{"id":1013,"date":"2005-09-02T16:25:48","date_gmt":"2005-09-02T19:25:48","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1013"},"modified":"2005-09-02T16:25:48","modified_gmt":"2005-09-02T19:25:48","slug":"gaivotas-para-a-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/gaivotas-para-a-cronica\/","title":{"rendered":"Gaivotas para a cr\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p>Marcos Sosa, Professor de Literatura<br \/>\nFazia falta um livro assim na minha estante. Um livro pequeno, meio artesanal, que tivesse fotos bonitas. Um livro bonito. Em &#8220;Cr\u00f4nica: o v\u00f4o da palavra&#8221;, de Walter Galvani, lan\u00e7ado na primeira semana de agosto pela editora porto-alegrense Media\u00e7\u00e3o, as p\u00e1ginas de leitura t\u00eam suspens\u00f5es, por meio de fotografias, que versam sobre o horizonte, o mar, barcos e reflexos de sol. E gaivotas. Muitas. Ora sozinhas ou em bandos, ora em revoada ou em comunh\u00e3o. Gaivotas para a medida exata da met\u00e1fora levada a efeito pelo autor, sugerindo que, enfim, o ato de escrever precisa e exige um movimento rente \u00e0s ondas, para fisgar o alimento e, justo depois, voar mais e mais.<br \/>\nResultado de um curso para aspirantes a cronista ministrado pelo autor, o<br \/>\nlivro desenvolve-se a partir de uma adequa\u00e7\u00e3o de coment\u00e1rio pr\u00e1tico e de uma linguagem acess\u00edvel, menos t\u00e9cnica do que aquela presente em livros de cr\u00edtica liter\u00e1ria. N\u00e3o por acaso, uma linguagem que aposta na simplicidade para falar desta manifesta\u00e7\u00e3o de literatura que come o p\u00f3 das ruas, bebe os caf\u00e9s dos bares, cantarola versos de can\u00e7\u00e3o popular e vive dividindo espa\u00e7o com a fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEssa op\u00e7\u00e3o de linguagem abre espa\u00e7o n\u00e3o s\u00f3 para o candidato a cronista, mas tamb\u00e9m para o leitor de cr\u00f4nicas &#8211; este sujeito que, da outra ponta do processo, encontra neste g\u00eanero um ponto de fuga cotidiano, entre uma fila de banco ou o intervalo do almo\u00e7o. Em muitas passagens, Galvani d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o a este leitor que busca a fresta do dia, \u00e1vido de entrosamento com essa natureza flex\u00edvel, explosiva e um tanto arbitr\u00e1ria que norteia a raz\u00e3o de ser do texto cron\u00edstico.<br \/>\nDe onde se conclui por um caminho excelente de inser\u00e7\u00e3o no universo dos livros e do conhecimento. Ao ter em m\u00e3os um trabalho que aborda este caminho, o leitor agrega a seu repert\u00f3rio um saber que se encontra no meio-fio entre a cr\u00edtica e a produ\u00e7\u00e3o, seja no recorte hist\u00f3rico evocado pelo autor ao comentar, por exemplo, a literatura dos viajantes e o natural desdobramento desta \u00e0 produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica posterior, seja visitando, de modo especial, o quadro espec\u00edfico, moderno e brasileiro, da cr\u00f4nica.<br \/>\nParadoxalmente, \u00e9 justo aqui, num pa\u00eds com graves defici\u00eancias de leitura, que a cr\u00f4nica se apresenta como uma grande feira, com sabores para todos os gostos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcos Sosa, Professor de Literatura Fazia falta um livro assim na minha estante. Um livro pequeno, meio artesanal, que tivesse fotos bonitas. Um livro bonito. 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