{"id":1096,"date":"2007-10-04T14:34:52","date_gmt":"2007-10-04T17:34:52","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1096"},"modified":"2007-10-04T14:34:52","modified_gmt":"2007-10-04T17:34:52","slug":"bienal-do-mercosul-essa-arte-e-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/bienal-do-mercosul-essa-arte-e-para-todos\/","title":{"rendered":"Bienal do Mercosul, essa arte \u00e9 para todos?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Christian Lavich Goldschmidt, escritor e ator<\/strong><br \/>\nH\u00e1 muito tempo venho trocando id\u00e9ias com os amigos sobre a arte e suas fun\u00e7\u00f5es. Antes de mais nada, um grupo de apreciadores, e n\u00e3o de conhecedores. As discuss\u00f5es aumentaram no in\u00edcio de julho, quando estabeleci um di\u00e1logo com Justo Werlang, presidente da atual Bienal do Mercosul \u2013 este sim um ex\u00edmio conhecedor. Na \u00e9poca, questionei a proposta e a arte exposta na megamostra argumentando que a grande maioria est\u00e1 acostumada desde cedo a apreciar imagens, sons e cores que reproduzem de forma transparente a cultura e a realidade, tanto suas como estranhas.<br \/>\nNesse sentido, ficou claro que os jovens pertencentes ao meu grupo entendem que a arte tem como objetivo retratar sentimentos, emo\u00e7\u00f5es, \u00e9pocas, os povos e seus costumes, ou at\u00e9 mesmo as guerras, como o fez o arquiteto e artista pl\u00e1stico Jos\u00e9 Lutzenberger nas aquarelas da cole\u00e7\u00e3o Farrapos, de 1935, ou ainda nas da cole\u00e7\u00e3o da Primeira Grande Guerra da Fran\u00e7a, em 1914, da qual participou como Oficial da Reserva da Infantaria.<br \/>\nA arte de Lutzenberger, assim como a de Renoir, Klint, Matisse e Van Gogh, cada uma a seu estilo, s\u00e3o de f\u00e1cil compreens\u00e3o \u2013 quando falo em uma arte f\u00e1cil de ser compreendida, talvez o diga por estarmos em uma \u00e9poca bem \u00e0 frente de seus contempor\u00e2neos. E talvez tamb\u00e9m estes n\u00e3o a compreendiam em sua plenitude na \u00e9poca em que viviam. O que quero dizer, no entanto, \u00e9 que al\u00e9m da f\u00e1cil leitura de suas obras, as hist\u00f3rias s\u00e3o retratadas de forma colorida, um atrativo indispens\u00e1vel para n\u00f3s, apreciadores, n\u00e3o conhecedores ou cr\u00edticos.<br \/>\nSabemos, todavia, que na arte nem tudo s\u00e3o cores, e nem por isso questionamos seu valor, sua magnitude e representatividade no contexto art\u00edstico. O maior exemplo foi a exposi\u00e7\u00e3o de Goya, que tamb\u00e9m em julho passado esteve em Porto Alegre. As imagens sombrias e obsessivas de Goya, assim como as de Francis Bacon (as de Bacon s\u00e3o coloridas), n\u00e3o s\u00e3o em nada prazerosas; e para n\u00f3s, apreciadores, a grande arte \u00e9 aquela que d\u00e1 uma profunda satisfa\u00e7\u00e3o visual. Frida Kahlo, por exemplo, com suas cores, soube expor suas ang\u00fastias, sofrimentos e tristezas sem repass\u00e1-las ao espectador.<br \/>\nO que vemos nas edi\u00e7\u00f5es da Bienal do Mercosul \u00e9 diferente de tudo o que temos acima. Os artistas utilizam-se das mais diversas mat\u00e9rias e formas para transmitir algo poucas vezes compreens\u00edvel para &#8220;cidad\u00e3os comuns&#8221;. Ent\u00e3o, estariam os artistas, influenciados pelo caos da sociedade contempor\u00e2nea, simples e unicamente retratando as dores da humanidade e deixando de lado o colorido da vida?<br \/>\nSegundo Justo Werlang, o artista est\u00e1 inserido no seu tempo, materializando as ang\u00fastias e certezas com que convive; ele sabe do volume e gravidade dos desafios que dever\u00edamos enfrentar imediatamente: quest\u00f5es como viol\u00eancia, mis\u00e9ria, sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, etc. &#8220;Quando dizes da mostra de gravuras de Goya e percebes as ang\u00fastias por que passou em sua vida, tens a oportunidade de perceber essas mesmas ang\u00fastias, essa mesma faixa de vibra\u00e7\u00e3o, em diversos dos trabalhos que comp\u00f5em a 6\u00aa Bienal do Mercosul&#8221;.<br \/>\nEm meio a tantas d\u00favidas e indaga\u00e7\u00f5es, a pergunta latente \u00e9: Sem conhecer a hist\u00f3ria da arte, seus personagens e obras, sua evolu\u00e7\u00e3o, como \u00e9 poss\u00edvel para n\u00f3s, leigos, entendermos e apreciarmos a arte contempor\u00e2nea, a arte exposta na Bienal? \u00c9 uma arte para todos ou somente para os eruditos? Como conhecedor e colecionador de artes, Werlang diz que as linguagens, os vocabul\u00e1rios presentes nas propostas art\u00edsticas contempor\u00e2neas s\u00e3o muito novas.<br \/>\nAssim, \u00e9 dif\u00edcil penetrar em seus conte\u00fados. Mas uma das propostas pedag\u00f3gicas desta Bienal \u00e9 apresentar os trabalhos como uma solu\u00e7\u00e3o visual a que chegou o artista, a partir do problema com que se defrontou. A obra de arte como resultado de uma reflex\u00e3o, como solu\u00e7\u00e3o de um problema. Como os problemas com que nos defrontamos s\u00e3o mais ou menos iguais em todo o planeta, eventualmente essa seria uma forma de permitir ao p\u00fablico em geral penetrar nos conte\u00fados po\u00e9ticos das obras expostas. Quanto mais nos julgarmos sabidos, prontos, menores condi\u00e7\u00f5es teremos de apreciar o que surge de novo.<br \/>\nA maior dificuldade, no entanto, n\u00e3o reside no desconhecimento generalizado de hist\u00f3ria da arte, mas em pensarmos que j\u00e1 conhecemos o suficiente. Justo Werlang lembra ainda que nada justifica ignorarmos qualquer nova proposta, e acrescenta que uma das maiores dificuldades para penetrar num mundo novo se encontra justamente na falta de disposi\u00e7\u00e3o para aprender. Na medida em que a Bienal apresenta as propostas art\u00edsticas como conclus\u00f5es a que chegou o artista depois da reflex\u00e3o sobre quest\u00f5es com que se defronta, isso nos permitir\u00e1 semelhantes reflex\u00f5es. Afinal, pensar sobre a vida \u00e9 cada vez mais urgente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christian Lavich Goldschmidt, escritor e ator H\u00e1 muito tempo venho trocando id\u00e9ias com os amigos sobre a arte e suas fun\u00e7\u00f5es. 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