{"id":9640,"date":"2011-08-02T18:29:54","date_gmt":"2011-08-02T21:29:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=9640"},"modified":"2011-08-02T18:29:54","modified_gmt":"2011-08-02T21:29:54","slug":"o-valente-sarney-do-lado-de-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-valente-sarney-do-lado-de-la\/","title":{"rendered":"O valente Sarney do lado de l\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Luiz Cl\u00e1udio Cunha *<\/span><br \/>\nPego em flagrante delito como defensor do indefens\u00e1vel, o senador Jos\u00e9 Sarney, presidente do Congresso Nacional, esperou calado at\u00e9 a v\u00e9spera da audi\u00eancia na Justi\u00e7a paulista para externar sua repulsa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de testemunha de defesa do coronel da reserva do Ex\u00e9rcito Carlos Alberto Brilhante Ustra.<br \/>\nComo major, nos anos chumbados do Governo M\u00e9dici, Ustra criou e comandou no II Ex\u00e9rcito de S\u00e3o Paulo o DOI-CODI da rua Tut\u00f3ia, ganhando por merecimento a condi\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolo vivo da repress\u00e3o mais feroz da ditadura \u2014 o regime que Sarney defendia sem rebu\u00e7o, como cacique do partido dos militares, a ARENA. Se n\u00e3o apoiava, Sarney nunca expressou publicamente esta suposta contrariedade. Permaneceu corajosamente silente.<br \/>\nNesta quarta-feira, 27, come\u00e7ou em S\u00e3o Paulo o processo em que a fam\u00edlia do jornalista Luiz Eduardo Merlino acusa Ustra pela morte em julho de 1971 do jovem de 22 anos, ap\u00f3s quatro dias de brutal tortura na m\u00e1quina de moer carne administrada por Ustra.<br \/>\nOs depoimentos devastadores do primeiro dia dos presos pol\u00edticos que sobreviveram \u00e0quele circo de horrores \u2014 segundo relato do criminalista F\u00e1bio Konder Comparato, advogado da fam\u00edlia Merlino \u2014 incluem a ordem de Ustra para que um caminh\u00e3o passasse v\u00e1rias vezes sobre o cad\u00e1ver do jornalista, para justificar a farsa posterior do atropelamento numa rodovia. Na verdade, Merlino morreu num processo agudo de gangrena nas pernas, ap\u00f3s horas pendurado no pau-de-arara, o instrumento de trabalho preferido na reparti\u00e7\u00e3o de Ustra.<br \/>\nEstes s\u00e3o os fatos, que resgatam a hist\u00f3ria que come\u00e7a a ser garimpada no tribunal paulista. Sarney n\u00e3o se incomodou com isso, mas sim com o texto, assinado por mim, onde eu denunciava a abjeta irmandade entre o senador e o torturador no \u00e2mbito da Justi\u00e7a. Um dia antes da audi\u00eancia hist\u00f3rica desta semana, o senador tentou se desvincular da sanguinolenta figura do coronel.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Fiel e Herzog<\/span><br \/>\nAtrav\u00e9s de sua assessoria de imprensa, Sarney enviou-me uma contesta\u00e7\u00e3o contra minhas \u201cimprecis\u00f5es de ordem t\u00e9cnica\u201d. O senador alinhou este exemplo de sua pret\u00e9rita valentia: \u201cEm 1967, o general Dilermando Gomes Monteiro j\u00e1 acusava Sarney de proteger comunistas, conforme documentos da 10a Regi\u00e3o Militar levantados pela jornalista Regina Echeverria. O mesmo general Dilermando que comandava o II Ex\u00e9rcito quando foi assassinado o oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho.\u201d<br \/>\n\u00c9 apenas uma baita imprecis\u00e3o de Sarney, que eu corrijo agora: Dilermando Gomes Monteiro, o general que perseguia no Maranh\u00e3o os comunistas que o governador Jos\u00e9 Sarney dizia proteger, em 1967, n\u00e3o \u00e9 o mesmo comandante do II Ex\u00e9rcito de S\u00e3o Paulo, de 1976, quando morreu o oper\u00e1rio Fiel Filho.<br \/>\nDetido em dia 16 de janeiro por dois agentes do DOI-CODI na f\u00e1brica onde trabalhava, Fiel apareceu morto no dia seguinte, enforcado com as pr\u00f3prias meias. O mesmo desfecho de quatro meses antes, quando ali morreu, de forma semelhante, o jornalista Vladimir Herzog. O general que comandou as duas mortes era Ednardo D\u2019\u00c1vila Melo, exonerado dois dias depois pelo presidente Ernesto Geisel. \u00c9 justamente o general Dilermando Gomes Monteiro quem assume o comando paulista para refrear os radicais do DOI-CODI.<br \/>\nO atual presidente do Congresso espanca impiedosamente a verdade quando diz, com comovente autoindulg\u00eancia: \u201cSarney, como mostram os fatos, esteve sempre do lado oposto ao dos torturadores.\u201d<br \/>\n\u00c9 f\u00e1cil provar que \u00e9 exatamente o oposto: Sarney estava l\u00e1, do lado deles. Em 20 de dezembro de 1975, tr\u00eas meses ap\u00f3s a morte de Herzog, o Ex\u00e9rcito divulgou o relat\u00f3rio do IPM criado por ordem de Geisel para supostamente investigar o assunto.<br \/>\nCom o cinismo peculiar ao coronel Ustra, que hoje nomeia Sarney como sua testemunha de defesa, a Portaria do Comando do II Ex\u00e9rcito justificava a instaura\u00e7\u00e3o do inqu\u00e9rito policial-militar \u201cpara apurar as circunst\u00e2ncias em que ocorreu o suic\u00eddio\u201d. Ou seja, na largada, os militares j\u00e1 davam o veredito for\u00e7ado \u2014 \u2018suic\u00eddio\u2019 \u2014 para a investiga\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o consumada sobre a morte de Herzog, um assassinato sob torturas que repetia, cinco anos depois, o que ocorreu com o jornalista Luiz Eduardo Merlino no mesmo DOI-CODI da rua Tut\u00f3ia, ent\u00e3o sob a administra\u00e7\u00e3o direta de seu criador, o coronel Ustra.<br \/>\nIndignados com a desfa\u00e7atez, os jornalistas brasileiros redigiram no in\u00edcio de janeiro de 1976 um manifesto \u2014 \u2018Em Nome da Verdade\u2019\u2014 denunciando na 1\u00aa Auditoria Militar de S\u00e3o Paulo os termos absurdos daquele relat\u00f3rio fraudulento, que sacramentava a farsa e acobertava o crime. Eram tempos de muito medo e as assinaturas precisavam ser recolhidas uma a uma.<br \/>\nEnt\u00e3o chefe da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, eu percorri com outros colegas todas as reda\u00e7\u00f5es de jornais, r\u00e1dios, TVs e sucursais na capital ga\u00facha. No total, sob a lideran\u00e7a do bravo Aud\u00e1lio Dantas e do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo, recolhemos 1.004 assinaturas em todo o pa\u00eds. Nenhum jornal quis publicar nosso abaixo-assinado, que reclamava verdade e justi\u00e7a. A exce\u00e7\u00e3o foi O Estado de S.Paulo, que publicou o documento como mat\u00e9ria paga.<br \/>\nNa lista de 1.004 jornalistas, todos em franca oposi\u00e7\u00e3o aos torturadores, podem ser encontrados 43 jornalistas com Jos\u00e9 no nome.<br \/>\nEntre eles, n\u00e3o existe nenhum Jos\u00e9 Sarney, embora o atual senador fosse tamb\u00e9m jornalista, dono de jornal e emissoras de TV e r\u00e1dio no Maranh\u00e3o.<br \/>\nSarney n\u00e3o estava no abaixo-assinado justamente porque estava do outro lado. O bravo jornalista maranhense, ali\u00e1s, exercia o seu primeiro mandato como senador da ARENA, a legenda da ditadura que sustentava politicamente o regime de ferro e fogo que sustentava os m\u00e9todos e aparatos do\u00eddos de Ustra e seus comparsas do DOI-CODI.<br \/>\nEstes s\u00e3o os fatos, n\u00e3o meras \u2018imprecis\u00f5es de ordem t\u00e9cnica\u2019.<br \/>\nSua estrondosa e obl\u00edqua apari\u00e7\u00e3o no tardio julgamento de Ustra escancara, agora, o melanc\u00f3lico mergulho do imortal Sarney neste brejal de inverdade, viol\u00eancia e desmem\u00f3ria.<br \/>\nSarney, como mostram os fatos, n\u00e3o estava do lado oposto ao dos torturadores. Sarney escolheu, h\u00e1 tempos, o seu lado.<br \/>\nSarney estava l\u00e1, ao lado deles. Como est\u00e1 agora, na defesa de Ustra.<br \/>\n* Luiz Cl\u00e1udio Cunha \u00e9 jornalista, sempre do lado de c\u00e1.<br \/>\ncunha.luizclaudio@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Cl\u00e1udio Cunha * Pego em flagrante delito como defensor do indefens\u00e1vel, o senador Jos\u00e9 Sarney, presidente do Congresso Nacional, esperou calado at\u00e9 a v\u00e9spera da audi\u00eancia na Justi\u00e7a paulista para externar sua repulsa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de testemunha de defesa do coronel da reserva do Ex\u00e9rcito Carlos Alberto Brilhante Ustra. 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