{"id":9662,"date":"2011-08-16T14:55:07","date_gmt":"2011-08-16T17:55:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=9662"},"modified":"2011-08-16T14:55:07","modified_gmt":"2011-08-16T17:55:07","slug":"edgar-morin-apresenta-alternativas-a-crise-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/edgar-morin-apresenta-alternativas-a-crise-mundial\/","title":{"rendered":"Edgar Morin apresenta alternativas \u00e0 crise mundial"},"content":{"rendered":"<p><em>Cl\u00e1udia Dreier*<br \/>\n<\/em>Contextualiza\u00e7\u00e3o e exemplos pontuais marcaram a palestra de Edgar Morin que aconteceu na segunda-feira, 08 de agosto, integrando a programa\u00e7\u00e3o Fronteiras do Pensamento em 2011. Com 90 anos e um m\u00eas exatos, o franc\u00eas tem como valores principais o amor e o conhecimento. Ele aponta solu\u00e7\u00f5es para a crise atual a partir de suas pesquisas e viv\u00eancia ao longo da Hist\u00f3ria.<br \/>\nSegundo Morin, a crise econ\u00f4mica iniciada em 2008 colocou em xeque o modo de conhecimento que fragmenta as v\u00e1rias disciplinas, impedindo a compreens\u00e3o dos problemas globais. Para entender o que acontece \u00e9 fundamental conhecer o processo de globaliza\u00e7\u00e3o cada vez mais acelerado pela modernidade. \u201cN\u00e3o sabemos o que se passa e \u00e9 isso que se passa. A crise econ\u00f4mica atual resulta de uma crise da sociedade moderna, da sociedade tradicional, da democracia, do pensamento, em fim, uma crise geral da humanidade.\u201d<br \/>\nDois lados da globaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nO franc\u00eas considera a mundializa\u00e7\u00e3o como a pior das coisas poss\u00edveis e, ao mesmo tempo, a melhor delas. Integrando o primeiro aspecto, ele lista o desenvolvimento da t\u00e9cnica que constr\u00f3i fant\u00e1sticas armas de destrui\u00e7\u00e3o de massa e que gera a crise ambiental. \u201cMesmo com toda t\u00e9cnica desenvolvida somos incapazes de frear esta crise. Um dos problemas est\u00e1 nos Estados Nacionais, agora incapazes de manter as promessas feitas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o\u201d. Ele prop\u00f5e que os Estados Nacionais associem-se entre si para que possam ficar protegidos. \u201cA ONU tem pouca for\u00e7a para decis\u00f5es em esfera planet\u00e1ria que envolvam a quest\u00e3o armamentista e o necess\u00e1rio cuidado com a biosfera\u201d.<br \/>\nMorin discorre sobre as amea\u00e7as \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o utilizando uma met\u00e1fora. \u201cNo s\u00e9culo XX um monstro, uma esp\u00e9cie de polvo gigante com muitos tent\u00e1culos, amedrontava a humanidade: era o totalitarismo exemplificado no nazismo e no fascismo. Com a queda do comunismo despertou um novo polvo: o do fanatismo e do manique\u00edsmo, de cunho \u00e9tnico e religioso. A partir da abertura econ\u00f4mica da China e do Vietn\u00e3, ganha for\u00e7a o polvo da economia globalizada, do capitalismo financeiro que \u00e9 mais poderoso do que o Estado Nacional\u201d. Como exemplo recente, ele cita o caso dos EUA, no qual uma ag\u00eancia abaixou a nota dos americanos e os demais pa\u00edses v\u00eaem-se incapazes de contornar a crise mundial.<br \/>\nPara o franc\u00eas, o aspecto positivo da globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 unir os povos na mesma comunidade, no mesmo destino ao viverem perigos semelhantes, o que cria condi\u00e7\u00f5es para surgir um novo mundo. \u201cO desafio \u00e9 inventar uma sociedade global sem o modelo dos Estados Nacionais. H\u00e1  outra sociedade a ser criada.\u201d Ele enfatiza a import\u00e2ncia da palavra \u201cp\u00e1tria\u201d que re\u00fane os conceitos paterno e materno na mesma express\u00e3o. O amor de m\u00e3e e o suporte dado pelo pai geram a id\u00e9ia do Estado que fraterniza, tem nos seus cidad\u00e3os filhos que devem tratar-se como irm\u00e3os. \u201cO grande desafio \u00e9 edificar uma terra-p\u00e1tria que respeite as comunidades.\u201d<br \/>\nComponente aleat\u00f3rio<br \/>\nPara Morin existe um componente aleat\u00f3rio na hist\u00f3ria da vida e da civiliza\u00e7\u00e3o, exemplificado pela origem do regime de governo preponderante nos Estados Nacionais. No s\u00e9culo quinto antes de Cristo, a cidade de Atenas, ber\u00e7o da democracia, resistiu ao primeiro ataque dos persas com o aux\u00edlio dos soldados de Esparta. No segundo confronto, ela foi arrasada. Ao regressar da batalha, os barcos da frota inimiga foram afundados no Peloponeso, assim Atenas pode reerguer-se e a democracia persistiu por mais 50 anos. Na Era Moderna, este regime foi ressuscitado nas cidades italianas, belgas e na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. E o improv\u00e1vel aconteceu: a democracia, criada em uma pequena cidade grega, estabeleceu-se como uma caracter\u00edstica da sociedade vigente.<br \/>\n\u201cMas como \u00e9 poss\u00edvel mudar o caminho, como parar um trem desenfreado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cat\u00e1strofe?\u201d questiona ele, voltando \u00e0 crise atual.  \u201cEm v\u00e1rios momentos a sociedade humana mudou de rumo gra\u00e7as a um indiv\u00edduo e a um pequeno grupo a ele associado.\u201d Morin cita Buda, Maom\u00e9 e Jesus Cristo. Este, ap\u00f3s a prega\u00e7\u00e3o, em dois ou tr\u00eas s\u00e9culos teve sua doutrina transformada na religi\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano. \u201cIsso aconteceu gra\u00e7as a Paulo que teve uma revela\u00e7\u00e3o no caminho para Damasco, permitindo universalizar a mensagem: n\u00e3o h\u00e1 judeus nem gentios, homens ou mulheres, a palavra \u00e9 dirigida \u00e0 humanidade tornando o cristianismo a grande religi\u00e3o.\u201d<br \/>\nMorin aponta exemplos semelhantes para a ci\u00eancia moderna, referindo-se a Galileu, Descartes e Bacon, e para os modelos sociais citando os criadores do Comunismo e do Anarquismo. \u201cAs mudan\u00e7as s\u00e3o poss\u00edveis, come\u00e7am moderadamente. Se o sistema n\u00e3o trata dos problemas fundamentais, ele se desintegra, mas \u00e9 poss\u00edvel que, de algum modo, com criatividade este mesmo sistema seja metamorfisado  gerando um novo sistema.\u201d<br \/>\nMetamorfose<br \/>\nSegundo o franc\u00eas, os sistemas na Terra respondem aos problemas de tr\u00eas maneiras: regridem a um est\u00e1gio anterior, desintegram-se ou passam por uma metarmorfose. \u201cTemos na borboleta um belo exemplo. Quando se rompe o casulo da larva, o mesmo ser passa a ter asas e alimenta-se diferentemente de quando estava enclausurado.\u201d Morin lembra que o pr\u00f3prio ser humano, quando no ventre materno, \u00e9 um ser aqu\u00e1tico.<br \/>\n\u201cA hist\u00f3ria humana \u00e9 uma hist\u00f3ria de metamorfoses.\u201d Morin enfatiza que as pequenas sociedades de centenas de indiv\u00edduos, vi\u00e1veis ecologicamente, tiveram diferentes est\u00e1gios de evolu\u00e7\u00e3o para se transformarem em grandes cidades e civiliza\u00e7\u00f5es como as dos Astecas e Incas, na Am\u00e9rica. \u201cEsta metamorfose espec\u00edfica vai desagregando os valores da comunidade no seu processo de crescimento.\u201d<br \/>\nAtualmente, na Fran\u00e7a fala-se em desglobaliza\u00e7\u00e3o, pois a mundializa\u00e7\u00e3o destruiu as realidades regionais e a solidariedade t\u00edpicas da vida comunit\u00e1ria. \u201cBusca-se agora sair deste processo, estimulando as trocas que possibilitem uma nova sociedade.\u201d O palestrante defende o pensamento bin\u00e1rio, onde coexistam a globaliza\u00e7\u00e3o e a desglobaliza\u00e7\u00e3o. \u201cPodemos manter os pontos positivos da globaliza\u00e7\u00e3o, preservando as culturas nacionais e a agricultura de subsist\u00eancia do pa\u00eds para garantir os alimentos da na\u00e7\u00e3o sem precisar import\u00e1-los. \u00c9 preciso ter a virtude de proteger as comunidades locais.\u201d<br \/>\nOutra proposta de Morin \u00e9 trocar o desenvolver pelo envolver. Enquanto o primeiro promove o crescimento econ\u00f4mico material, destr\u00f3i a solidariedade, traz a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a tecnologia destrutiva; o segundo mant\u00e9m o sistema unido, fortalece a comunidade, a cultura e a identidade.  Aceita o que  vem de fora, respeitando os aspectos de cada cultura, fazendo uma simbiose entre o Ocidente e as antigas culturas tradicionais.<br \/>\nAlternativas<br \/>\nBaseada no desenvolvimento material, a Sociedade Ocidental carece de hospitalidade, de cortesia e de uma maior harmonia com a natureza. Para alterar este quadro, Morin prop\u00f5e um decrescimento econ\u00f4mico e energ\u00e9tico em prol do florescimento de uma economia verde, remodelando  as cidades para torn\u00e1-las humanas e suport\u00e1veis. \u201cPrecisamos de uma economia solid\u00e1ria e verde que ven\u00e7a o lucro.\u201d<br \/>\nNo decorrer da palestra, ele cita v\u00e1rias iniciativas que promovem a humaniza\u00e7\u00e3o de comunidades carentes e ressalta a falta de conex\u00e3o entre elas, sugerindo que a internet possa ter um papel fundamental nesta necess\u00e1ria comunica\u00e7\u00e3o. Ele prop\u00f5e reformas na agricultura convencional que traz mais males do que benef\u00edcios. \u201cTamb\u00e9m precisam ser revistas, al\u00e9m da pecu\u00e1ria moderna, a consci\u00eancia de mundo e a educa\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nReferindo-se ao processo educativo, Morin cita Rousseau. \u201cEducar \u00e9 ensinar a enfrentar os problemas da vida, a ter compreens\u00e3o humana, a encarar as incertezas e as armadilhas do conhecimento\u201d. Uma nova id\u00e9ia de mundo est\u00e1 relacionada \u00e0 reforma da educa\u00e7\u00e3o e do pensamento. As vidas cronometradas e mon\u00f3tonas tamb\u00e9m podem ser modificadas para originarem maior autonomia e maior experi\u00eancia de comunidade.<br \/>\n\u201cDevemos viver a vida de maneira polarizada em prosa e em poesia. Em prosa fazemos o que somos obrigados, o que pode cansar e entristecer, mas \u00e9 necess\u00e1rio para ganhar o p\u00e3o. Em poesia temos o que realmente nos faz vive:r o amor, a amizade, a comunh\u00e3o, a dan\u00e7a, o l\u00fadico.\u201d Desenvolver o po\u00e9tico da vida  permite reform\u00e1-la e construir a partir do outro. \u201cO outro \u00e9 diferente e semelhante a n\u00f3s por possuir a mesma capacidade de sofrer, sorrir, amar, pensar e refletir.\u201d Ele ressalta que primeiro \u00e9 preciso conhecer a si mesmo para evitar transferir as pr\u00f3prias fraquezas para o comportamento do outro que deve ser apreciado como se estivesse em uma tela de cinema. \u201cL\u00e1 aplaudimos um mendigo, um oper\u00e1rio se este for vivido por Charles Chaplin\u201d.<br \/>\nAo \u201cbem estar\u201d que remete a aquisi\u00e7\u00e3o de objetos materiais, Morin contrap\u00f5e a proposta de \u201cbem viver\u201d, citando Evo Morales. Esta prop\u00f5e-se a ensinar um novo viver e tamb\u00e9m auxiliar o outro a viver bem. \u201cUma reforma deve incluir tanto a vida social quanto a individual, uma reforma isolada n\u00e3o d\u00e1 certo. Um exemplo claro disto \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Comunista de 1917 incapaz de criar um sistema semelhante \u00e0 sua ideologia. Aquilo que foi criado ficou pior do que existia anteriomente e emplodiu em 70 anos, dando lugar ao capitalismo e a religi\u00f5es mais poderosas do que as sufocadas no in\u00edcio do s\u00e9culo.\u201d<br \/>\nMorin apresenta-se otimista acreditando que exista salva\u00e7\u00e3o para continuar a aventura da humanidade, para ele a Hist\u00f3ria \u00e9 uma sucess\u00e3o de crises e nelas aumentam as incertezas. \u201cComo respostas nos per\u00edodos conturbados podemos encontrar a solu\u00e7\u00e3o em algo novo, regredir ao passado ou acharmos um bode expiat\u00f3rio.\u201d<br \/>\nNas suas \u00faltimas palavras, ele afirma que \u201ctoda transforma\u00e7\u00e3o cultural tamb\u00e9m \u00e9 mental e psicol\u00f3gica. A esperan\u00e7a \u00e9 como um fermento para a transforma\u00e7\u00e3o e a metamorfose. Todas as reformas intersolid\u00e1rias, s\u00e3o como c\u00f3rregos que se unem para formar rios os quais se juntam at\u00e9 chegar a um Amazonas. Assim se forma um novo caminho e o antigo desintegra-se.\u201d Ele recomenda copiar o modelo dos adolescentes que t\u00eam como aspira\u00e7\u00f5es a maior autonomia e a maior viv\u00eancia em comunidade.<br \/>\n\u201cHoje, o melhor da humanidade pode se desenvolver no Brasil, pois aqui existe uma simbiose entre diferentes povos e na\u00e7\u00f5es. Eu mesmo penso algumas vezes em me mudar para o Brasil\u201d, conclui Morin despertando risos na plat\u00e9ia do Sal\u00e3o de Atos da UFRGS e no jornalista Juremir Machado da Silva, que apresentou o palestrante franc\u00eas.<br \/>\n<em>*Jornalista e ge\u00f3grafa. Texto originalmente publicado no Informativo Funda\u00e7\u00e3o Gaia.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udia Dreier* Contextualiza\u00e7\u00e3o e exemplos pontuais marcaram a palestra de Edgar Morin que aconteceu na segunda-feira, 08 de agosto, integrando a programa\u00e7\u00e3o Fronteiras do Pensamento em 2011. 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