{"id":969,"date":"2008-03-27T15:25:41","date_gmt":"2008-03-27T18:25:41","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=969"},"modified":"2008-03-27T15:25:41","modified_gmt":"2008-03-27T18:25:41","slug":"jornalismo-brasileiro-perdeu-dois-mestres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/jornalismo-brasileiro-perdeu-dois-mestres\/","title":{"rendered":"Jornalismo brasileiro perdeu dois mestres"},"content":{"rendered":"<p><strong>Geraldo Hasse<\/strong><br \/>\n<strong><br \/>\nSerj\u00e3o e Paulinho, a morte em cores<\/strong><br \/>\nNem quando se previne algu\u00e9m est\u00e1 preparado para escrever obitu\u00e1rios. Mesmo com a ajuda das ferramentas de pesquisa oferecidas pela internet, \u00e9 dif\u00edcil registrar o desaparecimento s\u00fabito de S\u00e9rgio de Souza, falecido e cremado nesta ter\u00e7a em S\u00e3o Paulo, depois de uma hospitaliza\u00e7\u00e3o de duas semanas. V\u00edtima de problemas g\u00e1stricos e pulmonares, Serj\u00e3o (1935-2008) foi-se dois meses depois de Paulo Patarra (1933-2008), fumante inveterado que morreu de c\u00e2ncer na garganta.<br \/>\nSerj\u00e3o e Paulinho formaram uma das duplas mais importantes da hist\u00f3ria do jornalismo brasileiro: comandaram a revista Realidade nos seus melhores momentos, em meados dos anos 1960, quando ela chegou a vender 600 mil exemplares por edi\u00e7\u00e3o. Antes dela, nos anos 50, o auge fora da revista O Cruzeiro, que teve picos de vender 700 mil exemplares por semana. Depois, tivemos a ascens\u00e3o de Veja, seman\u00e1rio que demorou uma d\u00e9cada para se tornar uma refer\u00eancia.<br \/>\nEm sebos \u00e9 comum encontrar exemplares de Realidade, mas \u00e9 bom lembrar que essa revista teve duas fases. Na primeira, nos anos 60, sua ousadia tem\u00e1tica e a profundidade dos enfoques eram uma b\u00fassola para os leitores e uma refer\u00eancia para os jornalistas dispostos a aprender. Na segunda fase, nos anos 70, diminuiu totalmente &#8212; no formato, na criatividade e na coragem. Nos \u00faltimos dez anos, Serj\u00e3o dirigiu a &#8220;sua&#8221; revista Caros Amigos, que foi talvez seu mais perfeito retrato: um jornal em preto-e-branco, em papel de revista, bem impresso e grampeado, mesclando artigos e reportagens em que os autores tinham a liberdade de se colocar &#8212; contra o sistema dominante, claro.<br \/>\nDesde o in\u00edcio, em 1997, Serj\u00e3o deixou claro que Caros Amigos nasceu para ser uma voz dissonante em meio aos hinos da m\u00eddia em homenagem ao &#8220;pensamento \u00fanico&#8221; em torno das vantagens do neoliberalismo e da globaliza\u00e7\u00e3o. A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o, que trouxe na capa a foto do jornalista Luis Nassif, trouxe quatro p\u00e1ginas de an\u00fancios, tr\u00eas do governo federal e um do governo do Piau\u00ed. No lugar de Serj\u00e3o deve ficar Mylton Severiano, o talentoso Myltainho, que tamb\u00e9m foi da Realidade mas n\u00e3o tem o carisma do chefe.<br \/>\nSerj\u00e3o foi um chefe absolutamente zen. Tinha olhos e ouvidos para os membros de sua equipe. Coisa rara em comandantes de reda\u00e7\u00f5es, ouvia os rep\u00f3rteres e escutava a voz das ruas. Tamb\u00e9m n\u00e3o era de se exaltar. Era bom v\u00ea-lo trabalhar, sentado serenamente em sua cadeira, bra\u00e7os acomodados sobre a mesa cheia de pap\u00e9is devidamente ordenados. Ele tinha um \u00edm\u00e3, impunha respeito, mantinha a linha. Mas n\u00e3o era escravo do trabalho ou dos hor\u00e1rios.<br \/>\nAlto, magro, alinhado, n\u00e3o fumava e tinha uma vida pessoal admir\u00e1vel. Casado a vida toda com Lana, de origem russa, teve sete filhos. Quem conviveu ele, em fam\u00edlia, diz que rolava paz e alegria em sua casa &#8211; ali\u00e1s, suas casas, pois era meio itinerante. Nasceu em S\u00e3o Paulo, mas morou um tempo em Ribeir\u00e3o Preto, onde, junto com Z\u00e9 Hamilton Ribeiro, reformou dois jornais e lan\u00e7ou um nanico chamado Doming\u00e3o, em meados dos anos 1970.<br \/>\nUma de suas proezas, ao deixar Realidade, foi ajudar a colocar no ar O Bondinho, uma revista que ganhou fama como alternativa embora tenha nascido para ser um house organ dos Supermercados P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. \u00c9 claro que a parceria n\u00e3o deu certo. Ap\u00f3s dispensar o Bondinho, o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar criou mais tarde uma revista chamada Do\u00e7ura.<br \/>\nDepois de uma temporada no Rio, assumiu o desafio de implantar em S\u00e3o Paulo revistas da Editora Globo para disputar mercado com a Editora Abril. Come\u00e7ou com a Globo Rural, cujo estilo at\u00e9 hoje lembra a Realidade original. Logo depois, ao se indispor com a dire\u00e7\u00e3o da editora, foi fazer outras coisas, mas nunca deixou de trabalhar com informa\u00e7\u00e3o e jornalismo, \u00e0s vezes apelando para o formato de livro. Junto com a revista Caros Amigos, ele deixou a Editora Casa Amarela, que publica livros de jornalistas, pensadores e pol\u00edticos identificados com o pensamento de esquerda. Mais do que uma editora, a Casa Amarela \u00e9 um ponto de encontro de pessoas unidas pelo inconformismo e a irrever\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Serj\u00e3o e Paulinho, a morte em cores Nem quando se previne algu\u00e9m est\u00e1 preparado para escrever obitu\u00e1rios. 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