{"id":1065,"date":"2006-08-23T13:42:50","date_gmt":"2006-08-23T16:42:50","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1065"},"modified":"2006-08-23T13:42:50","modified_gmt":"2006-08-23T16:42:50","slug":"quintanares-com-outros-ares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/quintanares-com-outros-ares\/","title":{"rendered":"Quintanares com outros ares"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><strong>Fraga*<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A julgar pelas comemora\u00e7\u00f5es em torno do centen\u00e1rio de Mario Quintana, parece que o poeta j\u00e1 nasceu com 70 anos. Tudo a ver.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na maioria das mais que merecidas homenagens (muitas com aspas, poucas sem) o que predomina \u00e9 a vis\u00e3o de um velhinho fr\u00e1gil e bonzinho \u2013 distor\u00e7\u00e3o que ele mesmo seria o primeiro a desdenhar. Basta reler suas entrevistas, rever seu humor, relembrar sua gra\u00e7a e rabugice nas reda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quintana nunca foi como queriam que fosse. Irreverente, anticonvencional e avesso \u00e0 solenidade, Quintana se mostrava acima de tudo um agudo cr\u00edtico de costumes. Um sagaz e sarc\u00e1stico observador das hipocrisias da sociedade e contradi\u00e7\u00f5es da humanidade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Debochava das falsas apar\u00eancias \u2013 deste ou do outro mundo \u2013 e tinha ironia de sobra para quem o abordasse com clich\u00eas. Seu lugar era o oposto do lugar-comum. Justamente o que mais se v\u00ea quando o retratam agora, promocionalmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Visto sob esses enfoques marqueteiros, a imagem Quintana n\u00e3o passa de mais um produto da m\u00eddia. Neste ano, sua po\u00e9tica vende tudo que ele nunca pretendeu vender: sentimentalismo barato, romantismo ing\u00eanuo e at\u00e9 pieguismo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um recorte \u00e0s vezes t\u00e3o simpl\u00f3rio que chega a desumanizar sua pessoa. Fr\u00e1gil, provavelmente Quintana n\u00e3o era: tinha humor, um humor ferino, mais que suficiente para encarar de frente tudo o que tenha vivido \u2013 afetos desfeitos, conflitos familiares, ang\u00fastia existencial, inquieta\u00e7\u00e3o intelectual.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dar espa\u00e7o a fatos, tra\u00e7os ou aspectos mais fortes, mais duros ou mais dolorosos da trajet\u00f3ria pessoal de Quintana n\u00e3o seria diminuir sua personalidade nem sua import\u00e2ncia liter\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio, seria reconhecer em tudo isso a fonte principal da sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Afinal, tudo que Quintana mais fez foi olhar para dentro de si e descrever com bom humor e muita poesia esse reflexo. Por isso soa original, do lirismo \u00e0 ironia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o, neste centen\u00e1rio edulcorado do poeta, o que se perde \u00e9 a oportunidade de conhecer melhor o ser humano. Pois quase tudo que se v\u00ea exposto, escrito, falado, filmado, citado, ou simplesmente relembrado, leva para o enaltecimento de uma figura esquematicamente sob medida para a\u00e7\u00f5es e promo\u00e7\u00f5es, patrocinadas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">O Quintana que vou lembrar de perto, j\u00e1 que tive esse privil\u00e9gio, \u00e9 o do deboche das coisas ao redor da gente, na Caldas Jr. Algu\u00e9m que era capaz de escrever sobre um mesmo tema com \u00e2ngulos antag\u00f4nicos, e resultados maravilhosos. Como fez com casa:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2022 Amar \u00e9 trocar a alma de casa.<br \/>\n\u2022 Ele morava sozinho. E um dia fugiu de casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">O primeiro verso, um definitivo hino amoroso. O segundo, na minha opini\u00e3o, o menor conto de terror do mundo. Como se v\u00ea, ou n\u00e3o se v\u00ea em an\u00fancios bobinhos, comerciais suavezinhos, perfis repetitivos e depoimentos formais, um Quintana de uma estatura que ainda est\u00e1 por ser medida. Talvez no sesquicenten\u00e1rio dele.Quintanares com outros ares<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fraga* A julgar pelas comemora\u00e7\u00f5es em torno do centen\u00e1rio de Mario Quintana, parece que o poeta j\u00e1 nasceu com 70 anos. Tudo a ver. 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