ENIO SQUEFF/ O dilema dos militares

“Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?”  (Desenho de Enio Squeff)

Enio Squeff

Na época em que trabalhei no Estadão, isto é, em plena ditadura militar, comentava-se que o brigadeiro Eduardo Gomes, ainda em vida “Patrono da Força Aérea Brasileira” e golpista de 64,  teria interrompido uma reunião do  alto comando da FAB, presidida por João Paulo Burnier, também brigadeiro, alertando-o que se levasse a cabo seu plano de eliminar algo em torno de 50 mil brasileiros, iria denunciá-lo à imprensa internacional.

Ao que se comentava, Burnier pretendia imitar os militares argentinos nos famosos  “voos da morte”:  poria milhares de opositores da ditadura civil militar em aviões,  e os jogaria no mar. Eduardo Gomes o teria advertido, que se ele quisesse criar uma ruptura definitiva entre o povo brasileiro e suas Forças Armadas, ele que prosseguisse com seu plano criminoso. Burnier recuou.

Nunca li essa história em jornal ou livro. Mas é possível que tivesse acontecido. O desvario de alguns chefes militares da época – justamente os que mantiveram muitos de seus discípulos nas academias militares e que hoje comandam as tropas brasileiras – nunca foram punidos pelo que cometeram. Burnier teria feito escola.

Este talvez seja o problema de alguns generais, brigadeiros e almirantes seguidores dos algozes daquele período. Não foi ao léu que Jair Messias Bolsonaro prometeu que o Brasil só se salvaria se fossem mortos 30 mil brasileiros. Na época (isso não é novidade), acrescentou: “Vão morrer inocentes, lamento, mas e daí?”.

O resto da história todos o vivenciamos. O atual presidente eleito do Brasil, contudo, deve-se admitir, foi  modesto em seus propósitos. Quinhentos mil brasileiros mortos depois, ele pode ostentar o título de o maior “Pagador de Promessas” da direita brasileira.

Ao não comprar vacinas deliberadamente, ele coalhou os cemitérios do Brasil de centenas de milhares de cadáveres.

Numa certa medida, portanto, o que Burnier não fez, por respeitar o velho Eduardo Gomes com a sua bengala, o ex-capitão expulso do Exército, talvez faça: o divórcio definitivo dos militares com a população que os sustenta com os seus impostos.

Não se duvide, em suma, que o presidente e seus seguidores, principalmente  no Exército, estão pouco se lixando para a mortandade que, a essas alturas, está apavorando o mundo.

Daí às manifestações do dia 04 do corrente, quando centenas de milhares de brasileiros foram às ruas protestar contra tudo isso; e que, no fundo, define este governo, como o pior que o Brasil já teve.

O que os professores das escolas militares devem ter repetido aos hoje generais, brigadeiros e almirantes,  discípulos do velho Burnier, foi sustado pelo imponderável, já que a Covid lhes fez o especial favor, de nos matar antes.

Delírio?

Gostaria que o fosse, embora os membros do alto oficialato sugiram a toda hora e sempre, que eu, por desgraça, possa estar certo.

Ora, Eduardo Gomes, reacionário, golpista, direitista inveterado, sabia o que dizia quando alertou Burnier e seus asseclas, de que as Forças Armadas nunca poderiam criar um fosso abissal entre elas e o povo. Não se trata da dívida que eles têm conosco por lhes pagarmos o soldo e, mesmo assim, termos  de aturá-los no papel que nunca lhes demos, de serem os tutores do Brasil.

Isso, porém, vem desde há muito. A rigor, desde o golpe em que os militares derrubaram o Império.

Claro que a monarquia é uma excrescência, mas daí às Forças Armadas se comportarem ainda hoje como tropas de ocupação de seu próprio país, vai uma distância que o brigadeiro Eduardo Gomes teria antevisto, e que, mesmo assim, anima muitos fardados brasileiros.

Será que é preciso ter mais que bom senso ou o velho patriotismo para  que as Forças Armadas se comprometam com um governo genocida, responsável pelo maior morticínio já perpetrado contra o povo brasileiro?

Será aceitável que todos os militares acordem que o Brasil tem de entregar o que temos de mais de precioso, o seu petróleo, as suas hidrelétricas, suas florestas, e tudo mais que Bolsonaro, Guedes, Salles e os demais se esforçam por doar? Será que querem mesmo criar um fosso intransponível entre eles e nós?

O dilema é deles.

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