{"id":11069,"date":"2011-12-28T15:06:57","date_gmt":"2011-12-28T18:06:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=11069"},"modified":"2011-12-28T15:06:57","modified_gmt":"2011-12-28T18:06:57","slug":"jardins-sem-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/jardins-sem-alma\/","title":{"rendered":"Jardins sem alma"},"content":{"rendered":"<p>Quem mora em cidades facilmente repara que as empresas contempor\u00e2neas que oferecem &#8220;servi\u00e7os de jardinagem&#8221; se parecem cada vez mais com uma brigada paramilitar. S\u00e3o pessoas, em geral, com pouca habilidade em jardinagem propriamente dita, prontas para intervir em jardins, com todo o tipo de coisa que a tecnologia que favorece o menor esfor\u00e7o deu conta de criar, e que, ao que tudo indica, continuar\u00e1 criando<br \/>\nPara um ano t\u00e3o pesado de lutas desiguais e truculentas em busca da prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio natural brasileiro, a abordagem de um tema fora do contexto rural pode ajudar a recarregar as baterias para um 2012 que tamb\u00e9m reserva muitas press\u00f5es. O que ocorre no entorno de nossas casas incrustadas no meio urbano tamb\u00e9m tem sua relev\u00e2ncia e muitos desafios.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-13435 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/jardins-e1401922936441.jpg\" alt=\"jardins\" width=\"400\" height=\"373\" \/>Quem mora em cidades facilmente repara que as empresas contempor\u00e2neas que oferecem &#8220;servi\u00e7os de jardinagem&#8221; se parecem cada vez mais com uma brigada paramilitar. S\u00e3o pessoas, em geral, com pouca habilidade em jardinagem propriamente dita, prontas para intervir em jardins, com todo o tipo de coisa que a tecnologia que favorece o menor esfor\u00e7o deu conta de criar, e que, ao que tudo indica, continuar\u00e1 criando.<br \/>\nAparelhos, na maioria das vezes, movidos a gasolina, que cortam grama, serram troncos de \u00e1rvores, podam cercas vivas e at\u00e9 fazem vento, contaminando o ambiente com um barulho t\u00edpico da modernidade. Haja paci\u00eancia para suportar tanta perturba\u00e7\u00e3o p\u00fablica calcada na pressa e na superficialidade de um trabalho que est\u00e1 deixando cada vez mais a desejar.<br \/>\nPior do que a parafern\u00e1lia que torna este tipo de servi\u00e7o uma atividade considerada especializada \u00e9 que ficam totalmente para tr\u00e1s os preceitos mais simples de uma jardinagem equilibrada e que tenha por ess\u00eancia &#8220;cuidar&#8221; do jardim e n\u00e3o realizar uma a\u00e7\u00e3o que mais parece uma &#8220;lavagem r\u00e1pida&#8221; com vistas a tirar a &#8220;sujeira grossa&#8221;.<br \/>\nSer um bom jardineiro n\u00e3o requer s\u00f3 conhecimento pr\u00e1tico, mas te\u00f3rico e t\u00e9cnico, embora quem os contrate se considere o dono da verdade, impondo orienta\u00e7\u00f5es estapaf\u00fardias que consolidam o mau manejo dessas \u00e1reas.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Sem respostas&#8230;<\/span><br \/>\nSaber quais s\u00e3o esp\u00e9cies invasoras que devem ser evitadas, quais as nativas regionais dispon\u00edveis para uma introdu\u00e7\u00e3o e como estabelecer um conjunto diverso de plantas para atrair mais esp\u00e9cies da fauna nativa s\u00e3o parte de uma ampla gama de perguntas que estes profissionais deveriam saber responder de pronto.<br \/>\nO maquin\u00e1rio de sup\u00e9rfluos avan\u00e7ou no j\u00e1 pouco elaborado servi\u00e7o de jardins que \u00e9 ofertado no mercado e corrobora com o varrer at\u00e9 a terra aflorar, atear fogo ou retirar toda a mat\u00e9ria verde, considerada lixo, para fora do terreno e obrigar o servi\u00e7o p\u00fablico a transport\u00e1-la para &#8220;fora da cidade&#8221;.<br \/>\nSequer considerando a exist\u00eancia de mudas nativas que possam ter nascido a partir de algum processo de dispers\u00e3o natural de sementes, usam-se pesticidas para &#8220;matar o mato&#8221; e as formigas, em conjunto com o que mais estiver por perto.<br \/>\nUm jardim pode ser uma obra de arte que \u00e9 constru\u00edda pouco a pouco ao longo dos anos. Essas \u00e1reas s\u00e3o, em geral, muito simplificadas se comparadas com uma \u00e1rea natural bem protegida e fora do per\u00edmetro das cidades, mas n\u00e3o por isso s\u00e3o isentas de surpresas e de possibilidades. E, no caso de Curitiba, pode gerar ainda redu\u00e7\u00e3o do IPTU e, com a cria\u00e7\u00e3o de Reservas Naturais, possibilitar a venda do potencial construtivo das \u00e1reas a terceiros.<br \/>\nFaz tempo que j\u00e1 conclu\u00ed que jardineiro sem qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e armado de parafern\u00e1lia e propriet\u00e1rio do s\u00e9culo passado, que acha que folha \u00e9 lixo, se merecem na sua totalidade. E deveria um pagar a conta do outro, na condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o conseguirem ver o que realmente pode ser feito da natureza potencial de um jardim.<br \/>\nN\u00e3o fosse o preju\u00edzo que esses cidad\u00e3os t\u00e3o numerosos causam para toda a sociedade, ao ignorarem que suas vis\u00f5es s\u00e3o retr\u00f3gradas e profundamente limitadas, que empobrecem um bem comum que poder\u00edamos dispor em uma cidade mais civilizada, deveriam ser ignorados e abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<br \/>\nMesmo com a relut\u00e2ncia categ\u00f3rica da maioria em acatar uma l\u00f3gica menos rudimentar do que o que se faz atualmente na maioria das propriedades, p\u00fablicas e privadas, de nossas cidades, deveria existir um confronto das m\u00e1s pr\u00e1ticas com novas leis, que punam os que degradam, mesmo sem saber o que fazem.<br \/>\nEsse \u00e9 o corretivo mais educativo ainda dispon\u00edvel no mercado, queiramos ou n\u00e3o. E limitem excessos que geram polui\u00e7\u00e3o sonora e emiss\u00f5es desnecess\u00e1rias de gases de efeito estufa, que s\u00f3 trazem como resultado a perpetua\u00e7\u00e3o de uma condi\u00e7\u00e3o duramente limitada pela certeza desses atores de que n\u00e3o existe outra forma de agir.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">*Texto em homenagem a Ademar Brasileiro, o \u00fanico jardineiro de verdade que conhe\u00e7o.<\/span><br \/>\n<span class=\"assina\">Cl\u00f3vis Borges \u00e9 diretor-executivo da ONG Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educa\u00e7\u00e3o Ambiental (SPVS). <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem mora em cidades facilmente repara que as empresas contempor\u00e2neas que oferecem &#8220;servi\u00e7os de jardinagem&#8221; se parecem cada vez mais com uma brigada paramilitar. 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