{"id":38295,"date":"2016-08-30T01:17:00","date_gmt":"2016-08-30T04:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=38295"},"modified":"2016-08-30T01:17:00","modified_gmt":"2016-08-30T04:17:00","slug":"na-lanterna-dos-afogados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/na-lanterna-dos-afogados\/","title":{"rendered":"Na lanterna dos afogados"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<div>Seja qual for o desfecho do processo de impedimento da presidenta Dilma no Senado \u2013 estamos em agosto, m\u00eas de cachorro louco &#8211;, faz sentido realizar um balan\u00e7o em torno das realiza\u00e7\u00f5es do petismo. Afinal, em praticamente a metade dos \u00faltimos 28 anos \u2013 per\u00edodo entre a entrada em vigor da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e o afastamento da presidenta Dilma \u2013, o governo federal esteve nas m\u00e3os do PT com Lula (oito anos) e Dilma (cinco anos e cinco meses).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nos outros 14 anos a Presid\u00eancia foi ocupada por oito anos pelo PSDB (com\u00a0FH\u00a0Cardoso); por dois anos pelo corisco carioca-alagoano Fernando Collor (PRN, atual PTC); no tempo restante, o comando ficou nas m\u00e3os de tr\u00eas vices do PMDB (Jos\u00e9 Sarney, dois meses, contado apenas o tempo decorrido ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o); Itamar Franco, dois anos; e Michel Temer, tr\u00eas meses).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Todos sabem do legado petista: manteve o principal da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo FHC (era o que interessava aos ricos, que vivem do principal e dos juros), mas iniciou uma s\u00e9rie de programas voltados para os pobres, que sempre viveram mais de promessas do que de benesses.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Para fazer essa \u201crevolu\u00e7\u00e3o social\u201d, o partido de Lula contou com o apoio do ex-partido de oposi\u00e7\u00e3o consentida \u00e0 ditadura militar (MDB, hoje PMDB), que atuou como o fiel da balan\u00e7a entre as aspira\u00e7\u00f5es da esquerda e os temores da direita. E tamb\u00e9m obteve a ades\u00e3o de outros partidos viciados no toma l\u00e1-d\u00e1 c\u00e1, pagando sabe-se l\u00e1 que pre\u00e7os. Deu no que deu, mas muita gente ainda n\u00e3o entendeu o esp\u00edrito da coisa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Todos se lembram da \u201cmarolinha\u201d, palavra usada por Lula para qualificar a crise financeira global iniciada em 2008. \u00a0O Brasil surfava ent\u00e3o nas ondas das commodities supervalorizadas, do pleno emprego, da infla\u00e7\u00e3o baixa e dos juros relativamente reduzidos do endividamento p\u00fablico.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A equa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica brasileira ia t\u00e3o bem que Lula viabilizou como sucessora na presid\u00eancia a economista Dilma\u00a0Rousseff, uma t\u00e9cnica que nunca havia disputado uma elei\u00e7\u00e3o. E tudo foi relativamente bem at\u00e9 come\u00e7ar a desandar em protestos de rua no primeiro semestre de 2013.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Camisas amarelas nas ruas e bate\u00e7\u00e3o de panelas nas varandas, mais as manchetes sobre as propinas nos contratos da Petrobras, infernizaram o segundo mandato de Dilma, iniciado com a substitui\u00e7\u00e3o do longevo ministro da Fazenda petista Guido\u00a0Mantega, desenvolvimentista pragm\u00e1tico, pelo economista Joaquim Levy, monetarista ortodoxo \u201cindicado\u201d pelo Bradesco. Em um ano de trabalho, Levy n\u00e3o conseguiu fazer a li\u00e7\u00e3o de casa, que seria \u201cenxugar\u201d, fazer o ajuste fiscal, promessa do atual ministro Henrique Meirelles, que presidiu o Banco Central do Brasil nos governos Lula.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em meia d\u00fazia de anos, a \u201cmarolinha\u201d de Lula virou um tsunami que elevou a infla\u00e7\u00e3o, turbinou os juros e fez subir as taxas de desemprego. Enquanto o pa\u00eds entrava em recess\u00e3o, a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato punha gasolina na fogueira, diariamente, mediante \u201cvazamentos\u201d \u00e0 m\u00eddia, sob o olhar tolerante do Supremo Tribunal Federal, cujos ministros se esfor\u00e7am \u00a0para parecer neutros, como Pilatos na antiguidade romana.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Diante do esgotamento pol\u00edtico e econ\u00f4mico do governo Dilma, quem apareceu no comando do processo de impedimento presidencial? O carioca Eduardo Cunha (PMDB), presidente da C\u00e2mara, que abriu caminho para a posse do vice Michel Temer (PMDB), que se fez assessorar por Eliseu Padilha (PMDB), Jos\u00e9 Serra (PSDB) e Moreira Franco (PMDB), contando ainda com a ajuda luxuosa de Renan Calheiros (PMDB), presidente do Senado. Ajudaram na missa A\u00e9cio Neves (PSDB) e\u00a0Aloysio\u00a0Nunes Ferreira (PMDB), componentes da chapa presidencial derrotada em 2014.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Nesse jogo sedicioso, para o qual muito contribuiu o comportamento amb\u00edguo da presidenta Dilma, que se fez cercar por uma heterog\u00eanea equipe de assessores e ministros \u201ccada um por si\u201d \u2013 de\u00a0Aloisio\u00a0Mercadante a Katia Abreu e Jacques Wagner &#8211;, a c\u00fapula do PMDB, toda ela ardentemente fisiol\u00f3gica, foi apoiada pelos principais partidos de oposi\u00e7\u00e3o ao PT, especialmente o PSDB e o DEM, que manobram para conquistar posi\u00e7\u00f5es visando futuras elei\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Sem d\u00favida, a jogada parlamentar em prol do impedimento da presidenta sujou a barra da maioria dos pol\u00edticos, cujo conceito oscila entre \u201cchantagistas\u201d, \u201csabotadores\u201d e \u201cvenais\u201d, mas h\u00e1 um saldo positivo desses \u00faltimos dois anos: n\u00e3o d\u00e1 mais para esconder que todos os partidos est\u00e3o contaminados por distor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do sistema pol\u00edtico brasileiro, cujos elos se conectam direta ou indiretamente com as principais empresas brasileiras. \u00c9 a\u00ed que mora o perigo. Perigo global. H\u00e1 mouros na costa \u00e0 espreita do petr\u00f3leo do fundo do mar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As principais empresas envolvidas s\u00e3o as grandes empreiteiras de obras p\u00fablicas, que \u201cajudaram\u201d parlamentares a tocar em frente suas campanhas eleitorais. Por conta de den\u00fancias de r\u00e9us confessos da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, foi afastado da presid\u00eancia da C\u00e2mara o deputado Eduardo Cunha, capit\u00e3o do processo de impeachment da presidenta Dilma. V\u00e1rias den\u00fancias o incriminam, mas ele n\u00e3o \u00e9 processado, como se contasse com um \u201csursis\u201d. Sup\u00f5e-se que tenha informa\u00e7\u00f5es importantes sobre dinheiro de campanha e outras contraven\u00e7\u00f5es. O potencial destrutivo de Cunha paralisa n\u00e3o apenas o partido, mas inibe o governo interino e constrange at\u00e9 o Poder Judici\u00e1rio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por a\u00ed fica bastante claro que o PMDB, como as outras agremia\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias eleitoralmente mais fortes, n\u00e3o tem coes\u00e3o sequer como detentor do poder. O presidente interino Michel Temer, por exemplo, oscila sob press\u00f5es variadas de interesses diversos. O veneno que paralisou o PT intoxica o PMDB e os outros partidos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Aqui e ali ouvem-se vozes dissonantes. A mais aud\u00edvel \u00e9 a que Roberto Requi\u00e3o, ex-governador do Paran\u00e1. Temos assim um jogo. Comparado a um carteado, vemos os parceiros jogando \u00e0 mesa cartas menores enquanto v\u00e3o ao monte em busca de um \u00e1s, uma figura ou um coringa. Se a compara\u00e7\u00e3o for com uma partida de futebol, o que se v\u00ea \u00e9 uma quantidade enorme de passes laterais e o jogo embolado no meio de campo, como faz a maioria dos times brasileiros.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 consenso mais ou menos geral que o alvo principal da \u201ccampanha\u201d\u00a0antiPT\u00a0\u00e9 o ex-presidente Lula, que teria se tornado inconveniente para os grandes\u00a0\u201cplayers\u201d\u00a0do mundo globalizado por sua ideia fixa em \u201cajudar os pobres\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tenha ou n\u00e3o condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de concorrer em 2018, Lula provavelmente n\u00e3o deixar\u00e1 um sucessor. Teria sido Z\u00e9 Dirceu, n\u00e3o fosse o Mensal\u00e3o. Poderia ter sido Tarso Genro, mas o chefe do PT apostou em Dilma, que dificilmente voltar\u00e1 \u00e0 tona. O prefeito paulistano Haddad\u00a0virou alvo tamb\u00e9m.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Com tudo isso, Lula se assemelha a Brizola, que n\u00e3o conseguiu fazer do PDT um partido de massas. E agora quem vai herdar o esp\u00f3lio do PT? Quem comandar\u00e1 a sigla, se ela sobreviver?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O melhor elenco de petistas est\u00e1 no Rio Grande do Sul.\u00a0Olivio\u00a0Dutra \u00e9 uma reserva moral. Tarso Genro, um intelectual formulador. Raul\u00a0Pont, um professor com cacife para eleger-se novamente prefeito de Porto Alegre, onde \u00e9 candidato. Em nenhum estado brasileiro o PT encontra quadros desse quilate.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Talvez caiba aos ga\u00fachos o papel de reabilitadores e reconstrutores do PT. Mas somente as urnas dir\u00e3o se o partido ainda tem um bom quinh\u00e3o da confian\u00e7a popular.\u00a0 Antes do fen\u00f4meno Lula, que explodiu em 2002, o PT nunca havia passado de 14% do eleitorado. Para chegar l\u00e1, precisou fazer acordos, alian\u00e7as e parcerias com outros partidos. Para ficar no jogo, teve de fazer concess\u00f5es. Deu no que deu.<\/div>\n<div><em>(publicado originalmente no <a href=\"http:\/\/www.seculodiario.com\/\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"http:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.seculodiario.com&amp;source=gmail&amp;ust=1472569706571000&amp;usg=AFQjCNHSJAEBZrsfWBIeYIPHq8LH_E_rDQ\" rel=\"noopener noreferrer\">www.seculodiario.com<\/a>)<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><em>LEMBRETE DE OCASI\u00c3O<\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><em>\u201cSe correr o bicho pega, se ficar o bicho come\u201d<\/em><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong><em>Ditado popular brasileiro<\/em><\/strong><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Seja qual for o desfecho do processo de impedimento da presidenta Dilma no Senado \u2013 estamos em agosto, m\u00eas de cachorro louco &#8211;, faz sentido realizar um balan\u00e7o em torno das realiza\u00e7\u00f5es do petismo. 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