{"id":1073,"date":"2006-11-13T13:51:33","date_gmt":"2006-11-13T16:51:33","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1073"},"modified":"2006-11-13T13:51:33","modified_gmt":"2006-11-13T16:51:33","slug":"vitoria-politica-no-rs-elementos-para-um-balanco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/vitoria-politica-no-rs-elementos-para-um-balanco\/","title":{"rendered":"Vit\u00f3ria pol\u00edtica no RS: elementos para um balan\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>As elei\u00e7\u00f5es no Rio Grande do Sul t\u00eam sua singularidade. Qualquer balan\u00e7o sobre o \u00faltimo processo eleitoral precisa levar em conta, entre outros fatores, as tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e pol\u00edticas do Estado, as caracter\u00edsticas da constru\u00e7\u00e3o do PT no RS, seu crescimento ao longo da d\u00e9cada de 90 e os resultados deste per\u00edodo, que expressam, entre outras coisas, o reconhecimento da popula\u00e7\u00e3o mais pobre e dos setores m\u00e9dios sobre aquilo que fizemos. A partir de 1989, com a elei\u00e7\u00e3o de Ol\u00edvio Dutra para a prefeitura de Porto Alegre, o PT iniciou uma ascens\u00e3o sistem\u00e1tica, que acabou se confirmando, no plano eleitoral, pelas quatro sucessivas vit\u00f3rias na capital, pelos oito anos na prefeitura de Caxias do Sul (segunda cidade do Estado), pelos quatro anos em Pelotas (terceira cidade do Estado), pelas importantes vit\u00f3rias em v\u00e1rias cidades do anel metropolitano e, sobretudo, pela vit\u00f3ria e experi\u00eancia de governar um Estado moderno no per\u00edodo 1999-2002.<br \/>\nNossas virtudes, neste per\u00edodo, se expressaram concretamente na melhoria da qualidade de vida, principalmente da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, atrav\u00e9s de servi\u00e7os p\u00fablicos e obras estruturais, muitas delas decididas e ordenadas pelo Or\u00e7amento Participativo (OP). A id\u00e9ia de democratiza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es sobre os investimentos p\u00fablicos transformou-se em uma materialidade objetiva na vida de setores da popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o extremamente marginalizados. Fomos respons\u00e1veis por uma experi\u00eancia \u00fanica e in\u00e9dita no mundo, que foi a de implementar um OP em escala estadual, que atingiu quase 10 milh\u00f5es de pessoas e 497 munic\u00edpios. \u00c9 importante lembrar que, no per\u00edodo do governo Ol\u00edvio, t\u00ednhamos no m\u00e1ximo 30 prefeituras. E interviemos em 497 cidades, discutindo os interesses da popula\u00e7\u00e3o, com apoio da igreja, de sindicatos e de movimentos sociais. \u00c9 preciso lembrar tamb\u00e9m os F\u00f3runs Sociais Mundiais que fizeram dessas experi\u00eancias refer\u00eancias mundiais. Com tudo isto tivemos um papel decisivo na resist\u00eancia \u00e0 &#8220;avalanche neoliberal&#8221;.<br \/>\nEnt\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nem pretensioso, nem bairrista, dizer que o patamar de compreens\u00e3o pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o ga\u00facha, que j\u00e1 tinha uma tradi\u00e7\u00e3o importante (o trabalhismo getulista e brizolista), estabeleceu uma rela\u00e7\u00e3o positiva com as nossas pol\u00edticas, aprovando-as em sucessivas elei\u00e7\u00f5es. \u00c9 neste contexto que, a partir de 1994, estabelece-se uma polariza\u00e7\u00e3o indiscut\u00edvel no Estado. O que o PT fez ou n\u00e3o fez passa a ser uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel no debate estadual, passando a constituir um dos p\u00f3los. \u00c9 neste universo de acumula\u00e7\u00e3o positiva de mais de uma d\u00e9cada que os nossos advers\u00e1rios pol\u00edticos do campo mais conservador, com a imprescind\u00edvel assist\u00eancia do monop\u00f3lio midi\u00e1tico representado pela Rede Brasil Sul de Comunica\u00e7\u00f5es (RBS), passam a reposicionar suas for\u00e7as e seu modo de agir para tentar interromper a continuidade desse ac\u00famulo crescente.<br \/>\nO papel da RBS como agente pol\u00edtico<br \/>\nCabe, aqui, uma observa\u00e7\u00e3o mais detalhada sobre o papel da RBS. Mais do que uma mera afiliada da rede Globo, ela \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o independente de grande pot\u00eancia e irradia\u00e7\u00e3o. A capacidade de interven\u00e7\u00e3o desse grupo na sociedade \u00e9 composta, nada mais nada menos, pelos seguintes instrumentos: 18 emissoras de televis\u00e3o aberta, 2 emissoras locais de televis\u00e3o, 8 jornais di\u00e1rios, 26 emissoras de r\u00e1dio, 2 portais de internet, opera\u00e7\u00e3o orientada para o agroneg\u00f3cio, editora, gravadora, empresa de log\u00edstica, empresa de marketing para jovens e funda\u00e7\u00e3o de responsabilidade social. Essa rede de ve\u00edculos articula sistem\u00e1tica e organicamente a agenda dos setores mais conservadores no Estado. Nenhum tema escapa. Soma-se a esse poderio quantitativo uma efic\u00e1cia qualitativa muito grande de interven\u00e7\u00e3o, baseada em um exame escrupuloso dos v\u00e1rios segmentos da sociedade ga\u00facha. O lan\u00e7amento do jornal Di\u00e1rio Ga\u00facho, no in\u00edcio do governo Ol\u00edvio, \u00e9 um exemplo disso.<br \/>\nVoltado para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre de Porto Alegre e da Regi\u00e3o Metropolitana, al\u00e9m de sortear panelas e outros brindes entre seus leitores, passou a articular diariamente, com uma linguagem simples e direta, pautas em terrenos sens\u00edveis, como sa\u00fade e seguran\u00e7a p\u00fablica. Assim, para cada segmento da sociedade, a RBS passou a ter um ve\u00edculo jornal\u00edstico espec\u00edfico, com uma linguagem espec\u00edfica, que nos atacou dia e noite, noite e dia. Dito de outra maneira, um jornal para cada setor e uma r\u00e1dio para cada gosto. Durante o governo Ol\u00edvio Dutra, o grupo come\u00e7ou a definir a pauta da oposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 no primeiro dia com a explora\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio do aparecimento de uma bandeira de Cuba na sacada do Pal\u00e1cio Piratini, na festa da posse. Todos os movimentos da esquerda transformaram-se em temas de m\u00e1xima repercuss\u00e3o: a bandeira de Cuba, a queima do rel\u00f3gio da Globo (500 anos), os transg\u00eanicos, MST, a Ford, o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o na pol\u00edcia, apenas para listar alguns. A vida interna do PT e de seus governos foi e segue sendo permanentemente devassada.<br \/>\nO papel da RBS acaba sendo o de articular v\u00e1rios setores pol\u00edticos, institucionais e econ\u00f4micos, homogeneiz\u00e1-los na ofensiva e unificar as palavras de ordem.<br \/>\nDerrota eleitoral, vit\u00f3ria pol\u00edtica<br \/>\n\u00c9 levando em conta este cen\u00e1rio, que quero sustentar que o resultado do processo eleitoral deste ano no RS representou uma derrota eleitoral e uma vit\u00f3ria pol\u00edtica. Para entender porque \u00e9 leg\u00edtimo afirmar que obtivemos uma vit\u00f3ria pol\u00edtica \u00e9 preciso levar em conta o tamanho da dificuldade em que est\u00e1vamos metidos. N\u00e3o \u00e9 preciso nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o anal\u00edtica maior para compreender que, na mesma propor\u00e7\u00e3o em que conquistamos crescentes espa\u00e7os e consolidamos nossa posi\u00e7\u00e3o como um dos p\u00f3los da disputa pol\u00edtica no Estado, lutando at\u00e9 o \u00faltimo voto com o bloco conservador em todas as \u00faltimas quatro elei\u00e7\u00f5es, nossos advers\u00e1rios empreenderam uma rea\u00e7\u00e3o com a mesma intensidade (ou maior ainda) e em sentido contr\u00e1rio. O cerco implac\u00e1vel a que foi submetido o governo Ol\u00edvio foi um exemplo disso. O n\u00edvel brutal de estigmatiza\u00e7\u00e3o deste governo foi operado sistematicamente e em todas as \u00e1reas, desde o seu in\u00edcio.<br \/>\nO balan\u00e7o do governo Ol\u00edvio, com todas as pol\u00edticas positivas que avaliamos que fizemos, ficou impregnada por esse bombardeio sistem\u00e1tico e os erros foram potencializados. E n\u00f3s entramos nas elei\u00e7\u00f5es de 2006 com essa impregna\u00e7\u00e3o, esse estigma. Assim, nossas virtudes &#8211; pois algumas de nossas pol\u00edticas s\u00f3 foram exitosas porque ousaram enfrentar setores e pautas conservadoras &#8211; tamb\u00e9m eram os nossos limites. Al\u00e9m disso, entramos com uma outra conta, relativa a epis\u00f3dios do governo Lula. O impacto da Reforma da Previd\u00eancia, por exemplo, junto a setores importantes de nossa base social, foi devastador. N\u00e3o custa lembrar o peso da classe m\u00e9dia no RS, especialmente nas grandes cidades, e tamb\u00e9m o alto peso relativo e irradiador de opini\u00e3o do funcionalismo p\u00fablico. Uma parte dele est\u00e1 no miolo da classe m\u00e9dia. Nas nossas vit\u00f3rias, a capacidade de atrair esses setores foi decisiva.<br \/>\nO impacto da Reforma da Previd\u00eancia entortou nossa posi\u00e7\u00e3o junto ao funcionalismo p\u00fablico. Isto, somado aos tr\u00e1gicos eventos da crise pol\u00edtica de 2005, provocou um grande rombo em nossas posi\u00e7\u00f5es. Mais alto hav\u00edamos chegado em termos de reconhecimento junto \u00e0 sociedade ga\u00facha, conseguindo ampliar muito al\u00e9m de nossas fronteiras partid\u00e1rias e de nossos aliados mais tradicionais (como o PC do B e o PSB), maior foi o tombo que sofremos. \u00c9 importante lembrar \u00e0queles que nos criticavam por uma suposta incapacidade de ampliar nosso leque de alian\u00e7as que foi com esses setores sociais e com essas fronteiras partid\u00e1rias que conquistamos no RS (isto n\u00e3o quer dizer que a discuss\u00e3o de amplia\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja leg\u00edtima). E, este ano, quando muitos achavam que n\u00f3s t\u00ednhamos acabado, fizemos mais de 46% dos votos tendo o PC do B como aliado no primeiro turno, o PSB no segundo e o apoio de mais de duas centenas de prefeitos e vice-prefeitos de outros partidos, entre eles o PDT, o PMDB e, em menor escala, o PP e o PTB. N\u00e3o se pode esquecer o impacto do efeito dossi\u00ea e da n\u00e3o ida ao debate do Presidente Lula. Nesta sociedade ga\u00facha &#8220;t\u00e3o a flor da pele&#8221; cortou o nosso ritmo de ascens\u00e3o na boca do 1\u00ba turno.<br \/>\nA amplia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do 2\u00b0 turno<br \/>\nEssa amplia\u00e7\u00e3o junto \u00e0 base de outros partidos poder\u00e1 ter repercuss\u00f5es importantes. H\u00e1 uma crise no PMDB, dividido entre o grupo do deputado federal Eliseu Padilha, apoiador de primeira hora da candidatura Yeda Crusius, e o grupo do governador Germano Rigotto, que optou por uma posi\u00e7\u00e3o de neutralidade no segundo turno. H\u00e1 ainda o tema da possibilidade de uma reconstru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com o PDT, afinal de contas 55 prefeitos trabalhistas apoiaram Ol\u00edvio Dutra no segundo turno. E, em terceiro lugar, mas n\u00e3o menos importante, vimos a retomada de la\u00e7os importantes com os movimentos sociais do campo e da cidade. Ocorreram, portanto, alguns deslocamentos pol\u00edticos importantes no Estado, que ainda devem ser melhor avaliados. O que \u00e9 importante destacar \u00e9 que o fruto do segundo turno foi uma inteligente e bem-sucedida busca de amplia\u00e7\u00e3o. O encontro no Hotel Embaixador, onde Ol\u00edvio recebeu mais de 260 apoios, entre prefeitos e vice-prefeitos de outros partidos, \u00e9 o principal s\u00edmbolo disso.<br \/>\nE foi com esse leque de alian\u00e7as e apoios que enfrentamos o segundo turno. Perdemos, mas fizemos 46% dos votos. Os n\u00fameros das vota\u00e7\u00f5es de Ol\u00edvio e de Lula mostram, de modo objetivo, que o impacto dos problemas relativos ao PT Nacional e ao governo federal acabou sendo maior do que aquele relacionado com a pauta do governo Ol\u00edvio. O ex-governador Ol\u00edvio obteve 2.884.092 votos no RS (46,06% dos v\u00e1lidos), enquanto Lula atingiu 2.811.658 (44,65% dos v\u00e1lidos). Neste quadro, \u00e9 importante lembrar que v\u00ednhamos de duas derrotas importantes: a elei\u00e7\u00e3o estadual de 2002 e a elei\u00e7\u00e3o municipal de 2004, quando perdemos a prefeitura de Porto Alegre. Em 2004, fizemos 378.099 votos na capital. Em 2006, chegamos a 416.193, com uma vantagem um pouco acima dos 5 mil votos. Al\u00e9m da retomada da maioria em Porto Alegre, tivemos a volta das bandeiras vermelhas \u00e0s ruas, presen\u00e7a que havia sido atropelada pela crise pol\u00edtica de 2005.<br \/>\nMais que os n\u00fameros, a maioria de n\u00f3s acha que a sincronia Lula\/Ol\u00edvio X Alckmin\/Yeda alimentou reciprocamente a clareza e o significado tanto de Lula quanto de Ol\u00edvio. Ficou mais n\u00edtido, mais f\u00e1cil e impediu que a direita nos infligisse uma grande derrota.<br \/>\nConsiderando tudo o que foi dito acima, esse resultado est\u00e1 longe de ser desprez\u00edvel. Muita gente dizia que est\u00e1vamos mortos politicamente. N\u00e3o estamos. Some-se a isso o significado da vit\u00f3ria consagradora de Lula no pa\u00eds e a possibilidade que se abre para o aprofundamento das pol\u00edticas sociais que ajudaram a constituir nossa identidade at\u00e9 aqui, e temos uma posi\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel de onde podemos tentar reconstruir coisas que perdemos. A amplia\u00e7\u00e3o que obtivemos no segundo turno (que tem o governo Ol\u00edvio como uma das causas fundamentais, pelo tipo de rela\u00e7\u00e3o que estabeleceu com os munic\u00edpios, sem discriminar prefeitos de outros partidos), e a divis\u00e3o no campo daqueles que sempre estiveram unidos contra n\u00f3s talvez tenha aberto um flanco justamente quando menos esper\u00e1vamos, em um de nossos mais dif\u00edceis momentos. Por fim, \u00e9 preciso fazer uma observa\u00e7\u00e3o sobre a grandeza e a qualidade pol\u00edtica de Ol\u00edvio Dutra. N\u00e3o se trata de &#8220;confete&#8221;, mas sim de um reconhecimento pol\u00edtico sobre valores que sempre foram muito caros a n\u00f3s.<br \/>\nO valor que cultivamos em torno da import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coletiva n\u00e3o deve impedir que reconhe\u00e7amos a dimens\u00e3o de alguns dos nossos quando enfrentam dificuldades gigantescas e conseguem resultados acima dos c\u00e1lculos da obviedade pol\u00edtica. Esse \u00e9 o caso dos companheiros que compuseram nossa chapa majorit\u00e1ria &#8211; Ol\u00edvio Dutra, Jussara Cony e Miguel Rossetto -, com uma observa\u00e7\u00e3o especial em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro. Depois de uma dura sa\u00edda do Minist\u00e9rio das Cidades, assumiu a presid\u00eancia do partido no RS, em um momento cr\u00edtico de nossa hist\u00f3ria, e aceitou uma candidatura ao governo do Estado em condi\u00e7\u00f5es fortemente adversas. Por meio de seu exemplo e de sua conduta, Ol\u00edvio acabou sendo uma esp\u00e9cie de catalisador que uniu de forma singular e incompar\u00e1vel a hist\u00f3ria do Rio Grande e a hist\u00f3ria das lutas sociais desse Estado. A sua candidatura acabou unindo, tamb\u00e9m, a milit\u00e2ncia dos partidos que integram a Frente Popular em torno da certeza de que \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar, recuperar o terreno perdido e retomar a constru\u00e7\u00e3o do projeto que tornou o RS fonte de esperan\u00e7a e inspira\u00e7\u00e3o para a esquerda mundial.<br \/>\n*Deputado Estadual do PT<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As elei\u00e7\u00f5es no Rio Grande do Sul t\u00eam sua singularidade. 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