{"id":1011,"date":"2005-08-15T16:22:39","date_gmt":"2005-08-15T19:22:39","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1011"},"modified":"2005-08-15T16:22:39","modified_gmt":"2005-08-15T19:22:39","slug":"carta-de-barcelona-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/carta-de-barcelona-3\/","title":{"rendered":"Carta de Barcelona"},"content":{"rendered":"<p>Rivadavia Severo<br \/>\nEste ano comemora-se os 400 anos da publica\u00e7\u00e3o de Don Quijote de la Mancha. Data com especial devo\u00e7\u00e3o, em terras espanholas, ao livro que inaugurou a narrativa moderna e que dizem por aqui que \u00e9 o mais editado e traduzido depois da b\u00edblia. O romance escrito por Miguel de Cervantes conta as aventuras do engenhoso fidalgo Don Quijote em princ\u00edpios do s\u00e9culo XVII, durante o reinado de Felipe III, quando Espanha estava perdendo sua condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia global que lhe seria finalmente arrebatada, escassos anos depois, com a assinatura do Tratado de Westphalia, em 1648, que prefigurou o mundo dos estados nacionais que vivemos at\u00e9 hoje. Cervantes, como todo grande novelista, tece as suas 1.200 p\u00e1ginas sobre este pano de fundo, onde deixa transparecer as transforma\u00e7\u00f5es da sociedade e de seu sistema de valores e cren\u00e7as<br \/>\nQuijote \u00e9 um personagem que alterna momentos de profunda reflex\u00e3o, com disparates. Diz o pr\u00eamio nobel portugu\u00eas, Jos\u00e9 Saramago, que Alonso Quijano, o fidalgo que transforma-se em Quijote para poder viver suas aventuras, n\u00e3o era um louco, simplesmente buscava moldar a realidade a sua maneira para poder buscar o seu pr\u00f3prio eu. Coisas de homens de letras. Tamb\u00e9m interessante era o seu fiel escudeiro, que acompanhava o Cavaleiro da Triste Figura, n\u00e3o para salvar donzelas, nem para fazer justi\u00e7a como seu amo, s\u00f3 queria a sua por\u00e7\u00e3o de terras a que governar e claro, enriquecer. E tanto queria que uns duques de Arag\u00e3o lhe presentearam, mesmo que por burla, uma pequena \u00ednsula. Como a boa literatura imita a realidade, nem 400 anos puderam separar o que aconteceu com Sancho Panza e o que ainda hoje ocorre em algumas rep\u00fablicas por a\u00ed. O escudeiro era um homem baixo, gordinho e barbudo que viu-se envolvido em uma s\u00e9rie de artimanhas engendradas por seus s\u00faditos que o levaram a demitir de seu governo. Suas reflex\u00f5es sobre os meandros do ato de governar s\u00e3o dignas de registro. \u201cAgora verdadeiramente entendo que os ju\u00edzes e governadores devem ser de bronze para n\u00e3o sentir a inoportunidade dos negociantes\u201d e logo adiante justifica a sua demiss\u00e3o \u201c&#8230;subi nas torres da ambi\u00e7\u00e3o e da soberba&#8230;\u201d<br \/>\nNaquela \u00e9poca, os governadores eram respons\u00e1veis pelos atos de seus vassalos e s\u00f3 deviam obedi\u00eancia ao Rei e a Deus. Hoje seus pares parecem que n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis por nada e nem devem explica\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m. Talvez o exemplo deste simples escudeiro que demitiu de seu governo por ter entendido n\u00e3o haver sido capaz de governar a seu povo deva voltar \u00e0s rodas palaciegas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rivadavia Severo Este ano comemora-se os 400 anos da publica\u00e7\u00e3o de Don Quijote de la Mancha. Data com especial devo\u00e7\u00e3o, em terras espanholas, ao livro que inaugurou a narrativa moderna e que dizem por aqui que \u00e9 o mais editado e traduzido depois da b\u00edblia. 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