{"id":1026,"date":"2005-12-13T16:40:25","date_gmt":"2005-12-13T19:40:25","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1026"},"modified":"2005-12-13T16:40:25","modified_gmt":"2005-12-13T19:40:25","slug":"as-lavouras-de-eucalipto-como-solucao-para-problemas-sociais-e-ambientais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/as-lavouras-de-eucalipto-como-solucao-para-problemas-sociais-e-ambientais\/","title":{"rendered":"As \u201clavouras\u201d de eucalipto como solu\u00e7\u00e3o para problemas sociais e ambientais"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">* Professor Dr. Mauro Schumacher<\/p>\n<p align=\"justify\">Sob o ponto de vista econ\u00f4mico, a metade sul do Estado \u00e9 caracterizada como \u201cprimo pobre\u201d ou \u201covelha negra\u201d do Rio Grande, se comparada com a metade norte e a regi\u00e3o da serra. S\u00e3o grandes extens\u00f5es de campos sem aproveitamento, abrigando m\u00e1quinas paradas, enferrujadas pela a\u00e7\u00e3o do tempo. Propriet\u00e1rios com at\u00e9 cinco mil hectares enfrentando dificuldades pela falta de alternativas e de recursos. Quais as vantagens em deixar um campo vazio, com absolutamente nada sobre eles? S\u00f3 para citar dois exemplos, a pecu\u00e1ria est\u00e1 virando um problema para os criadores de gado e a soja perdeu mais de 50% do seu valor de mercado. Quem paga o custo de uma extens\u00e3o rural para que o produtor fique meramente observando a manuten\u00e7\u00e3o de um bioma?<\/p>\n<p align=\"justify\">Por outro lado, vemos muitos\u00a0 hectares com lavouras de arroz e de soja. E por qu\u00ea, ent\u00e3o, n\u00e3o se discute a quantidade de veneno que vai nessas culturas? E os herbicidas que contaminam os mananciais? E os propriet\u00e1rios desinformados que praticam queimadas, torrando tudo que \u00e9 verde? Contra isso ningu\u00e9m se manifesta. Entretanto, basta que se fale em plantios de florestas para que ecoem vozes de revolta. E surgem declara\u00e7\u00f5es levianas de devasta\u00e7\u00e3o, deserto verde, altera\u00e7\u00e3o na paisagem do pampa, entre outros absurdos. Por que n\u00e3o buscam entender que o reflorestamento \u00e9 uma resposta \u00e0s quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas da Metade Sul como forma de trazer um fio de esperan\u00e7a a essa gente?<\/p>\n<p align=\"justify\">O Brasil disp\u00f5e da maior \u00e1rea de florestas plantadas de eucalipto do mundo. Entretanto, aqui no estado, a base florestal ainda \u00e9 modesta: gira em torno de 360 mil hectares e ainda temos \u2013 s\u00f3 na Metade Sul &#8211; em torno de 15 milh\u00f5es de hectares dispon\u00edveis. Caso tr\u00eas f\u00e1bricas passem a produzir cerca de 1 milh\u00e3o de toneladas de celulose por ano no Rio Grande do Sul, teremos demandas por um grande volume de madeira: algo em torno de 300 mil hectares por ano.<\/p>\n<p align=\"justify\">Logo, os investimentos em plantios devem elevar a base florestal ga\u00facha para 1 milh\u00e3o de hectares. Em contrapartida, uma empresa que precisa plantar 100 mil hectares de \u201clavoura de eucalipto\u201d, vai ter que preservar quase a metade dessa \u00e1rea, como reserva legal. Tamb\u00e9m \u00e9 importante salientar que ningu\u00e9m pode e nem vai fazer esses plantios em linha reta. At\u00e9 porque, todo e qualquer projeto envolvendo o meio ambiente passa pelas minuciosas an\u00e1lises da Fepam (Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental).<\/p>\n<p align=\"justify\">O que deve acontecer \u00e9 uma pulveriza\u00e7\u00e3o em diferentes munic\u00edpios e, dentro desses munic\u00edpios, em distintas propriedades, seja atrav\u00e9s de parcerias, seja atrav\u00e9s de \u00e1reas pr\u00f3prias. Tudo isso em conformidade com as APPs (\u00c1reas de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente), formando-se os chamados corredores ecol\u00f3gicos, entremeando esp\u00e9cies nativas, mata ciliar, banhados e o bioma campo. Este sistema vai quebrar a monotonia dos plantios, desfazendo aquela id\u00e9ia de monocultura ou de que reflorestamento \u00e9 \u201ctapar tudo\u201d com eucalipto, pinus ou ac\u00e1cia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outra pr\u00e1tica que as pessoas precisam entender \u00e9 a de que ningu\u00e9m planta uma floresta e s\u00f3 retorna ao local sete ou oito anos depois para cort\u00e1-la indiscriminadamente. Antes mesmo do plantio, tem todo um cuidado com o preparo do solo, a aduba\u00e7\u00e3o, o controle da formiga, o desbaste&#8230;. Depois, no momento da colheita, o processo ocorre por faixas, de forma escalonada, intercalada, formando sistemas conhecidos como mosaicos. Engana-se contudo, quem imagina que a colheita encerra o processo. Em hip\u00f3tese nenhuma deve ser desprezado, removido ou queimado o res\u00edduo da floresta, como cascas, galhos e folhas. Neles est\u00e3o os nutrientes que v\u00e3o assegurar a produtividade das futuras rota\u00e7\u00f5es, pois transformam-se numa camada org\u00e2nica riqu\u00edssima e fundamental ao solo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Agora, uma nova vantagem passa a integrar o inesgot\u00e1vel acervo de avan\u00e7os da tecnologia florestal. Quando foi estabelecido o protocolo de Kioto, pensou-se em alternativas para a redu\u00e7\u00e3o de gases, principalmente o CO\u00b2, um dos maiores respons\u00e1veis pelo chamado efeito estufa da atmosfera. E descobriu-se que a biomassa florestal tem a melhor capta\u00e7\u00e3o e a maior capacidade de reten\u00e7\u00e3o de carbono, se comparado, por exemplo, com a agricultura. Isso significa que os ecossistemas florestais se constituem em mais uma solu\u00e7\u00e3o para tantos problemas ambientais.<\/p>\n<p align=\"justify\">As primeiras pesquisas a respeito de capta\u00e7\u00e3o de carbono no Brasil foram feitos na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Trata-se de estudos entre a UFSM e empresas de v\u00e1rios estados brasileiros. Num deles, voltado \u00e0 ind\u00fastria do fumo, verificou-se que nas propriedades rurais, uma floresta de eucalipto armazena, at\u00e9 os oito anos de idade, uma m\u00e9dia de 80 a 100 toneladas de carbono por hectare. Quando se fala em esp\u00e9cies clonadas, ent\u00e3o, esse n\u00famero \u00e9 muito maior.<\/p>\n<p align=\"justify\">Isso nos leva a crer que, um programa de fomento, envolvendo parcerias, tornaria vi\u00e1vel a cria\u00e7\u00e3o de um projeto de gera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito de carbono. Com a alternativa, o produtor rural, ao vender a madeira ap\u00f3s a colheita, teria incorporado carbono ao solo atrav\u00e9s da mat\u00e9ria org\u00e2nica produzida pela floresta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Respeito ao ecossistema significa que podemos plantar eucalipto pela vida inteira sem que jamais tenhamos problemas. Atingimos um elevado grau de maturidade na produ\u00e7\u00e3o de nossas florestas gra\u00e7as aos incans\u00e1veis anos de pesquisa, de tecnologia, de conscientiza\u00e7\u00e3o, de defini\u00e7\u00e3o de parcerias e de informa\u00e7\u00f5es coerentes sobre manejo para produtores rurais e todos aqueles que vivem da floresta. Agrega-se a tudo isso a gera\u00e7\u00e3o de empregos que impulsiona a cadeia do agroneg\u00f3cio florestal no Brasil e no mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\n<p align=\"justify\">* Professor Adjunto de Ecologia e Nutri\u00e7\u00e3o Florestal da UFSM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Professor Dr. Mauro Schumacher Sob o ponto de vista econ\u00f4mico, a metade sul do Estado \u00e9 caracterizada como \u201cprimo pobre\u201d ou \u201covelha negra\u201d do Rio Grande, se comparada com a metade norte e a regi\u00e3o da serra. S\u00e3o grandes extens\u00f5es de campos sem aproveitamento, abrigando m\u00e1quinas paradas, enferrujadas pela a\u00e7\u00e3o do tempo. 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