata interna. E tamb\u00e9m pode haver casos de glaucoma. Esses efeitos s\u00e3o conhecidos h\u00e1 mais de trinta anos. E as normas como do ICNIRP s\u00e3o baseadas nesses efeitos.<br \/>\n<strong>Existem casos comprovados de glaucoma? <\/strong><br \/>\nAlguns casos j\u00e1 foram relatados na literatura m\u00e9dica. O olho est\u00e1 mais exposto porque \u00e9 um tecido muito sens\u00edvel e a antena deve ficar distante mais de cinco cent\u00edmetros do olho. A gente v\u00ea policiais, pessoal de organiza\u00e7\u00e3o de eventos usando aparelhos de comunica\u00e7\u00e3o na frente dos olhos\u2026\u00e9 um risco.<br \/>\n<strong>A Universidade Federal da Para\u00edba concluiu uma pesquisa sobre os efeitos da radia\u00e7\u00e3o, mas em ratos.<\/strong><br \/>\n\u00c9. Dizem que houve redu\u00e7\u00e3o em 26% na fertilidade dos animais expostos. Esses s\u00e3o efeitos biol\u00f3gicos.<br \/>\n<strong>Os n\u00e3o-t\u00e9rmicos?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Efeitos no sistema nervoso, no sistema cardiovascular, no metabolismo, em fatores heredit\u00e1rios, com problemas hormonais. As mais sens\u00edveis s\u00e3o as c\u00e9lulas nervosas, neur\u00f4nios e mol\u00e9culas de DNA, os cromossomos. Se fosse s\u00f3 calor externo n\u00e3o tinha problema. Mas l\u00e1 no c\u00e9rebro as coisas podem estar acontecendo muito pior, porque voc\u00ea n\u00e3o tem sensores t\u00e9rmicos ali, ent\u00e3o n\u00e3o percebe. Esses tecidos n\u00e3o se regeneram. Se voc\u00ea perder 10 mil neur\u00f4nios de 100 mil nem vai notar, mas a m\u00e9dio e longo prazo vai sentir.<br \/>\n<strong>O que representa m\u00e9dio e longo prazos?<\/strong><br \/>\nM\u00e9dio prazo \u00e9 cinco, dez anos. Tendo em vista que cerca de 3 bilh\u00f5es de pessoas utilizam os terminais m\u00f3veis, e no Brasil j\u00e1 s\u00e3o mais de 100 milh\u00f5es, isto se tornou uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, e n\u00e3o existe outra alternativa respons\u00e1vel sen\u00e3o a ado\u00e7\u00e3o imediata do Princ\u00edpio da Precau\u00e7\u00e3o. Caso isto tardar, j\u00e1 poder\u00e1 ser tarde demais para a repara\u00e7\u00e3o dos danos. Qual ser\u00e1 o custo disto? Quem pagar\u00e1 esta conta?<br \/>\n<strong>E qual seria a antena ideal?<\/strong><br \/>\nO melhor seria uma antena diretiva, que emitisse energia no sentido oposto da cabe\u00e7a. Como o farol do autom\u00f3vel, que tem diretividade. Ele concentra energia num determinado facho. Ent\u00e3o, a cabe\u00e7a ficaria protegida. J\u00e1 existem antenas assim, algumas j\u00e1 foram patenteadas. A Motorola est\u00e1 fazendo pesquisas com as antenas diretivas. Patrocinou um estudo no Instituto Tecnol\u00f3gico da Aeron\u00e1utica (ITA) em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, um projeto de 100 mil d\u00f3lares, se n\u00e3o me engano. Mas isso nem precisaria porque eles j\u00e1 t\u00eam patente internacional dessas antenas, era s\u00f3 colocar em pr\u00e1tica. Em 1995, esse tipo de antena n\u00e3o era novidade nos Estados Unidos.<br \/>\n<strong>Por que n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis no mercado?<\/strong><br \/>\nRealmente, eu tenho pensado bastante nisso, mas n\u00e3o tenho resposta. Como a norma \u00e9 ultrapassada v\u00e1rias vezes, al\u00e9m de ser um problema de sa\u00fade p\u00fablica, eu digo que tamb\u00e9m \u00e9 um problema de direitos humanos e de defesa do consumidor. Porque os usu\u00e1rios t\u00eam o direito de serem informados sobre as normas e precau\u00e7\u00f5es. Mas, para muitos, isso n\u00e3o \u00e9 conveniente que seja divulgado.<br \/>\n<strong>Essa nova antena poderia elevar o custo do produto?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o seria um custo muito maior, cerca de 10 ou 20 d\u00f3lares. Serviria at\u00e9 como um bom marketing para os fabricantes.<br \/>\n<strong>Mas a\u00ed os fabricantes teriam que substituir os atuais modelos?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Talvez seja uma estrat\u00e9gia mercadol\u00f3gica para vender mais do primeiro tipo e depois entrar com o outro. Quanto tempo eles tiverem, melhor. N\u00e3o estou dizendo que essa \u00e9 a estrat\u00e9gia. Agora, est\u00e1 comprovado que essa antena \u00e9 um dos piores projetos de engenharia das \u00faltimas d\u00e9cadas, n\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida.<br \/>\n<strong>Alguma semelhan\u00e7a com a ind\u00fastria do cigarro?<\/strong><br \/>\nAssim como ocorre h\u00e1 d\u00e9cadas com as ind\u00fastrias de tabaco, agora \u00e9 a vez das fabricantes de telefones celulares enfrentarem os tribunais de diversos pa\u00edses. Um dos primeiros processos, que abriu as portas para centenas de a\u00e7\u00f5es contra a ind\u00fastria de telefonia m\u00f3vel, iniciou em 2000 contra a Motorola. Advogados do neurologista norte-americano, Christopher Newman, 43 anos, v\u00edtima de c\u00e2ncer no c\u00e9rebro, usaram a an\u00e1lise para sustentar uma a\u00e7\u00e3o de US$ 800 milh\u00f5es. Michael Murray, de 35 anos: US$ 1,5 bilh\u00f5es, Outras cinco causas, de mais que US$ 1 milh\u00e3o cada, todos envolvendo tumores cerebrais associados ao uso do aparelho celular. Como disse o Ver\u00edssimo (L.F. Ver\u00edssimo, ZH, 1\/3\/2004): o cigarro, comprovadamente, mata. A venda de cigarro n\u00e3o \u00e9 proibida porque os impostos pagos pela ind\u00fastria do fumo s\u00e3o respons\u00e1veis por um naco gigantesco do or\u00e7amento estatal e o v\u00edcio que mata sustenta boa parte das atividades do governo\u2026<br \/>\n<strong>Que provid\u00eancias a Anatel poderia tomar?<\/strong><br \/>\nA Anatel deveria emitir uma determina\u00e7\u00e3o para que os fabricantes medissem a SAR de todos aparelhos em uso no Brasil e divulgassem amplamente os valores. Os que estivessem acima da norma, de prefer\u00eancia uma mais r\u00edgida, deveriam ser recolhidos, uma coisa elementar.<br \/>\n<strong>O que falta, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 muito interesse em jogo. Enquanto estiverem vendendo os aparelhos\u2026 Agora, o que precisa haver \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o oficial que obriguem a fazer o neg\u00f3cio direito. S\u00f3 que a Anatel tem que impor isso. Assim como deve mandar ser vis\u00edveis na caixa do celular os \u00edndices de radia\u00e7\u00e3o que o usu\u00e1rio est\u00e1 sujeito com aquele aparelho.<br \/>\n<strong>O representante da Ag\u00eancia que esteve l\u00e1 no semin\u00e1rio em Bras\u00edlia, Maximiliano Martins, declarou que o \u00fanico efeito comprovado das ondas eletromagn\u00e9ticas \u00e9 o aquecimento dos tecidos.<\/strong><br \/>\nEle declarou que os limites da ICNIRP s\u00e3o 50 vezes abaixo da faixa considerada segura. Mas as pesquisas indicam que mesmo em n\u00edveis muito baixos os riscos s\u00e3o reais.O Relat\u00f3rio de Progressos do projeto Reflex, que envolve sete pa\u00edses, indica efeitos danosos a sa\u00fade em baixos n\u00edveis de exposi\u00e7\u00e3o, e deu como exemplo as quebras simples e duplas nas mol\u00e9culas de DNA. Do outro Projeto, chamado Interphone, envolvendo 13 pa\u00edses, ainda n\u00e3o existe o relat\u00f3rio final. Mas j\u00e1 foram publicados artigos que mostram pesquisas epidemiol\u00f3gicas onde aparecem aumentos de riscos de tumores cerebrais para usu\u00e1rios constantes de celulares.<br \/>\n<strong>O professor Renato Sabbatini, colaborador da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Unicamp, disse que apenas 1% ou 2% dos estudos mostraram a possibilidade de algum dano \u00e0s pessoas.<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 a opini\u00e3o dele. Acontece que h\u00e1 estudos que comprovam a rela\u00e7\u00e3o entre a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s ondas eletromagn\u00e9ticas provenientes principalmente de celulares e de antenas de transmiss\u00e3o do sinal desses aparelhos com a maior incid\u00eancia de c\u00e2ncer na popula\u00e7\u00e3o. O representante das operadoras (presidente-executivo da Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Operadoras Celulares, \u00c9rcio Alberto Zilli) reclamou do excesso de regras. Citou a exist\u00eancia de 174 decretos, leis e resolu\u00e7\u00f5es em seis estados, 141 munic\u00edpios. Mas n\u00e3o vejo outra alternativa.<br \/>\n<strong>Fale mais do Projeto Interphone<\/strong><br \/>\nProjeto iniciado em 2001, envolvendo os principais laborat\u00f3rios em 13 pa\u00edses (Su\u00e9cia, Finl\u00e2ndia, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha, Noruega, It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Austr\u00e1lia, Nova Zel\u00e2ndia, Canad\u00e1, Israel, Jap\u00e3o). Alguns liberaram resultados dos estudos, sendo a maioria publicada na Revista Internacional de Oncologia. Todos fizeram pesquisas com pessoas que usam constantemente o aparelho celular a mais de dez anos. Dos sete estudos, cinco encontraram rela\u00e7\u00e3o com o aumento de tumores cerebrais, dos tipos meningioma, glioma e neurinoma ac\u00fastico. Um dos estudos, realizado na Universidade de Orebo, na Su\u00e9cia, revelou que pessoas que utilizam o celular por mais de meia hora por dia, durante 10 anos, tem 310% de risco de desenvolver tumor no sistema auditivo (Neurinoma Ac\u00fastico) e, durante 15 anos, o risco chega a 380%.<br \/>\n<strong>E o Projeto Reflex?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um estudo financiado pela Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, envolvendo sete pa\u00edses (Alemanha, \u00c1ustria, Espanha, Finl\u00e2ndia, Fran\u00e7a, Su\u00ed\u00e7a e It\u00e1lia), e or\u00e7ado em mais de 3 milh\u00f5es de Euros), cujos resultados detectaram altera\u00e7\u00e3o no DNA e nos fibroblastos (uma das estruturas celulares) mesmo quando a exposi\u00e7\u00e3o ao campo magn\u00e9tico ocorre em n\u00edveis menores do que os permitidos pela ICNIRP. O neurocirurgi\u00e3o Leif Salford e o biof\u00edsico B. Persson, da Universidade de Lund, na Su\u00e9cia, mostraram que n\u00edveis muito baixos de exposi\u00e7\u00e3o (SAR = 0,002 W\/Kg, durante somente duas horas) podem alterar a Barreira C\u00e9rebro-Sangue, permitindo que substancias qu\u00edmicas penetrem em neur\u00f4nios no c\u00f3rtex, no hipocampo e em g\u00e2nglios basais do c\u00e9rebro. Esta altera\u00e7\u00e3o permanecia ainda evidente quatro semanas ap\u00f3s uma \u00fanica exposi\u00e7\u00e3o de duas horas. O professor Francisco Tejo, da Universidade Federal de Campina Grande, divulgou resultados de pesquisas que indicam que a exposi\u00e7\u00e3o a campos eletromagn\u00e9ticos, independentemente da intensidade, reduz em cerca de 40% a produ\u00e7\u00e3o de melatonina, subst\u00e2ncia produzida pelo c\u00e9rebro que tem a fun\u00e7\u00e3o de identificar e destruir c\u00e9lulas defeituosas. Sua atua\u00e7\u00e3o principal \u00e9 na prote\u00e7\u00e3o contra o c\u00e2ncer de mama e de pr\u00f3stata. Quer mais?<br \/>\n<strong>Claro<\/strong><br \/>\nO estudo de doutor Lennart Hardell, do \u00d6rebo Medical Center, na Su\u00e9cia, mostrou que os usu\u00e1rios de telefones celulares apresentavam uma probabilidade 2,5 vezes maior para desenvolver tumores nestes lobos, no lado da cabe\u00e7a onde o aparelho era normalmente operado. Em outros estudos ele verificou aumento do risco de c\u00e2ncer cerebral quando o telefone m\u00f3vel \u00e9 usado do mesmo lado da cabe\u00e7a que o tumor, quando h\u00e1 excesso no n\u00famero de horas de uso dos telefones m\u00f3veis e com os anos de uso dos aparelhos. Outra pesquisa coordenada por Hardell, publicada em 2005, mostra que os usu\u00e1rios de celulares em \u00e1reas rurais tinham 50% a mais de riscos de desenvolver tumores cerebrais em compara\u00e7\u00e3o com os usu\u00e1rios dos locais urbanos. Essa probabilidade cresce para 250% para pessoas que usaram celulares durante mais de cinco anos. Os celulares digitais podem irradiar pot\u00eancia cerca de mil vezes maior quando est\u00e3o em \u00e1reas onde o sinal \u00e9 fraco, normalmente afastados das ERBs.<br \/>\n<strong>Quando os europeus come\u00e7aram a se preocupar com essa tecnologia?<\/strong><br \/>\nA Inglaterra foi um dos primeiros pa\u00edses a advertir os usu\u00e1rios contra o uso excessivo do aparelho, principalmente por crian\u00e7as. O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade brit\u00e2nico soou o alerta depois que o jornal de medicina Lancet publicou um artigo do m\u00e9dico Gerard Hyland, da Universidade de Warwick, onde ele afirmou que as freq\u00fc\u00eancias do celular interferem nas freq\u00fc\u00eancias do corpo humano e que os usu\u00e1rios com menos de 18 anos s\u00e3o vulner\u00e1veis a dores de cabe\u00e7a, perda de mem\u00f3ria e dist\u00farbios do sono. Na Alemanha, estudos mostraram que as freq\u00fc\u00eancias de r\u00e1dio emitidas pelos celulares e torres poderiam provocar modifica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica em c\u00e9lulas e animais de laborat\u00f3rio, podendo chegar ao c\u00e2ncer.<br \/>\n<strong>Uma pergunta que parece \u00f3bvia: voc\u00ea usa celular?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, e estou sempre recomendando aos meus familiares que utilizem o menos poss\u00edvel.<br \/>\n<strong>Que tipo de recomenda\u00e7\u00f5es o senhor pode deixar para o nosso leitor? <\/strong><br \/>\nFalar o menor tempo poss\u00edvel no celular; n\u00e3o encostar o aparelho na cabe\u00e7a quando estiver falando; quando for poss\u00edvel, levantar a antena ao m\u00e1ximo; e evita que crian\u00e7as utilizem esse telefone. Se for utilizar fones de ouvido, manter o aparelho afastado do corpo.<br \/>\n<strong>Entenda melhor<\/strong><br \/>\n<strong><em>Radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica <\/em><\/strong><em>&#8211; conjunto de ondas el\u00e9tricas e magn\u00e9ticas, que se propagam no espa\u00e7o transportando energia. Alguns tipos: microondas, r\u00e1dio, tev\u00ea, raios X, ultravioleta, infravermelho.<\/em><br \/>\n<strong><em>ICNIRP (Comiss\u00e3o Internacional de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0s Radia\u00e7\u00f5es N\u00e3o Ionizantes)<\/em><\/strong><em> \u2013 organiza\u00e7\u00e3o formada por cientistas independentes de v\u00e1rios pa\u00edses que desenvolvem estudos de sa\u00fade e seguran\u00e7a sobre exposi\u00e7\u00f5es a ondas de radiofreq\u00fc\u00eancias. <\/em><br \/>\n<strong><em>IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineer)<\/em><\/strong><em> \u2013 organiza\u00e7\u00e3o fundada nos Estados Unidos por engenheiros eletricistas e eletr\u00f4nicos, que trabalha no estabelecimento de normas e padr\u00f5es e na edi\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. <\/em><br \/>\n<strong><em>SAR (Specific Absorption Rate)<\/em><\/strong><em> \u2013 Taxa de Absor\u00e7\u00e3o Espec\u00edfica, \u00e9 a intensidade de radia\u00e7\u00e3o absorvida por grama de tecido do corpo. <\/em><br \/>\n<strong><em>MW\/g<\/em><\/strong><em> \u2013 Miliwatts por grama de tecido. De acordo com a ICNIRP, a SAR m\u00e1xima admitida de um aparelho de celular \u00e9 de 2 mW\/g, dependendo da intensidade emitida e respeitando uma dist\u00e2ncia m\u00ednima de dois cent\u00edmetros da cabe\u00e7a.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada vez mais cientistas acreditam que o uso constante do telefone celular pode estar relacionado com o aumento dos casos de tumores cerebrais. Os estudos n\u00e3o s\u00e3o conclusivos, mas um ponto j\u00e1 \u00e9 consenso: as crian\u00e7as s\u00e3o muito mais sens\u00edveis aos efeitos das radia\u00e7\u00f5es. As grandes ind\u00fastrias do setor j\u00e1 desembolsaram algumas centenas de milh\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[1094,1095,637],"class_list":["post-9513","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-oms","tag-telefone-celular","tag-ufrgs"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-2tr","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9513"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9513\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}