{"id":1099,"date":"2007-10-25T14:37:06","date_gmt":"2007-10-25T17:37:06","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1099"},"modified":"2007-10-25T14:37:06","modified_gmt":"2007-10-25T17:37:06","slug":"1917-um-ano-vermelho-tambem-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/1917-um-ano-vermelho-tambem-no-brasil\/","title":{"rendered":"1917 \u2013 Um Ano Vermelho Tamb\u00e9m no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>M\u00e1rio Maestri, historiador e professor da UPF.<\/strong><br \/>\nA Primeira Guerra mundial ensejou expans\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e da produ\u00e7\u00e3o industrial no Brasil. A conjuntura internacional favor\u00e1vel aos grandes propriet\u00e1rios foi acompanhada por grave deteriora\u00e7\u00e3o das j\u00e1 duras condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia das classes populares, agoniadas pela carestia dos alimentos, dirigidos \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, ou dos manufaturados, escassos devido \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria europ\u00e9ia e estadunidense e produzidos no pa\u00eds a pre\u00e7o elevados.<br \/>\nEm 1917, ocorreram atrav\u00e9s do Brasil e do Rio Grande do Sul importantes greves dos trabalhadores urbanos. Em 31 de julho, em Santa Maria, com apoio da combativa Federa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria do Rio Grande do Sul [FORGS], eclodiu paralisa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da Via\u00e7\u00e3o F\u00e9rrea do Rio Grande do Sul por aumento de sal\u00e1rios, semana inglesa e jornada de oito horas. Ao envolver todos os munic\u00edpios servidos pela rede, o movimento tornou-se a primeira greve estadual sulina.<br \/>\nEm 1\u00b0 de agosto, ap\u00f3s reuni\u00e3o patrocinada pela FORGS, milhares de oper\u00e1rios da capital [alfaiates, carpinteiros, chapeleiros, comerci\u00e1rios, eletricit\u00e1rios, estivadores, motorneiros, tecel\u00f5es, tip\u00f3grafos, etc.] entraram em greve, sobretudo por melhores sal\u00e1rios e pelas oito horas de trabalho. Ajudados pela paralisa\u00e7\u00e3o dos ferrovi\u00e1rios, o movimento parou a capital rio-grandense, ent\u00e3o com uns 150 mil habitantes.<br \/>\nA assembl\u00e9ia de 1\u00ba de agosto da FORGS formou Liga de Defesa Popular que lan\u00e7ou manifesto reivindicando diminui\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o dos alimentos; mercados livres populares; matadouro p\u00fablico; tabelamento do p\u00e3o; aumento de sal\u00e1rio; oito horas de trabalho para homens e seis, para crian\u00e7as e mulheres, etc. Por primeira vez, o movimento oper\u00e1rio capitaneava programa reivindicativo do conjunto das classes subalternizadas e intermedi\u00e1rias sulinas.<br \/>\nEm 2 de agosto, delega\u00e7\u00e3o da Liga de Defesa Popular foi recebida por Borges de Medeiros e autoridades, que se comprometeram a elevar o sal\u00e1rio dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos e restringir a exporta\u00e7\u00e3o dos alimentos. Os empres\u00e1rios porto-alegrenses aceitaram as reivindica\u00e7\u00f5es e o intendente da capital determinou medidas em defesa da economia popular. O medo da generaliza\u00e7\u00e3o do movimento aos demais setores das classes subalternizadas teria contribu\u00eddo ao fim vitorioso do movimento, em 5 de agosto.<br \/>\n Tamb\u00e9m em agosto eclodiram movimentos paredistas em Pelotas e, possivelmente, em Montenegro (A.J.Renner), em Caxias (Amadeu Rossi) e em Jaguar\u00e3o (estivadores). Em Pelotas, tamb\u00e9m capitaneado por Liga de Defesa Popular, o movimento grevista estendeu-se a diversas categorias e motivou importantes choques com as for\u00e7as repressivas, concluindo-se sem resultados tang\u00edveis.<br \/>\nOs ferrovi\u00e1rios criticavam o arrendamento das estradas de ferro sulinas \u00e0 Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Br\u00e9sil, parte do sindicato estadunidense Brazil Railway. Os servi\u00e7os deficientes da companhia eram tamb\u00e9m criticados por comerciantes, industrialistas, criadores e agricultores que tinham os neg\u00f3cios dificultados pela baixa qualidade e algo pre\u00e7os do transporte ferrovi\u00e1rio.<br \/>\n Em 16 de outubro de 1917, em Santa Maria, os ferrovi\u00e1rios entraram novamente em greve, paralisando o tr\u00e1fego no Estado: o acordo de agosto fora descumprido e os sal\u00e1rios n\u00e3o eram pagos havia dois meses! Declara\u00e7\u00e3o dos grevistas propunha que a parede n\u00e3o era contra o \u201cquerido\u201d RS, mas para \u201clibert\u00e1-lo da garra do estrangeiro que n\u00e3o respeita um povo, seu com\u00e9rcio, sua ind\u00fastria, suas leis e nem seu governo!\u201d<br \/>\nA paralisa\u00e7\u00e3o foi duro, com depreda\u00e7\u00e3o de oficinas e instala\u00e7\u00f5es e destrui\u00e7\u00e3o, com dinamite e fogo, de pontes, pontilh\u00f5es e bueiros. Em Santa Maria, for\u00e7as militares federais dispararam e mataram oper\u00e1rios que manifestavam. Sob o patroc\u00ednio de Borges de Medeiros e do governo do Estado, comiss\u00e3o foi formada para estudar solu\u00e7\u00f5es para a greve.<br \/>\nEm 4 de novembro, publicou-se acordo que garantia, entre outras conquistas, aumento de sal\u00e1rios, assist\u00eancia m\u00e9dia, sal\u00e1rio enfermidade integral, 8 \u00bd horas de trabalho; cinq\u00fcenta por cento de acr\u00e9scimo das horas extraordin\u00e1rias. A crise na VFRGS s\u00f3 seria superada com sua encampa\u00e7\u00e3o, a seguir, pelo governo do Estado, que transformaria o servi\u00e7o em padr\u00e3o de qualidade em todo o Brasil. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Maestri, historiador e professor da UPF. A Primeira Guerra mundial ensejou expans\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e da produ\u00e7\u00e3o industrial no Brasil. 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